{"id":978,"date":"2009-12-14T00:02:03","date_gmt":"2009-12-14T02:02:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=978"},"modified":"2012-02-17T16:55:18","modified_gmt":"2012-02-17T18:55:18","slug":"babel-de-inarritu-e-arriaga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/babel-de-inarritu-e-arriaga","title":{"rendered":"BABEL, DE I\u00d1\u00c1RRITU E ARRIAGA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A ind\u00fastria do cinema nos confunde. A maioria de suas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o asneiras, ditadas pelo marketing criminoso. Filmes que podem ser sintetizados pelos protagonistas andando ou correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s c\u00e2maras enquanto, atr\u00e1s deles, uma barreira de fogo inunda a tela. Bobagens fruto da mente crua dos produtores, que apostam na imbecilidade do p\u00fablico. Depois v\u00eam os filmes encomendados. V\u00e1rios lobbies participam desse vetor cinematogr\u00e1fico: a CIA, o FBI, o servi\u00e7o secreto americano, a Marinha, o Ex\u00e9rcito, os advogados etc. pagam por fora para que atores, diretores e roteiristas obede\u00e7am (\u00e0s vezes, convictamente) aos ditames das corpora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 teoria da conspira\u00e7\u00e3o: veja como tremem de emo\u00e7\u00e3o os atores encarnando a repress\u00e3o do Imp\u00e9rio. A emo\u00e7\u00e3o vem da grana preta que levam, n\u00e3o das convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Para se opor a essas barbaridades, nasceu e cresceu o cinema alternativo, que se alimenta do experimentalismo, dos grandes mitos do cinema do passado e da necessidade de romper barreiras econ\u00f4micas e pol\u00edticas para chegar ao p\u00fablico. Quando o cinema \u00e9 de Alejandro Gonz\u00e1les-I\u00f1\u00e1rritu e do roteirista Guillermo Arriaga, que tinham j\u00e1 nos dado dois grandes filmes, Amores brutos e 21 Gramas, o alternativo migra para a grande ind\u00fastria. Os dois g\u00eanios mexicanos chegam agora ao absoluto esplendor com Babel, o filme que n\u00e3o cabe num resenha, pois ousa participar da espiral de forma\u00e7\u00e3o da obra humana que procura atingir a a divindade. Soa exagerado? Sim, ainda mais quando se sabe que tem Brad Pitt na parada.<\/p>\n<p>Tudo n\u00e3o passaria de uma enorme campanha publicit\u00e1ria a favor de grandes astros, grandes produ\u00e7\u00f5es, grandes coisas. Mas n\u00e3o \u00e9. Trata-se de uma obra-prima. \u00c9 um filme sobre pais e filhos, um mergulho radical no mundo reunido na mesma torre, a ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o, que enfeixa poderes e exclui povos e gera\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea j\u00e1 viu, fora da pornografia, algum filme s\u00e9rio sobre adolescentes japonesas surda-mudas com grande gana sexual? Ou um filme em que essas adolescentes est\u00e3o ligadas a um pequeno epis\u00f3dio no interiorz\u00e3o do Marrocos que acaba virando um case internacional? Duvido que voc\u00ea tenha visto um casamento mexicano, testemunhado por duas crian\u00e7as americanas, com desfecho tr\u00e1gico no meio do deserto da fronteira, do jeito que \u00e9 narrado pela dupla de g\u00eanios.<\/p>\n<p>Pois esses epis\u00f3dios est\u00e3o ligados na j\u00e1 c\u00e9lebre arte dos dois de cruzar as seq\u00fc\u00eancias de maneira demolidora, para que o espectador n\u00e3o se acostume \u00e0 linearidade narrativa, que no fundo n\u00e3o passa de imposi\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e comportamentos. Tem muita gente metida a espertinha fazendo estripulias nas c\u00e2maras e tentando ser o que n\u00e3o s\u00e3o, achando que experimentam, mas n\u00e3o passam de redundantes. Um filme burro que vi esses dias trouxe o diretor D.J. Caruso se definindo como um misto de Hitchcock com John Cassavetes. Cate-se, bobalh\u00e3o. I\u00f1arritu e Arriaga, ao contr\u00e1rio, t\u00eam pleno dom\u00ednio dos seus of\u00edcios.<\/p>\n<p>Eles conseguem ser cada vez mais contundentes na montagem narrativa. Desta vez, em vez do cruzamento ca\u00f3tico de situa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 uma composi\u00e7\u00e3o seq\u00fcencial definida por cenas chaves, que delimitam os trechos, ou cap\u00edtulos, da hist\u00f3ria. A partir desse tipo de cena, se desenrola em flash black, os acontecimentos que des\u00e1guam nela. Isso \u00e9 feito de maneira segura, levando o espectador \u00e0 complexidade das rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, governos, povos e na\u00e7\u00f5es. O detalhe \u00e9 que a dupla cinematogr\u00e1fica n\u00e3o aposta no tiroteio desenfreado, nos personagens irreais de valent\u00f5es e covardinhos. S\u00e3o pessoas comuns envolvidas em detalhes que se apresentam, por for\u00e7a das id\u00e9ias fixas e dos interesses em jogo, como grandes trapalhadas globais, capazes de gerar ainda mais injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 absolutamente tocante a interpreta\u00e7\u00e3o dos atores. Brad Pitt, um quarent\u00e3o detonado, precocemente envelhecido, faz o pai arrependido de ter deixado as crian\u00e7as em casa enquanto procurava uma sa\u00edda conjugal com sua esposa, interpretada por Cate Blanchet. Esta, \u00e9 o retrato do desespero diante do marido e do mundo. Rinko Kikuchi, a adolescente em crise, e Adriana Barraza, a bab\u00e1 mexicana que cruza a fronteira carregando as crian\u00e7as americanas, e nisso encontra sua desgra\u00e7a, est\u00e3o extraordin\u00e1rias em seus pap\u00e9is. Todo mundo foi indicado para o Oscar. Deveriam ter levado.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio marroquino \u00e9 b\u00edblico: l\u00e1 entram Abrah\u00e3o (o sacrif\u00edcio do filho), Caim e Abel (a maldi\u00e7\u00e3o do favorito), incesto, persegui\u00e7\u00e3o, fuga. O garoto que apontou o rifle contra os turistas, de joelhos, diante do policial, confessando sua culpa, \u00e9 um dos grandes momentos cinematogr\u00e1ficos da atualidade. Veja Babel, do cineasta In\u00e3rritu e do roteirista Arriaga. \u00c9 um filme que faz falar as pedras.<\/p>\n<p>&#8220;Se queres ser compreendido, escuta&#8221;, diz I\u00f1\u00e1rritu no final. Ele dedica o filme a seus dois filhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Babel \u00e9 um filme sobre pais e filhos, um mergulho radical no mundo reunido na mesma torre, a ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o, que enfeixa poderes e exclui povos e gera\u00e7\u00f5es. O cineasta Alejandro Gonz\u00e1les-I\u00f1\u00e1rritu e o roteirista Guillermo Arriaga conseguem ser cada vez mais contundentes na montagem narrativa. Desta vez, em vez do cruzamento ca\u00f3tico de situa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 uma composi\u00e7\u00e3o seq\u00fcencial definida por cenas chaves, que delimitam os trechos, ou cap\u00edtulos, da hist\u00f3ria. A partir desse tipo de cena, se desenrola em flash black, os acontecimentos que des\u00e1guam nela. Isso \u00e9 feito de maneira segura, levando o espectador \u00e0 complexidade das rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, governos, povos e na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/978"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=978"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3460,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions\/3460"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}