{"id":956,"date":"2009-12-13T23:39:27","date_gmt":"2009-12-14T01:39:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/tolstoi-no-brasilzao-czarista"},"modified":"2009-12-21T21:41:19","modified_gmt":"2009-12-21T23:41:19","slug":"tolstoi-no-brasilzao-czarista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tolstoi-no-brasilzao-czarista","title":{"rendered":"TOLSTOI NO BRASILZ\u00c3O CZARISTA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A sociedade radiografada pelo g\u00eanio de Tolstoi em A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos (do livro As obras primas de Leon Tolstoi, Ediouro, tradu\u00e7\u00e3o Marques Rabelo e Boris Schnaiderman) \u00e9 a que mais se parece com a do Brasil velho de guerra. O primeiro conto, ou novela, considerado obra-prima absoluta da literatura universal, aborda a classe m\u00e9dia ascendendo por meio da carreira nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Esse alpinismo em dire\u00e7\u00e3o ao Estamento se faz com ambi\u00e7\u00e3o e mediocridade, com falsidade e tenacidade, com a reprodu\u00e7\u00e3o, por gera\u00e7\u00f5es, dos mesmos pap\u00e9is sociais passados de pai para filho, pela sociedade de classes onde se insere a casta privilegiada de ju\u00edzes e promotores. A disputa pelo butim, o arrivismo na troca de governos, a prepot\u00eancia do mando e das assinaturas diante de uma popula\u00e7\u00e3o desarmada e pobre, tudo est\u00e1 l\u00e1, de maneira l\u00edmpida e absolutamente cruel.<\/p>\n<p>A fase terminal do protagonista abre seus olhos para a indiferen\u00e7a dos contempor\u00e2neos, a falta de solidariedade da fam\u00edlia (o barulho de fru fru da saia chic da filha em noite de gala no momento em que o pai se esva\u00eda em dor e morte \u00e9 de arrepiar), a brutalidade nas rela\u00e7\u00f5es humanas, o vazio e a infelicidade de uma trajet\u00f3ria dedicada ao nada e a coisa nenhuma, sob a capa de uma vida respeit\u00e1vel e honesta. \u00c9 tudo mentira, claro. Mas s\u00f3 a presen\u00e7a da morte pode deixar expl\u00edcita toda a trama de horrores de que \u00e9 feita uma sociedade de classes.<\/p>\n<p>Tolstoi sabia do que estava falando. Abandonou faculdades e empregos, insurgiu-se contra os desmandos no Ex\u00e9rcito, abandonou bens e fam\u00edlia j\u00e1 em avan\u00e7ada idade: ele n\u00e3o queria para si o destino de Ivan Ilitch, o juiz que enxergou tarde demais. Um insight que ele economiza para as gera\u00e7\u00f5es que o sucederam, e que assim mesmo n\u00e3o aprenderam a li\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que reproduzem o mesmo quadro indefinidamente. O que vemos hoje? A falsidade imperante, as carreiras profissionais fundadas no fingimento, na mentira e no marketing pessoal, a viol\u00eancia dos mercados, do trabalho, das pessoas e dos produtos.<\/p>\n<p>Pense, como Ivan Ilicht, nos momentos felizes da vida profissional e adulta. Ivan teve que ir buscar na inf\u00e2ncia algumas migalhas de felicidade, j\u00e1 que depois n\u00e3o encontrou mais nada. \u00c9 assim a vida que vivemos. Por mais amizades que tenhamos feito, por mais vit\u00f3rias acumuladas, um balan\u00e7o sincero de quem queima os navios para viver uma vida diferente poder\u00e1 revelar o que fica oculto: o de que estamos submissos a essa gana pela sobreviv\u00eancia, que nada respeita na sua carruagem de fogo. Radical demais? Tolstoi, com seu talento insuper\u00e1vel e maestria, prova que n\u00e3o.<\/p>\n<p>No segundo conto, s\u00e3o os mand\u00f5es que enriquecem explorando tudo e todos e colocando a canga em cima das necessidades alheias. O protagonista arrisca a vida e a do seu servo para fechar um neg\u00f3cio inspirado pelo seu medo de perder dinheiro. Ele precisa enfrentar a tempestade para poder passar a perna em quem vai vender e nos seus concorrentes, que querem comprar a mesma floresta. Sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 devastar o lugar para conseguir o m\u00e1ximo de lucro. Quanta coincid\u00eancia, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Esse personagem descobre, quando fica preso no meio da neve e do vento, que \u00e9 mais importante viver do que conseguir mais riqueza. Mas tamb\u00e9m \u00e9 tarde demais. Ele ainda consegue recuperar parte da sua humanidade ao salvar o servo do congelamento, mas sua morte prova que esse gesto foi o \u00fanico de sua vida est\u00e9ril. \u00c9 assim que acontece: vamos adiando a verdade at\u00e9 que n\u00e3o podemos mais abra\u00e7\u00e1-la, a n\u00e3o ser na hora final. Por que n\u00e3o queimar etapas e hoje mesmo come\u00e7ar a mudar? Por que \u00e9 dif\u00edcil, porque significa arriscar a sobreviv\u00eancia. Precisamos fingir, mentir, para continuarmos vivos, ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Ou tudo n\u00e3o passa de uma armadilha da sociedade de classes, do poder monopolizado de in\u00fameros czares que definem nossas vidas enquanto gargalham? Pelo menos, ler Tolstoi nos resgata para muitas verdades e para o entusiasmo de mergulhar num texto realmente primoroso e eterno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sociedade radiografada pelo g\u00eanio de Tolstoi em A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos (do livro As obras primas de Leon Tolstoi, Ediouro, tradu\u00e7\u00e3o Marques Rabelo e Boris Schnaiderman) \u00e9 a que mais se parece com a do Brasil velho de guerra. O primeiro conto, ou novela, considerado obra-prima absoluta da literatura universal, aborda a classe m\u00e9dia ascendendo por meio da carreira nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Esse alpinismo em dire\u00e7\u00e3o ao Estamento se faz com ambi\u00e7\u00e3o e mediocridade, com falsidade e tenacidade, com a reprodu\u00e7\u00e3o, por gera\u00e7\u00f5es, dos mesmos pap\u00e9is sociais passados de pai para filho, pela sociedade de classes onde se insere a casta privilegiada de ju\u00edzes e promotores. 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