{"id":952,"date":"2009-12-13T23:37:38","date_gmt":"2009-12-14T01:37:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=952"},"modified":"2009-12-13T23:37:38","modified_gmt":"2009-12-14T01:37:38","slug":"a-trapaca-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-trapaca-do-tempo","title":{"rendered":"A TRAPA\u00c7A DO TEMPO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>\u00c9 uma trapa\u00e7a do tempo: tudo cicatriza e nos distancia. O que era fogo vira lembran\u00e7a. H\u00e1 uma superf\u00edcie lisa na mem\u00f3ria, como lago morto. Queremos que seja domingo e um barco deslize sob a sombra aprovadora das \u00e1rvores da margem. Mas \u00e9 gelo e uma dan\u00e7a coletiva e tonta nos invade.<\/p>\n<p>Mergulho novamente naquela viagem, quando cruzei o pampa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital, e de l\u00e1 pela primeira vez ao mar. Era trem e havia fuligem, um ar grosso de abandono em bancos duros, uma travessia intermin\u00e1vel e, muitas vezes, amarga. Minha esperan\u00e7a de conhecer o mundo se esvaiu quando nada vi de excepcional na grande cidade que acenava do fim da linha. Preferia voltar, mas era tarde. Eu tinha sido convocado para encarar meu destino de criatura mortal.<\/p>\n<p>Fomos ent\u00e3o para o litoral, na enorme e \u00fanica praia que mostra a cara do mar sem nenhum v\u00e9u, nem m\u00e1scara, nem recortes de ba\u00edas ou mansid\u00e3o de morros. \u00c9ramos jogados de frente \u00e0 f\u00faria l\u00edquida que surgia por tr\u00e1s de imensas dunas. L\u00e1 vi a cara do terror de uma paisagem que era pura trai\u00e7\u00e3o. Enfrentei o enigma dando soco nas ondas e permaneci assombrado no mais longo ver\u00e3o da minha vida.<\/p>\n<p>Acostumado ao rio, que era poss\u00edvel tragar, por uns dias insisti em engolir o sal que explodia em espumas a meus p\u00e9s. Fui puxado para covas rasas inventadas pela mar\u00e9. Dormi em catres de lona, longe do conforto da minha casa de esquina. Queria de novo ser rodeado pela paisagem como rega\u00e7o, n\u00e3o como revolta. Ver de novo o pampa, ondulado e r\u00edgido como est\u00e1tua, onde perdizes batem asas de matraca e um tiro certeiro ecoa atrav\u00e9s das janelas de vidro.<\/p>\n<p>Sonhava em reviver nossas ca\u00e7adas, quando fic\u00e1vamos na carreteira, \u00e0 espreita. Armados com pesados cartuchos, explod\u00edamos o ar com o aprendizado de tiros que costumavam bater na coxilha, ou no aramado, ou at\u00e9 mesmo na estrada, l\u00e1 adiante. \u00c0s vezes um de n\u00f3s acertava e era uma festa na ca\u00e7a dominada pelos adultos.<\/p>\n<p>Queria sair de perto do mar, que amea\u00e7ava. Ver de novo a pra\u00e7a espl\u00eandida em noites cheias de gente, o quiosque regado a refrigerante gelado, o footing das meninas que moravam em nossos sonhos. Queria de volta as tardes de domingo, quando via desatar-se do est\u00e1dio municipal a multid\u00e3o engravatada, que via o jogo como se assistia a uma \u00f3pera, com seus chap\u00e9us de feltro, sua compenetra\u00e7\u00e3o de povo \u00e0s v\u00e9speras do primeiro campeonato mundial.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sab\u00edamos que pa\u00eds nos habitava e s\u00f3 agora sabemos, quando todas as feridas cicatrizaram, e n\u00e3o podemos mais dizer o quanto perdemos, e n\u00e3o foi apenas a inf\u00e2ncia. Perdemos o orgulho que nunca foi vaidade, a grandeza longe das patriotadas, a gana de quem pertencia a algo maior, que extrapolava bandeiras e tremulava no c\u00e9u como um aviso. \u00c9ramos o povo da na\u00e7\u00e3o soberana antes do ex\u00edlio a que nos condenaram.<\/p>\n<p>Foi quando voltei enfim para minha cidade e fui recebido em sil\u00eancio pela escrivaninha onde depositava meus cadernos, canetas, r\u00e9guas. O cheiro de livro novo prometia mar\u00e7o, quando voltar\u00edamos \u00e0s aulas. Havia possibilidade de vento, que se desataria na pr\u00f3xima invas\u00e3o festiva do col\u00e9gio, por enquanto silencioso, quebrado apenas pelo \u00e2ngelus de batinas arrastadas em pisos devotos.<\/p>\n<p>Mor\u00e1vamos em frente ao lugar onde me formei para a vida, que tardava. A biblioteca, o campo de futebol, os uniformes, as bicicletas amontoadas, tudo fazia parte do acervo que eu abandonara quando me levaram para ver o mar. Eu deveria estar contente na minha volta da temporada, mas algo faltava. Existia agora um buraco na alma do menino da fronteira fechada. Foi quando me debrucei para escrever o primeiro poema. Estava fisgado para sempre.<\/p>\n<p>Continuava \u00e0 cata daquele primeiro v\u00f4o que me revelara o sopro das mudan\u00e7as. Aguardava a insurrei\u00e7\u00e3o do pampa, que se transformaria nas \u00e1guas em f\u00faria que experimentei no primeiro dia da praia. A paisagem, entretanto, continuava ao meu lado como um c\u00e3o absorto. O tempo aprontara sua armadilha. Nela me enredei, sem possibilidade de tr\u00e9gua.<\/p>\n<p>Quieto, cora\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 provaste a eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuava \u00e0 cata daquele primeiro v\u00f4o que me revelara o sopro das mudan\u00e7as. Aguardava a insurrei\u00e7\u00e3o do pampa, que se transformaria nas \u00e1guas em f\u00faria que experimentei no primeiro dia da praia. A paisagem, entretanto, continuava ao meu lado como um c\u00e3o absorto. O tempo aprontara sua armadilha. 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