{"id":959,"date":"2009-12-13T23:46:39","date_gmt":"2009-12-14T01:46:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=959"},"modified":"2009-12-13T23:46:39","modified_gmt":"2009-12-14T01:46:39","slug":"300-de-esparta-o-sequestro-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/300-de-esparta-o-sequestro-da-historia","title":{"rendered":"300 DE ESPARTA: O SEQUESTRO DA HIST\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>300 de Esparta \u00e9 um filme fascista porque o traidor dos espartanos \u00e9 algu\u00e9m que deveria, pelas leis da cidade-estado, ter sido eliminado por ser fisicamente deformado. O rec\u00e9m-nascido que n\u00e3o estava \u00e0 altura das exig\u00eancias espartanas escapou porque a m\u00e3e a levou para o campo e o criou. O rebento sempre quis ser soldado e incorporou-se ao comando de Le\u00f4nidas. Mas o traiu para os persas. O recado \u00e9 simples: a eugenia, a sele\u00e7\u00e3o brutal dos futuros barrigas-tanquinho, est\u00e1 plenamente justificada.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme a favor da Am\u00e9rica de Bush: a viol\u00eancia, especialmente a desencadeada fora das decis\u00f5es pol\u00edticas do debate coletivo leg\u00edtimo, \u00e9 purificadora. N\u00e3o importa o que os idosos (esses leprosos, segundo o filme) dizem, o que a tradi\u00e7\u00e3o inspira, o que a prud\u00eancia sugere. O importante \u00e9 tomar a iniciativa fora do alcance das raz\u00f5es de uma sociedade organizada (representada, no filme, pela corrup\u00e7\u00e3o, a covardia e a mentira), e de maneira voluntariosa assumir o risco do heroismo do machismo profundamente homo (cara, como esses barbudos se amam).<\/p>\n<p>Esse filme asqueroso que estetiza a viol\u00eancia por meio de uma combina\u00e7\u00e3o entre videogame (eliminar aos peda\u00e7os os inimigos) e propaganda nazista (os corpos sarados dos mach\u00f5es sanguin\u00e1rios) reserva um papel sinistro para o Outro, que estaria a servi\u00e7o do misticismo e da tirania. Justifica assim a invas\u00e3o do Iraque, pois foram eles, os sat\u00e2nicos, que teriam vindo para cima da Am\u00e9rica. Nada mais l\u00f3gico do que revidar de maneira her\u00f3ica, mandando os bravos rapazes americanos, treinados como se fossem espartanos, para acabar com aquele antro de decad\u00eancia. Tudo em nome da \u201cliberdade.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 triste ver Rodrigo Santoro, bom ator brasileiro, sendo dublado como se fosse Darth Vader de Guerra das Estrelas (ali\u00e1s, o chap\u00e9u do vil\u00e3o, chupado de Kurosawa dos Sete Samurais, est\u00e1 l\u00e1 de novo em 300, na cabe\u00e7a de um comandante persa). Longe da performance de um imperador poderoso, Santoro parece mais um surfista fantasiado para o carnaval dos bord\u00e9is de Miami (o que \u00e9 uma pena, pois ele est\u00e1 \u00f3timo em Carandiru, O bicho de sete cabe\u00e7as e Abril despeda\u00e7ado). Representa a n\u00e3o-humanidade, a que n\u00e3o merece viver neste \u201cplaneta\u201d de propriedade dos americanos. Encarna os males que a Am\u00e9rica enxerga nos outros para poder tomar conta de tudo. Treme o l\u00e1bio como um poltr\u00e3o na hora que leva o lan\u00e7a\u00e7o de Le\u00f4nidas. Tudo muito pat\u00e9tico.<\/p>\n<p>Mas triste ainda \u00e9 ver, no disco extra, que um casal de historiadores fica explicando como os autores da fa\u00e7anha se basearam em Her\u00f3doto, sem jamais citar o tremendo anacronismo do filme, o seq\u00fcestro da Hist\u00f3ria que ele representa. Jamais dir\u00e3o: isso \u00e9 coisa de cinema subsidiado, dos imperialistas que dominam todo o mercado (por isso despejaram milh\u00f5es de d\u00f3lares em tudo que \u00e9 produ\u00e7\u00e3o para nos ensinar como \u00e9 a CIA, o FBI, os mariners etc.) e querem nos impingir uma imagem de civiliza\u00e7\u00e3o perfeita, cheia de vigor f\u00edsico e de uma \u00e9tica suspeita. Estar\u00e3o sempre, tanto o velh\u00e3o historiador quanto a perua historiadora, dizendo como a coisa \u00e9 interessante neste filme. Oram, v\u00e3o se catar. N\u00e3o se trata aqui de, ingenuamente, achar que o filme deveria ser &#8220;fiel&#8221; \u00e0 Hist\u00f3ria. Toda Hist\u00f3ria \u00e9 vers\u00e3o. Mas de apontar o mau uso da Hist\u00f3ria, j\u00e1 que se trata de um evento conhecido. O uso a favor da domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que Frank Miller \u00e9 um artista brilhante, que mudou profundamente as artes no s\u00e9culo 20. Mas neste filme ele se presta ao Mal. Ele nem sequer cogita, obviamente, que esteja a favor da bandidagem de Bush. Talvez fa\u00e7a isso realmente de maneira n\u00e3o engajada. Mas fica dif\u00edcil engolir que ele n\u00e3o tenha um m\u00ednimo de no\u00e7\u00e3o sobre a utilidade pol\u00edtica do filme. Pode-se argumentar que todos os comics s\u00e3o obra da Am\u00e9rica (de Super-Homem a Capit\u00e3o Marvel) e est\u00e3o a seu servi\u00e7o e isso n\u00e3o tira o encanto de consumi-los. Mas a esta altura do campeonato, quando a direita toma conta de tudo, inclusive da arte bem elaborada, \u00e9 preciso espernear, se insurgir. Pelo menos \u00e9 o que eu entendo por liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>300 de Esparta \u00e9 um filme fascista porque o traidor dos espartanos \u00e9 algu\u00e9m que deveria, pelas leis da cidade-estado, ter sido eliminado por ser fisicamente deformado. O rec\u00e9m-nascido que n\u00e3o estava \u00e0 altura das exig\u00eancias espartanas escapou porque a m\u00e3e a levou para o campo e o criou. O rebento sempre quis ser soldado e incorporou-se ao comando de Le\u00f4nidas. Mas o traiu para os persas. 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