{"id":954,"date":"2009-12-13T23:38:28","date_gmt":"2009-12-14T01:38:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=954"},"modified":"2009-12-21T22:03:22","modified_gmt":"2009-12-22T00:03:22","slug":"palavras-pelo-avesso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/palavras-pelo-avesso","title":{"rendered":"PALAVRAS PELO AVESSO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>As palavras foram criadas para ordenar o mundo, mas esse poder est\u00e1 sendo esvaziado. A id\u00e9ia \u00e9 impedir que elas tomem conta do que interessa, como o livro-caixa. Se fossem obedecidas nos seus significados estritos, n\u00e3o haveria margem para tanta patifaria. A retid\u00e3o de car\u00e1ter das palavras n\u00e3o permitiria que ranhura, a ruga concreta das pistas, manhosamente substitu\u00edsse irresponsabilidade, de natureza a\u00e9rea e exposta ao clima. Ou que se invocasse a democracia toda vez que algu\u00e9m \u00e9 flagrado com a boca na botija, uma express\u00e3o arcaica, mas de sabor perene.<\/p>\n<p>Um expediente conhecido \u00e9 definir as a\u00e7\u00f5es humanas por meio do avesso dos significados de uso corrente. Tombar, por exemplo, no lugar de preservar, \u00e9 bem conhecido. Levou bastante tempo para que as pessoas se acostumassem ao tombo como algo positivo, embora ningu\u00e9m desconhe\u00e7a as conseq\u00fc\u00eancias de um tombo de verdade.<\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de um sentido oposto ao que a palavra sugere, mesmo que fa\u00e7a justi\u00e7a \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o da linguagem, deixa um travo amargo dif\u00edcil de superar. Virou uma fonte eterna de mal-entendidos e piadas de segunda m\u00e3o, refor\u00e7adas pelas promessas de tombamento, quando casar\u00f5es e matas podem tombar de verdade antes das assinaturas de decretos. Isso faz reverter, tragicamente, a manipula\u00e7\u00e3o da palavra. Ela acaba recuperando o que perdeu.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m quer expressar respeito, jamais lhe ocorreria protestar contra seu interlocutor. Mas \u00e9 o que a express\u00e3o &#8220;protestos da mais alta estima e considera\u00e7\u00e3o&#8221; faz. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o que costuma invocar gera\u00e7\u00f5es. Atualmente deve estar em completo desuso, mas nunca me conformei que as gentilezas fossem expressas por protestos, um plural que lembra bandeiras vermelhas sendo pisoteadas por cavalos.<\/p>\n<p>Existem ainda as frases famosas que usam palavras pelo avesso, parar criar um tipo de charme irresist\u00edvel. Como &#8220;o universo conspira a seu favor&#8221;, atribu\u00edda a Paulo Coelho, ou &#8220;O homem est\u00e1 condenado \u00e0 liberdade&#8221;, de Jean-Paul Sartre. H\u00e1 um abismo \u00f3bvio entre os dois autores e ningu\u00e9m seria louco de compar\u00e1-los. Mas em ambos o fatalismo se expressa da mesma forma, seq\u00fcestrando palavras do seu ambiente original. Conspirar \u00e9 um verbo sinistro que lembra reuni\u00f5es secretas ao redor de mapas sujos de sangue. E a met\u00e1fora da liberdade como uma condena\u00e7\u00e3o pode funcionar, mas n\u00e3o livra a frase de sua aparente contradi\u00e7\u00e3o. Nas inten\u00e7\u00f5es, a diferen\u00e7a joga a favor de Sartre, que lan\u00e7ou a frase como confronto \u00e0s tiranias.<\/p>\n<p>Manipular as palavras \u00e9 uma esp\u00e9cie de arrog\u00e2ncia dos poderes, dos talentos ou dos intelectos. Os privilegiados fazem de conta que n\u00e3o se importam com os lugares comuns do sentido e se esbaldam usando o vocabul\u00e1rio como usam a terra, a raz\u00e3o ou o dinheiro. Fazem isso para se distanciar de quem se apega tanto \u00e0s palavras. Pessoas despossu\u00eddas, condenadas aos significados originais (ou pelo menos cristalizados pelo uso), deixam de lado tudo o que cheira a esperteza de doutores.<\/p>\n<p>O povo prefere render-se ao que \u00e9 sugerido de verdade. Talvez venha da\u00ed o sucesso de uma dramaturgia cada vez mais rasa. Fazem sucesso os personagens desbocados, que por fora sapateiam em cima da linguagem, mas no fundo, por for\u00e7a do deboche, lutam para repor os sentidos no seu devido lugar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manipular as palavras \u00e9 uma esp\u00e9cie de arrog\u00e2ncia dos poderes, dos talentos ou dos intelectos. Os privilegiados fazem de conta que n\u00e3o se importam com os lugares comuns do sentido e se esbaldam usando o vocabul\u00e1rio como usam a terra, a raz\u00e3o ou o dinheiro. Fazem isso para se distanciar de quem se apega tanto \u00e0s palavras. 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