{"id":976,"date":"2009-12-13T23:58:15","date_gmt":"2009-12-14T01:58:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=976"},"modified":"2009-12-21T20:10:10","modified_gmt":"2009-12-21T22:10:10","slug":"o-esplendor-de-cada-geracao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-esplendor-de-cada-geracao","title":{"rendered":"O ESPLENDOR DE CADA GERA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe: cada pessoa parte do zero em dire\u00e7\u00e3o ao seu destino. O que temos no acervo cultural \u00e9 a soma do esplendor de cada gera\u00e7\u00e3o. Uma jamais compar\u00e1vel a outra, formando, cada uma, realidades incomensur\u00e1veis. O que a humanidade produz circunscrita nos limites do tempo atinge ciclicamente o infinito. Nesse est\u00e1gio, n\u00e3o existe supera\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. \u00c9 momento \u00fanico, que encanta o futuro. \u00c9 o que acontece com Candeia, mestre da m\u00fasica popular e nome, claro, fora do circuito atual da mediocridade midi\u00e1tica no poder.<\/p>\n<p>DIA DE GRA\u00c7A &#8211; O disco maior da m\u00fasica brasileira \u00e9 Ax\u00e9, de Antonio Candeia. Ali est\u00e3o reunidas as linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro j\u00e1 produziu. Com uma diferen\u00e7a fundamental: tudo, desde as m\u00fasicas baseadas em bord\u00f5es de rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas cl\u00e1ssicos como a trai\u00e7\u00e3o conjugal, at\u00e9 a sofisticada obra-prima Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a den\u00fancia, a conscientiza\u00e7\u00e3o, a indigna\u00e7\u00e3o embalada no talento de mestre. Candeia usa a express\u00e3o do povo sofrido para apontar-lhe um rumo.<\/p>\n<p>Em Dia de gra\u00e7a, ele chama a aten\u00e7\u00e3o para a ilus\u00e3o do Carnaval, a necessidade de o povo se unir e se fortalecer para superar a mis\u00e9ria. \u201cA\u00ed, ent\u00e3o, jamais tu voltar\u00e1s ao barrac\u00e3o\u201d. Com melodias inesquec\u00edveis e letras primorosas como Pintura sem arte, ou o inacredit\u00e1vel Ouro des\u00e7a do seu trono (com Paulo Portela), o mestre deixa um legado de grandeza sem sair da sua roda, sem abandonar o seu mundo, sem fazer a m\u00ednima concess\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o se submete ao panfleto, apesar de bater o disco todo na injusti\u00e7a. Por isso o disco desemboca no deboche total, no magn\u00edfico Beberr\u00e3o (Aniceto do Imp\u00e9rio-Mulequinho), que tem rimas maravilhosas, como pode-se ouvir na sucess\u00e3o de frases que pontuam o bord\u00e3o \u201cvoc\u00ea j\u00e1 come\u00e7a a beber\u201d: no domingo de manh\u00e3\/ com Manuel Bam-bam-bam\/ n\u00e3o est\u00e1s com a cuca s\u00e3\/ vai te deitar no div\u00e3. Correndo junto, existem ainda outras j\u00f3ias, como Vivo isolado do mundo (Alcides), que diz: \u201ceu vivia\/isolado do mundo\/ eu era um vaganbundo\/ sem ter um amor\/ hoje em dia\/ eu me regenerei\/ sou um chefe de fam\u00edlia\/ com a mulher que eu amei\u201d. E ainda Ou\u00e7o uma voz (sobre texto de Nelson Amorim), Vem amenizar (com Waldir 59), Mil r\u00e9is, Nova escola, O invocado (Casquinha), Maria Madalena da Portela (Aniceto do Imp\u00e9rio). Pe\u00e7a para ouvir Candeia. Ou\u00e7a Candeia.<\/p>\n<p>O disco est\u00e1 tamb\u00e9m reproduzido na cole\u00e7\u00e3o Mestres da MPB, da Warner, projeto de Carlos Alberto Sion e T\u00e1rik de Souza e dire\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de S\u00e9rgio Bittencourt. Est\u00e1 na minha casa h\u00e1 muitos anos. Vivo desse tipo de obra, dessa inspira\u00e7\u00e3o que nos alimenta, dessa base que segura o Brasil que jamais entenderemos o quanto \u00e9 imenso.<\/p>\n<p>QUILOMBO &#8211; A genial m\u00fasica que citei acima como obra-prima tem letra do professor Nei Lopes, compositor de primeiro time, intelectual do Brasil superior: \u201cQuilombo\/ pesquisou suas ra\u00edzes\/ dos momentos mais felizes\/ da sua hist\u00f3ria singular\/ e hoje\/ vem mostrar sua pesquisa\/ na ocasi\u00e3o precisa\/ em forma de arte popular\/ h\u00e1 mais\/ h\u00e1 mais de 40 mil anos atr\u00e1s&#8230;\u201d Todo desfile de carnaval deveria ter uma representa\u00e7\u00e3o dessa m\u00fasica. J\u00e1 a imaginei de mil formas. \u00c9 absolutamente impressionante. Quem n\u00e3o ouvir essa m\u00fasica em poucos dias me deve uma.<\/p>\n<p>Um pequeno perfil do grande xar\u00e1, tirado da rede (http:\/\/www.samba-choro.com.br\/artistas\/neilopes): \u201cNei Lopes \u00e9 autor e int\u00e9rprete de m\u00fasica popular, nasceu no sub\u00farbio de Iraj\u00e1, Rio de Janeiro, RJ, em 9 de maio de 1942. Bacharel pela Faculdade Nacional de Direito da antiga Universidade do Brasil, no in\u00edcio dos anos 70 abandonou a rec\u00e9m-iniciada carreira de advogado para dedicar-se \u00e0 m\u00fasica e \u00e0 literatura. Compositor profissional desde 1972, notabilizou-se principalmente pela parceria com Wilson Moreira e pela obra gravada por quase todos os grandes int\u00e9rpretes do samba tradicional.<\/p>\n<p>\u00c9 escritor de vasta obra toda centrada na tem\u00e1tica afro-brasileira e compreendendo ensaios como &#8220;O Samba, na Realidade&#8221; (1981), &#8220;Bantos, Mal\u00eas e Identidade Negra&#8221; (1988), &#8220;O Negro no Rio de Janeiro e Sua Tradi\u00e7\u00e3o Musical&#8221; (1992), &#8220;Z\u00e9 K\u00e9ti, O Samba Sem Senhor&#8221; (2000), &#8220;Loguned\u00e9; santo menino que velho respeita&#8221;(2000), al\u00e9m de um &#8220;Dicion\u00e1rio Banto do Brasil&#8221; (1996) e um volume de poemas &#8220;Incurs\u00f5es sobre a Pele&#8221; , tamb\u00e9m de 1996, entre outras publica\u00e7\u00f5es. Desde 1995, Nei trabalha na elabora\u00e7\u00e3o da &#8220;Enciclop\u00e9dia Brasileira da Di\u00e1spora Africana&#8221;, sua obra mais ambiciosa, a qual contempla centenas de verbetes sobre o universo do samba e do choro.<\/p>\n<p>QUINTANA PARA SEMPRE &#8211; Candeia, Nei Lopes: insuper\u00e1veis. E gera\u00e7\u00e3o aqui nada tem a ver com idade. Tem a ver com conv\u00edvio, com o verbo compartilhar: repartir o privil\u00e9gio de termos, numa mesma \u00e9poca, a na\u00e7\u00e3o, a terra, a m\u00fasica, a poesia. Sem isso, nada somos. Sobre evolu\u00e7\u00e3o, lembro Mario Quintana. Ele tinha um ba\u00fa cheio de poemas. Tiraram apenas os sonetos para fazer seu primeiro livro. Depois, desencavaram os de verso livre. Os cr\u00edticos tiveram uma ilumina\u00e7\u00e3o: ele evoluiu! Ao que o insuper\u00e1vel poeta respondeu: \u201cJamais evolu\u00ed. Sempre fui eu mesmo.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O disco maior da m\u00fasica brasileira \u00e9 Ax\u00e9, de Antonio Candeia. Ali est\u00e3o reunidas as linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro j\u00e1 produziu. Com uma diferen\u00e7a fundamental: tudo, desde as m\u00fasicas baseadas em bord\u00f5es de rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas cl\u00e1ssicos como a trai\u00e7\u00e3o conjugal, at\u00e9 a sofisticada obra-prima Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a den\u00fancia, a conscientiza\u00e7\u00e3o, a indigna\u00e7\u00e3o embalada no talento de mestre. 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