{"id":971,"date":"2009-12-13T23:54:38","date_gmt":"2009-12-14T01:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=971"},"modified":"2009-12-20T22:52:34","modified_gmt":"2009-12-21T00:52:34","slug":"livros-de-memorias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/livros-de-memorias","title":{"rendered":"LIVROS DE MEM\u00d3RIAS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Tenho predile\u00e7\u00e3o pelos livros de mem\u00f3rias, sejam quais forem. Meu \u00c9rico Verissimo favorito \u00e9 Solo de Clarineta, apesar de O Continente ocupar o p\u00f3dio das minhas leituras mais importantes. Mas meu favoritismo se inclina menos para os grandes memorialistas. Gosto mesmo \u00e9 de mem\u00f3rias de pessoas que sumiram do mapa da mem\u00f3ria coletiva, principalmente os que enfrentaram alguma guerra. Sinto grande sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria quando consigo um exemplar de um lutador muito oculto, tenha alcan\u00e7ado a fama um dia ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Gosto de lembrar o dia em que minha professora Nanci Leonzo, da USP (e mais tarde, minha orientadora do doutorado) lamentava que n\u00e3o existia mais em lugar nenhum as mem\u00f3rias de Jo\u00e3o Alberto, o militar revolucion\u00e1rio dos anos 20 e mais tarde interventor em S\u00e3o Paulo e ministro da Era Vargas. Como eu freq\u00fcentava os sebos que existem perto das Arcadas, no centro de S\u00e3o Paulo, garanti que eu possu\u00eda o tesouro. A professora Nanci \u00e9 uma das mais brilhantes e contundentes historiadoras do Brasil (seu livro, jamais publicado devidamente, For\u00e7as Armadas no Brasil Colonial, \u00e9 um cl\u00e1ssico). Vi como, com sua figura pequena e aparentemente fr\u00e1gil, ela esmagou com argumentos os historiadores militares de um semin\u00e1rio, sem confront\u00e1-los, apenas exibindo a for\u00e7a do seu conhecimento. Pois bem: ela fez pouco do que eu disse sobre Jo\u00e3o Alberto. Deves ter o livro do Jo\u00e3o Neves da Fontoura, falou, certa de si. Esse eu tamb\u00e9m tenho, repliquei. Ent\u00e3o me mostre, disse, me desafiando.<\/p>\n<p>SETEMBRINO &#8211; Na aula seguinte levei um xerox vistoso daquelas andan\u00e7as de Jo\u00e3o Alberto, o cara que se despediu da esposa e do filho pequeno em Alegrete, onde estava servindo, no ano de 1924, e foi fazer a revolu\u00e7\u00e3o fora da cidade. Era da Artilharia e apontou o canh\u00e3o para a cidade, tendo o cuidado para que as balas chegassem bem longe da fam\u00edlia. Guardei o xerox na pasta e mostrei o original para ela. Voc\u00ea tem mesmo o livro! exclamou a professora. Voc\u00ea me empreste que eu vou xerocar. N\u00e3o precisa, j\u00e1 xeroquei, disse eu, enquanto pegava de volta o livro precioso. Quanto custou? perguntou, objetiva. Nada, respondi, fazendo pose de cdf. Esse \u00e9 um presente para a senhora. \u00c9 um dos meus orgulhos.<\/p>\n<p>Depois de anos procurando, li, a partir do xerox de um exemplar existente no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP (l\u00e1 tem tudo!), Mem\u00f3rias: apontamentos para a hist\u00f3ria do Brasil, do uruguaianense Marechal Setembrino de Carvalho, o ministro da Guerra da Rep\u00fablica Velha. Sua descri\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia que usou no Contestado \u00e9 uma aula de Hist\u00f3ria Militar. Gosto tamb\u00e9m de livros de viagem que s\u00e3o, praticamente, mem\u00f3rias, como Viagem ao Rio Grande do Sul, do Conde D&#8217;Eu, que fala detalhadamente sobre a paisagem uruguaianense antes da rendi\u00e7\u00e3o da cidade, na guerra do Paraguai. A viagem de navio pela Lagoa dos Patos, depois a p\u00e9 e a cavalo, os detalhes do percurso de Dom Pedro II (que depois usei num poema), tudo \u00e9 extremamente saboroso, pois o munic\u00edpio \u00e9 visto ali de uma maneira \u00fanica, e vale a pena ser lido hoje, especialmente pelos conterr\u00e2neos. Li um livro de viagens de um estrangeiro que visitou S\u00e3o Paulo, de onde tirei a informa\u00e7\u00e3o que no Jaragu\u00e1, nos arredores da cidade, foi descoberto ouro no Brasil pela primeira vez. S\u00e3o informa\u00e7\u00f5es que vemos ali, naquelas p\u00e1ginas antigas, pela primeira vez.<\/p>\n<p>REVOLU\u00c7\u00c3O &#8211; As mem\u00f3rias de Jo\u00e3o Neves, que citei acima, \u00e9 um esplendor: tudo sobre Porto Alegre no inicio do s\u00e9culo vinte e final do 19, quando se formou portentosa gera\u00e7\u00e3o de estadistas. As mem\u00f3rias do Almirante Cust\u00f3dio de Mello s\u00e3o exemplares na descri\u00e7\u00e3o de fatos que eu nunca tinha entendido antes direito. O que houve afinal na d\u00e9cada de noventa do s\u00e9culo 19, quando irrompeu a guerra da degola? Cust\u00f3dio decifra o engima. Um pequeno livro, que me custou uma nota, com fotos sobre a revolu\u00e7\u00e3o de 1924, escrita por um padre, \u00e9 uma das minhas raridades. Sob a metralha, narra\u00e7\u00e3o tendenciosa sobre o mesmo evento, escrito por dois jornalistas, tamb\u00e9m com fotos incr\u00edveis, \u00e9 outro destaque. Um dia ampliei essas fotos e fiz um semin\u00e1rio na Licenciatura da USP sobre essa guerra. Ningu\u00e9m sabia de nada. Todo mundo acha que no Brasil nada acontece, \u00e9 tudo arreglo. Houve guerra adoidado. E as mem\u00f3rias, t\u00e3o esquecidas, daqueles guerreiros, ainda pulsam, como um sol obscuro irradiando um passado pouco compreendido.<\/p>\n<p>LUSARDO &#8211; Faltou dizer o mais importante. Em 1980, quando li primeiro volume de Lusardo, o \u00daltimo Caudilho, de Glauco Carneiro, \u00e9 que comecei a ir atr\u00e1s das mem\u00f3rias. Foi f\u00e1cil: rastreei a bibliografia do livro de Glauco, a quem agradeci anos mais tarde pelas revela\u00e7\u00f5es contidas naquela obra. Para mim, Lusardo inaugura minhas leituras sobre fatos hist\u00f3ricos. Descobri nesse livro o quanto eu nada sabia de Brasil. Glauco d\u00e1 uma bela aula sobre o pa\u00eds na primeira metade do s\u00e9culo 20. \u00c9 claro que quando li Joseph Love em O Regionalismo Ga\u00facho, citado por Glauco, entre outros livros, entendi melhor o processo revolucion\u00e1rio que levou Vargas ao poder. Mas Lusardo \u00e9 um livro fundamental, porque descreve com min\u00facias, num texto maravilhoso, aquele tiroteio todo. Foi muito criticado, claro. Bons escritores, que s\u00e3o grandes rep\u00f3rteres e que se debru\u00e7am sobre vidas valorosas, acabam batendo de frente na parede nua da indiferen\u00e7a e da id\u00e9ia pronta. Mas existem n\u00f3s, os leitores, gratificados por trabalhos como esse, e \u00e9 isso o que conta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho predile\u00e7\u00e3o pelos livros de mem\u00f3rias, sejam quais forem. Meu \u00c9rico Verissimo favorito \u00e9 Solo de Clarineta, apesar de O Continente ocupar o p\u00f3dio das minhas leituras mais importantes. Mas meu favoritismo se inclina menos para os grandes memorialistas. Gosto mesmo \u00e9 de mem\u00f3rias de pessoas que sumiram do mapa da mem\u00f3ria coletiva, principalmente os que enfrentaram alguma guerra. 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