{"id":993,"date":"2009-12-14T01:21:27","date_gmt":"2009-12-14T03:21:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=993"},"modified":"2009-12-20T22:48:50","modified_gmt":"2009-12-21T00:48:50","slug":"a-outra-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-outra-vida","title":{"rendered":"A OUTRA VIDA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Encontrei o Amigo inteiro, instalado na Outra Vida. Ele j\u00e1 estava por volta de 40 anos, apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou vis\u00e3o, segurava um grande chap\u00e9u de abas exageradas. Colocava a m\u00e3o no alto, com o bra\u00e7o bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de v\u00e1rias pessoas. Parece que o grupo ocupava um convers\u00edvel de luxo. Ele me olhou com o rosto impass\u00edvel. O olhar era l\u00edmpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo expressava certa indiferen\u00e7a. Era, talvez, seu recado de superioridade diante de tanto mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ele sempre foi assim. Jamais se deixou abalar por coisa nenhuma. Pelo menos, n\u00e3o por muito tempo. Era suscet\u00edvel, mas se reaprumava logo. Um dia veio me tirar da minha catatonia no quarto onde morava. Esparramado na minha cama, num calor insuport\u00e1vel, eu dormia ao lado da caixa preta que encerrava um tesouro: a m\u00e1quina de escrever Smith Corona herdada do meu pai.<\/p>\n<p>Correra o risco de perd\u00ea-la, quando o namorado da dona do lugar \u2013 um sujeito retaco, gringo, grosso e canalha \u2013 me pediu para usar a m\u00e1quina. Era para vender, mas foi proibido pela mulher que entrou em desespero diante da minha credulidade. Eu realmente acreditara que o sujeito iria escrever algo. Al\u00e9m do mais, o escroque tinha um olhar gelado, azul e uma boca torcida. Mas gra\u00e7as \u00e0 propriet\u00e1ria que n\u00e3o queria perder o h\u00f3spede, mantive a prenda em meu poder.<\/p>\n<p>O Amigo veio me acordar batendo na janela. Queria me mostrar o estrago que sua namorada, agora ex, tinha feito no apartamento. Rato, porco, estava escrito a carv\u00e3o em letras garrafais. Era a separa\u00e7\u00e3o, mais uma, do conquistador serial, que deixava um rastro de cora\u00e7\u00f5es partidos pelo caminho. Foi nesse apartamento pincelado pela dor do amor n\u00e3o mais correspondido, que o encontrei pela \u00faltima vez. Bati na porta, ele abriu a janelinha de vidro e fez uma cara de desencanto, que era a nossa maneira de nos cumprimentar (pois, caras da fronteira como n\u00f3s, jamais d\u00e3o o bra\u00e7o a torcer para quem quer que seja, especialmente os amigos do peito). Era uma esp\u00e9cie de \u201cque gente mandou o governo!\u201d que meu pai usava para seus companheiros de pescaria. Ou seja, estamos bem por aqui, o que voc\u00ea veio atrapalhar? Depois desse anti-cumprimento, sempre havia a alegria do reencontro.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos pela cidade, que estava forrada de out-doors estampando uma pessoa muito pr\u00f3xima e conhecida. Era ele. Fazia a pose que us\u00e1vamos quando nos tiravam a foto do col\u00e9gio. Sentado, com um leve sorriso, as m\u00e3os para frente, depositadas em cima da mesa, o Amigo olhava para a posteridade como se fosse um superstar. Estou me despedindo daqui, disse ele. Nada melhor do que deixar meu rosto pelas ruas.<\/p>\n<p>Soube depois da trag\u00e9dia, de maneira fortuita, conversando numa lanchonete com nossa amiga comum, que me deu a not\u00edcia. Chocado, procurei mais detalhes na imprensa da cidade da qual o Amigo se despedira de maneira t\u00e3o expl\u00edcita. Havia pouca coisa. Um rev\u00f3lver, um suposto suic\u00eddio. Tanta vida para se jogar fora assim? Ainda mais ele, que tinha vida saindo pelo ladr\u00e3o. A reportagem s\u00f3 dispunha da foto da identidade. E foi com ela, tomando conta de quase toda a p\u00e1gina (para compensar a falta de informa\u00e7\u00e3o) que travei contato com o Amigo pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o, claro, da vis\u00e3o que tive, da cena do grande chap\u00e9u do quarent\u00e3o rodeado pelo seu grupo no convers\u00edvel de luxo. Descobri que o esp\u00edrito mant\u00e9m a trajet\u00f3ria da vida e vai em frente, como se n\u00e3o tivesse havido ruptura. O que ter\u00e1 vivido nestas d\u00e9cadas todas? Estivera na queda do muro de Berlim? Assinara, quem sabe, um grande projeto de arquitetura numa das por\u00e7\u00f5es ricas da \u00c1frica? Estaria mesmo vivo aquele que se foi cedo demais?<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m de n\u00f3s sobreviveu, dessa gera\u00e7\u00e3o nascida para o massacre, foi para contar a hist\u00f3ria. Ah, a sina dos narradores sem esperan\u00e7a, os que permanecem \u00e0 tona, frios como um candelabro no inverno de um romance de segunda. Quem dera n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tanta perda e n\u00e3o precis\u00e1ssemos lembrar os amigos que se foram numa poeira de nuvem, que o tempo traga com seus pulm\u00f5es de ferro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontrei o Amigo inteiro, instalado na Outra Vida. Ele j\u00e1 estava por volta de 40 anos, apesar de ter sido assassinado aos 26. No sonho, ou vis\u00e3o, segurava um grande chap\u00e9u de abas exageradas. Colocava a m\u00e3o no alto, com o bra\u00e7o bem espichado, impedindo que o vento levasse para longe aquela monstruosidade. Estava cercado, como sempre, de v\u00e1rias pessoas. Parece que o grupo ocupava um convers\u00edvel de luxo. Ele me olhou com o rosto impass\u00edvel. O olhar era l\u00edmpido, claro, solene, mas ao mesmo tempo expressava certa indiferen\u00e7a. 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