{"id":989,"date":"2009-12-14T01:17:38","date_gmt":"2009-12-14T03:17:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=989"},"modified":"2009-12-21T22:24:05","modified_gmt":"2009-12-22T00:24:05","slug":"essa-coisa-de-ler","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/essa-coisa-de-ler","title":{"rendered":"ESSA COISA DE LER"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O livro leva o leitor ao teatro, ao cinema, ao circo, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Se voc\u00ea arma o circo para incentivar a leitura, \u00e9 mais prov\u00e1vel que o circo saia ganhando. Quase toda a produ\u00e7\u00e3o audiovisual de qualidade \u00e9 produzida a partir de livros. \u00c9 lugar comum dizer que a palavra escrita costuma superar a obra transformada em imagens, pois, na maioria dos casos, n\u00e3o h\u00e1 substituto para a rela\u00e7\u00e3o entre a leitura e o autor. A n\u00e3o ser, claro, que Richard Brooks resolva filmar Lord Jim, de Joseph Conrad.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m implico com o caminho suave de pegar pela m\u00e3o a crian\u00e7a at\u00e9 a intensidade maior de uma biblioteca. N\u00e3o que o ideal seja mergulhar \u00e0 for\u00e7a o pimpolho nas p\u00e1ginas \u00e1rduas de uma narrativa. Isso provoca o deserto, basta ver no Orkut a quantidade de comunidades dedicadas ao \u00f3dio a livros obrigat\u00f3rios da escola. Mas h\u00e1 um equ\u00edvoco primordial. Voc\u00ea n\u00e3o acostuma algu\u00e9m a ler superficialidades para depois cobrar complexidades. \u00c9 melhor apostar no taco do futuro leitor: ofere\u00e7a um autor completo e deixe que as descobertas nas\u00e7am naturalmente, assim como aconteceu com voc\u00ea, lembra-se?<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o se pode ter esperan\u00e7as num livro publicado em corpo min\u00fasculo de letra, o que o torna ileg\u00edvel para qualquer idade. Ou sem margens, o que evita a sintonia entre a m\u00e3o que segura o trabalho para o conforto dos olhos. As margens largas dos livros antigos tinham a fun\u00e7\u00e3o de nelas repousar o polegar, como lembrava sempre o editor de arte e escritor Reginaldo Fortuna, leitor ass\u00edduo do pai da imprensa, Gutenberg. A cole\u00e7\u00e3o de capa verde de Monteiro Lobato \u00e9 o melhor exemplo: letras grandes, entrelinhamento razo\u00e1vel, margens confort\u00e1veis, papel amig\u00e1vel e um peso que sugeria uma longa rela\u00e7\u00e3o de amizade, pois o livro deve oferecer em excesso o que se busca na parcim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Trata-se de uma armadilha: o h\u00e1bito da leitura depende dela mesma, e n\u00e3o de expedientes externos que tateiam uma forma de fazer chegar o cidad\u00e3o at\u00e9 as p\u00e1ginas impressas (ou luminosas dos e-books do espa\u00e7o virtual). Lobato fisgava o pequeno leitor com o Reino das \u00c1guas Claras, uma brasileir\u00edssima solu\u00e7\u00e3o para atrair, pela identifica\u00e7\u00e3o, um pa\u00eds que ainda estava muito pr\u00f3ximo da ro\u00e7a. E depois o levava a viagens intermin\u00e1veis pela mitologia grega, a geografia e a hist\u00f3ria do mundo. N\u00e3o oferecia uma historinha qualquer para ludibriar as crian\u00e7as. O reino citado ficava no fundo de um ribeir\u00e3o do pequeno s\u00edtio e l\u00e1 se desenrolava uma saga extraordin\u00e1ria de mist\u00e9rios. Narizinho n\u00e3o fazia parte da auto-ajuda, era uma garota cr\u00e9dula que foi desafiada na sua percep\u00e7\u00e3o e na sua viagem cresceu, assim como aconteceu com os seus leitores. Mas essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o pouco adotada. Prefere-se cevar a historieta para depois estranhar que n\u00e3o leiam Shakespeare.<\/p>\n<p>A leitura \u00e9 uma ilha cercada de incompreens\u00e3o por todos os lados. Voc\u00ea chega numa livraria e despencam trabalhos de luxos, com capas apelativas, sobre assuntos aparentemente interessantes. Se a procura for por algum autor definitivo, como Tchecov ou Conrad, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de p\u00e2nico em quem atende (depende da livraria, mas na maioria dos casos \u00e9 isso o que acontece). Quando a dificuldade cresce, voc\u00ea recebe o conselho: compre pela internet. Isso expulsa o leitor que busca o \u00f3bvio, as obras que deveriam estar ocupando o lugar das inutilidades expostas.<\/p>\n<p>A biblioteca, p\u00fablica ou privada, \u00e9 o lar do leitor abandonado. L\u00e1 ele encontra o que procura. Precisa enfrentar alguns tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos, al\u00e9m de se submeter a prazos de entrega ou mesmo ao espa\u00e7o f\u00edsico que convivem com as estantes lotadas. O melhor \u00e9 a biblioteca na sala ou no quarto, ou, quando h\u00e1 compuls\u00e3o pelos livros, em todas as pe\u00e7as da casa. Toda vez que um livro importante consegue enfim prender nossa aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 comum perguntar-se o que est\u00e1vamos fazendo que ainda n\u00e3o t\u00ednhamos lido aquilo. Mas essa sensa\u00e7\u00e3o, infelizmente, passa. H\u00e1 apelos demais na televis\u00e3o e no computador que nos fazem abandonar a leitura.<\/p>\n<p>A frase mais impressionante que ouvi ao oferecer um livro meu para algu\u00e9m desconhecido, mas que me parecia um leitor em potencial, foi essa: &#8220;N\u00e3o sou dessa coisa de ler&#8221;. Eles t\u00eam olhos e n\u00e3o v\u00ea, tem pulm\u00e3o e n\u00e3o respira, tem pernas e n\u00e3o anda. N\u00e3o \u00e9 dessa coisa de viver. Vegeta, para esc\u00e2ndalo de quem ainda acredita que na leitura existe a chave para resolvermos todos os impasses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A biblioteca, p\u00fablica ou privada, \u00e9 o lar do leitor abandonado. L\u00e1 ele encontra o que procura. Precisa enfrentar alguns tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos, al\u00e9m de se submeter a prazos de entrega ou mesmo ao espa\u00e7o f\u00edsico que convivem com as estantes lotadas. O melhor \u00e9 a biblioteca na sala ou no quarto, ou, quando h\u00e1 compuls\u00e3o pelos livros, em todas as pe\u00e7as da casa. 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