{"id":997,"date":"2009-12-14T02:09:34","date_gmt":"2009-12-14T04:09:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=997"},"modified":"2009-12-21T22:12:04","modified_gmt":"2009-12-22T00:12:04","slug":"agonia-circular-do-brasil-terminal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/agonia-circular-do-brasil-terminal","title":{"rendered":"AGONIA CIRCULAR DO BRASIL TERMINAL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Parece o verso de Nelson Sargento sobre o samba, agoniza mas n\u00e3o morre. \u00c9 o caso do Brasil de Cl\u00e1udio Assis em Amarelo Manga, o impressionante filme que s\u00f3 agora vi, depois de quatro anos do seu lan\u00e7amento. A vantagem de chegar atrasado na resenha sobre uma obra \u00e9 que isso economiza palavras sobre a crueza, a contund\u00eancia, a den\u00fancia, o desespero do filme e abordar meu tema favorito, o Brasil, t\u00e3o fora de moda. Falou-se na dana\u00e7\u00e3o humana desta obra feita no Recife que levantou in\u00fameros pr\u00eamios, dentro e fora do pa\u00eds. A falta de esperan\u00e7a teria a ver com a condi\u00e7\u00e3o de sermos est\u00f4mago e sexo, em que cai no vazio a m\u00e1xima de que nascemos condenados a ser livres. Prefiro ver Amarelo Manga como o pa\u00eds zumbi que n\u00e3o encontra sa\u00edda, e assume o pesadelo a que foi atirado.<\/p>\n<p>Grande parte do tempo \u00e9 dedicado a uma esp\u00e9cie de document\u00e1rio sobre o Recife, especialmente o mundo do trabalho marginalizado, feito de esfor\u00e7o f\u00edsico em ambientes podres, e que se confina em bares de suor, pinga e cerveja ou em poses est\u00e1ticas de pessoas imobilizadas em sua mis\u00e9ria. Esse document\u00e1rio articula-se organicamente com os personagens, amarrados a doen\u00e7as, fanatismo, f\u00e9 tristonha (cat\u00f3lica), f\u00e9 exaltada (evang\u00e9lica), necrofilia, trai\u00e7\u00e3o, deboche e desejos jamais consumados. Nenhuma parede est\u00e1 intacta, o lixo se espalha por toda a geografia urbana e o plano geral da cidade \u00e9 a vis\u00e3o sinistra de um cart\u00e3o postal do Apocalipse.<\/p>\n<p>Costurando a trag\u00e9dia, h\u00e1 a interven\u00e7\u00e3o de frases definitivas, como a da santidade como a forma mais inteligente de pervers\u00e3o ou o lugar comum de que os brasileiros gostam de ser enganados. A den\u00fancia sem o contraponto da esperan\u00e7a torna tudo viscoso, como se esse fosse o destino da na\u00e7\u00e3o que afundou definitivamente. O bizarro fica a cargo da composi\u00e7\u00e3o visual, magn\u00edfica, de autoria de Walter Carvalho, baseada, numa interpreta\u00e7\u00e3o livre, no trabalho de grandes fot\u00f3grafos brasileiros, com Walter Firmo \u00e0 frente. \u00c9 como se Walter Firmo filmasse, com a diferen\u00e7a de que o grande mestre dos fot\u00f3grafos brasileiros foi em busca da na\u00e7\u00e3o que clamava por justi\u00e7a, enquanto Carvalho mostra o pa\u00eds que perdeu a batalha definitivamente.<\/p>\n<p>A c\u00e2mara colocada no alto empurra a trama para a pequenez das situa\u00e7\u00f5es e conflitos e privilegia o espectador que se sente acima do que v\u00ea. \u00c9 uma armadilha. N\u00f3s \u00e9 que estamos l\u00e1 embaixo e basta o close voltar a agir para sentirmos na carne e na pele que estamos presos no mundo aparentemente delirante de Cl\u00e1udio Assis. Do close ao rodopio visual, o filme \u00e9 a saga circular de quem se sente morto e vive como zumbi que nem sequer tem mais a companhia confortadora dos fantasmas. O Brasil n\u00e3o sobreviveu nem depois da morte, n\u00e3o existe nem como assombra\u00e7\u00e3o. O que existe \u00e9 o horror impregnando todos os gestos e falas e a morte de um dos personagens \u00e9 apenas o desfecho provis\u00f3rio de um futuro que tarda: a completa aniquila\u00e7\u00e3o da ex-na\u00e7\u00e3o. A maldi\u00e7\u00e3o \u00e9 continuar se movendo, morto-vivo, num cen\u00e1rio de ru\u00ednas f\u00edsicas e humanas.<\/p>\n<p>Amarelo Manga se contrap\u00f5e \u00e0 est\u00e9tica da maquiagem t\u00e3o comum em tantos filmes da Retomada. \u00c9 um passo al\u00e9m da den\u00fancia, pois mostrar n\u00e3o basta, refletir \u00e9 abster-se, se insurgir \u00e9 in\u00fatil. Mas, paradoxalmente, pela sua for\u00e7a como obra autoral sem concess\u00f5es, o filme \u00e9 um exerc\u00edcio da descoloniza\u00e7\u00e3o do olhar, uma express\u00e3o que Walter Firmo pronunciou numa entrevista que fiz com ele nos anos 80 para a revista Senhor. Os atores contribuem de maneira decisiva para essa abertura. Todos est\u00e3o excelentes: Dira Paes (a recatada subvertida pela trai\u00e7\u00e3o do marido), Chico Diaz (o a\u00e7ougueiro que idealiza o espa\u00e7o dom\u00e9stico), Jonas Bloch (o transgressor que tenta gozar com a morte), Mateus Nachtergaele (o homossexual que apunhala a amizade em favor do seu desejo), Leona Cavalli (a narrador inconformada com sua fun\u00e7\u00e3o de mulher \u00e0 merc\u00ea dos fregueses que odeia), entre outros.<\/p>\n<p>Fiquei um tempo rodeando Amarelo Manga. Decidi ver, por curiosidade. Uma bomba, imprescind\u00edvel para a cultura cinematogr\u00e1fica do nosso tempo. Talvez o filme se proponha a criar uma chaga na percep\u00e7\u00e3o do Brasil condenado. Talvez seja a ferida aberta por onde poderemos passar para uma fase que supere tanta dem\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amarelo Manga se contrap\u00f5e \u00e0 est\u00e9tica da maquiagem t\u00e3o comum em tantos filmes da Retomada. \u00c9 um passo al\u00e9m da den\u00fancia, pois mostrar n\u00e3o basta, refletir \u00e9 abster-se, se insurgir \u00e9 in\u00fatil.&nbsp; A c\u00e2mara colocada no alto empurra a trama para a pequenez das situa\u00e7\u00f5es e conflitos e privilegia o espectador que se sente acima do que v\u00ea. \u00c9 uma armadilha. N\u00f3s \u00e9 que estamos l\u00e1 embaixo e basta o close voltar a agir para sentirmos na carne e na pele que estamos presos no mundo aparentemente delirante de Cl\u00e1udio Assis<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/997"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=997"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/997\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1689,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/997\/revisions\/1689"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}