{"id":973,"date":"2009-12-13T23:56:34","date_gmt":"2009-12-14T01:56:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=973"},"modified":"2009-12-21T22:02:39","modified_gmt":"2009-12-22T00:02:39","slug":"a-arte-de-ser-aprovado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-arte-de-ser-aprovado","title":{"rendered":"A ARTE DE SER APROVADO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Aprovar \u00e9 f\u00e1cil: \u00e9 s\u00f3 deixar o sujeito ajoelhado no milho, manter uma cara impass\u00edvel enquanto l\u00ea a mat\u00e9ria, fazer gestos de impaci\u00eancia no uso compulsivo da caneta, dar mais aten\u00e7\u00e3o a qualquer interfer\u00eancia, especialmente se for insignificante e, no final, soltar um quase impercept\u00edvel ok. O d\u00edficil \u00e9 ser aprovado, convencer o editor que o texto que ele tem nas m\u00e3os \u00e9 o menor dos seus pesadelos.<\/p>\n<p>Ser aprovado \u00e9 agir estrategicamente. N\u00e3o basta escrever \u201cbem\u201d. N\u00e3o basta \u201cgostar\u201d de escrever (essas duas coisas brandidas como definitivas para a escolha da profiss\u00e3o). Precisa ser uma esp\u00e9cie de dramaturgo, incorporar linguagens alheias, acertar nos detalhes, encarar cada frase como se fosse a mais importante de todas. N\u00e3o passe ao largo de uma ora\u00e7\u00e3o, mesmo de uma palavra. Cada letra conta. N\u00e3o se concentre no que voc\u00ea tem a dizer, mas no que voc\u00ea est\u00e1 escrevendo de fato.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 m\u00eddia (meio) n\u00e3o \u201cdiz\u201d nada, pelo menos n\u00e3o d\u00e1 bandeira do que est\u00e1 dizendo. Quem \u00e9 m\u00eddia constr\u00f3i arduamente sua ponte, coloca o granito e o asfalto na sua estrada, abre t\u00fanel em montanha, leva saco de sessenta quilos nas costas. Quem \u00e9 m\u00eddia escuta, e escreve n\u00e3o aquilo que escuta, mas o que produz de pensamento orientado pela escolha das palavras.<\/p>\n<p>Pode parecer esot\u00e9rico, mas a advert\u00eancia aqui \u00e9 voc\u00ea n\u00e3o perder tempo com a tralha da mat\u00e9ria, aquilo que deve ser jogado no lixo antes que o editor o fa\u00e7a. Surpreenda-o colocando apenas o essencial. Um truque \u00e9 evitar coisas como \u201cd\u00e3o-conta-de-que\u201d. Como tem gente dando-conta-de-que ultimamente! Acho que nada no mundo d\u00e1-conta-de-que, s\u00f3 nas constru\u00e7\u00f5es med\u00edocres dos textos dispens\u00e1veis e ileg\u00edveis.<\/p>\n<p>Notem como nos t\u00edtulos da imprensa todos \u201csinalizam\u201d. Esse \u00e9 o tipo de verbo recorrente horrendo, porque serve para qualquer coisa. Um verbo verdadeiro, que esteja \u00e0 altura da sua mat\u00e9ria, \u00e9 pepita rara que exige garimpo. Exercite-se na busca da palavra certa. Mas n\u00e3o v\u00e1 usar \u201cexatos\u201d tantos-anos. \u00c9 outra mania, essa de \u201cexatos\u201d. \u00c9 como usar \u201ca rigor\u201d: imediatamente, a mat\u00e9ria ficaria rigorosa, pois n\u00e3o? Para escolher a palavra adequada (n\u00e3o a mais bonita, a mais estilosa, a mais expl\u00edcita do seu infind\u00e1vel e ainda n\u00e3o reconhecido talento), \u00e9 preciso raciocinar escrevendo.<\/p>\n<p>Sabemos o que estamos pensando ou percebendo se conseguirmos formatar o texto certo. O que voc\u00ea cria na linguagem \u00e9 o que voc\u00ea consegue produzir de pensamento. Se voc\u00ea entender realmente o que est\u00e1 produzindo, o leitor ir\u00e1 tamb\u00e9m entender. N\u00e3o transfira enigmas para o leitor. N\u00e3o diga: ah, isso todo mundo sabe. Todo mundo n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Nem o leitor, nem as palavras s\u00e3o seus escravos. As palavras n\u00e3o obedecem ao que voc\u00ea previamente fica matutando. Voc\u00ea tem um insight, uma frase forte de abertura na cabe\u00e7a, ou o perfil do seu esqueleto imantado, a pr\u00e9via estrutura\u00e7\u00e3o do texto vista atrav\u00e9s da n\u00e9voa. Pois coloque no papel, no micro, e deixe que essa id\u00e9ia te leve no colo. Para isso, precisa n\u00e3o s\u00f3 gostar de escrever ou escrever bem. Precisa ser soldado na guerra, aquele recruta faminto e solit\u00e1rio depois do bombardeio, que descobre uma batata num monturo e a devora antes que soe novamente a metralha.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea for um desses, nenhum editor ir\u00e1 desprez\u00e1-lo. Quando voc\u00ea chegar com o texto, ele vai suspirar de al\u00edvio. \u201cEnfim\u201d, pensar\u00e1, \u201calgo public\u00e1vel\u201d. Mas n\u00e3o espere sorrisos dele. Um editor \u00e9, antes de tudo, um general que viu sua tropa morrer em seus bra\u00e7os. Ele sempre espera o pior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser aprovado \u00e9 agir estrategicamente. 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