{"id":999,"date":"2009-12-14T02:18:29","date_gmt":"2009-12-14T04:18:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=999"},"modified":"2009-12-21T20:31:22","modified_gmt":"2009-12-21T22:31:22","slug":"o-engenho-como-arte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-engenho-como-arte","title":{"rendered":"O ENGENHO COMO ARTE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Arte \u00e9 quando o engenho, auto-consciente, atinge o esplendor. Pode-se objetar que uma instala\u00e7\u00e3o, uma desconstru\u00e7\u00e3o, ou qualquer tipo de ruptura prescinde do conceito tradicional de engenho, at\u00e9 mesmo \u00e9 concebida contra ele. Mas essa \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o falsa, pois o que conta, nesses casos, \u00e9 a id\u00e9ia que engendra esse avesso art\u00edstico (hoje j\u00e1 instalado como oficial). \u00c9 preciso que a concep\u00e7\u00e3o transgressora atinja o estado de arte para que o resultado seja visto como tal (o produto da id\u00e9ia pode ser considerado tosco ou inapropriado, mas n\u00e3o a id\u00e9ia em si; se for, a\u00ed sim deixa de ser arte).<\/p>\n<p>Na literatura, desde o engenhoso fidalgo da Mancha, e com a intensifica\u00e7\u00e3o das in\u00fameras vanguardas, esse esplendor auto-consciente faz de cada leitor um aprendiz do of\u00edcio e n\u00e3o \u00e9 por acaso que multipliquem-se os escritores \u00e0 medida em que aumenta o volume das leituras. A literatura n\u00e3o serve mais para ludibriar ningu\u00e9m e talvez nunca tenha servido. Foi preciso que a acidez da cr\u00edtica, as experi\u00eancias inumer\u00e1veis, o destelhamento das ilus\u00f5es e o mergulho nas engrenagens da sociedade do espet\u00e1culo conseguissem seus intentos para descobrimos o quanto os escritores dos s\u00e9culos anteriores ao per\u00edodo de desmistifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dispunham do mesmo projeto de entregar a chave dos segredos liter\u00e1rios. E o quanto ficou imposs\u00edvel, depois, escrever sem conformar-se com o olho cl\u00ednico que varre qualquer tentativa de ilusionismo na escrita.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o significa que a literatura tenha esgotado seu arsenal de encantos e mist\u00e9rios. Pandora m\u00edtica ou real, a literatura tem sempre a \u00faltima palavra, apesar dos decretos que tentam faz\u00ea-la migrar para outros of\u00edcios. O truque de alguns escritores especiais, exaustos de auto-consci\u00eancia do que fazem e assim mesmo dispostos a n\u00e3o deixar para a pr\u00f3xima encarna\u00e7\u00e3o a composi\u00e7\u00e3o de uma obra, \u00e9 deixar-se levar pelas evid\u00eancias. \u00c9, aparentemente, compor com o inimigo, submeter-se aos seus des\u00edgnios e deixar para a mente do espectador o fato de que existe um piscar de olhos no final \u2013 aquele tipo de gesto identificado com a esperteza do protagonista que consegue ludibriar a todos e reserva para si o carisma de quem tudo fez em nome do triunfo da arte.<\/p>\n<p>O professor de literatura Javier Cercas, autor do celebrado best-seller Soldados de Salamina, entre outros livros, \u00e9 um artista dessa esp\u00e9cie que deveria ser mais numerosa, mas que \u00e9 escassa, j\u00e1 que s\u00f3 o talento n\u00e3o basta, \u00e9 preciso transform\u00e1-lo em algo superior. Ele \u00e9 como o pintor que expressa sua t\u00e9cnica em cada pincelada e deixa exposta as sucessivas camadas de tinta que usa para compor seu quadro. \u00c9 como um artista tradicional lancetado pela sem-cerim\u00f4nia do laser, do raio-x e de todas as artimanhas modernas que exp\u00f5em a minuciosa arquitetura de uma obra, desde sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final. Ele faz isso em todos os seus trabalhos, mas em O ventre da baleia (Francis, 304 p\u00e1ginas) , se supera: o dom\u00ednio pleno do of\u00edcio, aliado a uma auto-consci\u00eancia (do ato de escrever) impiedosa e reveladora, nos joga fora do aqu\u00e1rio (ou do ventre da baleia) complacente dos h\u00e1bitos de leitura que ainda nos mant\u00e9m presos a uma ultrapassada imagina\u00e7\u00e3o narrativa.<\/p>\n<p>Javier Cercas n\u00e3o se aproveita desse fato de que ainda n\u00e3o assimilamos o suficiente os avan\u00e7os da cultura, apesar das evid\u00eancias em contr\u00e1rio (nossa obsess\u00e3o em defender a liberdade de express\u00e3o a qualquer custo, enquanto nos refugiamos na comodidade de algum enganador). Ele sabe o quanto somos superficiais nas nossas convic\u00e7\u00f5es, por isso nos atualiza, nos lembra o quando houve de transforma\u00e7\u00f5es radicais na literatura. Em cada cena descrita, h\u00e1 sempre essa webcam permanente de um esp\u00edrito-que-anda (o fantasma imortal) das letras, atento a tudo e pronto para entrar em a\u00e7\u00e3o, como de fato entra.<\/p>\n<p>Isso serve principalmente para os personagens, todos descritos de maneira tradicional no f\u00edsico, na apar\u00eancia, nos sinais externos, mas revelados em todas as suas contradi\u00e7\u00f5es no que imaginam e pensam. Aqui \u00e9 preciso entender o que \u00e9 contradi\u00e7\u00e3o em Javier Cercas. N\u00e3o se trata do contraponto entre raiva e alegria ou entre tristeza e paz. Mas entre a personagem esculpida em palavras, frases, s\u00edlabas, letras, pontua\u00e7\u00e3o e a personagem que luta contra sua prec\u00e1ria condi\u00e7\u00e3o de coisa inventada. H\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre essa criatura concreta, feita de linguagem, e a que se forma na cabe\u00e7a do leitor.<\/p>\n<p>Tendemos a pegar a unha o que existe de tradicional no texto (as costeletas, a bengala, o cabelo curto, o cigarro), mas precisamos conviver com a desdramatiza\u00e7\u00e3o permanente imposta pelo autor: a narra\u00e7\u00e3o escolhida para lembrar, mas que vai em dire\u00e7\u00e3o ao esquecimento; a mentira como caminho da verdade; o fluxo interrompido pelo detalhe. O autor que l\u00ea a si mesmo o tempo todo des\u00e1gua inclusive num personagem que tem seu pr\u00f3prio nome, o que \u00e9 o c\u00famulo da auto-flagela\u00e7\u00e3o imposta pela auto-consci\u00eancia. O Javier Cercas fict\u00edcio, que interage com os outros personagens, se destaca assim do protagonista Tom\u00e1s, mas n\u00e3o do verdadeiro Cercas, que utiliza um truque barato para denunciar sua obsess\u00e3o pela transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m faz parte de sua caixa de m\u00e1gicas. Significa que, mesmo levando \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias a devassa do engenho liter\u00e1rio, este ainda tem capacidade de atingir o estado de arte, levando de rold\u00e3o, por sua vez, os truques da cr\u00edtica que tentou desmoraliz\u00e1- lo. Pois a literatura a tudo devora, desde que existam escritores como Javier Cercas, uma esp\u00e9cie de ilusionista disfar\u00e7ado de encanador, que vem consertar o vazamento e acaba inundando o bairro com sua descompostura.<\/p>\n<p>Seu romance, publicado pela primeira vez na Espanha em 1997 e agora traduzido por Bernardo Ajzenberg, funciona como um curso de literatura, sem o capital simb\u00f3lico do professor para atrapalhar. Ele conta apenas com seu engenho, que identifica leitor e autor em todos os lances, descritos numa oposi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica entre destino e car\u00e1ter. Todos somos capazes de tentar ser pessoas de destino, ou \u00e9picos, que s\u00f3 pensam no futuro e recordam o passado para invent\u00e1-lo. Mas acabamos sendo pessoas de car\u00e1ter, conformados com nossa pequenez e falta de alcance.<\/p>\n<p>O grande perigo \u00e9 que, ao nos lan\u00e7armos na aventura do destino, n\u00e3o haver\u00e1 meio de voltarmos para casa do car\u00e1ter. Mesmo que estejamos imobilizados, teremos dentro de n\u00f3s o vulc\u00e3o que nos denuncia. E nossas trivialidades se revelar\u00e3o, como neste romance, de maneira tempestuosa, como as mudan\u00e7as bruscas de esta\u00e7\u00e3o, capazes de nos jogar no miolo do furac\u00e3o. L\u00e1 onde encontraremos frustra\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria, dor, solidariedade e euforia. Teremos ent\u00e3o a chance de sermos humanos, ou de descobrir, ao nosso lado, a arte que nasce quando buscamos a perfei\u00e7\u00e3o de nossos pequenos e defeituosos engenhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor espanhol Javier Cercas \u00e9 como o pintor que expressa sua t\u00e9cnica em cada pincelada e deixa exposta as sucessivas camadas de tinta que usa para compor seu quadro. \u00c9 como um artista tradicional lancetado pela sem-cerim\u00f4nia do laser, do raio-x e de todas as artimanhas modernas que exp\u00f5em a minuciosa arquitetura de uma obra, desde sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final. Ele faz isso em todos os seus trabalhos, mas em O ventre da baleia (Francis, 304 p\u00e1ginas) , se supera: o dom\u00ednio pleno do of\u00edcio, aliado a uma auto-consci\u00eancia (do ato de escrever) impiedosa e reveladora, nos joga fora do aqu\u00e1rio (ou do ventre da baleia) complacente dos h\u00e1bitos de leitura que ainda nos mant\u00e9m presos a uma ultrapassada imagina\u00e7\u00e3o narrativa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/999"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=999"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1610,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/999\/revisions\/1610"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}