{"id":991,"date":"2009-12-14T01:20:13","date_gmt":"2009-12-14T03:20:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=991"},"modified":"2009-12-21T22:16:55","modified_gmt":"2009-12-22T00:16:55","slug":"o-dicionario-de-epigonos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-dicionario-de-epigonos","title":{"rendered":"O DICION\u00c1RIO DE EP\u00cdGONOS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Nasci depois, mas n\u00e3o me tornei um imitador. Tive um Mestre, Herr Grutes, do qual nada herdei, a n\u00e3o ser a devastadora emo\u00e7\u00e3o de v\u00ea-lo perdido, nas m\u00e3os de um s\u00facia de autores.<\/p>\n<p>A arte de Herr Grutes era t\u00e3o exc\u00eantrica que talvez nunca mais surja algu\u00e9m como ele. Levou para baixo da terra o que sabia fazer e que o tornou c\u00e9lebre entre uma casta de escritores sem escr\u00fapulos. N\u00e3o que o alem\u00e3o que salvou minha vida tenha alguma vez escrito alguma coisa, a n\u00e3o ser a carta que deixou para mim como despedida. Ele fazia algo maior.<\/p>\n<p>Era dono da oficina liter\u00e1ria onde me acoitei depois de uma longa fase sem esperan\u00e7a. Meu jeito retaco, prejudicado do olho esquerdo, com a p\u00e1lpebra caindo e o l\u00e1bio saliente demais embaixo desse narig\u00e3o formid\u00e1vel tinha derrubado aos poucos minha vontade de conversar com os outros. O asco que sempre provoquei me afastou definitivamente da civiliza\u00e7\u00e3o. Foi esse mutismo desesperado e minha imobilidade numa esquina que chamou a aten\u00e7\u00e3o de Herr Grutes, que caminhava com embara\u00e7o, abra\u00e7ado a uma carga que fazia grande barulho. Era uma pilha enorme de folhas fin\u00edssimas de um metal que eu jamais identifiquei e que eram a mat\u00e9ria-prima de seu of\u00edcio e de sua arte.<\/p>\n<p>Pediu para ajud\u00e1-lo e foi assim que me agreguei ao galp\u00e3o misterioso que ele escondia no sop\u00e9 de um morro, atr\u00e1s de sua casa muito branca e que se misturavam a outras id\u00eanticas, num bairro que jurava ser alem\u00e3o numa cidadezinha no interior do estado. Sua oficina liter\u00e1ria trabalhava sob encomenda, que chegava em forma de pedidos por escrito, enviados pelo correio. Jamais vi um computador nos dom\u00ednios do Mestre, mas isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o usasse uma tecnologia sofisticada para concretizar o que lhe era solicitado.<\/p>\n<p>Adaptara uma antiga m\u00e1quina de impress\u00e3o alem\u00e3 que trouxera da sua amada Frankfurt. Um software implantado no equipamento cl\u00e1ssico fizera com que ele se libertasse de outro tipo de m\u00e3o-de-obra, mais complicada, como gr\u00e1ficos. Fazia tudo sozinho, pelo menos at\u00e9 eu chegar arfando com sua carga em meu obro, e entregava sempre no prazo. Seu trabalho era fabricar livros de metal, eternos, em edi\u00e7\u00f5es de um \u00fanico exemplar, encomendados pelos escritores aos quais me referi, e que precisavam da edi\u00e7\u00e3o de alguma obra sua que n\u00e3o fosse perecer diante das amea\u00e7as de fim do mundo.<\/p>\n<p>Eles tinham medo que o papel usado na \u00e9poca em que faziam sucesso no mercado com seus romances, poemas, contos e cr\u00f4nicas, se desmanchasse em menos de um s\u00e9culo e eles assim seriam esquecidos para sempre, j\u00e1 que as luzinhas da internet s\u00e3o ainda mais prec\u00e1rias, basta que haja um apag\u00e3o de verdade para toda a obra da humanidade ir para o saco. Encomendavam ent\u00e3o para Herr Grutes a edi\u00e7\u00e3o definitiva, a que jamais iria perecer, pois o material usado pelo Mestre era comprovadamente inacess\u00edvel a tra\u00e7as, vermes, tempos, futuros, terremotos, inc\u00eandios ou tempestades. Parecia folha de flandres, pelo que me descreveram desta, j\u00e1 que nunca vi uma ao vivo. Podia ser folheado e isso deixava os escritores encantados. Eles podiam tocar no objeto que cruzaria gera\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo o espa\u00e7o, pois era poss\u00edvel que os livros fabricados, com minha ajuda, na oficina liter\u00e1ria de Herr Grutes, pudessem sobreviver at\u00e9 mesmo \u00e0 fornalha das estrelas.<\/p>\n<p>Eu fazia de tudo e me armei de paci\u00eancia para ocupar o lugar subalterno que me cabia. Carregava as folhas de l\u00e1 para c\u00e1, ligava a m\u00e1quina quando tudo estava programado, dormia no galp\u00e3o para evitar furtos e servia ch\u00e1 com biscoitos duros para o alem\u00e3o que s\u00f3 comia isso o dia todo, todos os dias, semanas, meses. Fiquei um ano l\u00e1 at\u00e9 que um dia o Mestre recebeu uma encomenda poderosa. Era um Dicion\u00e1rio de Ep\u00edgonos, de 500 p\u00e1ginas. \u201cN\u00e3o posso fazer isso, est\u00e1 al\u00e9m das minha for\u00e7as\u201d, disse, furioso. O mensageiro amea\u00e7ou. Iria denunciar Herr Grutes para a pol\u00edcia, j\u00e1 que trabalhava e ganhava bem sem pagar imposto e talvez estivesse at\u00e9 com a documenta\u00e7\u00e3o irregular, pois viera nos anos 40 para o Brasil e jamais contou nada sobre seu passado, que fatalmente deveria ter aquelas experi\u00eancias sinistras que os filmes n\u00e3o cansam de mostrar.<\/p>\n<p>Foi essa encomenda, o Dicion\u00e1rio de Ep\u00edgonos, que matou Herr Grutes. Ele levou tempo demais caprichando na obra e teve que fazer for\u00e7a para manobrar com tanto material. Os trabalhos anteriores, por sua exig\u00eancia, n\u00e3o implicavam tanto peso. Eram pequenas antologias, apenas registros de um talento que deveria deixar marcas eternas.<\/p>\n<p>Eu sou uma esp\u00e9cie de urso e fiz o que pude, mas o trabalho era demais. Assim, numa tarde clara, ao lado da sua x\u00edcara de ch\u00e1 com biscoito duro, descansando no seu pequeno jardim que ficava atr\u00e1s da sua cozinha, Herr Grutes se finou. Deixou a carta a qual j\u00e1 me referi, onde dava instru\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas para eu terminar o livro maldito, tendo o cuidado de n\u00e3o contar seus segredos, apenas os v\u00e1rios passos de um processo que s\u00f3 ele conhecia a fundo.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o queria mais saber daquilo tudo. Decidi abandonar o lugar. Antes, a curiosidade me levou a visitar o conte\u00fado da obra. Eram sete cap\u00edtulos, cada um encimado por um nome bem pomposo, de escritor de sucesso. Eram nomes brasileiros, ou apelidos, que se misturavam a sobrenomes estrangeiros, como Gato Vanderblitz, por exemplo. Cada cap\u00edtulo trazia, em ordem alfab\u00e9tica, os nomes dos pretensos imitadores, os ep\u00edgonos do t\u00edtulo. Os caras (que seriam os pr\u00f3gonos, os que vieram antes) tinham bolado uma forma de denunciar seus colegas, chamando-os de plagiadores, para que no futuro n\u00e3o restasse d\u00favida que eles sim eram os originais e o resto, lixo.<\/p>\n<p>Os verbetes tentavam provar o pl\u00e1gio, citando trechos da obra do que se proclamava original e as frases dos outros, sempre toscas e mal ajambradas. Fiquei com nojo daquilo. Queria colocar tudo fora, mas o peso era enorme. Quinhentas p\u00e1ginas de mentiras pesavam demais no meu ombro ca\u00eddo. Por isso fechei a casa e fui embora, sem dar satisfa\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m. Deu vontade de virar serial killer. At\u00e9 tinha pensado em confessar essa vontade no in\u00edcio desta narrativa. Mas iriam confundir com apela\u00e7\u00e3o e isso eu n\u00e3o admito.<\/p>\n<p>Escrevo para ningu\u00e9m e n\u00e3o me importo se algu\u00e9m escreveu algo assim antes. Eu n\u00e3o li nada nesta vida miser\u00e1vel. S\u00f3 me deu vontade de escrever quando vi tanta nulidade querer definir o futuro e para concretizar suas fantasias levaram \u00e0 morte a \u00fanica pessoa que realmente se importou comigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o encaro o fato de ter nascido depois como m\u00e1 sorte. Acho que nasci no tempo certo. E se fiquei feio pela falta de esperan\u00e7a, resolvi mudar na hora em que coloquei no papel minha primeira linha e que dizia o seguinte: \u201cMe chamem de Ismael\u201d. Ser\u00e1 que voc\u00eas j\u00e1 leram isso antes?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte de Herr Grutes era t\u00e3o exc\u00eantrica que talvez nunca mais surja algu\u00e9m como ele. 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