{"id":96,"date":"2005-05-13T21:33:46","date_gmt":"2005-05-13T23:33:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=96"},"modified":"2009-12-20T21:35:10","modified_gmt":"2009-12-20T23:35:10","slug":"longa-vida-a-ufrgs","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/longa-vida-a-ufrgs","title":{"rendered":"LONGA VIDA \u00c0 UFRGS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>I &#8211; <strong>SAINDO DA ESCOLA<\/strong><br \/>\nEstudar na UFRGS era destino de todo o estudante ga\u00facho do interior. Fora das suas faculdades principais &#8211; engenharia, medicina ou advocacia &#8211; n\u00e3o havia salva\u00e7\u00e3o. As pessoas se dividiam entre as que passavam no vestibular da UFRGS e o &#8220;resto&#8221;. O pavor de n\u00e3o ter destino nenhum me obrigou a passar na Engenharia em 1967. No mesmo ano, cometi o desatino de ser reprovado no vestibular de jornalismo, considerado f\u00e1cil demais, o que n\u00e3o era verdade. Essa primeira tentativa de fazer jornalismo foi um ato quase clandestino, pois era um luxo vir de longe para abra\u00e7ar uma carreira &#8220;sem futuro&#8221;. Tinha me obrigado a cursar a &#8220;Escola&#8221;, como era conhecida a faculdade de Engenharia. Mais tarde descobri que tinha me decidido pelas Exatas s\u00f3 para provar que poderia passar por aquele umbral, e que as Humanas eram op\u00e7\u00e3o consciente e n\u00e3o &#8211; como se costumava dizer na \u00e9poca &#8211; um refugo de quem n\u00e3o tinha capacidade de entender matem\u00e1tica e f\u00edsica. Na &#8220;Escola&#8221;, s\u00f3 havia um caminho para a salva\u00e7\u00e3o: ser engenheiro. Quem n\u00e3o participasse dessa experi\u00eancia, merecia pena. Sempre impliquei com a Engenharia porque tenho dois irm\u00e3os -e, mais recentemente, um sobrinho &#8211; que se formaram l\u00e1. Sabemos para que servem os irm\u00e3os: para implicar uns com os outros. Mas foi imposs\u00edvel aturar o destino definitivo que tinha escolhido, pressionado pelas circunst\u00e2ncias. Sentia que alguma coisa estava acontecendo fora dali, quase ao lado, mas n\u00e3o conseguia participar. Confinado \u00e0s aulas de C\u00e1lculo, rodeado de futuros engenheiros, sonhava em atravessar a avenida e, nos dom\u00ednios do Parque, insistir naquilo que, por falta de outra defini\u00e7\u00e3o melhor, chamava de minha voca\u00e7\u00e3o. Os engenheiros tinham outras metas, que n\u00e3o me interessavam. Gostava era de escutar algu\u00e9m dizer o seguinte, publicamente: &#8220;Nossa luta \u00e9 contra o imperialismo e contra a ditadura.&#8221; Ficava impressionado como podiam fazer discursos como aquele numa \u00e9poca de sombras. Hoje existe o marketing daquela d\u00e9cada, mas esquecemos rapidamente como foram duros e pesados. Todas pessoas, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es (basta olhar as fotos) usavam cabelos curtos. Comunista era um dos piores xingamentos. Cultura, s\u00f3 a de Hollywood. Os filmes de Godard passavam para cinemas vazios. Uma das express\u00f5es mais cultuadas era &#8220;sociedade de consumo&#8221;. Bossa nova provocava sono. Os estudantes queriam ensino gratuito, para garantir o acesso ao mercado de trabalho, que era escasso e elitista. Abandonei a &#8220;Escola&#8221; &#8211; apesar de admirar os dotes teatrais do professor de C\u00e1lculo &#8211; e insisti no Jornalismo, situado a poucos metros, no Parque da Reden\u00e7\u00e3o. Comecei a freq\u00fcentar o curso em 1968, quando o mundo explodiu.<\/p>\n<p>II &#8211; <strong>\u00c9 DURO N\u00c3O SER UM L\u00cdDER<\/strong> Por ter passado com o primeiro lugar no vestibular de Jornalismo da UFRGS, meus colegas &#8211; que n\u00e3o me conheciam &#8211; acreditavam que eu poderiam ser um l\u00edder e me escolheram representante da classe. Fui ent\u00e3o descoberto pela milit\u00e2ncia estudantil de esquerda &#8211; mais especificamente, por Juarez Fonseca, que, diante de uma interven\u00e7\u00e3o minha durante um debate, me chamou num canto e meu deu a primeira aula de bastidores de pol\u00edtica estudantil. Enxergaram em mim um poss\u00edvel quadro extra\u00eddo diretamente da &#8220;massa&#8221;. Por quest\u00f5es que ignoro, imediatamente passei a ser Secret\u00e1rio de Imprensa do Centro Acad\u00eamico Franklin Delano Roosevelt, o n\u00facleo da agita\u00e7\u00e3o estudantil que sacudiu Porto Alegre naquele ano. Meu grande feito como Secret\u00e1rio de Imprensa foi ter lan\u00e7ado uma edi\u00e7\u00e3o do jornal do CAFDR, &#8220;O Coruja&#8221;&#8230;nas f\u00e9rias de julho! Lembrei que sa\u00ed com os jornais na m\u00e3o para distribuir e todo mundo tinha ido embora. Foi um terr\u00edvel in\u00edcio de carreira. Fiquei impressionado como eu n\u00e3o conseguia entender uma s\u00f3 palavra das discuss\u00f5es travadas entre duas correntes que disputavam a lideran\u00e7a do movimento. Uma era a AP &#8211; A\u00e7\u00e3o Popular, de raiz cat\u00f3lica e que naquele momento estava aderindo ao mao\u00edsmo. Mais tarde a AP defendeu a luta armada e tinha como palavra de ordem &#8220;abaixo a ditadura e fora o imperialismo&#8221;. E de outro o POC, Partido Oper\u00e1rio Comunista, que segundo um colega meu, tinha sido fundado no apartamento dele. Os poquistas queriam o povo no poder, ou seja a revolu\u00e7\u00e3o comunista j\u00e1, tirando a &#8220;burguesia&#8221; e colocando no seu lugar o operariado. J\u00e1 os &#8220;de AP&#8221; queriam, primeiro, derrubar os militares e expulsar os &#8220;ianques&#8221; que sugavam o Brasil, para s\u00f3 depois fazer a revolu\u00e7\u00e3o socialista. Sempre achei que ali, nos redutos de Porto Alegre, a briga entre os &#8220;verdadeiros&#8221; revolucion\u00e1rios e os &#8220;revisionistas&#8221; ajudou a matar o movimento. Outro erro foi a trai\u00e7\u00e3o \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es puramente estudantis: a &#8220;massa&#8221; ia para a rua para lutar pelo ensino livre e gratuito, mas na hora H, os militantes desfraldavam bandeiras do Vietcong e gritavam slogans como &#8220;o povo no poder&#8221;, a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tinham sido aprovadas em assembl\u00e9ias. Ao mesmo tempo, relembro a coragem dos l\u00edderes daquela \u00e9poca e que nunca s\u00e3o lembrados nas retrospectivas (que insistem no Jos\u00e9 Dirceu e no Vladimir Palmeira, como se o Brasil fosse apenas Rio-S\u00e3o Paulo). Onde andar\u00e1 Jos\u00e9 Logu\u00e9rcio, o grande (para mim, naquela \u00e9poca, assim parecia) presidente do CAFDR do auge da agita\u00e7\u00e3o? Ele conseguia colocar 30 mil pessoas nas ruas enfrentando soldados armados. Recentemente, Mangabeira Unger falou da falta de grandeza com que os brasileiros costumam se olhar. Trata-se de um mau costume, pois o Pa\u00eds tem a voca\u00e7\u00e3o \u00e9pica. Z\u00e9 Logu\u00e9rcio, organizando grandes passeatas na \u00e9poca em que ser de esquerda podia levar \u00e0 morte, sumiu. Enquanto isso, montes de ratos puseram a cabe\u00e7a para fora, depois que o perigo passou, para assumir um passado de lutas que nunca tiveram.<\/p>\n<p>III &#8211; <strong>DE ONDE AQUELA MAGIA<\/strong>? Hoje \u00e9 costume fantasiar sobre os &#8220;loucos&#8221; anos sessenta. Baseado nos meus anos de UFRGS, resumo aquela \u00e9poca em poucas palavras: magia, medo e mis\u00e9ria. A magia era por nossa conta, pois reflet\u00edamos uma luz especial que banhava o planeta e que nunca mais voltou (talvez seja o que simplesmente chamam de juventude). O resto estava aos cuidados da repress\u00e3o, que estava no auge. O AI-5, de dezembro de 1968, praticamente encerrou minha carreira na UFRGS oficial. Fiquei ainda mais um ano tentando seguir as aulas, mas j\u00e1 me entregara \u00e0 poesia exposta na pra\u00e7a e \u00e0 vida errante. Sorte que a conviv\u00eancia com professores e estudantes da universidade tinha provocado um impacto: queimei in\u00fameras etapas. Sa\u00ed do parnasianismo herdado dos estudos na fronteira e descobri o modernismo. Comecei a ler Mario e Oswald de Andrade,Jo\u00e3o Cabral, Fernando Pessoa, Garcia Lorca e Maiakoviski e isso mudou minha vida. Para algu\u00e9m que tinha crescido com Castro Alves, Rui Barbosa e Jos\u00e9 de Alencar, os autores que a universidade me apresentou significavam um salto no escuro, a realiza\u00e7\u00e3o de uma fantasia: a de que a linguagem, sem amarras, poderia despertar uma velha voca\u00e7\u00e3o escondida em cadernos de espiral. Em 1969, gra\u00e7as \u00e0 UFRGS, j\u00e1 tinha esbo\u00e7ado meu trabalho po\u00e9tico, expondo na pra\u00e7a os poemas que mais tarde reuniria no livro de estr\u00e9ia, &#8220;Outubro&#8221;, publicado em 1975.<\/p>\n<p>IV &#8211; <strong>A CARA NO MUNDO<\/strong> A Universidade Federal do Rio Grande do Sul abriu as comportas do s\u00e9culo vinte para um poeta vindo do meio do pampa. Descobri o Brasil, a minha gera\u00e7\u00e3o, a imprensa, a literatura, o cinema de vanguarda, as portas da percep\u00e7\u00e3o. Nela, adquiri confian\u00e7a sobre meu trabalho po\u00e9tico. Foi no pr\u00f3prio Centro Acad\u00eamico que fiz minha primeira exposi\u00e7\u00e3o de poemas, junto com mais dois escritores, Marco Celso Viola e Marisa Scopel. Mais tarde, expusemos na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, de S\u00e3o Paulo e na Pra\u00e7a General Os\u00f3rio, no Rio. A UFRGS me incentivou a colocar a cara no mundo. Jamais teria dado uma virada na minha vida n\u00e3o fosse a universidade que freq\u00fcentei por tr\u00eas anos em dois cursos incompletos. Ela serviu para me encaminhar para o mercado de trabalho, pois foi atrav\u00e9s dela que me candidatei ao primeiro est\u00e1gio, na Folha da Tarde, da Companhia Caldas J\u00fanior, onde tive contato com uma brilhante gera\u00e7\u00e3o de jornalistas. Mesmo sem o diploma, sa\u00ed da universidade com uma profiss\u00e3o definida e, o que \u00e9 melhor, com uma linguagem po\u00e9tica pr\u00f3pria. Acabei cultivando, ao longo de d\u00e9cadas, uma demanda reprimida por uma faculdade onde eu pudesse chegar at\u00e9 o fim. Encontrei esse espa\u00e7o na USP, onde me bacharelei em Hist\u00f3ria o ano passado. Sintomaticamente, os estudos de Hist\u00f3ria me levaram de volta ao pampa e a um olhar mais generoso ao que aprendi l\u00e1. Estudo a gera\u00e7\u00e3o dos meus pais e o pipocar cont\u00ednuo daquela guerra das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo. Hoje posso dizer que aprendi o mais importante no Col\u00e9gio Santana, de Uruguaiana, pois por longos anos, toda as semanas, minhas reda\u00e7\u00f5es foram avaliadas pelos irm\u00e3os Maristas. Foi assim, treinado no texto, que cheguei a Porto Alegre para a outra guerra, a de 1968\/1969. Desejo longa vida \u00e0 UFRGS, que me ensinou a ter coragem e a lutar pelo meu destino. Ela foi minha melhor universidade e sinto orgulho de ser seu ex-aluno.<\/p>\n<p><em>(artigo publicado no Jornal da UFRGS em mar\u00e7o de 1999) I &#8211; SAINDO DA &#8220;ESCOLA&#8221; <\/em><\/p>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px;\">Estudar na UFRGS era destino de todo o estudante ga\u00facho do interior. Fora das suas faculdades principais &#8211; engenharia, medicina ou advocacia &#8211; n\u00e3o havia salva\u00e7\u00e3o. As pessoas se dividiam entre as que passavam no vestibular da UFRGS e o &#8220;resto&#8221;.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudar na UFRGS era destino de todo o estudante ga\u00facho do interior. Fora das suas faculdades principais &#8211; engenharia, medicina ou advocacia &#8211; n\u00e3o havia salva\u00e7\u00e3o. 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