{"id":984,"date":"2009-12-14T00:46:55","date_gmt":"2009-12-14T02:46:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=984"},"modified":"2009-12-21T22:23:06","modified_gmt":"2009-12-22T00:23:06","slug":"a-cidade-sem-rosto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-cidade-sem-rosto","title":{"rendered":"A CIDADE SEM ROSTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Revisitei a grande mancha urbana sobre o pa\u00eds e o planeta. Criaturas sem rosto, ocultas sob camadas de vidros escuros, disputavam a \u00faltima fronteira, o ex\u00edguo espa\u00e7o dispon\u00edvel das ruas e avenidas. H\u00e1 um esfor\u00e7o para diminuir o massacre visual promovido pela f\u00faria dos mercados, mas permanece intacta a brutal indiferen\u00e7a de quem se acostumou \u00e0 barb\u00e1rie. Relembro a visita que fiz ao poeta Mario Chamie, o poeta de \u201cLavra, Lavra\u201d, ent\u00e3o secret\u00e1rio da Cultura da Metr\u00f3polis. Ele me explicou que a cidade de Mario de Andrade \u00e9 uma pequena parte da megal\u00f3pole, que agora se estende ao infinito, especialmente para os que chegam de fora e se assombram com o que v\u00eaem.<\/p>\n<p>Minha mem\u00f3ria chega at\u00e9 um pedacinho min\u00fasculo da Mata Atl\u00e2ntica, onde se refugia Lina Bo Bardi, a arquiteta italiana que veio primeiro para Salvador, onde plantou a semente da vanguarda baiana junto com um grupo de pensadores e artistas. Ela toma um licor em min\u00fasculo copo e me conta como convenceu o governador Ademar de Barros que ela era a pessoa indicada para projetar o pr\u00e9dio do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, a inveross\u00edmel estrutura mais leve do que o ar implantada na Avenida Paulista. Lina fala sobre o antigo Trianon, lugar de encontros da capital do Modernismo, onde fez furor com um vestido que era pura performance.<\/p>\n<p>Palmilho na lembran\u00e7a a espessa nuvem de fuligem que eu atravessava diariamente para chegar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o da Folha de S. Paulo, onde trabalhava. Por muitos meses me perdi naquelas ruas do centro, tomada ent\u00e3o pela falta de identidade imposta, o barulho em meio a pr\u00e9dios antigos e arrojados. Caminhava acompanhado por jornalistas e escritores, todos te\u00f3ricos da cidade que nos envolvia como um monstro sem nome. Alguns celebravam o horror, outros se despejavam sobre o rio Tiet\u00ea. S\u00f3 quando vi o Tamanduate\u00ed pela primeira vez descobri de verdade o crime cometido contra a bacia hidrogr\u00e1fica que sepultou fontes e rios. O poderoso rio, em tempos de enchente, vibrava suas \u00e1guas tormentosas sobre o tr\u00e2nsito em p\u00e2nico. Era um pedido de socorro, que se perdia em meio ao rugir de motores.<\/p>\n<p>Admireava os moradores mais antigos, que viam l\u00f3gica no labirinto de concreto. Como poderiam se orientar em pleno caos? Vindo de uma cidade em linha reta, uma esp\u00e9cie de resposta ao pampa ondulado, e de outra cidade-ilha em curvas, resposta ao horizonte do mar que a cerca, n\u00e3o conseguia atinar no conceito que fazia de S\u00e3o Paulo um enigma, e mais tarde um pesadelo.<\/p>\n<p>Mas l\u00e1, no cora\u00e7\u00e3o urbano disforme, encontrei a for\u00e7a adormecida que me guiou para um conv\u00edvio com mentes privilegiadas. Cercado por pessoas que faziam parte de um sonho maior, o do pa\u00eds que precisa transcender suas origens, descobri que n\u00e3o se pode brincar de viver, nem adiar a luta que enfim nos alcan\u00e7a, em qualquer quadra ou idade.<\/p>\n<p>Quando chegou o tempo de abandonar tudo, para reencontrar o que perdi nesse esfor\u00e7o, vi o quanto tinha me transformado e o quanto precisava remar de novo em dire\u00e7\u00e3o ao que me formara. O pa\u00eds, em sua grandeza, oferece todas as situa\u00e7\u00f5es para que a cidadania se consuma e o espanto de permanecer na terra alce v\u00f4o.<\/p>\n<p>Revisitei a ocupa\u00e7\u00e3o desordenada que n\u00e3o tem mais rem\u00e9dio. Vislumbrei as rela\u00e7\u00f5es humanas endurecidas, mas conservo em mim as amizades s\u00f3lidas que foram constru\u00eddas em d\u00e9cadas de determina\u00e7\u00e3o. Quando algu\u00e9m muito mo\u00e7o diz que vai migrar para l\u00e1, tor\u00e7o por ele. Quero que cumpra seu destino passando pela Meca do pa\u00eds exagerado, a na\u00e7\u00e3o que nos marca de maneira definitiva. Em qualquer pa\u00eds por onde passarmos, seremos identificados pelo andar, pela voz, pelo olhar. Somos uma ra\u00e7a de sobreviventes. Viemos do Brasil profundo, temperados pela viv\u00eancia da cidade que n\u00e3o nos d\u00e1 tr\u00e9gua.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o fazemos parte do jogo bruto da cidade esmagadora. Talvez nunca tenhamos vivido realmente l\u00e1. De tudo o que S\u00e3o Paulo oferece, selecionamos apenas uma por\u00e7\u00e3o, a mais pr\u00f3xima poss\u00edvel do que estamos acostumados desde o in\u00edcio dos tempos. Foi assim comigo. Minha S\u00e3o Paulo ia do Butant\u00e3 a Cerqueira C\u00e9sar, o bairro inventado pelo pai de Oswald de Andrade. Com a fortuna arrecada pela fam\u00edlia, o poeta radical encontrou tempo para mudar a literatura. Hoje seu esp\u00f3lio se espalha e se perde, enquanto aguardamos a reden\u00e7\u00e3o que, parece, n\u00e3o chegar\u00e1 nunca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revisitei a grande mancha urbana sobre o pa\u00eds e o planeta. Criaturas sem rosto, ocultas sob camadas de vidros escuros, disputavam a \u00faltima fronteira, o ex\u00edguo espa\u00e7o dispon\u00edvel das ruas e avenidas. H\u00e1 um esfor\u00e7o para diminuir o massacre visual promovido pela f\u00faria dos mercados, mas permanece intacta a brutal indiferen\u00e7a de quem se acostumou \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/984"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=984"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/984\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1711,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/984\/revisions\/1711"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}