{"id":963,"date":"2009-12-13T23:50:09","date_gmt":"2009-12-14T01:50:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=963"},"modified":"2009-12-20T19:41:13","modified_gmt":"2009-12-20T21:41:13","slug":"roland-barthes-esse-e-o-cara","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/roland-barthes-esse-e-o-cara","title":{"rendered":"ROLAND BARTHES, ESSE \u00c9 O CARA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Roland Barthes merece que dediquemos as ele n\u00e3o apenas a leitura atenta e encantada, mas o reconhecimento do quanto contribui para entendermos melhor a nossa \u00e9poca, que ele decifrou como ningu\u00e9m. Estou me referindo, claro, ao seu cl\u00e1ssico Mitologias, escrito entre 1954\/1956 e publicado em 1957. N\u00e3o me aprofundei ainda em seus outros escritos, mas s\u00f3 esse livro j\u00e1 me alimenta por uma d\u00e9cada. Posso assegurar que os melhores momentos do Di\u00e1rio da Fonte s\u00e3o puro Roland Barthes, ou o que aprendi com ele.<\/p>\n<p>No momento em que ele escreveu que as \u201cfranjas obstinadas\u201d nas testas dos personagens do filme Julio C\u00e9sar, de Joseph Mankiewicks, eram a \u201costenta\u00e7\u00e3o da romanidade\u201d inventada por Hollywood, abriu-se um clar\u00e3o e uma estrada infinita de insights sobre filmes, livros, reportagens, imagens etc. Se Barthes, o g\u00eanio que foi convidado para ser professor da Escola dos Altos Estudos da Fran\u00e7a pela sua obra radical e profunda, tem a ousadia de enxergar uma evid\u00eancia dessas, \u00e9 porque toda a manipula\u00e7\u00e3o a que estamos submetidos pode ser lida de uma outra maneira.<\/p>\n<p>Foi assim que descobri que em \u201cDe olhos bem fechados\u201d, Stanley Kubrick mostra como a alta burguesia impede que as outras classes sociais a enxerguem, para melhor domin\u00e1-las. Ou que, no cinema, n\u00e3o existe reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca, mas apenas composi\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios em fun\u00e7\u00e3o da narrativa, como escrevi no ensaio sobre o filme \u201cAs horas\u201d. Quando Barthes mostra o fil\u00e9 com fritas como express\u00e3o da \u201cfrancidade\u201d, do perfil nacional da Fran\u00e7a, ou o cinema sobre lugares ex\u00f3ticos como uma das muitas armadilhas da exclus\u00e3o de uma cultura de classes (texto que sintonizei com meus posts sobre document\u00e1rios que distorciam o mundo animal e o colocavam sob as patas da hegemonia humana) Barthes est\u00e1 abrindo nossos olhos para o poder da mistifica\u00e7\u00e3o que nos esvazia.<\/p>\n<p>Ler o mito, para reconciliar \u201co real e os homens, a descri\u00e7\u00e3o e a explica\u00e7\u00e3o, o objeto e o saber\u201d \u00e9, para Barthes, revelar a fun\u00e7\u00e3o essencial dos mitos. O importante \u00e9 n\u00e3o deixar-se levar pela iconoclastia, a rela\u00e7\u00e3o sarc\u00e1stica com o tema, pois essa \u00e9 uma armadilha do pr\u00f3prio mito, que a tudo impregna. O leitor de mitos, com o qual Barthes se identifica, \u00e9 diferente do mit\u00f3logo, o decifrador de mitos, que acaba se separando da comunidade a qual se dirige, pois acredita pairar acima dos mortais quando acha estar demolindo as certezas. Vimos como os mit\u00f3logos proliferaram nas m\u00eddias, principalmente na Internet, onde todos s\u00e3o Paulos Francis a sapatear sobre todos os assuntos. Produzir ou consumir mitos \u00e9 t\u00e3o alienante quanto ser um sarc\u00e1stico demolidor de mitos.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 ler com os olhos livres, para entender o mecanismo da aliena\u00e7\u00e3o promovido por essa cultura que transforma Hist\u00f3ria em Natureza, no dizer de Barthes. Ou seja, essa cultura que encara as coisas como eternas, imut\u00e1veis, e esconde as transforma\u00e7\u00f5es que sofremos ao longo do tempo e das a\u00e7\u00f5es. Esconder que somos seres mutantes, transformar o ideal da classe dominante em ideal humano, \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da vasta gama de mitos que nos cercam por todos os lados.<\/p>\n<p>Vemos isso diariamente, na imprensa e na televis\u00e3o. Os eventos s\u00e3o apresentados de forma mitificada, para manter essa situa\u00e7\u00e3o de arrocho econ\u00f4mico e pol\u00edtico. O imobilismo nos governa. Vejam como nada muda, por mais que mudem os governantes. \u00c9 que a imposi\u00e7\u00e3o dos mitos \u00e9 t\u00e3o vasta e profunda, que tudo conspira para que continuemos nesse ambiente sinistro em que as coisas s\u00e3o assim \u201cdesde que mundo \u00e9 mundo\u201d, como costumam dizer.<\/p>\n<p>Barthes \u00e9 uma ferramenta poderosa para nos desvencilharmos dessa arapuca. \u00c9 por isso que, toda vez que leio Mitologias, me transformo. Esse cara, Roland Barthes, ao abra\u00e7ar o \u201cincontorn\u00e1vel Marx\u201d (como agora est\u00e3o se dando conta) se debru\u00e7a sobre o poder de manipula\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria moderna de fabrica\u00e7\u00e3o de mitos. Melhor para n\u00f3s, que podemos carreg\u00e1-lo como um passaporte para as realidades encobertas pela domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No posf\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o da Difel de Mitologias, escrito em 1970, Barthes diz que sua an\u00e1lise \u00e9 datada e tema se tornou mais complexo. Sem compartilhar do mesmo rigor do autor sobre a pr\u00f3pria obra, prefiro encarar o livro como uma senda generosa (e ao mesmo tempo rigorosa) de inspira\u00e7\u00f5es e id\u00e9ias. A partir desses ensaios, \u00e9 poss\u00edvel trilhar novos caminhos na leitura das in\u00fameras camisas-de-for\u00e7a que nos amarram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No momento em que Roland Barthes escreveu, no seu livro Mitologias (1957) que as \u201cfranjas obstinadas\u201d nas testas dos personagens do filme Julio C\u00e9sar, de Joseph Mankiewicks, eram a \u201costenta\u00e7\u00e3o da romanidade\u201d inventada por Hollywood, abriu-se um clar\u00e3o e uma estrada infinita de insights sobre filmes, livros, reportagens, imagens etc. Se Barthes, o g\u00eanio que foi convidado para ser professor da Escola dos Altos Estudos da Fran\u00e7a pela sua obra radical e profunda, tem a ousadia de enxergar uma evid\u00eancia dessas, \u00e9 porque toda a manipula\u00e7\u00e3o a que estamos submetidos pode ser lida de uma outra maneira.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/963"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=963"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1383,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/963\/revisions\/1383"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}