{"id":988,"date":"2009-12-14T00:48:26","date_gmt":"2009-12-14T02:48:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/um-contista-no-limite"},"modified":"2009-12-21T21:44:38","modified_gmt":"2009-12-21T23:44:38","slug":"um-contista-no-limite","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/um-contista-no-limite","title":{"rendered":"UM CONTISTA NO LIMITE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Ricardo Per\u00f3 Job apresenta seus personagens em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es limite: o velho que recebe uma indeniza\u00e7\u00e3o ao ser dispensado das suas fun\u00e7\u00f5es na fazenda onde dedicou toda a vida; o produtor rural arruinado que encontra seu desfecho tr\u00e1gico num quarto sujo de hotel; o travesti apaixonado que se mata por desilus\u00e3o amorosa; o guerreiro que poupa o inimigo porque este tinha a idade do seu filho, e acaba sendo v\u00edtima de sua pr\u00f3pria decis\u00e3o; entre outras situa\u00e7\u00f5es, todas voltadas para o momento terminal de vidas endurecidas por uma lei oculta, que o autor n\u00e3o tenta decifrar, pois prefere report\u00e1-la com a seguran\u00e7a dos escritores maduros.<\/p>\n<p>Seu livro, A sereia do luminoso, ainda in\u00e9dito, \u00e9 um invent\u00e1rio dessa vida que reproduz, no espa\u00e7o dom\u00e9stico ou profissional, as grandes trag\u00e9dias nacionais. \u00c9 um livro tr\u00e1gico, que n\u00e3o abre m\u00e3o da frieza do relato. A narrativa n\u00e3o lamenta a prociss\u00e3o funer\u00e1ria de elementos postos \u00e0 margem do que \u00e9 considerado normal. Prefere construir uma estante de fatos dolorosos, representados n\u00e3o s\u00f3 pelo perfil de exist\u00eancias jogadas no lixo, mas tamb\u00e9m pela disposi\u00e7\u00e3o dos m\u00f3veis, a descri\u00e7\u00e3o dos ambientes na cidade e no campo, as fachadas decadentes. As pessoas se defrontam com o Mal provocado em suas vidas e o impasse se reflete no abajur, no luminoso do cabar\u00e9, na festa corporativa. Tudo comp\u00f5e uma n\u00e3o-sociedade, que n\u00e3o avan\u00e7a porque est\u00e1 travada em suas fun\u00e7\u00f5es fundamentais, especialmente a de cumprir destinos.<\/p>\n<p>Sem iludir-se com o buraco onde estamos metidos, Ricardo prefere a lucidez pautada pela parcim\u00f4nia. Nada explode em seus contos. Mesmo quando h\u00e1 suic\u00eddio ou despedida, as palavras que usa discorrem com solidez. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos escutando um narrador veterano a contar causos que viu ou ouviu falar. Silenciamos, e dever\u00edamos aguardar a \u00e1gua que sacia nosso v\u00edcio, o final feliz. Mas parece que a roda prefere mesmo esse fluir de mis\u00e9rias, para justificar o pr\u00f3prio sofrimento. Saber que a dor impera na vida alheia \u00e9 uma esp\u00e9cie de conforto m\u00f3rbido, que nos mant\u00e9m grudados na leitura.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o parece ser esse o objetivo do autor. O que ele consegue \u00e9 revelar uma por\u00e7\u00e3o do Brasil profundo, numa \u00e1rea determinada, a fronteira ( representa\u00e7\u00e3o do limite), que nada tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o com estrangeiros, mas com esse cruzar permanente de umbrais cada vez mais assustadores. O cabar\u00e9, a guerra, a casa da inf\u00e2ncia, a rela\u00e7\u00e3o complicada entre v\u00e1rias prefer\u00eancias sexuais s\u00e3o o mural humano que Ricardo Per\u00f3 Job mostra com a seguran\u00e7a de quem escolheu um rumo para seu of\u00edcio e nele se aprofundou como quem planta para o futuro.<\/p>\n<p>Pois, se os seus contos podem ser comparados a uma horta muito bem cuidada, a verdade \u00e9 que Ricardo aspira ao latif\u00fandio produtivo. Ele tem o manejo do produtor atento ao detalhe, mas aposta alto na sua vasta semeadura. \u00c9 uma literatura ambiciosa, disfar\u00e7ada por tr\u00e1s de um cap\u00e3o do mato. L\u00e1 se esconde um atirador primoroso, que mira o leitor desde a primeira frase. N\u00e3o sabemos o que nos espera. Mas fatalmente ser\u00e1 o estampido seco de uma tocaia, a do autor ainda submerso, que se manifesta pelo tiro quando tudo sugeria mansid\u00e3o e quietude. A bala atinge o alvo: seu clar\u00e3o de tempestade mostra o ermo de um pa\u00eds envolto na penumbra. Ela \u00e9 capaz de resgatar a narrativa num galp\u00e3o silencioso, criada na v\u00e9spera de uma guerra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Per\u00f3 Job apresenta seus personagens do livro ainda in\u00e9dito &#8220;A sereia do luminoso&#8221; em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es limite: o velho que recebe uma indeniza\u00e7\u00e3o ao ser dispensado das suas fun\u00e7\u00f5es na fazenda onde dedicou toda a vida; o produtor rural arruinado que encontra seu desfecho tr\u00e1gico num quarto sujo de hotel; o travesti apaixonado que se mata por desilus\u00e3o amorosa; o guerreiro que poupa o inimigo porque este tinha a idade do seu filho, e acaba sendo v\u00edtima de sua pr\u00f3pria decis\u00e3o; entre outras situa\u00e7\u00f5es, todas voltadas para o momento terminal de vidas endurecidas por uma lei oculta, que o autor n\u00e3o tenta decifrar, pois prefere report\u00e1-la com a seguran\u00e7a dos escritores maduros.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/988"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=988"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/988\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1643,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/988\/revisions\/1643"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=988"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}