{"id":975,"date":"2009-12-13T23:57:21","date_gmt":"2009-12-14T01:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/aquele-radio-inesquecivel"},"modified":"2009-12-21T20:44:26","modified_gmt":"2009-12-21T22:44:26","slug":"aquele-radio-inesquecivel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/aquele-radio-inesquecivel","title":{"rendered":"AQUELE R\u00c1DIO INESQUEC\u00cdVEL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Meu maior presente de anivers\u00e1rio, num long\u00ednquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno r\u00e1dio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as v\u00e1lvulas esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade constru\u00edda no meio do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena at\u00e9 chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha voca\u00e7\u00e3o para o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela m\u00fasica.<\/p>\n<p>OURO PURO \u2013 Minhas esta\u00e7\u00f5es favoritas eram: a Bandeirantes, onde pontificavam grandes radialistas, como Walter Silva com seu B\u00f3ssessenta e cinco, que no in\u00edcio da tarde n\u00e3o s\u00f3 tocava m\u00fasica brasileira da melhor qualidade, como trazia grandes int\u00e9rpretes e m\u00fasicos para entrevistas; e a Tupi de S\u00e3o Paulo, onde Fausto Canova me ensinava jazz das 11 \u00e0 meia noite. Mas gostava tamb\u00e9m da Gua\u00edba de Porto Alegre, que n\u00e3o tinha (n\u00e3o sei se agora tem) propaganda gravada e era uma escola de locu\u00e7\u00e3o; a r\u00e1dio Jornal do Brasil, com sua majestade de grande emissora; e a r\u00e1dio S\u00e3o Miguel, de Uruguaiana, que tocava de manh\u00e3 \u00e0 noite s\u00f3 bossa-nova e a partir das 21 horas a maravilhosa m\u00fasica italiana, que sumiu para sempre, levando para o \u00e9ter infinito melodias e cantores e cantoras sem igual. Adorava m\u00fasica francesa, de Edith Piaf a Jacques Brel, m\u00fasica mexicana de verdade (n\u00e3o essa gritaria de hoje, mal assimilada pelos pseudo-sertanejos), boleros, tangos, samba-can\u00e7\u00e3o, m\u00fasica rom\u00e2ntica americana. Havia melodia, ritmo, harmonia. Tudo isso antes da hecatombe mundial da cultura, conhecida como rap, que \u00e9 agress\u00e3o pura e simples, como se o pobre ouvinte precisasse pagar ped\u00e1gio por todas as injusti\u00e7as. Havia a r\u00e1dio Nacional de Montevid\u00e9u, que s\u00f3 tocava m\u00fasica cl\u00e1ssica, a r\u00e1dio General Madariega de Paso de Los Libres, na fronteira da Argentina, que tocava o folclore do pa\u00eds, maravilhoso, especialmente os hil\u00e1rios chamames, dram\u00e1ticos e rascados; a r\u00e1dio Belgrano de Buenos Aires, retrato da civiliza\u00e7\u00e3o do Prata, que estava no auge. Mas havia mais, muito mais.<\/p>\n<p>TODAS AS L\u00cdNGUAS &#8211; Escutava as transmiss\u00f5es em portugu\u00eas da r\u00e1dio Pequim, da r\u00e1dio Moscou e da Voz da Am\u00e9rica, que tinha vozes maravilhosas como Leonardo de Castro e Gaspar Coelho. Havia tamb\u00e9m a BBC de Londres, que gostava de escutar em ingl\u00eas, mas tinha tamb\u00e9m transmiss\u00e3o em l\u00edngua p\u00e1tria. As ondas curtas eram maravilhosas, o sinal ficava claro como o dia, de repente sumia, para voltar da\u00ed a segundos. Eram assim as transmiss\u00f5es esportivas. Na minha cidade, escut\u00e1vamos a Cadeia Verde-amarela Norte-sul do Pa\u00eds, com Fiori Gigliotti, da Bandeirantes, mas t\u00ednhamos tamb\u00e9m radialistas maravilhosos, como Mario Pinto (cronista da cidade), Mario Dino Papal\u00e9o (recentemente falecido, com todas as merecidas homenagens), Degrazia (o maior narrador esportivo do mundo) e o excepcional Jo\u00e3o Carlos Belmonte, que ganhou pr\u00eamios de melhor rep\u00f3rter de campo em tr\u00eas copas do mundo trabalhando para a Gua\u00edba (sim, todos s\u00e3o de Uruguaiana). Esses radialistas da terra faziam parte da din\u00e2mica Radio Charrua, totalmente baseada na cl\u00e1ssica Radio Nacional, do Rio , inclusive com programa de audit\u00f3rio e produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de radionovelas. Posso garantir: o jogo de futebol era melhor escutado do que visto hoje, quando pernas de pau judiam da bola, como aconteceu nos falsos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Os meninos dos anos 40 e 50 (\u00e9poca do nosso estadista maior, Get\u00falio Vargas), aprendiam futebol na escola, na rua, no campinho da esquina. T\u00e3o simples assim. Sobrava craque para todo lado. Para se destacar, s\u00f3 sendo um Pel\u00e9. Garanto que o primeiro time do Col\u00e9gio Santana, com Abeguar \u00e0 frente, daria de 10 a zero no atual Corinthians. Sem falar em Paret (do EC Uruguaiana) Xirunga (do S\u00e1 Viana), Nick (do Ferrocarril), Altamir (que s\u00f3 tirava a bola da \u00e1rea de puxeta, com estilo) Ademir (irm\u00e3o de Abeguar) e os grandes goleiros Barbosa (que s\u00f3 dava voadora) e Nicanor (que um dia adiantou-se demais, mas voou de costas, virando-se no ar para cair com a bola encaixada). Esse era o Brasil de Get\u00falio Vargas, o estadista mais caluniado de todos os tempos.<\/p>\n<p>JOGOS \u2013 Naquela \u00e9poca, eu me recostava na cadeira pregui\u00e7osa para olhar o c\u00e9u, contar sat\u00e9lites que passavam e ver estrelas cadentes, al\u00e9m do lento subir e descer da lua. Todos na minha casa tinham direito a uma cadeira pregui\u00e7osa. Apag\u00e1vamos as luzes para ver melhor as estrelas (isso depois de um crep\u00fasculo no rio Uruguai encantador) e lig\u00e1vamos a eletrola Hi-fi da sala, onde toc\u00e1vamos nossos discos, de Luiz Gonzaga a Liberace, de Os Gaud\u00e9rios a Trio Los Panchos (\u201cPasar\u00e1n m\u00e1s de mil a\u00f1os, muchos m\u00e1s\u201d). Hoje, quando o grande compositor Jos\u00e9 Gomes, arranjador e maestro, que ajudou a fazer de Os Gaud\u00e9rios um dos maiores fen\u00f4menos musicais do Brasil, provocando uma revolu\u00e7\u00e3o que infelizmente n\u00e3o teve continuidade, coloca m\u00fasica em dois poemas meus, fico pensando na magia no mundo.<\/p>\n<p>Escrevendo para nosso conselheiro editorial Moacir Japiassu, abordei um tema muito comum naquela cal\u00e7ada, a brincadeira do diabo rengo. Rengo, naquelas lonjuras, quer dizer coxo. A brincadeira se dava assim: uma fileira de crian\u00e7as tentava passar para o outro lado (da rua, da cal\u00e7ada) mas tinha que driblar o diabo rengo, ou seja, aquele outro que, com uma perna levantada (para aumentar a dificuldade e portanto, a gra\u00e7a) tentava pelo menos tocar em algum dos passantes para livrar-se da maldi\u00e7\u00e3o e transferir para o atingido o papel de diabo rengo. Quando conseguia, o antigo diabo ent\u00e3o somava-se aos felizes cruzadores, que de um lado para outro divertiam-se em n\u00e3o ser o condenado pegador. A complexidade de uma brincadeira t\u00e3o simples \u00e9 arrebatadora. H\u00e1 uma condena\u00e7\u00e3o no meio do caminho na figura de um dem\u00f4nio. Mas este tem uma desvantagem: n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar ningu\u00e9m se n\u00e3o se esfor\u00e7ar muito, pois tem uma s\u00f3 perna funcionando. Ou seja, s\u00f3 se a pessoa que tenta chegar ao outro lado da vida prevaricar muito ser\u00e1 alcan\u00e7ado por um pobre diabo. Se cair na armadilha, por distra\u00e7\u00e3o, falta de velocidade ou de estrat\u00e9gia, assumir\u00e1 toda a heran\u00e7a bandida. Ser\u00e1 sua vez de tentar agarrar um inocente para conseguir sair do seu inferno.<\/p>\n<p>O que espanta \u00e9 a radicalidade do jogo. N\u00e3o existe duplo papel simult\u00e2neo dos figurantes: ou voc\u00ea est\u00e1 livre, ou est\u00e1 condenado. Se estiver livre, precisa correr, driblar, aproveitar as brechas para poder passar. Se n\u00e3o for ladino o suficiente, ou corajoso, ser\u00e1 agarrado pela terr\u00edvel maldi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ao se transformar no indigitado, livrar\u00e1 o outro da sua impostura, libertando-o para a inoc\u00eancia. H\u00e1 queda, mas h\u00e1 perd\u00e3o. H\u00e1 rod\u00edzio democr\u00e1tico de pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Simplesmente uma maravilha. Um verso de um poema meu, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 como enganar o diabo rengo&#8221; aborda essa maldi\u00e7\u00e3o: h\u00e1 tempos, fomos condenados, n\u00e3o conseguimos passar para o outro lado, cumprir nosso destino. S\u00f3 h\u00e1 um jeito de mudar a situa\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s sabemos qual \u00e9. Sendo o mais eficiente cruzador, o mais bravo, o mais clarividente, o mais lutador. E o que \u00e9 mais importante: contando com a solidariedade alheia, pois se n\u00e3o houver amigos para distrair o perigo, n\u00e3o h\u00e1 como enganar o diabo rengo. Depois que voc\u00ea cruza, voc\u00ea precisa voltar de onde partiu e enfrentar de novo o problema. A vida \u00e9 feita dessas corridas de um lado a outro, junto com os companheiros, a fam\u00edlia, vencendo a sombra que se atravessa. Naquele tempo, a brincadeira tinha hora de acabar. Hoje, n\u00e3o temos a mesma sorte: n\u00e3o h\u00e1 recreio no acampamento de guerra. E o que \u00e9 mais grave: n\u00e3o dispomos mais de todo o tempo do mundo. Perdemos o que \u00e9 extremamente valioso e insubstitu\u00edvel: a eternidade nas nossas vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu maior presente de anivers\u00e1rio, num long\u00ednquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno r\u00e1dio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. 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