{"id":961,"date":"2009-12-13T23:48:55","date_gmt":"2009-12-14T01:48:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=961"},"modified":"2009-12-21T22:28:48","modified_gmt":"2009-12-22T00:28:48","slug":"a-indignacao-e-uma-impostura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-indignacao-e-uma-impostura","title":{"rendered":"A INDIGNA\u00c7\u00c3O \u00c9 UMA IMPOSTURA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia \u00e9 permanente e gera uma indigna\u00e7\u00e3o surda, inst\u00e1vel e sem nenhuma repercuss\u00e3o. Num pa\u00eds sem lei, tudo tem que ser negociado todos os dias. \u00c9 a manobra no tr\u00e2nsito, a velocidade na estrada, a vaga no estacionamento, a visita do fiscal, a remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, o prazo da d\u00edvida vencida, o calote, o arrocho, a informa\u00e7\u00e3o negada, a viagem pela metade. Esse \u00e9 o ambiente onde o ranger de dentes \u00e9 fartamente distribu\u00eddo a uma terceira idade furiosa, uma juventude em fuga, uma popula\u00e7\u00e3o em p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Quando a trag\u00e9dia extrapola seus limites cotidianos, e confirma as tend\u00eancias esbo\u00e7adas na rotina (a pista insuficiente abra\u00e7ada \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o do aeroporto, por exemplo), a indigna\u00e7\u00e3o abandona o foro \u00edntimo, ganha corpo e chega a ocupar as aten\u00e7\u00f5es da m\u00eddia e de algumas autoridades, mas s\u00f3 por algum tempo. Logo depois, volta ao seu leito normal.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se espera de uma indigna\u00e7\u00e3o tornada in\u00f3cua por se tratar sempre de uma impostura. Pois ela n\u00e3o \u00e9 movida coletivamente por uma rea\u00e7\u00e3o ao evento tr\u00e1gico e sim pela in\u00e9rcia individualizada de h\u00e1bitos cristalizados. Pode at\u00e9 se agrupar, moment\u00e2nea ou permanentemente, mas jamais consegue infletir sobre o que sempre escapa, os destinos. Ela n\u00e3o toma forma de uma representa\u00e7\u00e3o conseq\u00fcente, antes se estilha\u00e7a no momento mesmo de se manifestar. Ou fica confinada a alguns testemunhos mais exaltados, ou se derrama em l\u00e1grimas das pessoas pr\u00f3ximas \u00e0s v\u00edtimas, exatamente as menos indicadas para expressar a indigna\u00e7\u00e3o que deveria ser uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Trata-se de uma impostura pois os mesmos poderes que guardam a revolta trancada em camadas espessas, canais obstru\u00eddos e mistifica\u00e7\u00e3o em massa se apressam em selecionar as manifesta\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desaguar na vala comum. Desagregada pela falta de um sistema democr\u00e1tico verdadeiro, que paire acima dos interesses que mudam o batismo de aeroportos para atender dores repentinas (como aconteceu com o Dois de Julho em Salvador), a indigna\u00e7\u00e3o permanece at\u00f4nita, diante da sua pr\u00f3pria inoper\u00e2ncia.<\/p>\n<p>As fantasias costumam assenhorar-se do espa\u00e7o vazio deixado pela revolta que roda sobre si mesma. Uma delas \u00e9 o desejo latente da \u201cvolta\u201d da ditadura, como se na ditadura n\u00e3o estiv\u00e9ssemos ainda. O mito de que nos libertamos dos opressores \u00e9 talvez a verdadeira trag\u00e9dia nacional. Entronizamos um simulacro de democracia para nos servir de \u00e1libi para a saudade do arb\u00edtrio, que teria o dom salvacionista para o desamparo. Que democracia \u00e9 esta? costuma perguntar a indigna\u00e7\u00e3o tornada uma impostura.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds onde s\u00e3o enterrados com honras nacionais os impostores que derrubaram um governo duas vezes consagrado nas urnas (o de Jo\u00e3o Goulart, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e no plebiscito), sem que nesses funerais tardios nenhuma autoridade se manifeste contra a manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica e a malversa\u00e7\u00e3o dos poderes, convivemos com a aus\u00eancia completa de oposi\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o temos oposi\u00e7\u00e3o porque a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 um simulacro, \u00e9 uma certeza de que \u00e9 in\u00f3cua, \u00e9 apenas um desabafo da hora, um abra\u00e7ar entre l\u00e1grimas, um dedo em riste, algumas palavras inspiradas na sabedoria de ocasi\u00e3o e no descr\u00e9dito de que somos realmente uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo o que realmente importa faz parte apenas de um sistema de perigosas superficialidades: disputa de butins, privatiza\u00e7\u00f5es, corrup\u00e7\u00e3o, inefici\u00eancia, especialmente a te\u00f3rica. N\u00e3o estamos acostumados a pensar o Brasil com o esp\u00edrito p\u00fablico que formou a grande na\u00e7\u00e3o e que poderia evitar o ambiente sinistro de trag\u00e9dia permanente, p\u00fablica ou privada, de responsabilidade ou n\u00e3o do governo. Costumamos culpar ou mitificar o passado para cristalizarmos o \u00e1libi do imobilismo.<\/p>\n<p>Abrimos m\u00e3o inclusive do \u00e9pico, j\u00e1 que fomos reduzidos \u00e0 tragicom\u00e9dia. N\u00e3o temos mais os gestos que fazem parar o tempo e redirecionar a Hist\u00f3ria. Nossa cultura \u00e9 a da migalha, do resto. Somos uma fagulha no ch\u00e3o abandonado e coberto de combust\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trag\u00e9dia \u00e9 permanente e gera uma indigna\u00e7\u00e3o surda, inst\u00e1vel e sem nenhuma repercuss\u00e3o. Num pa\u00eds sem lei, tudo tem que ser negociado todos os dias. \u00c9 a manobra no tr\u00e2nsito, a velocidade na estrada, a vaga no estacionamento, a visita do fiscal, a remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, o prazo da d\u00edvida vencida, o calote, o arrocho, a informa\u00e7\u00e3o negada, a viagem pela metade. 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