O CIRCUNSTANCIALISMO EM ORTEGA Y GASSET
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS APLICADAS
FACULDADE DE FILOSOFIA
FERNANDO FERREIRA PIRES
O CIRCUNSTANCIALISMO EM ORTEGA Y GASSET
CAMPINAS
2010
FERNANDO FERREIRA PIRES
O CIRCUNSTANCIALISMO EM ORTEGA Y GASSET
Monografia apresentada à Faculdade de Filosofia, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Filosofia, sob a orientação do Prof. Dr. José Antônio Trasferetti.
CAMPINAS
2010
RESUMO
O presente trabalho vem trazer à luz a discussão sobre o circunstancialismo, termo oriundo do historicismo que forma a base da investigação aqui debatida acerca da formação do ser. A circunstância, que é o entorno que me circunda, forma o arcabouço para encontrarmos a interação entre o homem e meio, e o homem na interação interpessoal; forma o plano de fundo para uma pesquisa que vai além, tenta mostrar as consequências deste encontro nem sempre calma, pois é sempre inquietante dado ao fato de que o embate circunstancial sempre me é provocativo.
Diante da circunstância tenho de agir, e esta ação culmina necessária e inevitavelmente noutra circunstância. A dialética existente nessa ação envolve por completo o homem que é agente direto e, em certo grau, submisso à circunstância. Ao mesmo tempo, a liberdade toma papel fundamental neste joguete dando ao homem a capacidade de livremente escolher que caminho seguir frente às possibilidades abertas pela circunstância. O ser do homem vai então se moldando.
Palavras-chave: Circunstancialismo, circunstância, escolha, liberdade, formação do ser.
RESUMEN
Este estudio saca a la luz la discusión del circunstancialismo, un término derivado del historicismo que constituye la base de la investigación aquí discutido acerca de la formación del ser. La circunstancia, que es el ambiente que me rodea, constituyen el marco para buscar la interacción entre el hombre y el medio, y el hombre en la interacción interpersonal; forman la base para un estudio que va más allá, intenta mostrar el resultado de este encuentro ni siempre tranquilo, ya que siempre es preocupante dado el hecho de que el choque circunstancial es siempre provocativo.
Teniendo en cuenta la circunstancia tengo de actuar, y la acción de esta, necesaria e inevitablemente, culmina en otra circunstancia. La dialéctica que esta acción tiene lugar completo en un hombre que es un agente directamente, y en cierta medida, de sumisión a la condición. Al mismo tiempo, la libertad tiene papel clave en este juguete para dar al hombre la capacidad de elegir libremente el camino a seguir delante las posibilidades abiertas por la circunstancia. La esencia del hombre entonces se perfila.
Palabras clave: Circunstancialismo, circunstancia, elección, libertad, formación del ser.
SUMÁRIO
CAPÍTULO I – CIRCUNSTANCIALISMO
1.1 Panorama da Filosofia Espanhola no início do século
1.2 Ortega y Gasset: Obras e influências.
1.3 Don Juan X Sócrates: início do Raciovitalismo.
2.1 Historicismo e Construtivismo.
3.1 Adentrando à circunstância
CAPÍTULO II – O CIRCUNSTANCIALISMO NA RELAÇÃO COM O MEIO
2. A implicação do meio para o eu
CAPÍTULO III – O CIRCUNSTANCIALISMO NA RELAÇÃO COM O OUTRO
2. Influência do relacionamento
INTRODUÇÃO
O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo primordial investigar um questionamento assaz pautante em todas as reflexões filosóficas que é a problemática do ser e sua constituição. E isto será aqui debatido à luz da visão circunstancialista, demonstrando a interferência da circunstância no eu. O intento maior é analisar a influência que a circunstância pode vir a atingir no ser – visto aqui de forma singular – aos moldes que seu pensador primeiro assim o concebeu.
Para esta compreensão inicial uma primeira tarefa há de ser evidenciada: o que é exatamente essa circunstância? O que significa circunstância? Contudo, somente isto não basta para que possamos obter uma resposta objetiva e plausível capaz de persuadir aos leitores mais críticos acerca de uma influência realmente culminante dentro de nossa abordagem a respeito da formação do ser.
Para enfrentar os problemas de sua época, sobretudo os da Espanha, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset – que será melhor apresentado ao longo deste trabalho – pensou as questões políticas à luz de uma teoria da realidade, que ele elaborou e que se tornou conhecida como raciovitalismo. Essa teoria centrou a discussão no conceito de vida experimentado na primeira pessoa. Com a frase: Eu sou eu e minha circunstância, Ortega y Gasset particulariza os problemas de cada homem. A continuação desta mesma frase: se não salvo a ela (circunstância) não salvo a mim, Ortega y Gasset indica que o homem pode mudar a sua vida transformando a realidade em que vive. Se não fizer afunda-se na circunstância e não dá sentido a sua própria vida.
Primeiro passo: a determinação do emprego de circunstância remete-nos ao historicismo, tendo que aí empreender uma boa parcela deste estudo. Tudo porque a circunstância parte da história. A circunstância se é dada pelo próprio desenrolar da história. “Havemos de buscar para nossa circunstância, tal e como ela é, precisamente no que tem de limitada e peculiar, o lugar acertado na imensa perspectiva do mundo [...]. Em suma: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem” [1].
Para tal elucubração, um plano de estudo deve ser traçado e seguido para se atingir com plenitude o intento maior que move esta investigação: “Pode ou não, ser a circunstância um fator constituinte do ser?” Afinal, como nos diz nosso filósofo, “a filosofia é o esforço intelectual por excelência” [2], traduzindo que para se chegar à nossa excelência que aqui se descreve por investigar nossa inquietação inicial e traçar as linhas mestras para a problemática, todo esforço empreendido será cobrado, dada a complexidade deste trabalho. Assim sendo, uma sequência lógica – e por que também não admitir, cronológica – dos conceitos aqui colocados deverá ser seguida de forma a uma maior assimilação de nosso leitor.
No Capítulo I, a abordagem passa pelo crivo histórico, pois temos de compreender primeiramente como se deu na filosofia orteguiana a aurora do circunstancialismo. O que isso significa ao certo? O historicismo tem de ser um conceito muito bem aclarado para que se possa dar seguimento aos estudos, visto ser ele um conceito chave na formação filosófica de nosso pensador espanhol. Na prática, tudo isso significa um intenso debruçar – nas possibilidades e limitações a que este trabalho nos impõe – sobre o assunto, a fim de não inviabilizar a continuidade das reflexões posteriores.
Uma vez compreendido o historicismo partir-se-á para uma contextualização do conceito circunstância, palavra-chave que permeia todo este trabalho. Um dos grandes estudiosos brasileiros sobre a figura e o pensamento de Ortega y Gasset, Gilberto de Mello Kujawski[3], apresenta a seguinte definição: “circunstância é tudo o que não sou eu, inclusive meu corpo, minha alma, meu psiquismo”. [4] Com isso, um pequeno escopo de nossa investigação começa a desvelar-se, as primeiras pistas vão tomando corpo e mostrando o viés a ser seguido para se atingir o plano proposto.
Como já citado, muitos fatores impulsionaram Ortega em sua filosofia. Decorrente disso, urge a nomeação de um novo conceito, encabeçado justamente pelas condições a que foi pensado. O circunstancialismo vem como nova proposta para uma leitura da realidade. Esta realidade que me circunda, esta realidade mesma que se apresenta como caráter único e cerceante provocam em mim, inevitável e inesgotavelmente, uma reflexão. Inevitável porque somente com uma leitura do que me rodeia é que se é possível dar passos, promover escolhas, mover os passos; inesgotável porque a cada nova reflexão, se esboça uma nova realidade que indubitavelmente requer outra reflexão. Com isso, o circunstancialismo vem ser a chave que nos conecta incessantemente com o eu de cada pessoa. Tudo porque a realidade só tem sentido de ser quando conectada comigo, como assim ilustrado: “Ela [a realidade] não existe ‘em si’ (realismo), nem ‘em mim’ (idealismo), mas comigo”. [5]
Ao cunhar seu pensamento, Ortega não nos incita ao solipsismo – não cabe aqui explicações maiores sobre este termo. Uma reflexão errônea e equivocada poderia nos propor tal engano. Longe disso, Ortega nos apresenta um modelo capaz de guiar de modo vivente e pulsante minha realidade. Esse minha não representa um pronome de possessão da realidade, senão uma visão individualizante de cada um a respeito da realidade que o circunda. Uma visão sempre ativa de tudo; visão possibilitadora de reflexão pautada na individualidade daquele a que se encontra naquela realidade tal. Sempre recorrendo ao ensaísta brasileiro, encontramos uma passagem que ilustra favorável ao que foi dito. “Há, no entanto, sobre o ver passivo, um ver ativo, que interpreta vendo e vê interpretando; um ver que é enxergar”. [6] Interpretar a realidade é vivenciá-la de modo pleno, é posicionar-se não diante dela, mas nela; inteirar-se adquirindo identidade única.
No Capítulo II todo o esforço será empregado na reflexão do circunstancialismo na relação com o meio. Para iniciar este capítulo, propõe-se como método a investigação do que vem a ser o meio. Um primeiro questionamento é justamente este: o que é o meio? Uma primeira noção é a de que somos diferentes dos outros seres da natureza. Ortega defende que não temos uma natureza, mas uma historia[7]. “Porque o homem não tem natureza, ele tem história. Não é seu corpo, nem sua alma, e sim o que ele fez com eles; e o que faz agora não fez ontem, nem fará amanhã”. [8]
Em seu livro Meditações do Quixote (1914), Ortega nos apresenta um questionamento de D. Quixote: “meu Deus, que é a Espanha?” [9] A princípio uma pergunta simplória, contudo cheio de significados. Somente fazendo a real interpretação da realidade e dando-lhe a devida significância é que se pode atingir uma verdadeira vivência prática da própria vida, alcançando também a reflexão assaz necessária para que tudo ocorra.
Como já afirmado anteriormente, minha interação com a realidade se faz necessária para minha reflexão. Neste capítulo, a realidade se nos apresenta como o meio em que se está. Então, também necessária é abordar a influência que o meio exerce sobre mim. Mais uma vez, a individualidade da reflexão não pode ser olvidada, o que decorre daí um panorama propício para um movimento ascendente de caráter ontológico.
“Conviver é estar compenetrado com as coisas a tal ponto que elas não existem como objetos para mim; não são ‘presenças objetivas’ e sim ‘presenças executivas’, da mesma forma que eu não me ponho como presença à parte das coisas, mas concomitantemente com elas e nelas absorvido”.[10] Esta passagem abre-nos a ocasião para compreender a interatividade com que as coisas – lembrando que neste momento de abordagem, a coisa em destaque é o meio em que se está – vêm até nós, verificando gradativamente a forma de crescimento que se interpõe frente às possibilidades que se elencam. “Desde que eu projeto minha pretensão sobre a circunstância, ela se abre num leque de possibilidades distintas, sugerindo múltiplos caminhos”.[11] Ou seja, a reflexão do meio nos incita, inevitavelmente, a fazer escolhas. Tais escolhas nos abrirão novas possibilidades da realidade; abertura ao novo que nos trará, outrossim, um “outro” novo.
Partindo para a terceira parte, ver-se-á no Capítulo III que a abordagem se assemelha ao capítulo anterior. A diferença básica, porém de alta relevância, instala-se na mudança da realidade que era da relação com o meio – no capítulo antecedente – para a relação com o outro.
O outro, nesta abordagem, é necessariamente outro homem, outro ser humano histórico, também carregado e imerso em sua própria circunstância; e também outras formas de existência – objeto e demais seres vivos. Dado a isso, a relação pode, por vezes, ser tensa. Em verdade, pode ter todas as variações quantas forem possíveis se encontrar. Cabe então ao agente dessa reflexão de sua própria circunstância, posicionar-se lado a lado com o outro na perspectiva de compreensão mútua. “O homem não deve deixar colocar-se a serviço da circunstância, como joguete em suas mãos, e sim amoldar-se a ela para colocá-la a seu serviço, reabsorvê-la”. [12] Integrar-se com o outro abre a possibilidade de interação, fator importante a ser considerado nesta relação.
Há, de modo genérico, um enlace que une o eu com o outro independente da consciência das partes. Assim, as possibilidades advindas desta relação são as mais variadas, decorrente da individuação de circunstância a que cada um na relação está circunspecto.
As conclusões desta dissertação acompanham as hipóteses apresentadas, e, sendo assim, não se exclui uma possível discrepância acerca de todas as possibilidades, visto ser o autor alguém fruto das escolhas propiciadas pela circunstância vivida por ele num dado momento – no caso, a circunstância que o envolvia no momento histórico desta elucubração –, e um dado irrefutável é a singularidade da circunstância a que outro espectador esteve atrelado.
“Viver é o que faço e o que me acontece. E o que me acontece é estar aqui e agora às voltas com uma circunstância com a qual tenho que fazer algo para viver”. [13] Toda minha vida – num caráter estritamente individual – será reflexo de minha circunstância à medida que a compreendo e me faço interagir integralmente com ela. E minha circunstância é somente minha. Destarte, não há como haver escolhas idênticas porque não há circunstância idêntica. Há no máximo situações semelhantes. Serei o máximo de mim quando for capaz de interpretar com naturalidade e liberdade minha circunstância. Visto que “o homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire plena consciência de suas circunstâncias. Por elas se comunica com o universo”. [14]
CAPÍTULO I – CIRCUNSTANCIALISMO
Uma dedução rápida precipitadamente nos levaria a interpretar o termo que dá nome a este capítulo: circunstancialismo vem de circunstância! Porém, talvez aí resida uma das problemáticas que é justamente definir com clareza e exatidão o conceito de circunstância.
Uma vez que nossa abordagem remete indivisivelmente à concepção orteguiana de circunstância e todas as suas implicações, é imprescindível que se faça aqui uma apresentação histórica sobre nosso filósofo José Ortega y Gasset visando adquirir um prospecto que favoreça a compreensão de toda nossa busca por desvelamento neste ensaio.
Sem as preliminares anunciadas acima dificilmente se fará acessível todo o desenrolar das discussões debatidas acerca do nosso tema: simples para os leigos que com uma visão simplista e obscurecida pela deficiência de informações alegarão um debate dispensável; complexo para aqueles que com empenho se debruçam sobre toda a conceituação a respeito do tema, encarando-o com a seriedade que se pede tal investigação.
Eis que então, antes de qualquer outra compreensão, faz-se mister conhecermos – ainda que com a brevidade a que este trabalho nos impõe – o pensador espanhol, para posteriormente vermos sua trajetória de pensamento que culminou no circunstancialismo.
1. Ortega y Gasset
José Ortega y Gasset, assim como todos nós, e qualquer outro no globo terrestre, mesmo os que não têm a mínima consciência disto, estão envoltos numa dada circunstância[15], assim, precisamos também conhecer, ainda que superficialmente, o contexto próprio em que viveu Ortega. Conhecer o ambiente que foi propício ao desenrolar de todo seu pensamento.
Ortega foi um homem de muitas moradas[16], talvez também tenha sido isto que o levou às suas reflexões, uma vez que com suas “andanças” viu-se face a face com várias experiências distintas.
1.1 Panorama da Filosofia Espanhola no início do século
No século XIX, na Espanha, há um grande atraso cultural, e esse atraso se estende até o período pós-guerra. No entanto, ainda no século XIX, em filosofia entende-se basicamente a tradição escolástica, que nunca deixou a Espanha, desde Francisco Soares, que foi um grande escolástico daquele século XIX. Tem-se também a presença do Krausismo[17], que se adequou muito bem ao pensamento religioso da Espanha ao final do século XIX.
E é esse o panorama de fundo da filosofia contemporânea, porque ela nasce de uma abnegação ao século XIX. Neste mesmo período, se tem um movimento intelectual que recebe o nome de Geração de 98[18], que são intelectuais, não propriamente filósofos, em maioria pensadores da área da literatura, mas que consagram o chamado Modernismo Espanhol, tendo como expoente maior Miguel de Unamuno[19]. Unamuno se enquadra muito bem à Geração de 98 por sua tentativa em pensar o que é a Espanha.
Assim como todos os movimentos modernistas, eles se voltam para a sua cultura regional e tentam buscar uma ontologia do próprio ser espanhol. E foi o que aconteceu com Unamuno, que foi professor de grego da Universidade de Salamanca e foi um grande crítico da monarquia.
Nesse ambiente em que os intelectuais estão se colocando contra o poder vigente, busca-se, sobretudo uma definição para o que é ser espanhol, é que aparece a filosofia de Ortega y Gasset.
1.2 Ortega y Gasset: Obras e influências
Ortega nasceu em 1883 e morreu em 1955. Estudou em Colégio Jesuíta, depois fez seu ensino médio e bacharelado em Deusto, e logo após foi para Madrid estudar Direito na Universidade Central, que hoje é a universidade Conclutense. Mais tarde Ortega ingressou no curso de filosofia. É oriundo de uma família relativamente abastarda, seu pai José Munilla, era proprietário de um jornal e de várias terras. Assim que Ortega se forma, retorna à Espanha e no ano seguinte ele vai para a Alemanha estudar com os neo-kantistas em Marburgo[20]. Ortega dizia que naquele momento se via Kant em toda parte. E ele estava à altura de seu tempo, pois estava em uma universidade alemã e todos que estudavam naquela universidade, naquele momento, se tornavam grandes autores.
Em 1908, Ortega fundou o jornal "Faro". Fundou ainda as revistas "El Sol" e "Revista de Occidente". Por sua relevante atividade intelectual, foi eleito para a Real Academia Espanhola de Ciência Moral e Política.
Depois de mais um ano em Marburgo ele retorna e em 1910, Ortega casa-se e presta um concurso para a Universidade Central, para a cadeira de Metafísica, ingressando no mesmo ano na Universidade de Madrid, mas somente em 1912 começa a lecionar, onde permaneceria 26 anos.
Sua principal atividade nesse período era o de periodista. Em virtude disso, Ortega oferece uma imagem bem característica – a do intelectual –, mas não o intelectual de gabinete. Ele se interessa em ser um intelectual que chegue ao grande público e por isso, não pode ser hermético.
Há, no entanto, uma carência absoluta de uma reflexão filosófica aprofundada no período do início do século XX na Espanha. Então, assim como Voltaire e alguns filósofos franceses do século XIX, cria-se, então, a ideia do filósofo como aquele que atende a comunidade e Ortega aderiu a essa ideia. Ele começou, como já foi dito antes, com uma atividade bem intensa de jornalismo, escrevendo para jornais, dando conferências e lecionando cursos fora da universidade. Sempre foi grande orador.
Juntamente com outros intelectuais, em 1931, organizou o Grupo a Serviço da República. Sendo um político liberal, opôs-se à ditadura de Primo de Rivera (1923) e chegou a abandonar seu posto na Universidade em protesto contra o ditador. Estava convencido de que a monarquia não podia mais unir os espanhóis em torno de um objetivo comum. Após a queda de Rivera e a abdicação do rei Afonso XIII, Ortega participou da Assembleia Constituinte da Segunda República entre 1931 e 1932. Eleito deputado pela província de Leon, desiludiu-se com a política, renunciou e manteve silêncio sobre a política espanhola a partir daí. Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), exilou-se voluntariamente na Argentina. Presenteia-os com várias conferências na Universidade de Buenos Aires. Na volta Ortega começa a escrever alguns artigos falando bem do povo argentino. Também fica exilado em outros países da Europa, por não apoiar nenhum dos lados em luta e para não aceitar um cargo acadêmico após a vitória do ditador fascista Francisco Franco.
Após a Segunda Guerra Mundial, contudo, voltou a Madri e fundou o Instituto de Humanidades, mas não conseguiu mantê-lo em funcionamento por mais de dois anos sob o regime ditatorial. Passou a lecionar e fazer conferências com frequência no exterior.
Como ensaísta, Ortega y Gasset é um dos mais importantes do século XX. A maioria dos seus livros são coletâneas de artigos e ensaios. Ortega também gostava de incitar seus ouvintes e leitores a desenvolver os temas em discussão – para ele a vida era um intenso diálogo entre cada indivíduo e o seu meio.
Por escritos o que se pode afirmar é que entre suas obras, recebem maior destaque as Meditações do Quixote, de 1914, que aparece inspirada na obra de Unamuno chamada “O sentimento trágico da vida”, cujo alcance se dá em toda Espanha. Interessante observar que, embora Ortega se inspirasse nele, era comum uma “troca de farpas” entre os dois publicamente, embora também ambos tivessem trocado cartas por muito tempo explicitando a admiração mútua, coisa corriqueira no ambiente intelectual e que não é diferente no mundo filosófico; e A Rebelião das Massas, de 1930.
Ortega y Gasset foi um filósofo que viveu os problemas de seu tempo e se preocupou com o destino da Espanha. O país se encontrava fragmentado, dividido e semeado por vários problemas sociais e políticos que o impediam de acompanhar o desenvolvimento das outras nações europeias.
Depois de 1914, ele tem a obra bastante divulgada na Espanha, mas só na década de 20 é que Ortega começa a ser lido fora da Espanha, particularmente na França e em Portugal. A década de 20 é o momento de auge para Ortega. Sua carreira acadêmica está nesta década construindo um ambiente cultural na Espanha que de fato ainda não havia. Ele o faz como crítico do governo através de seus periódicos e de suas aulas.
Em 1921 é lançado o texto “Espanha invertebrada”. Em 1923 ele escreve a obra “Tema do nosso tempo”. Essa última obra vai marcar uma influência muito grande de Nietzsche. Mas é um Nietzsche que vem traduzido por Unamuno e Max Scheller.
1.3 Don Juan X Sócrates: início do Raciovitalismo.
Nessa obra, “O tema do nosso tempo”, o principal capítulo é chamado “Duas normas”, que seria a norma de Don Juan e a norma de Sócrates. Ortega toma a figura de Sócrates assim como Nietzsche a tomou, no sentido de acreditar que Sócrates era um exemplo de assassino da razão que o ocidente sofreu, ou seja, Sócrates esgotou o ser humano só na sua capacidade racional e esqueceu-se do seu potencial de vitalidade.
Então, nessa obra ele vai fazer uma reflexão sobre a figura de Sócrates e o que ela representa no mundo ocidental. Ela representa um tipo de racionalismo cartesiano cientificista que assume a característica de positivismo; de cientificismo no início do século XX. E o que vai se contrapor a isso é o ideal de Don Juan, que é uma figura espanhola que, segundo Ortega, seria aquele que vive mais e sabe avaliar a sua vida.
Ortega enaltece a figura de Don Juan como ideal ético de moralidade, através de um ethos de perfeição, sendo ele chamado “herói do esforço inútil”, e é esse o teor da grandeza de Don Juan.
José Ortega acreditava que a peça mais verdadeira que explicitava o real sentido de Don Juan era uma do século XVII, de um autor chamado Zonilla, Don Juan Tenório. Uma das imagens que ele pega de Don Juan, além de Zonilla, é um quadro de El Greco, chamado São Maurício[21]. No quadro de El Greco aparece São Maurício chamando sua tropa para então se defrontar contra os inimigos mouros. Segundo Ortega, o gesto da mão de São Maurício chamando as pessoas para morrer em nome de algo, esse seria o gesto “Don Juanesco”. Ele retorna a uma imagem de Don Juan como aquele que leva a vida em sua mão, leva a vida em um “Às de espadas”, ainda segundo Ortega, quando Don Juan está fazendo suas apostas nas tabernas de Sevilha no século XVII.
Essa obra vai fundamentar a teoria da raciovitalidade, porque de um lado temos o homem da razão pura, o racionalismo; e do outro o homem da pura vitalidade, que é o homem racional.
Raciovitalismo é a teoria do conhecimento que parte da vida. Mas, tentando ser um meio termo entre o racionalismo e o vitalismo, ou seja, entre Kant e Nietzsche. Portanto, Ortega reconhece o valor da razão, mas a serviço da vida, ou seja, há uma íntima conexão entre a razão e a vida e da razão e da história. O homem é um ser dotado de razão, mas uma razão para viver utilizado, de modo a ter que inventar uma razão para não faltar no universo. A vida é realmente radical, ou seja, é o primeiro evento do qual tudo está subordinado.
2. Historicismo
Em sentido amplo o qualificativo é dado a correntes do pensamento, segundo as quais é a história que faz o homem e não o homem que faz a história. Baseia-se no modelo romântico inaugurado por Herder e Schelling, para os quais o universo deixou de ser um sistema e passou a ser entendido como história, numa passagem do cosmológico para o antropocêntrico. De certa maneira, é o exato contrário do conservadorismo, gerando uma fuga para a frente, através do evolucionismo e do progressismo. Sob o qualificativo de historicismo, reúnem-se, contudo, múltiplas e contraditórias perspectivas: neo-hegelianos como Crice reclamam-se de um historicismo idealista, dito historicismo absoluto. Historicista é também o materialismo dialético e o vitalismo de Spengler e Ortega y Gasset, bem como o existencialismo de Heidegger, Jaspers e Sartre.
2.1 Historicismo e Construtivismo
“Na realidade, todos os homens, por pouco instruídos que os julguemos, fazem verdadeiras previsões, fundadas sempre sobre o mesmo princípio, o conhecimento do futuro pelo passado.” [22] Talvez esta passagem sintetize a essência do historicismo. Vemos aí no que se funda esta corrente filosófica, porém como em todos os conceitos há de ser aqui melhor explicitado.
Parte importante do pensamento ocidental baseia-se nesta visão das coisas, visão de que o futuro é previsível, assim como o será também o comportamento humano individual e de forma conseguinte o comportamento social, tanto na utilização dos mecanismos da razão por parte dos tiranos iluminados, quanto na possessão das grandes correntes da História, assim como propôs Karl Marx, que “previu” o fim do capitalismo e o erguimento do socialismo.
O construtivismo político, corrente que descende do historicismo, defende o intervencionismo social como forma de modelar o andamento da história e a natureza da sociedade. Ele acredita piamente que as sociedades humanas caminham e se desenvolvem com base em leis compreensíveis pela razão, que se podem utilizar para amoldar o futuro às suas melhores conveniências.
As doutrinas construtivistas querem transmutar o homem e a sociedade por atos de vontade. Agregam, por isso, ideologias políticas tão distintas quanto a social-democracia e o socialismo democrático, o comunismo e o fascismo. Em todas estas se encontra o mesmo traço comum essencial: a intervenção do Estado, de uma instância superior aos indivíduos e à própria sociedade, feita em nome dos valores sociais estruturantes, como a justiça social, a solidariedade e a igualdade de oportunidades. Elas supõem que quem governa dispõe de dispositivos de racionalidade e prudência superiores aos dos indivíduos concretos, capazes de prevenir e arquitetar os cenários prováveis do futuro, autorizando-se assim a impor a sua vontade à comunidade.
A evolução científica resulta sempre do emprego de novas hipóteses em torno de problemas antigos. Nesse ponto, mais do que “leis”, as conclusões da ciência são probabilidades[23]: indicam suposições de trabalho com alto grau de coerência explicativa dos fenômenos analisados, mediante os dados disponíveis no momento em que são enunciadas, que devem permanentemente ser colocadas à prova por outros fatos e hipóteses: “o critério que define o status científico de uma teoria é a sua capacidade de ser refutada ou testada.”[24]
A aquisição do conhecimento será, portanto, alcançada por sucessão e constatação: baseia-se, em parte na tradição, na experiência e na verificação constante das asserções que temos como mais admissíveis para a melhor explicação dos fenômenos notados. Aprender com o erro possibilita evitar a sua repetição e confere maior segurança às nossas escolhas.
A fonte mais importante do nosso conhecimento – além do conhecimento inato – é a tradição. A maior parte do que sabemos e aprendemos pelo exemplo, por ouvir contar, lendo livros, aprendendo a criticar, a receber e a aceitar a crítica, a respeitar a verdade.[25]
2.2 O materialismo dialético
A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento. Vejamos, por exemplo, como o conceito elementar de ser se enriquece dialeticamente. Como é que o ser, essa noção simultaneamente a mais abstrata e a mais real, a mais vazia e a mais compreensiva, transmuta-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. O conceito de ser é o mais geral, mas também o mais pobre. Ser, sem qualquer qualidade ou determinação. O ser, do jeito puro e simples, equivale ao não-ser. É fácil ver que essa incoerência se resolve no vir-a-ser, o devir. Os dois contrários que engendram o devir, aí se reencontram incorporados, harmonizados.
Apresentava-se, portanto, a necessidade da eclosão de uma nova lógica, para poder racionalizar o artefato potencial e negativo da experiência, isto é, tudo que há no mundo de não-racional e de irracional. E por isso Hegel concebeu a dialética dos opostos, cuja característica basilar é a negação, em que a positividade se realiza por meio da negatividade, do ritmo famoso de tese, antítese e síntese. Essa dialética dos opostos define e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese. A nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser. Quer dizer, coincide com a ontologia, em que o próprio elemento já não é mais o ser, mas o devir irrestrito.
A dialética hegeliana era a dialética do idealismo; a dialética do materialismo é a posição filosófica que analisa a matéria como a única realidade e que nega a existência da alma, de outra vida e de Deus. Ambas pleiteiam que realidade e pensamento são a mesma coisa: as leis do pensamento são as leis da realidade. A realidade é conflitante, mas a contradição supera-se na síntese que é a “verdade” dos momentos superados. Hegel considerava ontologicamente a contradição (antítese) e a superação (síntese); Marx ponderava historicamente como contradição de classes vinculada a certo tipo de disposição social.
Os momentos contraditórios são estabelecidos na história com sua parcela de verdade, mas também de erro; não se permutam, mas o conteúdo, considerado como unilateral é recaptado e elevado a nível superior.
As noções de Karl Marx acerca da mudança foram arquitetadas a partir dos escritos de Hegel, que desenvolveu o conceito da dialética. Marx utilizou este conceito da dialética e aplicou-o à sociedade, assegurando que as origens da mudança social são todas materialistas.
Em suma, o materialismo dialético é assim chamado, porque a sua maneira de avaliar os acontecimentos da natureza, o seu método de verificação e de conhecimento é dialético, e a sua explicação, sua concepção dos fenômenos da natureza, a sua teoria é materialista.
2.3 Materialismo histórico
O materialismo histórico desdobra os princípios do materialismo dialético ao curso da vida social; consagra estes princípios aos fenômenos da vida social, ao estudo da história da sociedade. Hegel foi o filósofo que enunciou as características fundamentais da dialética. Marx e Engels tomaram de Hegel apenas o cerne racional de sua dialética. O filósofo Feuerbach reintegrou o materialismo no seu devido lugar e Marx e Engels, assim como no caso de Hegel, tomam apenas o núcleo central do materialismo de Feuerbach.
Na teoria marxista, o materialismo histórico almeja a elucidação da história das sociedades humanas através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual os alicerces, a infraestrutura, seriam representados pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, simularia as ideias, tradições e instituições.
Tal afirmação, defendendo austero determinismo econômico em todas as sociedades humanas, foi estabelecida por Marx e Engels dentro do constante clima de polêmica que mantiveram com seus opositores, e abrandada com a afirmativa de que existe permanente interação e interdependência entre os dois níveis que compõe o arcabouço social: do mesmo modo pelo qual a infraestrutura age sobre a superestrutura, sobre os reflexos desta, não obstante, em última instância, sejam os fatores econômicos as condições finalmente decisivas.
Segundo esta abordagem epistemológica, o viés do conhecimento é feito de constantes avanços e retrocessos, e encontra-se estabelecido na aprendizagem pelo desacerto (método hipotético-dedutivo), o que conduz a que o seu progresso derive “fundamentalmente, na modificação do conhecimento precedente.”[26]
2.4 Existencialismo
Segundo Jean-Paul Sartre, a essência do homem é não ter essência, a essência do homem é algo que ele mesmo engendra, ou seja, a história. “A existência precede a essência”; O homem, antes de ser, existe; constrói-se na atividade do dia-a-dia; nenhum ser humano nasce pronto, mas o homem é, em sua essência, produto do ambiente em que vive, que é edificado a partir de suas afinidades sociais em que cada pessoa se encontra. Assim como o homem produz o seu próprio recinto, por outro lado, esta produção da condição de existência não é livremente selecionada, mas sim, assentada com antecipação.
O homem pode fazer a sua história, mas não pode fazer nas condições por ele escolhidas. O homem é historicamente determinado pelas condições, logo é responsável por todos os seus atos, pois ele é livre para optar. Assim, todas as teorias de Marx estão abalizadas naquilo que é o homem, ou seja, o que é a sua existência. Repetindo Sartre: o Homem é condenado a ser livre.
As relações sociais do homem são vistas por meio das relações que o homem sustenta com a natureza, em que desenvolve suas técnicas, ou seja, o homem se compõe a partir de seu próprio afazer, e sua sociedade se constitui a partir de suas condições materiais de produção, que dependem de fatores naturais, ou seja, relação homem-Natureza, assim como da divisão social do trabalho, sua cultura. Portanto, também há a relação homem-Natureza-Cultura.
2.5 O idealismo lógico: Hegel
Com o idealismo absoluto de Hegel, o idealismo fenomênico kantiano obtém logicamente o seu cume metafísico. Hegel fica leal ao historicismo romântico, concebendo a realidade como vir-a-ser, devir, desenvolvimento. Este devir, porém, é racionalizado por Hegel, elevado a procedimento dialético; e este processo dialético é um procedimento circular.
É necessário compreender também que a história é um avanço. O devir de várias experiências arriscadas não é outra senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se desempenha por etapas contínuas para alcançar, no final, a plena detenção, a plena consciência de si mesmo.
Considerando a história da terra, de início só existem minerais, logo após, vegetais e, na sequência, animais. A única impressão que se tem – e isso é verossímil mesmo na mais singela observação – é a de que seres cada vez mais complexos, cada vez mais preparados, cada vez mais independentes surgem no Universo? Esse progresso do Espírito continua e se concluirá por meio da história dos homens. Cada povo, cada civilização, de certa maneira, tem por incumbência realizar uma fase desse progresso do Espírito. O Espírito humano é de início uma consciência obscura, um espírito puramente subjetivo, é a percepção imediata. Depois, ele logra encarnar-se, objetivar-se sob a configuração de culturas, de instituições estabelecidas.
Segundo as normas da lógica clássica, essa assemelhança da Razão com o devir histórico é definitivamente paradoxal. De fato, a lógica clássica pondera que uma proposição fica explanada quando é reduzida, identificada a uma proposição já aceitada. A lógica vai do idêntico ao idêntico. A história, ao contrário, é a possessão do mutável. Os ocorridos de hoje são diferentes dos de ontem. Ele o contradiz. Aplicar a razão à história, por consequência, seria indicar que a mudança é aparente, que no fundo tudo continua a ser idêntico. Aplicar a razão à história seria recusar a história, rejeitar o tempo. Ora, na contramão de tudo isso, o racionalismo de Hegel assenta o devir, a história, em primeiro nível.
3. Circunstância
Ortega y Gasset, vendo-se envolto numa atmosfera conturbada em sua época, buscou compreender sua situação concreta no contexto próprio em que se encontrava. Para isso, o espanhol caminhou pelo viés do historicismo para assimilar de modo mais pleno sua Espanha naquele exato momento histórico, isto é, em sua circunstância. No entanto, cabe-nos apreciar o desenrolar que esculpiu o termo:
Conceito capital na filosofia de Ortega é o de circunstância, que se converteu num “têrmo” técnico e tem longa vida no pensamento por êle inspirado, bem como no uso da língua espanhola. Que eu saiba, nunca foi antes utilizado como têrmo filosófico, e nem depois, sem referência a Ortega. Convém ter presentes outros têrmos análogos que poderiam passar como seus antecedentes. Pensar-se-á, sobretudo, no alemão Umwelt (mundo em tôrno, ou mundo circundante). É sabido que êste conceito encontra-se em Husserl, e representa o mundo, não como realidade física alheia, e sim enquanto me rodeia, e que não é só mundo de coisas, como de bens e valôres, um mundo prático. Ao suspender eu a “atitude natural”, ou melhor, ao sobrepôr-lhe outras atitudes particulares, por exemplo, a aritmética, obtenho os “mundos circundantes ideais”. Esta expressão Umwelt, no entanto, fôra antes usada pelo biólogo J. von Uexküll, em suas Ideias para uma concepção biológica do mundo (1913) e ainda no próprio título de seu livro Umwelt und Innerwelt der Tiere (1911). Uexküll propunha-se introduzir na biologia um conceito mais rigoroso e fecundo que o de milieu ou environment tais como eram usados pelo darwinismo e se encontram em William James. Não demorou muito, sem embargo, para que o têrmo Umwelt fôsse usado na antigo sentido de milieu. Procurando salvar-lhe o significado introduz Uexküll os têrmos Merkwelt e Wirkungswelt. Ortega advertiu, no prólogo à tradução espanhola das Ideias para uma concepção biológica do mundo, de Uexküll: “Devo declarar que sôbre mim exerceram, desde 1913, grande influência estas meditações biológicas. Influência não meramente científica, mas cordial. Não conheço sugestões mais eficazes que a dêste pensador para introduzir ordem, serenidade e otimismo na conturbação da alma contemporânea.[27]
Após esta fabulosa explanação sobre o “termo” circunstância descrita por Julián Marías[28], poucas explicações mais técnicas se fazem precisas, porém há ainda a necessidade de se aprofundar na perspectiva de aclarar todo este desenrolar utilizado por Marías para explicitar nosso conceito-chave.
Indubitavelmente, far-se-á necessário compreender de modo mais radical o que a circunstância imprime em mim. “Radical não quer dizer ‘única’, nem ‘a mais importante’. Quer dizer simplesmente o que significa: realidade em que se radicam ou que se arraigam todas as demais. A realidade das coisas ou a do eu dá-se na vida, como um momento dela.”[29] Assim, o momento único – que contém a minha circunstância – é algo somente meu; relaciona-se somente comigo na forma indivisível com que se apresenta, e alimenta em mim necessidades de ação.
3.1 Adentrando à circunstância
Ninguém é alheio à circunstância. Não há jeito, modo, maneira de se livrar dela, não há como estar fora de uma dada circunstância. Ela se mostra a nós seguindo o ritmo histórico de progressão dos fatos.
Observando estes argumentos vê-se que uma circunstância jamais se repetirá. O próprio círculo histórico desenvolve-se tomando como passado o momento histórico de uma circunstância.[30] Então, fazendo parte deste mesmo momento histórico – visto que a existência de minha circunstância está atrelada unicamente ao meu próprio existir – encontro-me frente a necessidade de agir. Esta ação, evidentemente, levará em conta a circunstância.
Este entrave, ao desenrolar-se tornará crível toda investigação aqui proposta. Uma vez que “eu sou eu e minha circunstância”, vemo-nos impossibilitados de agir sem uma reflexão, por mais diminuta que seja. Pautados e embasados pela circunstância forçosamente me coloco na necessidade de tomar decisões. A vida, minha vida, é então uma sucessão de fatos amoldados que me coloca a par de todo o contexto a que me submeto. O eu não existe só, ele [o eu] não é, ele necessita da circunstância para ser. “[…] yo no soy más que un ingrediente de esa realidad radical ‘mi vida’, cuyo otro ingrediente es la circunstancia.”[31]
Temos de ser e, para ser, o que nos ocorre é adentrar em nossa circunstância para, a partir dela, imputar um percurso próprio e que nos leve à realização pessoal – o que não tem dever de aclaramento em nossa pesquisa. Por nossa circunstância, tornamo-nos seres solitários, vivemos uma vida individual e distinta de outro. Vivemos nossa circunstância única, irrepetível e com isso, somos levados a diferenciarmos de tudo, pois somos únicos: “eu e minha circunstância”.
El hombre no es cosa ninguna, sino un drama – su vida, un puro y universal acontecimiento que acontece a cada cual y en la que cada cual no es, a su vez, sino acontecimiento. Todas las cosas, sean las que fueren, son ya meras interpretaciones que se esfuerzan en dar lo que encuentran. El hombre no encuentra cosas, sino que las pone o supone. Lo que encuentra son puras dificultades y puras facilidades para existir. El existir mismo no le es dado ‘hecho’ y regalado como a la piedra, sino que […] al encontrarse con que existe, al acontecerle existir, lo único que encuentra o le acontece es no tener más remedio que hacer algo para dejar de existir.[32]
Diante de minha circunstância, me proponho, por força do desenrolar histórico, a mover-me e, assim, neste movimento, me construo, me faço.
3.2 Que-fazer
Uma simples análise e reflexão do tópico anterior nos conduz a conclusão de que a circunstância, sem que muitas das vezes nos demos conta disso, nos incita à ação. É uma ação para frente, como é tema e tese do progressismo ou evolucionismo. Ação que depende de resumidamente duas vertentes: minha circunstância e minha escolha.
Minha circunstância determina o quadro de possibilidades que me advém. Minha escolha é fruto de minha reflexão, abalizada ou não, que culmina numa outra circunstância.
Este quehacer me viene impuesto por la circunstancia, que significa un repertorio de facilidades y dificultades, fuente de mis posibilidades a la vez que una gigantesca limitación. Pero la circunstancia no decide ni define mi vida, aunque la limite; soy yo el que tengo que decidir en cada instante hacer una cosa u otra, entre las que me ofrece el teclado de mis posibilidades.[33]
A interação inseparável é vista entre a circunstância e eu. Ao mesmo tempo em que ela me abre o leque de opções, possibilidades infindas tantas quantas se me aparecem, também acabo por determinar a circunstância próxima, ainda que não tenha em momento algum a certeza de como será esta nova circunstância.
O que se tenta mostrar – e demonstrar – aqui é que há como que um círculo hermenêutico envolvendo o eu à circunstância. Compreender o eu torna-se possível conhecendo a circunstância; e a circunstância é vista com base no eu. Esta interação, como já declarada antes, é elemento indivisível.
Há apenas uma certeza, a de que há várias possibilidades de ser e isto se explica pelo seguinte: primeiro que estas possibilidades não me são presenteadas, tenho de inventá-las, seja originalmente, seja por recepção dos demais homens. Invento projetos de que fazer e de ser em vista da circunstância; segundo, que entre as possibilidades, necessariamente tenho que escolher, portanto, sou livre. Mas, entenda-se bem, sou por força livre, queira eu ou não.
Em verdade, a única coisa que encontro como ferramenta para minhas escolhas é algo que me é dado: minha circunstância. Assim, o homem é novelista de si mesmo, sendo original ou plagiário. Este plágio será, contudo, uma cópia disforme, irregular, já que o que levou um outro a fazer certa escolha, sua circunstância própria é certamente diferente da minha, assim, nenhuma escolha será igual a outra. Poderá, tão somente, haver uma semelhança. A desigualdade reside aí novamente nas mesmas duas vertentes: minha circunstância e eu.
O que-fazer é uma constante interpelação, uma convocação ascendente na perspectiva de impulsionar a vida[34] numa cadeia que se move adiante. Este que-fazer é que desenvolve a indivisibilidade do “eu-circunstância”. Este impulso não me permite aquietar, me leva sempre e sempre a colocar em prática minha liberdade.
A liberdade, entenda-se bem, constitui fator importante em toda esta relação, pois é ela o tocante que conduz à construção do próximo passo a ser observado. É ela – a liberdade – que me possibilita caminhar e abrir espaço ao momento seguinte, por meio dela nos posicionamos no espaço e agimos. Sartreanamente dizendo, “sou condenado a ser livre”, e isso perturba, ao ponto de provocar certa angustia, que deve ser combatida – e na maioria das vezes é – olhando-se para trás. Afinal, certas máximas fazem-se reais e aplicáveis: “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.”[35]
A liberdade imbui no eu uma obrigação: tomar decisão. As decisões são os fatores que projetarão minha circunstância, consequentemente meu eu, e uma nova circunstância e um novo eu, infindas vezes como o é o desenrolar de minha vivência. A única certeza que se pode dar até aqui em nossa investigação é que o que-fazer é um questionamento interminável. Jamais determinaremos este momento que tão rapidamente torna-se obsoleto, impossível de ser revivido, quanto instigado a se repaginar, renovar-se e cambiar-se no intento de responder – e corresponder – ao novo panorama advindo de minha última decisão, fruto de minha liberdade.
Sem mais delongas, a partir deste ponto nossos argumentos até aqui apresentados já tornam possível um aclaramento na perspectiva da compreensão dos debates propostos para os próximos capítulos: o circunstancialismo na relação com o meio; e o circunstancialismo na relação interpessoal.
CAPÍTULO II – O CIRCUNSTANCIALISMO NA RELAÇÃO COM O MEIO
Inicia-se este capítulo, esta nova etapa de investigação com o intento natural de se questionar sobre o meio. De forma rápida e simplista á fácil afirmar que é ele o entorno que nos envolve por completo e mesmo nos aprisiona, nos mantendo numa teia que forma nossa circunstância.
O meio é o invólucro que se assegura a si mesmo e também nos impõe dada situação. Por isso, sou preso num determinado espaço e tempo – meu meio – que é para mim a única condição possível de vivência. Estar inserido no meio faz-nos iguais aos demais semelhantes[36], a diferença reside exatamente nas condições a que se está inserido.
Para Ortega y Gasset viver é compreender a realidade em que se está. Tudo se inicia por essa compreensão, assim expressa nesta passagem: “a verdadeira realidade primária – a realidade radical – é a do eu com as coisas, com a circunstância.”[37] De forma lógica este é um passo significativo que damos para entendermos a interação do eu com o meio, o entorno que ao nosso lado caminha e se desenvolve.
Assim, ao estabelecermos esta relação e as consequências de que dela emanam far-se-á a real análise de como interage e imprime em mim uma força externa que me conclama a decisão. Somos “obrigados” a agir em vista de nossa circunstância.
1. O que é o meio
O homem desde seus primórdios encontra-se no mundo. Embora não haja em primeiro momento essa consciência de se estar localizado, de se estar alocado no mundo, ele está. Ou seja, o homem obrigatoriamente tem de estar em algum lugar, não existe nada consistente fisicamente no Nada.
Somos seres contingentes, mas por sermos aqui, por estarmos aqui, esta contingência se há colocado a nosso favor, proporcionando que existamos. Assim, é impossível qualquer afirmação contrária que venha negar o fato do homem estar aqui. E para o homem estar aqui significa justamente isto: estar envolto numa circunstância que o detém, que existe com ele e nele.
Ao nascer, consequentemente, todo homem continua na mesma condição de seus progenitores, dentro e envolto num meio. Deste modo, a conclusão preliminar que daqui se obtém é a de que não existe homem sem o meio, sem o lugar específico em que ele está – e deve necessariamente estar.
1.1 Possibilidades do meio
Por meio entende-se inicialmente um lugar físico, e é justamente isso. O meio é este local em que se vive – orteguianamente falando – e se está. No entanto, cabe-nos talvez elencar quais são as possibilidades de meio que podemos encontrar para posteriormente fazermos qualquer análise das implicações a que estamos submetidos.
Creio que uma análise conotativa nos ajudaria melhor neste ponto. Deste modo, vemos em primeiro plano que o meio é nosso planeta. A Terra é este nosso lugar único e possível[38], local onde todos – homens e demais seres, apesar de que nossa análise se deterá somente ao homem – possui vida e existem. Assim, admitamos que todos somos na Terra, existimos e adquirimos nossa humanidade estando na Terra.
Prosseguindo nossa análise defrontamo-nos com nosso continente, América do Sul. Talvez coubesse uma abordagem histórica da formação deste continente, o que evidentemente nos exigiria um dispendioso estudo, mas caminhemos na busca de nos alocarmos aqui. Estar na América do Sul, por si só, já nos difere de todo o restante dos habitantes de nosso globo. Nossa realidade adjacente distingue-nos de nossos semelhantes exatamente pelo meio ser diferente, como já apresentado em nosso prólogo deste capítulo.
Avançando um pouco mais, chegamos à especificidade um pouco maior nos posicionando no Brasil, nosso país. Com sua formação histórica – assim como os demais países vizinhos – podemos verificar as condições propiciadas a seus habitantes e é nesta mesma condição que temos de enxergar o homem, objeto de nosso estudo.[39]
Estar no Brasil coloca-nos em situações específicas que ajudam a formatar e imprimir em nós a nossa circunstância particular[40], e é justamente neste ambiente, nosso Brasil, que nos encontramos e somos. Porém, é de grande evidência que esta seria uma ideia muito vaga se parássemos nossa análise neste ponto, é necessário lembrar que o meio pode ser também qualquer outro.
As possibilidades de meio, que variam de acordo exatamente com o local específico em que cada um se encontra num dado momento, são assaz variadas. “Na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê…”[41], não importa onde estejamos, o meio nos contém. Estamos nele e com ele, e ele em nós, inseparáveis desde sempre.
Encontro-me sempre envolto por uma série de situações, é este o meu meio, é esta a minha circunstância. Eu somente sou e me vejo quando estou num local físico. Cartesianamente refletindo, poderia eu me ver em um sonho num local imaginário ou imediatamente me dirigindo a outro, porém não passariam de ilusões de meus sentidos. Para que eu realmente seja é necessário que eu me encontre realmente num determinado local.[42]
Poderiam nos indagar que o meio como estamos discutindo aqui é sempre escolhido por nós. Reside aí um engano facilmente detectado. Em primeiro lugar, não escolhemos onde nascer, isso independe de nós; em segundo, levamos um bom tempo – anos na verdade – até que se possa escolher e ir com nossos próprios passos para onde quer que queiramos. A partir de então, vê-se que mesmo escolhendo certo lugar, escolhendo o meio que se queira, esta escolha dependerá da circunstância a que se está adscrito inicialmente, ou seja, meu meio é historicamente e culturalmente pré-determinado, e todas as mudanças possíveis dependem basicamente de minhas escolhas, as mesmas escolhas que nos são apresentadas pela circunstância. Ortega nos demonstra tudo isso em seus escritos, pois ele admite que “o homem nunca começa do zero, mas sim apoiado na experiência e no legado das gerações anteriores, que lhe transmitem sua cultura, sua técnica, seus usos sociais, etc.”[43]
Encerrando esta pequena abordagem acerca da possibilidade de meio, o que se pode afirmar é que o meio, ao mesmo tempo em que se constitui por si só, também se firma com o eu. O meio existe numa conexão intrínseca com o eu. “Não posso falar das coisas sem eu; mas nem tampouco de um eu sem as coisas. Eu nunca me encontro só, mas sempre com as coisas, fazendo algo com elas; sou inseparável das coisas, e se estas necessitam de mim, eu necessito delas igualmente.”[44] Sou eu quem verifico e dou sentido ao meio. Assim, a interação inevitável existente nesta relação realça toda a prova de haver inúmeras possibilidades, uma vez que o eu também admite uma multiplicidade de probabilidades.
1.2 Compreensão do meio
“Uma vida não questionada não merece ser vivida.”[45] Creio que, já na Antiguidade, Platão esboçava as linhas mestras do que hoje refletimos com tanto afinco neste trabalho. Questionamento tem de ser a palavra de ordem para aquele que busca entender de maneira metódica seu caminhar, e um ponto importantíssimo dessa busca deve pautar-se na compreensão do meio.
Há claramente uma necessidade de se fazer este exercício hermenêutico para entender nossa condição própria, para compreender e darmos continuidade ao evento vida:
Vivir es lo que hacemos y lo que nos pasa. No se trata de teoría alguna, sino de señalar con el dedo la realidad tal como la encuentro […]. Vivir es estar afanándose continuamente con las cosas, tener que estar haciendo, inexorablemente, algo con ellas; y eso que hago es precisamente mi vida.[46]
Para isso, tem-se que obrigatoriamente, como visto, de estar a par do meio em que estamos.
Viver é algo muito maior do que existir, é saber lidar com as situações cotidianas, é saber interpretá-las. No entanto, este processo hermenêutico inicia-se justamente com o desvelamento do meio como condição única para a situação sinalizada, ou seja, é fato que todo evento ocorre num espaço físico específico, e só posicionando este evento no espaço e tempo, quer dizer, circunstancializando-o é que poderemos dar sequência a nossa caminhada, as nossas escolhas, aos nossos projetos pessoais. Tenho de conhecer e interpretar o meio em que estou para poder ter qualquer postura que me leve e dar passos em direção à construção do momento seguinte.
A compreensão do meio é elemento basilar para minha vida. Sem este artefato, como é possível dar conta de minha existência, uma vez que para existir, deve haver onde eu existir? Esse onde se torna conhecido por mim na medida em que passo a vê-lo e apreciá-lo, e em mesmo grau, passo a interpretá-lo e usá-lo a meu favor. Conecto-me a ele postulando um movimento ascendente em meu caminhar, procurando com isso evoluir em meu ser.
A necessidade de compreensão do meio coloca em mim também um interesse de compreensão do todo. Não posso opinar, escolher sem ter parâmetros para essa escolha. Todas as ações que fazemos, as fazemos a partir de, isto é, sempre levo por conta a situação primeira e avaliando-a, faço as devidas escolhas. Parto sempre de premissas dadas pela circunstância para atingir um patamar de excelência de minhas ações. Claro que depende também de outros fatores para estas escolhas, mas, como já visto, é a circunstância um ponto alto e crucial que possibilita e mesmo conclama uma escolha. Compreender o meio não é mais que um exercício básico para se poder viver.
2. A implicação do meio para o eu
Uma vez estudado o que é o meio, quais as suas possibilidades e o porquê da necessidade de compreensão dele, cumpre-nos indagar a quê tudo isso nos leva. A resposta aparece-nos de forma simples, pois recordando-nos da interação existente entre a circunstância e o eu, o que se deduz é que o meio imprime em nós um questionamento acerca do que estamos e somos. Igualmente, fica evidenciado que o meio tem implicações claras sobre o eu.
Resta-nos agora elencar, ainda que superficialmente, essa interferência do meio e ver como me comporto diante dessa relação. A primeira coisa a ser vista é a questão da liberdade, como ela interage comigo e como me porto frente a ela. Com isso, uma próxima necessidade é entender como nosso caráter se amolda de acordo com todo o entorno. Ver-se-á, de fato, a implicação do meio para o eu.
2.1 O impulso da liberdade
A liberdade é condição de um ser que não está impedido de expressar, de manifestar, ou que efetivamente expressa, algum aspecto de sua essência ou natureza. Quanto à liberdade humana, o problema consiste quer na determinação dos limites que sejam garantia de desenvolvimento das reais potencialidades dos homens no seu conjunto — as leis, a organização política, social e econômica, a moral, etc. —, quer na definição das potencialidades que caracterizam a humanidade na sua essência, concebendo-se a liberdade como o efetivo exercício dessas potencialidades, as quais, inevitável e concretamente, se manifestam pela capacidade que tenham os homens de reconhecer, de analisar com amplitude sempre crescente, os condicionamentos, implicações e consequências das situações concretas em que se encontram no momento específico de sua vida, aumentando com esse reconhecimento o poder de conservá-las ou transformá-las em seu próprio benefício.
Toda escolha, como já estudado na primeira parte deste capítulo, baseia-se na circunstância própria do momento exato da decisão, da escolha do próximo passo. A questão é que isto é algo definitivamente inevitável: escolher. Não tenho a opção de não escolher, estou preso neste sistema que exige de mim uma escolha, mesmo que seja a abstenção de uma escolha de caráter mais elaborado e refletido que me leve a passos mais frutuosos dentro da imensa carga que me é posta às costas. A liberdade de escolher, de decidir o que vou ser no momento subsequente, ao mesmo tempo em que me abre a oportunidade de fazer uma escolha autônoma, também me torna prisioneiro dela, me “implora” uma atitude em virtude da brevidade da circunstância.
A cada circunstância em que me encontro e tomo consciência dela – como abordada essa necessidade no tópico anterior – sou forçosamente impulsionado a empreender e dirigir minha vida em vista de um movimento que me leva adiante, sou levado a fazer uma escolha. A realidade que me circunda é o parâmetro inicial para que eu possa optar, dentre as variadas e inúmeras possibilidades que se me apresenta, e decidir que escolha tomar para minha vida. Afinal, “este setor da realidade circunstante forma a outra metade da minha pessoa: só através dela posso integrar-me e ser plenamente eu mesmo”[47]; só com minha liberdade é que posso opinar a meu favor no quesito escolha, posso dar o rumo que minha liberdade me permite buscar. Sou impelido a escolher e conviver, por conseguinte, com esta escolha.
Tenho de ter plena consciência de minha opção frente ao universo que se coloca à minha presença, pois somente com esta clareza é que estarei vivenciando plenamente minha liberdade.
Se não assumo minha posição, carecerei de um ponto de vista e, conseqüentemente, nada verei. É condição de visão estar em dada posição e dela vislumbrar os objetos. Ver é, ou envolve, um ato de seletividade. E só vejo de minha posição. Qualquer verdade é minha verdade – e só o será se vier a ser minha.[48]
A liberdade paradoxalmente me aprisiona dentro de si. Ela me contém, me mantém absorto sem minha percepção, coloca-me como refém impossibilitado de fuga. A liberdade assume-se como minha circunstância, já que é inerente a mim e de mim não se desvincula jamais. Porém esta característica não se aplicaria de modo pleno nem se firmaria bem uma vez que a liberdade tem caráter imutável – diferentemente da circunstância que reside na total mutabilidade, de acordo a temporalidade que determina sua existência, mesmo que passageira – e sempre mantém suas propriedades.
Com certeza se questionará a respeito de um prisioneiro, por exemplo, que estando em seu cárcere, nada pode fazer para o uso de sua liberdade. Engana-se por assim se pensar. A liberdade não está na condição de liberto de uma prisão física, outrossim, no ato de poder escolher que ação tomar diante das possibilidades apresentadas. Assim, a liberdade de ação tem o limite próprio que a circunstância lhe impõe, mas é importante notar que por este motivo não se deve jamais dizer que a liberdade é prisioneira da circunstância, ela é, de outro modo, impulso que me move adiante levando sempre em consideração a circunstância a que estou atrelado e da qual não me escapo.
Ao tomar alguma decisão, ao fazer uma escolha, faço uso da liberdade que se me permite ir por seu curso. Tudo isso concorre para a assertividade que nomeia o título deste tópico. Vê-se que estamos invariavelmente impelidos a decidir, chamados a escolher, estamos sempre sob o impulso da liberdade.
2.2 O caráter
“O homem é um princípio motor e pai de suas ações como o é de seus filhos.”[49] Isso ligeiramente nos apontaria que nos amoldamos ao futuro, é a afirmação da responsabilidade do homem frente aos seus atos. Ao mesmo tempo em que sou fruto de minha história, também sou responsável direto pela construção do limiar de um novo contexto, o episódio seguinte de minha vida. Sou criado e concomitantemente crio a história. De igual maneira, formo meu caráter à medida que sou influenciado pela história, pelo meio. Os passos tomados por mim – de acordo com a circunstância própria que me envolve – me emolduram e me conduzem a sempre rumar para situações que jamais deixarão de manter a exclusividade inerente ao autor das escolhas, eu.
Como responsável pela ação em constante sintonia com a circunstância, ter-se-á uma nova circunstância sendo considerada boa se fizermos as escolhas que me conduza a isto, embora eu jamais tenha certeza ou mesmo uma breve noção de como se apresentará essa nova circunstância. Assim, igualmente terei – e serei assim reconhecido por tê-lo – um bom caráter se minhas escolhas tomarem pressupostos já bem encaminhados e continuarem neste mesmo plano; ou se, estando numa circunstância que se me apresenta como adversa, fizer escolhas assertivas que me conduza a momentos venturáveis.
Aristóteles estudou este evento da formação do caráter categorizando as atitudes do homem em virtuosas ou viciosas, e esta mesma análise é que, transpondo-a para nossa temática, ponderadamente nos aponta um agir circunstancializado.
Com efeito, quando depende de nós o agir, igualmente depende o não agir, e vice-versa, ou seja, assim como está em nossas mãos agir quando isso é nobre, assim também temos o poder de não agir quando isso é vil; e temos o poder de não agir quando isso é nobre, do mesmo modo que temos o poder de agir quando isso é vil. Por conseguinte, depende de nós praticar atos nobres ou vis, e se é isso que significa ser bom ou mau, então depende de nós sermos virtuosos ou viciosos.[50]
Em seu livro Ética à Nicômaco, Aristóteles afirma que o caráter é resultado de nossos atos: “tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente”[51]; adquirimos uma ou outra disposição agindo de tal ou tal maneira. Realizando ações justas, ostentaremos bons hábitos e o caráter torna-se justo; contrariamente, agindo de maneira descomedida, adquire-se o hábito de ceder aos desejos e tornamo-nos intemperantes. O caráter é produto da série de atos dos quais sou o autor. Posso ser declarado autor de meu caráter, como o sou de meus atos: do mesmo modo que meus atos podem ser objeto de elogio, meu caráter pode ser objeto de louvor. E com isso novo questionamento surgirá: se eu construo meu caráter, então como influi nisso o meio? Simples, basta lembrarmos que todas as nossas ações levam em conta a circunstância vivida; e se isso é fato inquestionável, admitir que nosso caráter também seja fruto de nossa circunstância pareceria algo simples, no entanto carregado da necessidade de mais explanações.
Talvez se torne demasiado exageradas e repetitivas algumas afirmações, porém a urgência de que estas não sejam olvidadas requer a fixação sempre maior deste fato. Dizemos isso para redizer a máxima até então tratada e que em hipótese alguma deve ser confundida mesmo que alguma elucubração um pouco mais superficializada nos diga o contrário: agimos sempre de acordo com nossa circunstância! Com isso, admitir que também o caráter seja fruto da minha circunstância não representaria nenhum exagero, já que esta também assume papel razoável dentro da formação do caráter de cada um.
Vícios e virtudes não são meros traços psicológicos adquiridos, mas têm significação moral, porque concernem ao campo daquilo que depende de nós. Esta responsabilidade testemunha a veemência da ação. Quando ajo, não faço somente algo que terei de responder posteriormente, mas escolho o que vou ser. Deste modo, entre as possibilidades de escolha que a cada momento minha circunstância me apresenta, posso escolher caminhos vis ou virtuosos, de mau ou bom caráter. O homem será declarado diretamente responsável pelos seus atos e pela construção do seu caráter.
Não posso antecipar precisamente todas as consequências dos hábitos que assumi, posso apenas deduzir de maneira rudimentar que minha opção poderá se encaminhar para uma circunstância que se apresentará vil ou virtuosa sem, como já dito, ter uma precisão clara de como isso se dará. Cada homem é autor de seus atos enquanto é agente que se motiva a um fim. Ora, o que se dirige à escolha intencional não é outra coisa senão o caráter; pode-se dizer que o homem é causa de seus atos enquanto agente que consente. O caráter perde muito prontamente sua leveza e flexibilidade, para se consolidar e se tornar a maneira habitual de escolher e, por fim, de agir. Quando me acostumo a agir com bom caráter passo a constituir-me virtuosamente, porém não há nada que me impeça de ter um agir contrário, vil. Pode se dizer que o caráter nos impulsiona a continuar o que já começamos.
Deste tópico pode-se, por fim, concluir que o caráter é formado e determinado pela circunstância que lhe coloca as premissas para as escolhas possíveis e por consequência delibera-lhe ações que alimentarão o rol das próximas escolhas. A partir de então, de acordo com o caráter adquirido, passarei a optar por caminhos que me mantenham no mesmo grau de virtuosidade a que me tenho neste momento. A circunstância – o meio – é a realidade que me move a construir e difundir o caráter, já que viverei sempre buscando manter a mesma excelência e influenciando também outros homens, como veremos no capítulo terceiro.
3. O próximo meio
Frutos de nossa história, somos ao mesmo tempo protagonistas e coadjuvantes de nossa vida, somos atores firmemente atuantes. Construímo-la e moldamo-la de acordo com as possibilidades que a minha circunstância me permite. Para isso, faço escolhas constantemente desde o meu despertar, do alvorecer ao ocaso, até o meu descanso diário. Sou submetido a decidir entre as múltiplas escolhas que me levam a incontáveis e infindáveis realidades as quais sou obrigado a renovar – ou trocar, tentar volver a outro lado na expectativa de que tudo também mude – a cada novo instante.
A circunstância forma um leque de variadas possibilidades, das quais eu projeto minha pretensão, coloco em par com essa realidade minha determinação. É esta paridade de me levará para o próximo meio. A abertura das possíveis escolhas aliada a uma reflexão sobre minha circunstância atual – ou nem sempre acontecendo essa ação racionalizada – é justamente o aporte que construo para o novo meio.
3.1 Meu querer
Projetando minha vida adiante, fazendo as escolhas necessárias coloco também em questão o meu querer. É claramente analisável e admissível verificar que meu querer impõe características específicas ao meu posicionamento frente às possibilidades apresentadas pela circunstância. Talvez incida aí um agir não muito refletido, visto que meu querer pode apresentar volições irracionalizadas e isso poria por terra qualquer análise lógica a respeito das escolhas.
A questão do querer passa a ter conotação de gosto: “fiz assim ou assado porque gosto das coisas assim!”, essa afirmação é frequentemente adotada para explicar as escolhas tomadas quando não se há uma reflexão mais abalizada a ser exposta; ou, “não agirei desse modo porque não gosto!”, esta é a expressão dita para promulgar a leviandade com que se sentencia de maneira irrefletida as situações dispostas a nós. Assim, não posso deixar de admitir que também o gosto exerça como que uma pressão sob minha ação, estimula um agir com pouca reflexão, e cabe ao consciente de cada autor das escolhas possíveis fazer as devidas análises sob o crivo da racionalidade exigida para tomar decisões plausíveis e que mantenham certo caráter já atingido mediante as ações anteriores, que sigam o mesmo ritmo de escolhas já exercido até então.
Para que eu possa ter uma escolha mais acertada – se é que se pode definir e delimitar com exatidão o certo e o errado frente às escolhas feitas – devo refletir a partir de minha circunstância e o gosto deve apenas ser uma luz que mostra uma das possibilidades com a qual eu terei mais apreço em escolher, porém a racionalização desta circunstância é indispensável e crucial. Não posso jamais deixar-me levar unicamente pelo gosto sem reflexão, pois posso cometer o gravíssimo equívoco de frustrar-me por ir por viés que futuramente poderão retroceder a patamares já absorvidos e que não me edificaram em nada.[52]
Colocando-me frente à circunstância e refletindo-a poderei também erguer o arcabouço em que se abrigará a nova circunstância. “O homem não deve deixar colocar-se a serviço da circunstância, como joguete em suas mãos, e sim amoldar-se a ela para colocá-la a seu serviço, reabsorvê-la”[53] e com isso construir a nova circunstância sempre com a somatória das demais já vivenciadas, a circunstância, neste caso, apresenta-se como uma “avalanche” que cresce sempre com a mesma matéria-prima de seu início, e neste caso a matéria-prima é justamente o entorno que me circunda e imprime em mim suas características definidoras que indivisivelmente acabam por também me definir e projetar-me a mim mesmo, como num espelho em que me vejo ao mesmo tempo em que vejo meu entorno, tudo que está ao meu redor, não existo sem meu entorno físico.
Ao mesmo em que devo fazer uso do meu querer, devo ter também a parcimônia em segui-lo. O agir refletido, este sim, é garantia mais estendida de que chegaremos a um nível mais racionalizado da circunstância, sem jamais, evidentemente, tirar a índole passional de cada pessoa. Devemos conviver com as coisas, com o meio, interagindo de forma a não tratá-lo como objeto, mas admiti-lo claro e distintamente como algo comigo. Somos um: o meio e eu. Formam um, eu: meu querer e minha ação refletida.
3.2 Ser
Seguindo a corrente existencialista, o homem em primeiro plano existe no mundo e somente depois dessa consciência de sua existência é que ele é. Após essa rememoração, expõem-se as premissas para a compreensão do ser em confluente interação com meu entorno. Uma vez já admitido que essa interação seja indivisível, e também que há no homem uma “obrigação” das escolhas, ao optar faço as escolhas que me moldam. Construo meu ser a partir das decisões que tomo em consonância com as possibilidades oferecidas pela circunstância. Assim, construo e projeto meu próximo meio concomitantemente à construção – ou dizendo melhor, de acordo com as opções – do meu ser.
Reconhecendo e admitindo sempre minha realidade como minha verdade, passo a verificar minha circunstância também como minha verdade[54]. Com esta analogia teremos sempre a “visão otimista de que a verdade é sempre reconhecível quando colocada diante de nós: se ela não se revelar por si só, precisará apenas de ser desvelada ou descoberta.”[55] Assim, conhecer – mais que isso, compreender – meu ser, sua verdade única e inseparável, é conhecer meu entorno, minha realidade circunstancial e, vice versa.
“Pensar é circunstancializar, chegar ao universal a partir da circunstância.”[56] Minha circunstância, por ser minha, admite sempre sua particularidade, o exercício da circunstancialização é o esforço claro de universalizar minha verdade, enxergar meu entorno como realidade universal. Poderíamos ser acusados de solipsismo, no entanto coincide com a necessidade de vivência pessoal já que somente compreendendo minha vida, meu ser, é que posso realmente ter consciência clara e distinta do meu entorno, do meu meio. Essa elucubração me mantém em sintonia profunda com o todo, pois “de nada vale a razão ligar coisa a coisa numa estrutura grandiosa se eu que executo essa ligação, permaneço excluído dela.”[57]
Numa visão holística, confluímos e somamos também nesta mesma visão o entorno, o meio. O homem – discordando um pouco das teorias existencialistas – só é quando levado em conta sua circunstância, só adquire realmente sua essência quando observadas suas condições únicas de vivência. O que se quer declarar aqui é que o meio exerce influência clara na constituição do ser do homem. Ora, não existo sem ter nada ao meu redor e, se pode haver variadas possibilidades de entorno, também é clara a aceitação de que meu ser possa admitir variadas vertentes; e que sou exatamente o que minha circunstância me permite ser.
Meu relacionamento com o meio não é algo ao acaso, mas uma relação suplementar em que a interação, por ser imprescindível, é elemento provocador, uma vez que não saio desse embate necessário sem que aja em mim uma mudança, concomitante também provoco mudanças no meio. O meio, sim, é ocasião de crescimento e amadurecimento do ser enquanto motivador e pedinte de uma ação. Tenho de agir, e na relação com o meio, procuro ações de acordo com as possibilidades únicas que este me apresenta, ou seja, eu e o meio somos um, na medida em que formamos uma só realidade indivisível.
CAPÍTULO III – O CIRCUNSTANCIALISMO NA RELAÇÃO COM O OUTRO
Ao aportar neste derradeiro capítulo, todas as leituras anteriores – dos capítulos predecessores deste – terão formado a base necessária para facilitar a compreensão deste novo sub-tema de nosso trabalho; terão formado o arcabouço que garantirá a assimilação rápida das teses aqui desenvolvidas sobre a relação do eu com o outro, o que certamente ocorre a todo instante, culminando na consequentemente conclusão que advirá.
Quando dizemos a palavra outro tão rápido quanto elementar é que nossa atenção se volte para a conceituação de um indivíduo que não seja eu. De grosso modo assumimos todos os demais indivíduos como o outro, porém não só estes são alheios ao eu[58].
Por outro não se reduziria simplesmente ao próximo, senão ao universo de entes que se congraçam comigo, coexistem no mesmo dilema de nascimento-vivência-morte de que todos nós participamos – embora noutros casos este ciclo seja mais longo ou mais curto em relação ao nosso natural – a dialética interminável que detém o homem. O outro é sim, como será demonstrado, todos os demais seres[59] que se inter-relacionam comigo. Ajo e sou coagido numa relação cíclica e potencialmente comprometedora que me conduzirá inevitavelmente a moldar a circunstância seguinte.
1. O outro para o eu
Resposta simples e limitada de significância de conteúdo seria dada ao se perguntar quem seria o outro para o eu. A complexidade que envolve esta questão percorreu séculos passando pelas diversas correntes filosóficas compreendidas desde a Antiguidade até a Contemporaneidade e as mais variadas definições foram sendo dadas.
O outro assume variados pontos de investigações e variados focos de análises. Em nossos debates ver-se-á o outro na condição de objeto e na condição de outro ser.
Esta definição terá especial destaque quando verificadas as reações das ações diretas provocadas por mim no outro e do outro em mim, por isso deve estar bem aclarado o conteúdo a seguir na obcessão de atingir mais adiante uma conclusão amadurecida da problemática e dos questionamentos que desde o início permeiam este trabalho.
A relação com o outro é sempre conflitante e difusa. Costuma-se pensar na relação com o outro que nos é próximo, que está ao nosso lado, porém a multiplicidade de possibilidades e ocasiões em muito nos levam a encontros inesperados e, que fazer diante disso?
1.1 O outro como objeto
Um objeto é sempre visto por mim como algo imóvel, intacto e que simplesmente está. Jamais busco admitir que o objeto é pela análise banal de que ele não tem vida. Logo, todo objeto é um outro imóvel. No entanto, não é bem assim que devemos observar e rotular os objetos.
Se conseguimos admitir que haja objeto é porque concebemos sua existência real – são dos objetos reais que estaremos considerando, deixando de lado os imaginários ou ideais, já que tornaria muito subjetiva nossa análise – e exatamente por isso é que nos relacionamos com ele.
O pensamento inicial sugeriria que com um objeto, por conter características próprias que o identifica e o define, a relação seria apenas por uma via, ou seja, eu, apenas eu, numa ação sem reação alguma, imprimiria e imporia nele uma prática qualquer e o objeto, por conseguinte, sem resposta alguma ao estímulo produzido permaneceria imóvel[60]. Claro que tem de serem consideradas as características e utilidades específicas da criação deste objeto.
Façamos outra análise que nos remete aos primórdios da racionalidade humana sobre a Terra. Quando o homem criou as primeiras ferramentas a partir de pedras, em princípio os martelos e depois outras mais, seu foco inicial era a facilidade que esta ferramenta lhe traria para as atividades rotineiras. Uma rápida observação nos conduziria a uma conclusão simples: as ferramentas mudaram o modo de ser do homem. Claro! Então os objetos também imprimem no homem reações impensadas por este, mas que adquirem significativa evidência em sua história como um todo.
Os objetos, como visto no exemplo bestial, provocam no homem algumas mudanças. Sou transmutado pelo contato com o objeto, valorando este como um aspecto de minha circunstância.
É inegável que necessitamos de variados objetos para nosso habitual seguimento do dia-a-dia. Lembremo-nos que já para nascermos os médicos utilizam ferramentas que colaboram eficazmente com o nascituro. Logo em seguida somos revestidos com o objeto roupa, também uma criação humana para auxiliar nas necessidades básicas e que hoje é elemento indispensável moldando também a moral e o caráter do homem. Ou seja, a todo instante somos impulsionados a tomar postura diante da circunstância e convocados à ação. O objeto, indubitavelmente, provoca em mim todos os impulsos já discutidos no capítulo anterior sobre a relação com o meio.
Que reações mais diversas temos diante de um traje! Nem falaremos sobre as impressões causadas em outras pessoas, mas sim a provocação direta que me é dirigida. Quando olho para uma roupa rapidamente me reporto ao ambiente de seu uso, seja qual for aplicação.[61] Sou lançado a imaginar ocasiões e momentos, sou motivado a criar história em que tudo se encaixe, vou sem perceber moldando uma nova circunstância.
A mesma análise serve para todos os outros objetos, não saio deste encontro sem que haja uma transformação em mim. E esta análise não é atual, Heráclito[62] já nos instigava a pensar sobre a relação do homem com as coisas com seu aforismo, “um homem não entra duas vezes no mesmo rio; da segunda vez não é o mesmo homem nem o mesmo rio”. Também na relação com outros objetos, nunca voltarei ao mesmo contato, minha circunstância será outra, meu encontro será outro.
Sistematicamente dizendo, a dialética da circunstância em relação ao homem leva, como agora compreendido, o crivo da presença do objeto. Como não há mundo sem a presença de objetos, não há circunstância também sem eles, por isso, não há nova circunstância sem que haja interferência direta dos objetos.
1.2 O outro como outro ser
Diferentemente do objeto analisado anteriormente que carrega em si o fato de ser inanimado, o outro que abordaremos agora é o ser-vivo que mesmo sem nosso impulso inicial tem a capacidade de agir no mundo. Isto significa dizer que a seguir trataremos da definição dos seres humanos e demais seres – estes primeiros, depois aqueles.
Para haver uma boa distinção de foco, dividir-se-á em dois pontos para que não se confunda as abordagens, pois como será visto, existem alguns pontos que destoam quando observamos separadamente cada um destes.
Em início faz-se necessário verificarmos a presença e atuação de todos os seres “não-humanos”, para que após isso fique mais claro a distinção existente, e também pelo fato de assumir um caráter ascendente de abordagem, já que é o homem o elemento primordial da relação circunstancial.
1.2.1 Seres viventes em geral
Quando, no prólogo deste tópico, dissemos “não-humanos” estávamos obviamente colocando toda a diversidade de vidas conhecidas no foco da discussão. Isto para que fique claro que também todos os outros seres viventes compõem minha circunstância, são elementos constitutivos inseparáveis dela.
Ao olharmos para uma árvore – utilizada como exemplo para representar todos os vegetais – ainda pequenina, para aqueles mais atenciosos verão ali, além de todas as questões relativas a meio ambiente, já potencialmente uma imponente árvore. Mas o que uma árvore influencia em mim? Coisa banal, diriam alguns; eco-ativistas, bradariam outros. O que talvez passe despercebido seja que uma árvore, e similares, provem ao homem a sombra e refúgio para um dia de sol escaldante ou uma garoa; e também toda a diversidade de frutos a que sua característica componente é capaz de gerar.
Mesmo com toda essa explanação muita coisa há de ser apresentada, pois, as informações ditas ainda são elementares, e cabe demonstrar a relação básica entre os seres – vegetais, neste ponto – e o homem. Ainda falando da árvore, da mesma pequenina árvore, aquele que for capaz de acompanhar seu crescimento também acompanhará seu próprio crescimento, e não somente físico como, e principalmente, o amadurecimento de todas as dimensões humanas a que somos portadores.
Esta árvore provoca em mim, como muitas outras coisas, uma reflexão temporal. A árvore forma meu entorno, faz parte da minha circunstância, é ela mesma minha circunstância também. Quando vou agir, toma-se igualmente a árvore por possibilitadora – ou impossibilitadora – de ação, num caminhar pelo campo, por exemplo, deparando-me com a árvore surgem-me inúmeras probabilidades de escolhas do que fazer: posso desviar e continuar meu caminhar, dar meia volta e retroceder, ou mesmo subi-la. Diante de uma circunstância cabe ao homem optar frente ao universo de escolhas possíveis.
Outra análise necessária é a relação do homem com algum animal, um cachorro, por exemplo. Embora seja domesticado, reside no animal o seu instinto, seu agir sem refletir. Quando me relaciono com o animal, coloco sobre ele um impulso inicial e recebo automaticamente uma resposta. Novamente numa situação dialética, o homem procura definir-se como senhor da situação. Como ser racional tem – ou tenta ter – controle das ações e a todo o momento busca se impor sobre o animal. É importante notarmos que na relação, os dois lados são tocados mutuamente, consequentemente impelidos a agir.
Assim, vê-se que toda relação do homem com qualquer outro ser vivo tem e segue a mesma característica da relação com o meio. Em verdade, o meio é formado também por estes seres viventes, e não saio dessa relação sem que a circunstância – e o todo que a compõe – me norteie.
1.2.2 Outro ser humano
Relacionar-se é entrar em contato. Ir à mística da interação possível e/ou provável, por vezes irremediável. Somos voluntária ou involuntariamente afetados por este contato. O fato de nos depararmos com outro é suficiente para que sejamos, de modo tão simples que mesmo beira a complexidade, impelidos a responder com outra ação a esta posição ocasional que nos é proposta.
Nossa realidade de sermos e estarmos no mundo, tão complexo como conhecemos, obrigatoriamente nos ocasiona situações de encontros com outros homens. “Pero como el hombre no es un ente aislado, sino que vive en sociedad, y ésta es histórica, en cada acto humano gravita la historia entera. Hay que apelar, pues, a la historia en su integridad, qué nos ha pasado a cada uno de nosotros: la forma concreta de la razón vital es la razón histórica.”[63] A razão histórica, nada aceita como simples fato, mas tudo fluidifica no processo de fazer-se que provém e ao qual se dirige, procurando ver não o fato cristalizado ou feito, mas fazendo-se ou como se faz. Em nossas relações somos sempre convidados a olhar para a história, mas a única história que posso rever com originalidade é a minha.
Olhar para meu passado revela passos outrora impensados por mim. O fato é que “só da minha vida tenho intuição imediata, sem especulação nem teoria.”[64] A realidade do eu é aquela que posso afirmar com segurança, somente o agente da ação é capaz de traduzir o que a motivou.
O que tem de ficar claro aqui é que a relação do homem com outro homem torna-se muito mais conturbada a saber que são dois seres com as mesmas capacidades – não falamos de talento – de ação. Acrescente a isto o fato de o ponto precedente do encontro ser duas circunstâncias[65]. Com isso, a complexidade dessa relação é duplicada, pois há o confronto de duas realidades distintas por mais próximas que pareçam ser.
Em suma, em qualquer relação a que me submeto sou movido adiante, a diferença básica reside na forma como obtenho os impulsos de reação. Com outros seres viventes tenho proeminência da situação, já que a reação destes segue certos padrões possíveis, embora não tenhamos absoluta certeza de como se dará. Com outros homens a reação pode ser de completo ostracismo, relegando o primeiro agente ao ponto inicial da sua ação.
2. Influência do relacionamento
Para iniciar esta análise vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito, o do senhor e o escravo,[66] e que muito nos ajudará a entender alguns pontos básicos e que ilustram bem a relação existente entre um homem e outro homem, as relações que surgem do encontro e das escolhas feitas diante da circunstância. Logo após, veremos outro exemplo, do jovem Kaspar Hauser (1812 – 1833) uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada numa praça em Nuremberg, Alemanha do século XIX[67]. Este exemplo nos mostrará a importância das relações.
2.1 Senhor e escravo
Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Ele aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, superior à sua vida. O outro, que não ousa arriscar a vida, é facilmente vencido. O vencedor não mata o prisioneiro, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo, o “servus”, aquele que, ao pé da letra, foi conservado.
O senhor obriga o escravo, ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O senhor não cultiva seu jardim, não faz cozer seus alimentos, não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material, uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor, porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo, é livre, ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho, numa situação de submissão absoluta.
Entretanto, essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só é senhor em função da existência do escravo, que condiciona a sua posição. O senhor só é senhor porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Nesse sentido, ele é uma espécie de escravo de seu escravo.
De fato, o escravo, que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor – foi por medo de morrer que se submeteu –, vai encontrar uma nova forma de liberdade. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações, limitações de ação, aprende a se afastar de todos os eventos exteriores, a libertar-se de tudo o que o oprime, desenvolvendo uma consciência pessoal. Mas, sobretudo, o escravo, que está incessantemente ocupado com o trabalho, aprende a vencer a natureza e recupera uma certa forma de liberdade por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética exemplar, o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. Desse modo, o escravo, transformado pelas provações e limitações, e pelo próprio trabalho em condição escrava, ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo.
Em toda relação tenho de ser reconhecido e tenho também de me reconhecer, sem este fato sou incapaz de traçar uma boa abordagem do meu entorno, não faço a necessária e refletida análise de minha circunstância e por conseguinte não ajo com madurez. Essa passagem clareia alguns aspectos da relação interpessoal, no entanto existe o dado significativo da subjetividade focal: “todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura.”[68] Essa leitura citada por Boff é justamente a interpretação que cada homem envolvido na relação faz a partir de seu referencial na circunstância.
Na relação interpessoal a liberdade entra em voga a todo instante, tenho de opinar no vazio de não saber a provável reação em resposta ao meu impulso ativo inicial. Com a liberdade em minha posse e diante de minha circunstância sou obrigado a mover-me, ir adiante, pois “o homem é forçosamente livre: não tem liberdade para renunciar à vida. Como eu tenho que decidir o que vou fazer em cada instante, necessito justificar-me porque faço uma coisa e não outra. A vida é responsabilidade.”[69]
Com esta responsabilidade diante do outro tenho de enxergar-me, projetar-me nele para uma ação pautada em princípios morais construídos por minhas escolhas anteriores, porém vai mais longe, tenho de agir como num espelho, afinal, minha ação irá gerar uma reação, e isto se explica por nossa análise circunstancial de que a cada circunstância vivida, eu ajo e gero uma nova circunstância, é o movimento dialético que me inspira a agir com toda a responsabilidade necessária para cada circunstância vivida.
Porém, isto não seria admitir estar preso a um sistema que me cobra atitudes pré-formatadas em vista de um processo civilizatório? Não. É que minha liberdade baseada na responsabilidade conduz-me à construção de meu ser subsequenciado das escolhas anteriores em vista do caráter outrora constituído. “Ser libre quiere decir carecer de identidad constitutiva, no estar adscrito a un ser determinado, poder ser otro del que se era y no poder instalarse de una vez y para siempre en ningún ser determinado. Lo único que hay de ser fijo y estable en el ser libre es la constitutiva inestabilidad.”[70] Mas, por ser construção, não estou nunca pronto, acabado, determinado.
A cada nova escolha volto ao leque de possibilidades que a nova circunstância me proporcionou; volto à angustia da escolha, ao pesadelo de optar entre um lado ou outro, “cada escolha uma renúncia, isso é a vida. Estou lutando prá me recompor…”[71] Diante do outro, a incerteza da reação torna-nos ainda mais presos e libertos da situação, uma dicotomia que se explica na compreensão total do circunstancialismo.
2.2 Enigma de Kaspar Hauser
Outro exemplo clássico da importância da relação é o caso de Kaspar Hauser. Este jovem alemão passou os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela, não tendo contato verbal com nenhuma outra pessoa, fato esse que o impediu de adquirir uma língua, de aprendê-la como todos nós fazemos. Porém, logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras, e com o seu posterior contato com a sociedade, ele pôde paulatinamente aprender a falar, da mesma maneira que uma criança o faz. Afinal, ele havia sido destituído somente de uma língua e não da faculdade de linguagem em si. A exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala, mas de uma série de conceitos e raciocínios, o que fazia, por exemplo, que o jovem Hauser não conseguisse diferenciar sonhos de realidade durante o período em que passou aprisionado, ou mesmo o pequeno do grande quando olhado à distância.
Kaspar Hauser, supostamente com quinze anos de idade, foi deixado em uma praça pública de Nuremberg, Alemanha em 1828 com apenas uma carta endereçada a um capitão da cidade, explicando parte de sua história, um pequeno livro de orações, entre outros itens que indicavam que ele provavelmente pertencia a uma família da nobreza. Aprendeu a falar, a ler e a se comportar diante das pessoas, e a sua fama correu a Europa, tendo ficado conhecido à época, como o “filho da Europa”.
No que esta história nos ajuda? Kaspar Hauser basicamente não teve contatos com nada nem com ninguém até seus quinze anos de idade. Viveu sozinho, solitário no vazio de sua cela, e esta era sua circunstância. Não tinha muitas opções de escolha e, principalmente, não aprendeu a definir como escolher ou mesmo que lhe havia esta possibilidade. Kaspar Hauser não concebia a capacidade de optar, não era consciente de sua liberdade, o que se aprende com os primeiros contatos com nossos progenitores, e imitando-os, num primeiro instante, aprendemos a fazer as nossas escolhas, aprendemos a reconhecer e refletir nossa circunstância.
Para optar, tenho de ter os parâmetros básicos que a circunstância me oferece, tenho de fazer a leitura de meu entorno e isto foi negado ao jovem Kaspar Hauser. Ele não reconhecia o próprio passado porque jamais lhe fora ensinado ou teve exemplos a seguir, e justamente esta rememoração faz-se essencial para nossa ação. Meu passado é indicador entusiasta de possíveis caminhos, já que vem formando uma após outra a minha circunstância. “Ese pasado es pasado no porque pasó a otros, sino porque forma parte de nuestro presente, de lo que somos en la forma de haber sido; en suma, porque es nuestro pasado.”[72] Tomo posse de meu passado – que formou minha circunstância, meu presente que tão logo se torna novamente passado – para animar meu agir, para imputar nele o rigor da reflexão bem sucedida.
Lendo meu passado vou ao encontro comigo mesmo, retomo as relações anteriores com a circunstância passada e faço as escolhas pautadas neste avivamento do singelo presente, tão singelo quanto efêmero. Todas as relações que construíram minha circunstância são levadas em conta quando vou agir em minha liberdade. Porém tudo, como dito, é cerceado pelos limites e possibilidades impostas pela circunstância que interfere diretamente na forma como vou agir no momento seguinte de minha vida.
3. Possibilidades de relação
A circunstância, quando fazemos sua leitura corretamente, nos mostra a realidade exata do que estamos vivendo e numa outra visão é a porta para o futuro, mas leia-se: futuro imediato. A efemeridade da circunstância, por tão ligeira que é, confundi-nos muitas vezes em seu desvelamento. Daí que as possibilidades tornam-se múltiplas.
É de consenso geral que todos que agem sem refletir cometem erros. O equívoco de uma reflexão descompromissada com a realidade, levando sempre à linha do lado pessoal conduz-nos inevitavelmente a ações no mínimo comprometedoras no sentido de entrarmos em situações de arrependimento, e que circunstancialmente não tem retorno.
Nossa vida vai além de meros quereres, em que o ego se sobressai, desvios de focos, “[…] la vida no consiste propiamente en las estructuras psicofísicas del hombre – cuerpo y alma –, sino en lo que el hombre hace con ellas”.[73] A ação, atitude tomada em decorrência ou não de uma reflexão bem amadurecida da circunstância, é definidora de minha essência, como já sinalizado no decorrer desta dissertação até então, tenho de buscar rever as posturas tomadas por mim como fonte da descoberta das atitudes que me nortearam e que me trouxeram à nova circunstância.
Por nossa racionalidade temos uma capacidade diferenciada dos demais seres, estes agem unicamente por estímulo e instinto; nós, a partir do estímulo podemos racionalizar que ação podemos tomar. Um cachorro, por exemplo, ao receber um leve golpe reage imediatamente com um latido ou um ataque ao agressor; no homem, a reação dos mais desequilibrados e irrefletidos, um reação igual a do cachorro seria algo plausível, no entanto, a maturidade advinda das situações anteriores de todo o decorrer de sua vida lhe forçarão a refletir, nao agir por impulso para que não caia em posição de constrangimento e pesar.
Um volta ao passado, sua rememoração, é sempre importante para o crescimento e amadurecimento pessoal. Quando, diante de uma nova circunstância, nos deparamos com uma situação ruim, em muitos dos casos pensamos na possibilidade de termos tido escolhas diferentes, e se assim pensamos é justamente porque fazemos este retorno ao momento anterior da circunstância vivida, vamos ao “crivo severo com relação ao passado: reler nossa história. Criar uma nova consciência com relação a nós mesmos e com relação à consciência [histórica]. Saber que somos outra realidade, o que de pronto exige outra consciência, outros fins, interesses, preocupações.”[74] A partir daí passaremos a preocuparmos mais com as escolhas e atitudes tomadas sob o peso de não mais voltarmos ao arrependimento.
Ninguém em sã consciência quererá volver a situações negativas, por isto a recuperação histórica torna-se tão imprescindível aos que procuram uma vida refletida e digna de ser vivida.[75] Esta recuperação permite redesenhar o perfil das escolhas até então e clareará as novas e vindouras opções em virtude de uma reflexão mais apurada de meu entorno, minha circunstância que por ser minha exige de mim e mais ninguém uma atitude.
As possibilidades de relação revelam-me universos nunca antes pensados por mim. Esta conexão passado-presente feita pela consciência da circunstância conduz-me ao inesperado. Minha circunstância é a única e certa companhia. Embora ela se transmute a cada novo olhar, a cada doce brisa, ela imutavelmente é. Acompanha-me e age em mim. Por ela dou novos passos, por ela sou caminhante no evento vida. São tantas as possibilidades e tão imprevisíveis que não há quem as possa elencar ou mesmo imaginá-las com boa antecedência. A circunstância é exatamente isto: a realidade incerta e presente em nós.
CONCLUSÃO
Ao iniciar este estudo a maior parte dos conceitos ainda não me era tão clara. A clarividência veio com o passar do tempo, assim como a própria consciência da circunstância que insistentemente me envolve. Ao iniciar minhas pesquisas a respeito da temática e consultando algumas pessoas que me foram exemplos dessa análise, um dos principais questionamentos e controvérsias era a respeito de irmãos gêmeos: se eram gêmeos, e, portanto, criados à mesma maneira, como justificaria a disparidade de personalidades entre ambos? Estas e outras indagações incitaram-me a investigações e a partir de então me debrucei em pesquisas que me conduziram às conclusões aqui apresentadas.
Uma das premissas iniciais é que toda circunstância é singular. Todos nós estamos envoltos por uma circunstância e esta contém apenas a mim, ela é minha. Em verdade, a circunstância só existe por ter eu como protagonista dela; há aí a insubstancialidade do eu e da circunstância, não há divisão possível que possa separar meu ser da circunstância que forma meu entorno.
A questão forte de nossas averiguações acerca do tema em debate é que cada circunstância é única e pessoal, irrepetível. Por carregar o pronome possessivo “minha” não indica meu domínio sobre a circunstância, mas sim que ela se relaciona somente comigo. Cada homem tem sua circunstância própria que o detém e impulsiona a agir. Não há circunstância no plural, pois reside em sua apresentação ao seu par – o indivíduo a que está atrelada – sua singularidade que acaba por ser elemento definidor de sua existência.
Uma vez consciente de minha circunstância necessito tomar ações em vista das possibilidades que esta circunstância me propõe. Estou preso dentro destas possibilidades. Somente estas “portas” poderão ser adentradas dentre as infinidades de destinações em que poderia seguir. A circunstância define por quais possíveis caminhos devo optar. Assim, vou moldando minha vida, fazendo escolhas aqui, renúncias acolá. A vida humana é um eterno que-fazer. Tenho de opinar frente ao universo de probabilidades de passos que a circunstância me impõe a cada instante e fazer-me, construir-me, arquitetar a vida.
A natureza no homem seria uma segunda natureza, onde incluímos a cultura, valores, condições políticas, sócio econômicas entre outros fatores que são formadores dessa natureza humana. Esse homem é um processo da história, é moldado, é parte de uma estrutura que o faz, o determina, o cria. Enfim, o homem é uma “natureza” feita pela “natureza”. O homem é o que é, não porque quer ser o que é, mas porque a história o faz assim.
O homem pode até construir a história, mas nesse ponto ele acaba por inserir-se, necessariamente, nesta história, neste padrão de circunstância que obrigatoriamente o propõe e o incita a tomar uma escolha em vista de novos passos, ou seja, o homem ao mesmo tempo em que constrói a história, na verdade ele está sendo impulsionado a esta construção, pela própria história. O homem é preso nas escolhas que a história lhe permite fazer.
Com posse dessas análises, concomitantemente caio num dilema em que confronto a prisão em que a circunstância me detém com a necessidade de agir provocada por esta mesma circunstância. A saída para este dilema está na liberdade. Agindo livremente – pelo fato de escolher se quero agir ou não – estou postulando-me como autor da situação; apresento-me como senhor dos fatos; sou construtor da circunstância vindoura, porém não posso olvidar-me que a próxima circunstância só me foi possível em vista da anterior que foi elemento basilar, é a dialética presente também quando se fala em circunstancialismo. Por minha liberdade, logro atingir metas desejadas, ambicionadas e que alguma circunstância anterior havia apenas pré-apresentadas sem possibilitar de fato o viés que desembocasse nessas metas.
Para isso tenho de olhar para minha história, rever a trajetória que me colocou naquele exato espaço e tempo, naquele momento único e irrepetível que forma minha circunstância. É que a história faz-nos agentes de escolhas. Olhar para a historia é olhar para as escolhas anteriores que culminaram na circunstância atual, é ver onde erramos e acertamos e nortear novos rumos no intento de que melhores passos serão dados.
Nossas escolhas abrem-nos caminhos novos e amedrontantes. Estes novos caminhos terão agora de serem refletidos e medidos segundo a proficiência que cada um adquiriu ao longo das escolhas feitas no passado. Volta-se aqui a dizer que a história cumpre papel importantíssimo nesta tarefa de mostrar ao homem o que e quem ele é.
As possibilidades de relação provenientes das ações tomadas tornam-se variadíssimas. Esta multiplicidade é o que diferencia, por exemplo, a essência de irmãos gêmeos. A cada nova escolha um perfil histórico está sendo arquitetado, isso nos garante dizer que o ser forma-se a partir da vivência histórica. Todo homem que opina entre um caminho ou outro diferencia de seu próximo nesta ou numa próxima escolha; seus contatos e eventos do seu cotidiano também formam o arcabouço que o molda e o distingue dos demais.
Assim, após discorrer sobre o tema circunstancialismo na ótica e visão fomentadora de José Ortega y Gasset, e apresentar e debater ardentemente nesta pesquisa um assunto tão pouco observado e comentando no cenário filosófico, conclui-se acintosa e definitivamente, e sem sombras de dúvidas que possam pairar sobre questionadores deste trabalho, que a circunstância é fator constituinte na formação do ser.
REFERÊNCIAS
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[1] ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote. Trad. Gilberto de Mello Kujawski. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1967, p. 51.
[2] ORTEGA Y GASSET, José. Que é filosofia? Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1971, p. 73.
[3] Gilberto de Mello Kujawski nasceu em Ribeirão Preto, São Paulo, em 14 de dezembro de 1929. Licenciou-se em Filosofia e bacharelou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sua carreira ensaística teve início em 1967, com “Fernando Pessoa, o outro”. Ingressou no Ministério Público paulista, como Promotor de Justiça, ao mesmo tempo em que mergulhava fundo na obra do pensador espanhol José Ortega y Gasset, adotando sua forma de pensar.
[4] KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Ortega y Gasset: A aventura da razão. 2. ed. São Paulo: Editora Moderna, 1994, p, 51.
[5] KUJAWSKI, 1994, p. 38.
[6] Id., p. 38.
[7] Há neste ponto uma visível formatação do pensamento de Ortega à corrente historicista. O homem só o é ao se fazer uma leitura histórica de si e de seu entorno, das posturas e causas que o trouxeram até ali.
[8] Id., p. 60.
[9] ORTEGA Y GASSET, 1967, p. 112.
[10] KUJAWSKI, 1994, pp. 49-50.
[11] Id., p. 53.
[12] KUJAWSKI, 1994, p. 40.
[13] Id., p. 62.
[14] ORTEGA Y GASSET, 1967, p. 47.
[15] Termo que será melhor e mais detalhado num subtítulo próprio mais adiante em nosso trabalho.
[16] Para isto, basta ver em quantos lugares ele residiu, embora muitos destes tenham sidos forçados pela ocasião adversa em que se encontrou.
[17] Krausismo é uma doutrina que defende a tolerância acadêmica e da liberdade acadêmica contra o dogmatismo. Seu nome é devido ao pensador pós-kantiano alemão Karl Christian Friedrich Krause (1781-1832). Esta filosofia teve grande difusão na Espanha, onde alcançou seu máximo desenvolvimento prático, graças a seu grande divulgador, Julián Sanz e a Instituição Livre de Ensino liderada por Francisco Giner de los Ríos, para além da contribuição de um grande jurista como Federico de Castro. Krausismo é baseado em uma reconciliação entre teísmo e o panteísmo, que Deus, não sendo o mundo, ou seja, fora dele, contém em si mesmo e ele o transcende. Este conceito é chamado panenteísmo.
[18] A Geração de 98 é o nome com o que foram tradicionalmente reunidos um grupo de escritores, ensaístas e poetas espanhóis que se viram profundamente afetados pela crise moral, política e social na Espanha subseqüente à derrota militar na Guerra Hispano-Americana e a conseguinte perda de Porto Rico, Cuba e as Filipinas em 1898. Todos os autores englobados nesta geração nasceram entre 1864 e 1875, grupo constituído por nomes como Antonio Machado, Azorín, Pío Baroja, Ramón del Valle-Inclán, Ramiro de Maetzu, Angel Ganivet, entre outros.
[19] Miguel de Unamuno y Jugo (29 de Setembro de 1864 – 31 de Dezembro de 1936) foi um poeta e filósofo espanhol. Nasceu em Ronda del Casco Viejo (Bilbao) e faleceu em Salamanca. Considerado a figura mais completa da Geração de 98. Estudou na universidade de Madrid onde tirou o curso de Filosofia e Letras e mais tarde obteve a cátedra de grego na Universidade de Salamanca. Dez anos depois foi nomeado reitor da universidade salamantina. Foi conhecido também pelos sucessivos ataques à monarquia de Afonso XIII da Espanha. De 1926 a 1930 viveu no exílio, primeiro nas Ilhas Canárias e depois em França, de onde só voltou depois da queda do general Primo de Rivera. Mais tarde o General Francisco Franco afastou-o novamente da vida pública, devido a duras críticas feitas ao General Millán Astray, acabando por passar os seus últimos dias de vida numa casa em Salamanca.
[20] Marburgo era uma escola que continha uma corrente de pensadores que estava ao redor do neo-kantismo.
[21] Foi um espanhol no período da reconquista que teve a gloriosa batalha contra os mouros. Uma batalha que ele sabia que iria perder, que era inútil.
[22] COMTE, Augusto. Reorganizar a Sociedade, 4. ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2002, p. 146.
[23] Acerca do conceito popperiano de tendência científica e a sua demarcação de possibilidade, cfr. POPPER, Karl. Um Mundo de Propensões. Oeiras, Portugal: Editorial Fragmentos, 1991.
[24] Id., p. 66.
[25] POPPER, Karl, Conjecturas e Refutações, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982, p. 56.
[26] POPPER, 1982, p. 56.
[27] Comentário de Julián Marías, In: ORTEGA Y GASSET, 1967, pp. 202 – 203
[28] Marías nasceu na cidade de Valladolid, mas mudou-se para Madrid com a idade de cinco anos. Ele passou a estudar filosofia na Universidade Complutense de Madrid, graduando-se em 1936. Poucos meses depois de sua formatura a Guerra Civil Espanhola estourou. Durante o conflito, Marías esteve ao lado dos republicanos, embora suas contribuições reais estavam limitados a artigos de propaganda e transmissões. Após o fim da guerra em 1939, Marías retornou à educação. Sua tese de doutorado foi rejeitada pela universidade e entregue à polícia, devido a sua inclusão de um número de linhas de crítica do Estado de Franco. Como consequência de seus escritos Marías foi encarcerado e, após sua libertação, proibido de ensinar. Felizmente, para Marías o produto da venda de sua História da Filosofia, que passou por inúmeras edições, fez com que a punição não danificasse seriamente seu sustento. Em 1948, ele co-fundou, junto com seu antigo professor José Ortega y Gasset, do Instituto de Humanidades. Marías escreveu sobre uma grande variedade de assuntos durante a sua longa carreira. Um assunto de interesse particular foi de Dom Quixote de Cervantes. Em 1964 foi eleito para a Real Academia Espanhola, e ganhou um prêmio Príncipe das Astúrias em 1996.
[29] MARÍAS, Julián. História da Filosofia. 13. ed. Porto, Portugal: Edições Souza & Almeida, 1959, p. 429.
[30] Aqui talvez fosse conveniente abrir espaço para discutirmos o conceito de tempo. A circunstância – que não existe por si só, mas comigo – também está submetida ao tempo. No entanto, indubitavelmente, estaríamos levantando problemática que não nos conduziria a argumentos necessários para nossa problemática proposta aqui.
[31] ORTEGA Y GASSET, José. Historia como sistema. 6. ed. Madrid, Espanha: Revista de Occidente, 1970, p. 39.
[32] Id., p. 36.
[33] MARÍAS, Julián. El método histórico de las generaciones. 4. ed. Madrid, Espanha: Revista de Occidente, 1967, p. 81.
[34] O conceito de vida deve ser entendido orteguianamente, no sentido de vivência prática, envolvida no cotidiano do eu em consonância com minha circunstância.
[35] KIERKEGAARD, Soren. [Domínio público].
[36] Este adjetivo fica muito bem aplicado visto que em nossas análises um homem é no máximo parecido com outro. Igual em suas condições biológicas, porém demasiadamente distinto em face à circunstância que circunda cada homem.
[37] MARÍAS, 1959, p. 425.
[38] Não entremos em questões sobre possibilidade de existência de vida em outros locais do Universo, pois isso não acrescentaria nada em nossa discussão aqui debatida. Esta afirmação soa como uma sentença provocativa, pois a verificação disso é elementar a qualquer um, ou seja, não haveria necessidade de se fazer esta afirmação, exceto, é claro, se continuarmos nossa leitura e vermos que a sequência do texto resulta dessa afirmação primeira.
[39] Passaremos a esta análise por se tratar do homem de modo mais próximo ao que todos os leitores estão ambientados a ver no dia-a-dia. Esta análise, entretanto, é aplicável a qualquer outro homem a que se queira observar, em qualquer outra parte do planeta, observando as necessárias adaptações para cada local geográfico e histórico.
[40] E não mais se falará em circunstância particular, pois como já demonstrado, toda circunstância é única e pessoal, difere-se a cada um.
[41] ABELHA, Kid. Na rua, na chuva, na fazenda. Comp.: Hyldon. In: Meu mundo gira em torno de você. Teresópolis, Rio de Janeiro: WEA Music Brasil, 1996, faixa 05.
[42] Traça-se neste ponto um paralelo com o existencialismo. O homem para ser tem de antes de tudo admitir sua existência, e toda existência requer um espaço próprio, propício a isto e que contribua para esta maturação filosófica.
[43] ORTEGA y GASSET, 1967, p. 55.
[44] MARÍAS, 1959, p. 425.
[45] PLATÃO. Apologia a Sócrates [Domínio Público].
[46] MARÍAS, 1967, p. 80.
[47] ORTEGA y GASSET, 1967, p. 51.
[48] GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1980, p. 25.
[49] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro III, 5 – 1113b 15.
[50] ARISTÓTELES. op. cit.. Livro III, 5 – 1113b 8-14.
[51] Id., Livro II, 1 – 1103b 1.
[52] Não é aqui a admissão de que escolhas pautadas pelo gosto geram inevitáveis retrocessos, é que há maior possibilidade de que haja uma parada de crescimento em nível de ações que transpõe realidades ultrapassadas. Haverá sempre a necessidade de se refletir uma ação, de outro modo estaríamos apenas protelando-a às próximas escolhas.
[53] ORTEGA y GASSET, 1967, p. 40.
[54] Não estamos assumindo unicamente categorias lógicas de verdade. Utilizamos este termo como entorno que me é meu e por ser meu, forma a proposição verdadeira, a partir da qual devo estimuladamente, por via da necessidade de optar, escolher minhas ações vindouras.
[55] POOPER, 1982, p. 35.
[56] ORTEGA y GASSET, 1967, p. 32.
[57] Id., p. 32.
[58] Aqui se explica a sequência temática utilizada, já que há uma grande importância em entendermos o que é a circunstância para em seguida vermos a relação com o meio e então compreendermos também a relação com o outro.
[59] E este conceito será mais detalhado a frente.
[60] Talvez tenha faltado ao leitor alguns exemplos dos objetos tratados aqui, porém é isto mesmo que cada um possa ter imaginado: um utensílio, um objeto manufaturado, um móvel doméstico, ou similares, etc.
[61] Não caiamos nos méritos do gosto, já debatido anteriormente, no entanto, daria maior volume àquele sub-tema esta investigação.
[62] Heráclito de Éfeso (Éfeso, aprox. 540 a.C. - 470 a.C.), filósofo pré-socrático considerado o “pai da dialética”. Heráclito, inserido no contexto pré-socrático, parte do princípio de que tudo é movimento, e que nada pode permanecer estático – “tudo flui”, “tudo se move”, exceto o próprio movimento.
[63] MARÍAS, 1967, p. 85.
[64] KUJAWSKI, 1994, p. 51. Importante ressaltar que em momento algum o autor faz defesa do solipsismo.
[65] Esta é a primeira vez que o termo é utilizado no plural, e de forma bem óbvia e gramaticalmente necessária, refiro à circunstância de dois homens.
[66] DIALÉTICA de Hegel. Disponível em: <http://www.mundodosfilosofos.com.br/hegel.html>. Acesso em 21 out. 2010.
[67] KASPAR Hauser. Cfr. disponível em: < http://cafesfilosoficos.wordpress.com/2010/04/25/o-enigma-de-kaspar-hauser/>. Acesso em 23 out. 2010.
[68] BOFF, Leonardo. A águia e a galinha. 14. ed. São Paulo: Vozes, 1998, p. 9.
[69] MARÍAS, 1959, p. 435.
[70] ORTEGA Y GASSET, 1970, p. 39.
[71] BROWN JR., Charlie. Lutar pelo que é meu. Comp.: Chorão. In: Imunidade Musical. Rio de Janeiro: EMI, 2005, faixa 03.
[72] ORTEGA Y GASSET, 1970, p. 47.
[73] MARÍAS, 1967, p. 93.
[74] GOMES, 1980, p. 106.
[75] Como já sentenciava Platão em Apologia a Sócrates.
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