{"id":995,"date":"2009-12-14T02:08:38","date_gmt":"2009-12-14T04:08:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=995"},"modified":"2009-12-21T22:13:04","modified_gmt":"2009-12-22T00:13:04","slug":"o-parecista-da-aldeia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-parecista-da-aldeia","title":{"rendered":"O PARECISTA DA ALDEIA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Aos 16 anos, Magdo levou uma resma de papel alma\u00e7o escrita em caligrafia caprichada para seu primo dar um parecer. O primo Louis, que virava a l\u00edngua quando dizia o pr\u00f3prio nome, de origem nobre, dizia ele, era um especialista em destruir carreiras liter\u00e1rias. Tinha evitado o desenvolvimento precoce de uma chusma de aspirantes que o convocavam para opinar sobre a tosca literatura cometida por eles. \u201cL\u00f4uis\u201d era inimigo do Padre Marc\u00edlio, incentivador de talentos e fomentador de desastres da poesia e da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, o parecista oficial da aldeia avisava que n\u00e3o emitia opini\u00e3o sobre versinhos. Isso era coisa de retardados, dizia ele. Empilhar palavrinhas que se acenavam por rimas e conson\u00e2ncias era um h\u00e1bito feio que tinha tomado conta da humanidade sem luzes a partir do s\u00e9culo 19. S\u00e3o duzentos anos de perda de tempo, dizia ele.<\/p>\n<p>Restava aos pimpolhos que insistiam em passar pelo buraco da agulha do herege a sofreguid\u00e3o de tentar chegar \u00e0 gl\u00f3ria. Pois, tamanha era a fama do pseudo franc\u00eas beletrista que, se ele por acaso aprovasse algo, haveria reconhecimento e todos os leitores que restavam teriam de sucumbir \u00e0 inger\u00eancia do Mestre. Mas sabiam: nada de poemas. O teste deveria ser feito por meio de texto muito prosa, muito metido. Era preciso impressionar o leitor n\u00famero um e nisso se dedicavam os coitados que ainda sonhavam com um livro, uma carreira de escritor e talvez at\u00e9 um premiozinho.<\/p>\n<p>Magdo tinha plena confian\u00e7a no seu taco. Sabia que trazia embaixo do bra\u00e7o a renova\u00e7\u00e3o das artes liter\u00e1rias mundiais. Sonhara com o in\u00edcio, imaginara febrilmente o enredo e sucumbira a uma chave de ouro de arrepiar Dante. Mas, cuidado: n\u00e3o era poesia, nem nada po\u00e9tico. Era fic\u00e7\u00e3o, trabalhada em ouro, incenso e mirra.<\/p>\n<p>Louis recebeu-o friamente, sentado que estava na cadeira pregui\u00e7osa do av\u00f4, lendo um nov\u00edssimo lan\u00e7amento de tr\u00eas toneladas, talvez algum cl\u00e1ssico russo desta vez traduzido diretamente da l\u00edngua de Puchkin, cheio de express\u00f5es atualizadas, como &#8220;com certeza&#8221;, como vira numa brochura de Crime e Castigo, de Dostoiweski.<\/p>\n<p>-Estou sem tempo, Magdo. Ali\u00e1s, teu nome n\u00e3o \u00e9 de escritor. Parece erro de datilografia de escriv\u00e3o ignorante.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 isso, professor (Louis n\u00e3o chegara ainda aos 18 anos, mas obrigava a todos a trat\u00e1-lo como um diretor de escola). Quem me registrou foi o Febr\u00f4nio, lembra dele, o maior cdf da cidade, aquele velhinho que passeia de manta de l\u00e3 em dia de calor.<\/p>\n<p>Com m\u00e1 vontade, o parecista deu uma olhada de soslaio (uma de suas palavras prediletas) na pequena resma de papel (ou deveria dizer pilha, s\u00f3 para contrariar quem adorava dizer resma?). Suspirou e emitiu seu decreto:<\/p>\n<p>&#8211; Isso eu leio em tr\u00eas minutos. Volte na sexta-feira da semana que vem.<\/p>\n<p>&#8211; Mas hoje \u00e9 quarta! Vai levar quase dez dias nessa tortura?<\/p>\n<p>Louis fitava o horizonte e depois devagar, como quem filmasse em c\u00e2mara lenta, ia tornando os olhos gelados para o interlocutor. Era seu expediente mais corriqueiro. Sempre dava certo.<\/p>\n<p>Magdo se conformou. Iria aguardar o Nobel at\u00e9 o prazo determinado. Mas depois, que n\u00e3o viessem esnob\u00e1-lo. Era certo que Louis iria exultar com a revela\u00e7\u00e3o daquela obra original.<\/p>\n<p>Louis fingiu que sentia frio e voltou para dentro de casa, deixando o pobre escritor ao relento, obrigando-o a dar meia volta e cruzar o terreno que ficava em frente \u00e0 casa do bobalh\u00e3o letrado e ia at\u00e9 a linha f\u00e9rrea. Era assustador passar por ali, mas n\u00e3o tinha outro jeito. As aulas noturnas come\u00e7ariam em quinze minutos e se fosse contornar o parque, chegaria a tempo s\u00f3 para a segunda aula.<\/p>\n<p>No meio do ermo, parou de repente. Junto a um vag\u00e3o, uma sombra vestindo sobretudo e chap\u00e9u de feltro, fumando um cigarro, o aguardava.<\/p>\n<p>&#8211; O que queres de mim, espectro? rugiu Magdo, que estava acostumado com aquele tipo de cena, t\u00e3o comum na literatura policial que costumava devorar.<\/p>\n<p>O Sombra desencostou do seu apoio e veio vindo devagar, com seu passo silencioso de Vulcabr\u00e1s com sola de borracha.<\/p>\n<p>&#8211; Vim te avisar, seu palerma, disse a apari\u00e7\u00e3o. E quem avisa amigo \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Dispenso os ditados e os lugares comuns. Desembucha logo.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca mais volte l\u00e1 para aquele idiota do teu primo. Ele n\u00e3o sabe nada. E o pior \u00e9 que n\u00e3o l\u00ea o que diz que l\u00ea. Sabe do que ele realmente gosta?<\/p>\n<p>&#8211; Dos tr\u00eas patetas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o isso, ele j\u00e1 tem de sobra em volta dele. Ele gosta \u00e9 de ler as hist\u00f3rias miser\u00e1veis da pobre menininha que sofre com a persegui\u00e7\u00e3o das bruxas Alc\u00e9ia e Mem\u00e9ia, que eram publicadas naqueles gibis da Luluzinha, lembra?<\/p>\n<p>Magdo ficou branco de horror. Seu \u00eddolo, o cara que iria encaminh\u00e1-lo para a vida liter\u00e1ria, n\u00e3o poderia ser um tro\u00e7o desses.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, sua besta. E ainda vais l\u00e1 pagar mico para ele. V\u00ea se te manca.<\/p>\n<p>E o Sombra foi caminhando para tr\u00e1s, como um Michael Jackson cheio de estrias. Sumiu de um segundo para outro. Deixou um sabor de perda no ar.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre menininha, essa \u00e9 boa, dizia Magdo, chutando as pedras que abundam por aquele lado sinistro da cidade.<\/p>\n<p>Mas ler Luluzinha fazia parte da melhor por\u00e7\u00e3o de Louis, professor precoce e parecista liter\u00e1rio da aldeia. No futuro, essa leitura favorita o levaria para longe do Padre Marc\u00edlio e o aproximaria, enfim, da poesia que ele negava porque tinha medo do escuro.<\/p>\n<p>Magdo tamb\u00e9m seria beneficiado por essa paix\u00e3o infantil do primo. Jamais o procurou novamente, e seguiu confiando no seu taco. S\u00f3 se encontraram d\u00e9cadas depois, em Paris, numa confer\u00eancia internacional sobre literatura. Foi quando se olharam por alguns segundos, muito compenetrados nas suas vestes de literatos. Mas a seriedade n\u00e3o durou muito tempo. Ao se reconhecerem, acabaram caindo na gargalhada, para espanto dos poetas, dos cr\u00edticos e dos mestres do of\u00edcio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer: Louis usava um sobretudo e um chap\u00e9u de feltro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para come\u00e7ar, o parecista oficial da aldeia avisava que n\u00e3o emitia opini\u00e3o sobre versinhos. Isso era coisa de retardados, dizia ele. 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