{"id":967,"date":"2009-12-13T23:52:08","date_gmt":"2009-12-14T01:52:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=967"},"modified":"2009-12-21T22:24:26","modified_gmt":"2009-12-22T00:24:26","slug":"a-mitologia-imperial-do-vicio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-mitologia-imperial-do-vicio","title":{"rendered":"A MITOLOGIA IMPERIAL DO V\u00cdCIO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Miami \u00e9 o excesso da Am\u00e9rica e precisa de uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Vamos definir esse excesso e essa cirurgia, conforme nos narra o filme Miami Vice, de Michael Mann. A Am\u00e9rica, terra de migrantes e de oportunidades, paga o pre\u00e7o por ser aberta e democr\u00e1tica e torna-se em Miami uma aberra\u00e7\u00e3o, uma doen\u00e7a provocada pela distor\u00e7\u00e3o quantificada ao infinito das suas qualidades. A riqueza ali \u00e9 sintoma dessa fraqueza moral que define o v\u00edcio de Miami. \u00c9 a culpa localizada como enfermidade do Imp\u00e9rio que se arvora a ser o juiz do mundo.<\/p>\n<p>Esse excesso de recursos, lazer, d\u00f3lares, luxos e paisagens n\u00e3o faz parte da Am\u00e9rica virtuosa, mas sim da soma dos defeitos da outra Am\u00e9rica, a falsa, a mentirosa, sensual, an\u00e1rquica, a Latina. Miami foi dominada por cubanos, brasileiros, guatemaltecos, paraguaios. Esse \u00e9 o mal que corr\u00f3i a borda do Imp\u00e9rio. Miami \u00e9 o centro demi\u00fargico de um fur\u00fanculo, alimentado pela podrid\u00e3o dos povos desqualificados do Terceiro Mundo hisp\u00e2nico situado do mar do Caribe para baixo.<\/p>\n<p>Por estar localizada, tanto na capital desse Mal, que \u00e9 Miami, quanto nas suas alimentadoras &#8211; Ciudad del Leste, no Paraguai, Rep\u00fablica Dominicana e Montevid\u00e9u, as loca\u00e7\u00f5es \u201cex\u00f3ticas\u201d (segundo o diretor) que \u201cn\u00e3o est\u00e3o no mapa\u201d (segundo o ator Jamie Foxx) \u2013 \u00e9 preciso uma opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica globalizada, que seja a soma de ag\u00eancias de repress\u00e3o do Imp\u00e9rio, que utilizam o meio mais identific\u00e1vel da natureza dos inimigos: a manha, a mentira, a falsa identidade. O truque \u00e9 fingir-se de traficante para poder localizar o centro nevr\u00e1lgico da doen\u00e7a, a fonte de suas emana\u00e7\u00f5es que contaminam a pureza americana.<\/p>\n<p>Claro que nem sequer \u00e9 citado que todo o poder dos traficantes vem do consumo da droga e n\u00e3o da sua produ\u00e7\u00e3o e venda. Mas isso seria reconhecer que o problema \u00e9 deles, e n\u00e3o do lado de c\u00e1. A dupla de detetives, um ator negro e outro irland\u00eas, s\u00e3o a s\u00edntese da Am\u00e9rica inclusiva, que pode sobreviver e crescer com elementos fora de suas origens, desde que a servi\u00e7o de seus interesses. Eles se disfar\u00e7am para conhecer o rosto do Mal, pessoas com nomes hisp\u00e2nicos como Jos\u00e9 Yero ou Jesus Montoya.<\/p>\n<p>O que revela suas identidades \u00e9 a pr\u00f3pria efici\u00eancia: eles s\u00e3o bons demais no que fazem, transportar droga do Terceiro para o Primeiro Mundo, portanto n\u00e3o podem ser confi\u00e1veis. \u00c9 preciso que sejam incompetentes, pelo menos um pouco, para que haja conforto nesse mundo que no Paraguai joga toneladas de embalagens de isopor na rua, a denunciar a falta de lei de terras sem Hist\u00f3ria, fora da Ordem Mundial. Nesse reduto paraguaio, surge a figura de Gong Li no papel da chinesa administradora do dinheiro do cartel e que, claro, cai nas gra\u00e7as do mach\u00e3o irland\u00eas-americano. Para isso servem as mulheres da periferia do mundo: para serem repasto da pot\u00eancia viril dos imperiais.<\/p>\n<p>Toda essa avalanche de mistifica\u00e7\u00f5es transforma o filme num modelo cl\u00e1ssico de manipula\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias. Os espectadores brasileiros se identificam com os detetives e elogiam o roteiro bem feito, as interpreta\u00e7\u00f5es seguras, a aventura e a a\u00e7\u00e3o. Mas o que deve ficar claro \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o perversa de mitos de aliena\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. Os her\u00f3is s\u00e3o modelos de virtude, ou seja, de for\u00e7a f\u00edsica modelada por corpos cevados na corre\u00e7\u00e3o aer\u00f3bica. Ao contr\u00e1rio dos vil\u00f5es, que exp\u00f5em a for\u00e7a bruta de corpos disformes e tatuados, ou a nefasta apar\u00eancia de intelectuais deca\u00eddos, como \u00e9 o caso de Yero e Montoya, que permanecem sentados a maior parte do tempo.<\/p>\n<p>O Bem corre, se movimenta, age. O Mal aguarda, corrompe e mata. \u00c9 assim que se faz cinema no cora\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio. Cinema, essa arte estrat\u00e9gica que substitui ou prepara a guerra. O Imp\u00e9rio j\u00e1 caluniou a Tr\u00edplice Fronteira de Ciudad del Leste dizendo que l\u00e1 se escondem terroristas da Al Qaeda. O filme Miami Vice, que custou assombrosos 135 milh\u00f5es de d\u00f3lares (n\u00e3o h\u00e1 limites para financiar a pol\u00edtica imperial) simplesmente justifica uma interven\u00e7\u00e3o ao colocar o Paraguai como o centro irradiador de um capitalismo doentio, fundado nas imita\u00e7\u00f5es e nas drogas, e n\u00e3o como v\u00edtima geogr\u00e1fica da corrup\u00e7\u00e3o que vem de cima.<\/p>\n<p>Uma das bandeiras mais expl\u00edcitas do filme \u00e9 colocar Havana como parte do estado americano de Lousiana, ali\u00e1s como acontecia no s\u00e9culo 18. \u201cRecuperar\u201d Havana e derrotar o tr\u00e1fico por meio da intelig\u00eancia e da tecnologia s\u00e3o os verbos desse filme perverso que merece rep\u00fadio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda uma avalanche de mistifica\u00e7\u00f5es transforma o filme Miami Vice, de Michael Mann, num modelo cl\u00e1ssico de manipula\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias. 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