{"id":969,"date":"2009-12-13T23:53:17","date_gmt":"2009-12-14T01:53:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=969"},"modified":"2009-12-21T22:18:20","modified_gmt":"2009-12-22T00:18:20","slug":"o-limbo-e-real","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-limbo-e-real","title":{"rendered":"O LIMBO \u00c9 REAL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A chamada realidade \u00e9 algo \u201cfora\u201d de n\u00f3s. Um filme \u201cbaseado em fatos reais\u201d \u00e9 sempre uma armadilha, j\u00e1 que toda representa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma obra interior, fruto da percep\u00e7\u00e3o. Nessa arapuca se enrodilhou a Hist\u00f3ria por muito tempo, at\u00e9 que as escolas dessa ci\u00eancia abriram in\u00fameras janelas para o conhecimento. O que chamam de micro-hist\u00f3ria, ou hist\u00f3ria das mentalidades, e seus desdobramentos, s\u00e3o, no fundo, uma forma de colocar no seu devido lugar a realidade consensual, aquela soma de eventos definitivos que formatariam na\u00e7\u00f5es e \u00e9pocas.<\/p>\n<p>O cinema pode ir mais fundo: abordar essa realidade pela aus\u00eancia, ou melhor, conseguir desvend\u00e1-la colocando uma cortina divis\u00f3ria entre o que se passa no c\u00e9u ou no inferno da realidade hegem\u00f4nica das representa\u00e7\u00f5es coletivas, e privilegiar o limbo, aquele n\u00e3o-lugar que a inoc\u00eancia (a dos cidad\u00e3os comuns) ocupa quando se v\u00ea desprovida de culpa e de batismo (o envolvimento direto com os \u201cfatos\u201d). O filme maravilhoso e imprescind\u00edvel que \u00e9 O ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias, de Cao Hamburger, tem essa qualidade.<\/p>\n<p>O que oculta (e por tabela, mostra) essa obra que arrebatou os cr\u00edticos? Ela esconde, para revelar, do protagonista Mauro, de 11 anos, o que se passou com os pais e o pa\u00eds. Mauro est\u00e1 envolvido na Hist\u00f3ria oficial: a Copa de 1970, que aguarda como um sinal de que os pais ir\u00e3o voltar, conforme promessa feita antes da separa\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o enxerga (e o que o filme s\u00f3 aponta em alguns insights) \u00e9 a fonte da sua dor, ou seja, a repress\u00e3o que se abateu no Brasil na primeira fase da ditadura, a dos militares. Isso \u00e9 assunto para os adultos, que confabulam fora do quadro, olhando para a orfandade s\u00fabita do menino.<\/p>\n<p>Mauro est\u00e1 no limbo: n\u00e3o passou pela circuncis\u00e3o, ou seja, n\u00e3o \u00e9 judeu (numa met\u00e1fora propositalmente inapropriada, j\u00e1 que o limbo \u00e9 um conceito cat\u00f3lico, mas que aqui serve como refer\u00eancia); n\u00e3o tem vida escolar, pois est\u00e1 s\u00f3 na casa do av\u00f4 morto; n\u00e3o sabe seu lugar no time de futebol na rua e prefere jogar bot\u00e3o, onde o goleiro, a testemunha solit\u00e1ria do jogo, \u00e9 o destaque; espera desesperado a volta da sua fam\u00edlia, enquanto se ocupa de atividades ef\u00eameras, como espiar as mulheres numa loja de roupas; sofre a presen\u00e7a de um desconhecido, o vizinho judeu do seu av\u00f4 que o trata com secura e rispidez; faz o sinal da cruz imitando o goleiro do seu time, gesto que \u00e9 punido com um safan\u00e3o pela comunidade judaica. No c\u00e9u ele n\u00e3o est\u00e1, pois liga para sua casa em Belo Horizonte e ningu\u00e9m atende; e nem no inferno, pois consegue se distrair com roupas e fotos antigas e faz amizade com a meninada do bairro. Est\u00e1 no limbo, sozinho, e essa \u00e9 sua realidade.<\/p>\n<p>Mas o limbo guarda a esperan\u00e7a de uma reden\u00e7\u00e3o (a volta dos pais). Enquanto essa n\u00e3o vem, resta-lhe o consolo da Copa do Mundo, quando fomos tricampe\u00f5es. Mas a coincid\u00eancia entre a vit\u00f3ria final no M\u00e9xico e a not\u00edcia de que seu pai n\u00e3o iria voltar \u00e9 o confronto mais memor\u00e1vel do filme, que faz assim uma den\u00fancia pelo avesso, sem cair no lugar comum da catequese pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Entre tantas qualidades, o filme ainda d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o de como se deve filmar a repress\u00e3o, por meio de uma cena de pris\u00e3o de militantes que deixa no chinelo o que se fez at\u00e9 aqui. Costuma-se, no cinema nacional, pecar pelo anacronismo: sempre h\u00e1 a evid\u00eancia de que pessoas e fatos atuais se interp\u00f5em no resgate da viol\u00eancia dos anos 60 e 70. Fica tudo muito falso, o que n\u00e3o ocorre com este filme, esmerado nos detalhes, eficiente nas a\u00e7\u00f5es, emocionante na costura de gestos e rostos.<\/p>\n<p>O conceito de limbo est\u00e1 na pauta desde que o Papa confirmou parecer de uma comiss\u00e3o teol\u00f3gica (para a f\u00faria dos conservadores) de que trata-se de uma hip\u00f3tese, n\u00e3o um dogma. O menino Mauro, protagonista desse grande filme, navega na confirma\u00e7\u00e3o do seu isolamento e nos convence do dogma de sua dana\u00e7\u00e3o. Do bairro do Bom Retiro (n\u00e3o por acaso, retiro nos remete ao limbo), ele parte para o ex\u00edlio, \u00f3rf\u00e3o de pai, um guerreiro que enfrentou a realidade oficial. Descobriu que esse estado em que se encontrava, de solid\u00e3o e amadurecimento, iria lhe acompanhar por toda a vida.<\/p>\n<p>Obra de um pa\u00eds temperado pela dor e pela sofrida reinven\u00e7\u00e3o da alegria, \u201cO ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias\u201d insere-se na grande cinematografia nacional e internacional contempor\u00e2nea. \u00c9 como um goleiro, que n\u00e3o participa do jogo at\u00e9 ser convocado para o v\u00f4o. Quando pula no abismo, levantamos da arquibancada. Esse \u00e9 o gol que merecemos, a vit\u00f3ria que nos redime, a ta\u00e7a que levamos pelo Tempo sem que ningu\u00e9m tenha a oportunidade de roub\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obra de um pa\u00eds temperado pela dor e pela sofrida reinven\u00e7\u00e3o da alegria, O ano em que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias, de Cao Hamburger, insere-se na grande cinematografia nacional e internacional contempor\u00e2nea. \u00c9 como um goleiro, que n\u00e3o participa do jogo at\u00e9 ser convocado para o v\u00f4o. Quando pula no abismo, levantamos da arquibancada. 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