{"id":99,"date":"2005-05-13T21:37:38","date_gmt":"2005-05-13T23:37:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=99"},"modified":"2009-12-21T22:22:34","modified_gmt":"2009-12-22T00:22:34","slug":"ate-breve-senhor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ate-breve-senhor","title":{"rendered":"At\u00e9 Breve, Senhor"},"content":{"rendered":"<p>Morreu nesta semana a revista Senhor, exatamente dois domingos depois que o seu primeiro Diretor da Reda\u00e7\u00e3o, M\u00facio Borges da Fonseca, deixou o jornalismo, isto \u00e9, a vida. M\u00facio assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Senhor quinzenal em julho de 1981, com duas pontes de safena. Soprava no seu bater compassado de palmas, repetindo sem cessar: &#8220;Vamos fechar, vamos fechar.&#8221; Avan\u00e7\u00e1vamos a madrugada implantando um projeto editorial que procurava veicular a repentina voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do empresariado brasileiro, tardiamente revelada depois de d\u00e9cadas de arrocho. M\u00facio contava com um punhado de colaboradores e enfrentava as dificuldades naturais do nascimento de uma revista, numa imprensa de alta mortalidade infantil.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1982, M\u00facio passou o bast\u00e3o para Mino Carta transformar a Senhor semanal na mais importante e influente revista do pa\u00eds. Mino tinha vindo da traum\u00e1tica perda da Isto\u00c9 e optou por uma dire\u00e7\u00e3o austera e moderna, at\u00e9 hoje n\u00e3o imitada pelos seus pares. Eliminou a figura do &#8220;ma\u00e7aneta&#8221; de reda\u00e7\u00e3o, ou seja, aquele jornalista iniciante que a pregui\u00e7a dos veteranos envia para escrever in\u00fateis relat\u00f3rios. Toda a reda\u00e7\u00e3o pautava, editava, redigia, reportava. Cada jornalista responsabilizava-se por uma parte substancial da revista e era cobrado como se fosse uma equipe editorial inteira.<\/p>\n<p>Mino Carta convocou para a Senhor os nomes mais significativos do empresariado, da pol\u00edtica e da universidade. Pela primeira vez, os patr\u00f5es manifestaram-se favoravelmente \u00e0s teses fundamentais da modernidade, como a participa\u00e7\u00e3o dos lucros, a co-gest\u00e3o, o direito \u00e0 greve. Senhor ajudou a soprar os fantasmas acumulados na ditadura. Foi uma voz pioneira &#8211; e por um tempo, solit\u00e1ria &#8211; da imprensa a evitar o rancor ideol\u00f3gico e a incentivar as elei\u00e7\u00f5es diretas para a presid\u00eancia e o pacto social.<\/p>\n<p>De 1982 a 1988, foram longos anos de dentes cerrados. A reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia falhar &#8211; est\u00e1vamos todos exaustos de projetos assassinados, de equipes dissolvidas, de demiss\u00f5es, ex\u00edlio e morte. Quer\u00edamos que Senhor vencesse a parada. E foi o que aconteceu. Com o sucesso da revista, a Editora Tr\u00eas comprou seu parque gr\u00e1fico e finalmente recuperou a Isto\u00c9, revista que tinha agonizado nas m\u00e3os da Gazeta Mercantil.<\/p>\n<p>Descobrimos agora que Senhor serviu de ponte para esse resgate. Fez com que a Isto\u00c9 voltasse aos seus leg\u00edtimos donos, mas isto custou-lhe a vida. A partir dessa semana, ela deixa de ser o t\u00edtulo inoportuno, que sujava o visual de sua companheira, agora cheia de vida. Cumpriu integralmente seu destino, mas este n\u00e3o reservou-lhe a perman\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00f3s, que um dia fizemos parte daquele esfor\u00e7o, nos tornamos \u00f3rf\u00e3os de nossa pr\u00f3pria biografia profissional. Senhor nos escorrega das m\u00e3os junto com o sorriso criado em Bom Jardim, Pernambuco, de M\u00facio Borges da Fonseca. Nos pesa o sil\u00eancio geral em rela\u00e7\u00e3o a esse projeto seminal da imprensa brasileira, que j\u00e1 n\u00e3o pertence mais aos seus propriet\u00e1rios, mas \u00e0 Hist\u00f3ria, aos seus criadores e colaboradores &#8211; jornalistas, leitores, empres\u00e1rios, professores. Faz parte de n\u00f3s, como um parente morto.<\/p>\n<p>Mas ao contr\u00e1rio das pessoas que perdemos, uma revista tem o poder de um dia retornar com vida. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que Senhor morre. N\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu nesta semana a revista Senhor, exatamente dois domingos depois que o seu primeiro Diretor da Reda\u00e7\u00e3o, M\u00facio Borges da Fonseca, deixou o jornalismo, isto \u00e9, a vida. M\u00facio assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Senhor quinzenal em julho de 1981, com duas pontes de safena. 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