Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

O descobrimento – História do Brasil – Ary da Matta



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04/21/08

História do Brasil Para a Terceira Série Ginasial – Ary da Matta, 1946

UNIDADE I
O DESCOBRIMENTO

1. Origens de Portugal; 2. Os descobrimentos portugueses; 3. Cabral e o descobrimento; 4. A carta de Pêro Vaz de Caminha.


Portugal, originário do antigo condado portucalense, desenvolveu sua vocação marítima, engrandeceu seu território alargando a fé e o império, tomando assim a liderança na expansão geográfica do Mundo Moderno.
O descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral constitui por suas consequências um dos episódios marcantes da era das grandes navegações.
Embora alguns historiadores contestem a prioridade do descobrimento pela esquadra de Cabral, não há como ocultar que socialmente somos uma descoberta portuguesa. Deles recebemos língua, princípios cristãos que desde o dia do descobrimento presidiram à nossa formação e a grande contribuição do sangue peninsular daqueles vigorosos construtores de impérios.
A carta de Pêro Vaz de Caminha documenta oficialmente o feito da armada lusa, autenticando o acontecimento como uma verdadeira "certidão de nascimento do Brasil".

1. Origens de Portugal

A Nação portuguesa se constituiu politicamente com a independência do condado portucalense, feudo da coroa de Castela, verificada em 1140 no histórico castelo de Guimarães. O movimento de soberania portuguesa levou ao trono a dinastia de Borgonha, da qual foi primeiro monarca Afonso I (Afonso Henriques), filho do conde D. Henrique de Borgonha, nobre francês que lutara na reconquista da península ao lado dos castelhanos, contra o domínio árabe, e de D. Teresa, Teresia ou Tareija, filha do rei de Castela D. Afonso, que doou aquele feudo ao conde D. Henrique.

A pré-históría portuguesa. — As escavações arqueológicas revelam que Portugal foi habitado desde o paleolítico superior por elementos que correspondem à cultura musteriense, cheulense e acheulense.

História lendária do povoamento. — A mitologia grega refere que Baco, filho de Júpiter e Lemele, teria imposto aos habitantes da península o governo de Lísias, seu compatriota. As origens de Portugal ligam-se também à história heróica grega com a fundação por Ulisses, rei de Itaca, que fugira ao incêndio de Tróia, de um primitivo núcleo de povoamento, Ulissipo ou Olissibo, às margens do Tejo, núcleo este que se transformaria depois na moderna Lisboa. Contemporânea destes primeiros povoadores seria a introdução de iberos, celtas e lígures.

Datam do século XII a. C, provavelmente, os primeiros entrepostos comerciais fenícios (de Tiro): Gades (Cádiz); Malaca (Málaga), Hispalis (Sevilha); Melcartéia (Algeciras).

No século VII a. C, dois movimentos colonizadores se manifestam simultaneamente. O primeiro, dos gregos de Samos, teria alcançado o Guadalquivir (Tartesso por êles chamado). Fundam ainda Rodes (Rosas), Sagunto, Denia (Dianium), no litoral mediterrâneo da Península. A segunda onda de origem céltica, vinda do norte das Gálias, dirige-se para o sul fundando Corumbriga, Caetobriga, La-cobriga, todas núcleos de futuras cidades.

Nas guerras púnicas entre as várias legiões peninsulares do exército de Aníbal, figuraram também tropas lusitanas.

Castelo de Guimarães, berço da nacionalidade portuguesa.

A Lusitânia pré-romana. — A Lusitânia pré-romana ocupava uma área geográfica da Península Ibérica limitada ao sul pelo Tejo, ao norte e oeste pelo Atlântico e a leste com os celtiberos e os asturos. Esta área primitiva foi mais tarde, no tempo de Augusto, deslocada para limitar-se ao norte pelo Douro e a leste pelo Guadiana.

Entre as tribos habitantes desta região figuram arta-bros, celtas e os brácaros, acima do Douro; os lusitanos propriamente ditos ficariam ao sul deste rio, ao lado de presúrios, os turdulos velhos (entre o Douro, o Tejo e o Atlântico) ; cúnios e arretes no território entre o Tejo e o Sacro Promontório (Cabo de S. Vicente).

Ruínas romanas do templo de Diana, em Évora (Inicio do século III).

 

A CONQUISTA ROMANA

No século II a. C, as legiões romanas invadem a Península Ibérica. Diante da ameaça, os lusitanos transpõem o Guadalquivir, atacam os romanos no Algarve e na Andaluzia. Mais tarde, depois de vencidos por Cipião (Públio Cornélio), obtêm a vitória sobre Púnico e Césaro. Em 150, Galba, usando de deslealdade, consegue dissolver as aguerridas hostes lusitanas. Após este desastre, a resistência lusa se reúne em torno do pastor Viriato, que se transforma em verdadeiro caudilho de guerrilheiros que traziam desassossegadas as disciplinadas legiões romanas. Sob seu comando, rompem o cerco que lhes havia imposto Caio Vetílio, vencendo-o e matando-o depois nos desfiladeiros da serra

Monumento da pré-história portuguesa — dólmen da Coureia dos tourais.

de Ronda. Caio Polâncio, Cláudio Unimano, Caio Nepídio, são outros tantos capitães romanos derrotados por Viriato em menos de dois anos de luta. Sua vitória penosamente obtida sobre o cônsul Serviliano e a clemência demonstrada para com os vencidos permitiram-lhe firmar um tratado que o Senado Romano ratificou depois, enviando-lhe como recompensa o título de "Amicus populi Romani".

 

Pretextando motivos fúteis, o Senado autoriza nova expedição contra os lusitanos, chefiada por Servílio Cipião, irmão de Serviliano, a qual invade o Tejo setentrional c teve sua vitória facilitada pelo assassínio de Viriato, perpetrado por três traidores.

A morte de Viriato põe fim praticamente à independência lusitana.

A romanização. — Caio Júlio César, guerreiro genial, em 61-45 a. C, obteve a submissão dos lusos. Mais tarde, 26 a. C, Augusto acabou por conquistar toda a península e pacificá-la. O imperador habilmente lhes levou os benefícios de sua administração, concedendo-lhes privilégios e honrarias e dando títulos honoríficos a algumas cidades, como aliás César já o fizera anteriormente.

Ainda hoje é possível admirar a influência romana em. Portugal. O templo de Diana, em Évora; as muralhas de Braga, Évora, Condeixa, a Velha; arcos de pórticos em Évora, Heja, Bobadela; circos em Balsa e Taveira; estradas pavimentadas cortam o solo em todas as direções; há em Sta. Vitória do Ameixial vestígios de uma vila; inscrições foram encontradas em Vezela e Braga — tudo isto atestando os bons resultados da influência romana.

OS BÁRBAROS NA PENÍNSULA

O movimento de migrações bárbaras do século. V alcançou também a península. Grupos germanos alanos invadem a região. Em 414, os visigodos invadem a Hispânia e fundam um florescente reino no século VI. Coube a Leovigildo (567-586) a fundação da monarquia visigótica na Península Ibérica. No tempo de Recaredo, seu filho e sucessor, convertem-se os visigodos ao catolicismo (III concílio de Toledo, em, 589) abandonando o arianismo que haviam adotado até então.

O ISLÃ NA PENÍNSULA

A guerra santa, o "combate aos infiéis", dos maometanos, atinge a península na sua expansão em 711. Tarik vence Rodrigo, rei visigodo, na batalha de Algeciras, seguida logo da conquista de Sevilha, Córdova e Toledo.


Diante do ímpeto do invasor, retiraram-se os cristãos para as montanhas das Astúrias, ao norte da península, onde foram articuladas a resistência e a organização da reconquista. Deste movimento resultou a formação das monarquias cristãs peninsulares, que pouco a pouco se foram reunindo em torno do reino de Castela.

A reconquista. — Em 737, os cavaleiros visigodos sediados nas Astúrias aclamam Pelágio como rei. A êle reúnem-se outros chefes de mesma inspiração cristã dispostos a expulsar de sua terra a bandeira do Crescente. No ano seguinte abtêm a vitória de Covadonga. Fávila e Afonso I, sucessores de Pelágio, continuam o movimento da reconquista. Fernando 1 de Castela, o Grande, toma aos árabes Badajoz, Viseu, Lamego e Coimbra. Em 1065, após sua morte, seus territórios são partilhados entre os filhos. A Sancho coube Castela; a Garcia, a Galícia; a Afonso, o reino de Leão. Esta fragmentação teve apenas caráter provisório porque em breve Afonso se apossou de Castela e Galícia derrotando os irmãos e unificou toda a herança paterna, reinando sobre ela como Afonso VI. Tratou ainda de se apossar de Sevilha e Toledo, numa expressiva vitória sobre o Islã.

O Condado Portucalense. — Distinguiram-se nestas cruzadas os nobres franceses Raimundo, filho de Guilherme, conde de Borgonha e seu primo Henrique. Afonso VI ajusta o casamento dos nobres franceses com suas filhas. Raimundo de Borgonha casa-se com D. Urraca e D. Henrique com D. Teresa ou Tereija. Raimundo recebeu como feudo um território que se estendia entre o Douro e o Minho, acrescido de Santarém, Lisboa e Cintra, que Afonso VI obteve do rei de Badajoz. Estas terras constituíam um condado entregue a Raimundo. D. Henrique recebeu, sujeito à suserania de Raimundo, parte deste território compreendida entre o Minho e o Tejo, que ele governou com o título de. "Senhor de Coimbra" (1095) e mais tarde com o de "Conde portucalense", alusão ao povoado de Portus Cale, à beira-rio (Condado Portucalense).



O espírito de independência de D. Henrique vai pouco a pouco furtando-se à soberania de Castela. No pacto sucessório, firmado entre os dois primos, obrigam-se à assistência mútua, regulam a questão de soberania dos dois condados e a partilha dos territórios de Afonso VI (1094? -1107?).

Após a morte de Afonso VI em 1109 (Raimundo falecera anteriormente), D. Henrique passou a intitular-se "pela graça de Deus Conde e senhor de Todo Portugal". (Dei gratia Comes et totius Portugália Dominus).

O movimento de independência. — D. Urraca, viúva de Afonso VI, e declarada única herdeira, assumiu o trono e casou-se em seguida com Afonso de Aragão, o Batalhador. Encontrou descontentes e rivais, desavindo-se com o próprio marido de quem acabou afinal por sepafar-se. D. Henrique pôs em prática uma política oscilante, ora favorável à cunhada, ora favorável a seus inimigos. Morreu em 1114 deixando como herdeiro seu filho menor Afonso Henriques, sob a tutela do aio Egas Moniz, notável pela dedicação e lealdade. Sua viúva, D. Teresa, enamorou-se de Fernando Percz de Trava, conde da Galícia e pretendeu desposá-lo. Revoltaram-se os barões portugueses, ciosos de sua independência e temerosos de que tal casamento submetesse Portugal ao domínio galego. Uniram-se hostes em torno de Afonso Henriques proclamando-o rei e já em 1129 obtinham os insurretos a vitória de São Mamede, nos arredores de Guimarães, de que resultou a expulsão de Fernando Perez do país e a vitória do que poderíamos chamar o "partido português". A independncia lusitana estav-i assim assegurada.

A Independência Portuguesa. — A primeira tarefa de Afonso Henriques foi consolidar seu movimento persistindo na ‘mesma política anti-galega. Vemo-lo em 1130 e 1132 invadir várias vezes a Galícia. Em 1137, aliou-se a Garcia, rei de Navarra, contra Afonso VII, aclamado imperador pelas cortes de Leão em 1135. Desta aliança resultou nova invasão da Galícia que terminou com a vitória portuguesa de Verneja. Para manter as fronteiras meridionais invioláveis, celebra com seu primo a paz de Tui, a 4 de julho de 1137, e corre a atacar os muçulmanos, der-rotando-os em Ourique a 25 de julho de 1139. Desde então se intitula rei de Portugal. Volta-se em seguida contra Afonso VII, anulando previamente a paz de Tui. Em 1143, na conferência de Zamora, foi aceita a paz proposta por Afonso VII, reconhecendo Afonso Henriques como rei de Portugal.

Somente em 1179, após vários e demorados entendimentos, é que o papa Alexandre III reconheceu solenemente Afonso Henriques como rei de Portugal.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1 — Como a mitologia grega explica o povoamento da Penín sula Ibérica?

2 — Quais os principais núcleos de colonização dos séculos XII e VII a.C. na Península Ibérica?

3   — Qual a área ocupada pela Lusitânia pré-romana?

4   — Quais os principais grupos habitantes desta região?

5   — Quando so iniciou a conquista romana e que resultados apresentou?

6   — Qual o motivo da importância histórica de Viriato?

7   — Quais os monumentos portugueses da fase da romanização, ainda existentes?

8   — Quando se verificou o dominio bárbaro na Península?

9   — Que foi a chamada Reconquista?

10 — Qual o motivo da importância histórica de Fernando I e Afonso VI de Castela?

11 — Qual a origem do condado portucalense?

12      — Quais as causas próximas e remotas do movimento de emancipação de Portugal?

Sugestões para exercício de redaçao e exposição oral:

a)    Viriato e a resistência lusitana.

b)    Os heróis da Reconquista.

c)    D. Afonso Henriques e a Independência de Portugal.

 

 


2. Os descobrimentos portugueses

Até a alta Idade Média os conhecimentos geográficos eram reduzidos à Europa, Africa Setentrional e Oriental, Ásia Ocidental e Meridional. Viajantes e aventureiros relatavam a existência de países fabulosos e ricos na Índia e na Assíria. O viajante veneziano Marco Polo, no século XIII, atingiu por terra o Oriente.

O Atlântico era desconhecido. Para o sul do cabo
Não, no Marrocos espanhol, não se arriscavam os na
vegantes, temerosos de surpresas do mar ainda desco
nhecido.
. •

A partir do século XV, com o desenvolvimento da arte náutica facilitado pelas novas invenções, bússola e caravela c novas técnicas de navegação, alargaram-se os conhecimentos geográficos.

Arte náutica e as navegações do século XV.

Novos instrumentos náuticos, balestilha, astrolábio náutico (plano e esférico), cartas geográficas, portulanos, aliados à bússola e à caravela, contribuíram para a evolução naval. A caravela foi concebida por navegantes portugueses* e é caracterizada pela proa alta armada em 4 mastros, onde combinam a vela quadrada dos latinos e a vela triangular. Esta disposição do velame permitia a navegação a barlavento ou navegação a bolina, impulsionando-se o barco em direção contrária à direção do vento.

D. Henrique e a Escola de Sagres. — D. Henrique, o Navegador, era filho de D. João I, o mestre d’Aviz c fundador da dinastia do mesmo nome, que substituiu no trono a dinastia de Borgonha fundada pelo conde D. Henrique. Isolando-se da vida da corte, fugindo aos prazeres * da vida palaciana e ao luxo que .a posição principesca lhe poderia proporcionar, refugiou-se ao sul do Algarve, no promontório de Sagres, próximo ao cabo de S. Vicente,



 

Infante D. Henrique. (Reproduzido da "História da Colonização Portuguesa no Brasil".)

onde criou em 1416 um núcleo de navegadores, astrónomos, matemáticos e armadores que constituíram o que se chamou a Escola de Sagres. Nela tinham acesso pilotos de qualquer procedência: diepenses, venezianos, genoveses, castelhanos, matemáticos e astrónomos árabes. O aprendizado fazia-se segundo um método prático a bordo das. galés, caravelas, estudando e construindo portulanos, navegando com o auxílio de instrumentos náuticos, ouvindo relatos de outros navegantes. O plano grandioso do Infante, mal compreendido em sua época, era desalojar os mouros de suas feitorias no litoral africano, substituí-los por colonos e guarnições portuguesas, afastando deste modo a influência islâmica naquelas regiões.

Navegadores lia Escola de Sagres. — Os frutos dos esforços do Infante e seus colaboradores não se fizeram tardar. Em 1418 Bartolomeu Perestrelo descobre Porto Santo; em 1419 João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz atingem a Ilha da Madeira; em 1422 foi transposto o cabo ‘Não; em 1434?, Gil Eanes, pajem do Infante, dobrou o cabo do Bojador; em 1432 Gonçalo Velho Cabral atingiu os Açores; em 146G Pedro de Cintra descobre a Serra Leoa. Em 1463 morre o Infante.

Desse modo, alongando-se na direção dos meridianos, foram os navegantes portugueses modificando a geografia fabulosa de então que povoava o Atlântico, deixando em seu lugar padrões de conquista e feitorias de colonização.

 

 

No tempo de Afonso V, o Africano, foram realizadas as viagens de Pêro de Covilhã e Afonso de Paiva, por via terrestre, até a Abissínia. Bartolomeu Dias por via marítima atinge, no extremo meridional da África, o cabo das Tormentas ou Tormentório, nomenclatura modificada por D. João II, o Príncipe Perfeito, para Cabo da Boa Esperança, "na boa esperança de alcançar a índia", teria dito omonarca. Assim, ficou resolvido, de uma só vez, o duplo problema de ordem náutica e geográfica do caminho marítimo das Índias.

O périplo africano de Vasco da Gama. — Coube a Vasco da Gama, irmão do navegante Estêvão da Gama, completar com o périplo africano a façanha de Bartolomeu Dias. Sua expedição, foi realizada de 1497 a 1499. Teve por pontos extremos Lisboa e Cambalut ou Calicut, na índia, depois de ter contornado a África pelo sul. Compunha-se de três caravelas: "São Rafael", "São Gabriel" e "Ber-rio" e mais uma barca de mantimentos, comandadas respectivamente por Paulo da Gama, Vasco da Gama, Nicolau Coelho e Gonçalo Nunes. Levavam a bordo 6 padrões de conquista, línguas (intérpretes), degredados e alguma tropa.

 

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1   — Qual o mundo conhecido na Idade Média?

2   — Quais as causas próximas e remotas que mais contribuíram

para a expansão geográfica do mundo moderno?

3 — Quais as novas técnicas e instrumentos náuticos de que dispunham os navegantes do início da Idade Moderna?

4   — Que resultados apresentou a Escola de Sagres?

5   — Quais as consequências próximas e remotas do périplo africano do Vasco da Gama? 6— Assinale no mapa-mudo as descobertas portuguesas anteriores a 1500.

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:

a)    D. Henrique e a Escola de Sagres.

b)   A arte de navegar dos portugueses.

c)    Resultados gerais da expansão geográfica do Mundo Moderno.

 


3. – Cabral e o descobrimento do Brasil

O descobrimento do Brasil pelos portugueses data de 22 de abril de 1500 e tem sua comemoração fixada oficialmente em 3 de maio, em virtude de razoes várias que discutiremos adiante.

O histórico de tal feito da navegação lusa está atestado por três documentos contemporâneos da descoberta, de autenticidade e idoneidade largamente comprovadas: a carta do físico-mor Mestre Johanes Emenelaus, dirigida a D. Manuel; a Relação do Piloto anónimo; e a famosa carta de Pêro Vaz de Caminha, escrivão de Calicut, passageiro da frota de Cabral, também dirigida ao Venturoso, e que dava conta do achado.

A expedição de Cabral. — Em março de 1500 tinha D. Manuel I já preparada poderosa frota de 13 embarcações, pronta para longa expedição. Comandava-a Pedro Álvares Cabral, senhor de Belmonte, alcaide-mor de Azurara, ligado a uma das mais velhas linhagens portuguesas. Levava 1500 homens de tropa de desembarque, negociantes, aventureiros, degredados, frades franciscanos chefiados por frei Henrique Soares de Coimbra, antigo desembargador da Casa de Suplicação, mais tarde bispo de Ceuta e confessor de D. Manuel. Levava ainda dinheiro amoedado c mercadorias. Estava aparelhada portanto, como lembra Capistrano de Abreu, com recursos para se transformar em expedição pacífica ou belicosa, de acordo com as circunstâncias que se apresentassem. Entre os mais célebres pilotos que dela fizeram parte figuram Vasco de Ataíde, Bartolomeu Dias (morto durante a expedição, no naufrágio de seu barco, na altura do Cabo da Boa Esperança), Duarte Pacheco Pereira, notável cosmógrafo da época, Nicolau Coelho, antigo piloto de Vasco da Gama e de Bartolomeu Dias, Gaspar de Lemos, Sancho de Tovar. A expedição estabeleceria na índia bases de futuro comércio permanente, fundando feitorias ao mesmo tempo em que se trataria da cristianização dos gentios.



Pedro Alvares Cabral

(Retrato dos Varões e Donas.)


 


Roteiro* — Deu-se desusada importância à expedição. A 8 de março toda tripulação, tropas, os embarcadiços, assistem na ermida de Belém a uma missa pontifical solene. O capitão-mor ficou ao «lado do rei durante a cerimônia. Recebeu uma barrete que lhe enviara o papa, a Ordem de Cristo e o monarca pessoalmente lhe fêz a entrega de um estandarte real bento momentos antes por D. Diogo Ortiz, bispo de Ceuta.

 

Brasão de Pedro Alvares Cabral.

 

 

 

 

 

 

 

A frota de Cabral saindo do Tejo,

(Idealização do pintor português Roque Gameiro, reproduzido da "História da Colonização Portuguesa no Brasil".)


 

Somente a 9, no dia seguinte, ventos favoráveis permitiram a saída da frota. A 14, avistaram as Canárias, a 22 passaram ao largo das ilhas de Cabo Verde. A de abril notaram-se os primeiros sinais de terra, confirmados a 22, quando avistaram no litoral baiano um monte desde então denominado Pascoal pelo capitão-mor, segundo nos refere Pêro Vaz de Caminha. Após operações preliminares de sondagem e reconhecimento, bordejando para o norte, encontraram ancoradouro na foz de um rio, logo abandonado por outro mais ao norte, com capacidade de abrigar toda a frota e ao qual o capitão-mor denominou Porto Seguro.

A 26 de abril, domingo da Pascoela, frei Henrique de Coimbra rezou a primeira missa no ilhéu da Coroa Vermelha, missa a que os naturais assistiram com demonstra-

Moedas e selos do rejnr.do de D. Manuel e D. João 111.

ções de respeito. A 1.° de maio chantou~se uma cruz construída com madeira da terra. No dia seguinte, deixando dois degredados, a frota retomou o roteiro da índia ao mesmo tempo em que era enviado ao rei o navio de mantimentos com a notícia da nova descoberta.

 

PONTOS CONTROVERTIDOS

O descobrimento do Brasil tem sido criticado por vários autores e carece de certos esclarecimentos no que se refere à prioridade dos portugueses, à intencionalidade ou casualidade, da descoberta, à fixação da data respectiva, ao local a que corresponde o Porto Seguro de que fala Caminha na carta a D. Manuel.

A questão da prioridade. — Autores há que afirmam que outros navegadores haviam aportado ao Brasil em data anterior à chegada de Cabral. Estas pretensões, estudadas eruditamente por Capistrano de Abreu-na sua famosa Tese de Concurso, são de três espécies: a) pretensões francesas; ‘ b) pretensões espanholas; c) pretensões portuguesas.

D. Manuel, o Venturoso Pretensões francesas. — As pretensões francesas defendidas por Paul Gafarei., autor de Jcan Cousin ou La Découverte de l’Amèri-que avant Christophe Co-lomb (apud "Résumé Politique et littéraire", vol. VI), que se apoiou num trabalho de Demarquets (Mèmoires chronologiques pour servir à 1′hisíoire de. Dieppe et la navigation française Paris – Dieppe, 1785). Para estes autores, Jean Cousin, marinheiro e negociante die-pense, depois de ter tocado nos Açores, teria sido arrastado em direção de_oeste até encontrar um continente na foz de um grande rio que seria o Amazonas. Velejou depois em direção do sul da África, descobriu o cabo das Agulhas, voltou daí para Dieppe em 1489, passando pelo Congo e pelo golfo de Guiné. De um só golpe, lembra ainda Capistrano, como num passe de mágica, Cousin arrebatou a glória de Colombo; Vasco da Gama e Cabral.

Pretensões espanholas. — As pretensões espanholas se apoiam em boa documentação e reclamam, desde o século XVI, a prioridade do descobrimento do Brasil para Vicente Yanez Pinzón e Diego de Lepe. Mais tarde surgiram novas reivindicações favoráveis a Alonso de Hojeda e Vespúcio, também apontados como precursores de Cabral.



NOTA. — Segundo o texto da bula de Alexandre VI, a chamada Unha Alexandrina passaria a 100 léguas a oeste das Ilhas dos Açores e das Ilhas de Cabo Verde. Tal linha, portanto, teria uma inclinação pronunciada. No esquema acima só tomamos como referência, para o traçado da mesma, as Ilhas de Cabo Verde.


Baseiam-se os partidários da prioridade espanhola em Pedro Martyr (De rebus oceanicis et novo orbe décadas três, Colónia, 1574), que arrolou depoimentos de Pinzón e seus marinheiros, e em Navarrette (Coleción de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los Espanoles desde fines dei siglo XV 5.° vol., 1825-1837). Para esta corrente Vicente Yaííez Pinzón teria iniciado sua expedição em dezembro de 1499, tocou nas Canárias de onde atingiu Cabo Verde e a ilha de Santiago. Daí,, seguindo rumo oeste, chegou a 26 de janeiro ao litoral brasileiro, atingindo um cabo a que denominou Santa Maria de la Consolación, acidente geográfico este identificado por Garcia Hernandes e Manoel de Valdovinos e pelo próprio descobridor como sendo o cabo de Santo Agostinho da toponímia portuguesa, enquanto Porto Seguro (Francisco Adolfo Varnhagen) indica como sendo o porto de Mucuripe. Estas são as opiniões mais idóneas e mais prováveis à luz da crítica histórica.

Segundo Batista Caetano, Pinzón teria atingido na sua navegação o cabo Orange, anteriormente chamado Cabo de São Vicente, e o rio Oiapoc, expressivamente chamado durante muito tempo rio de Vicente Pinzón.

"A viagem, de Pinzón, escreve Capistrano, é "de autenticidade inconcussa; em 1500 Juan de la Cosa e o governo espanhol; em 1501 Pedro Martyr; em 1504 Angelo Trevizano, e desde então muitos outros historiadores têm dado testemunho dela".

Diego de Lepe iniciou seu roteiro em Cadiz ou Paios, foi à ilha do Fogo, no Arquipélago de Cabo Verde, e seguindo dai rumo sudoeste chegou ao cabo de Santo Agostinho, seguindo mais ou menos a esteira de Pinzón.

A tese de Varnhagen apresentando Alonso de Hojeda como precursor de Pinzón, navegando com Vespúcio e ‘Juan de la Cosa atingindo o rio Açu, foi criticada por Capistrano que provou sua inconsistência diante das contradições apontadas na declaração do próprio Hojeda, de Juan de la Cosa e Vespúcio.


Pretensões de prioridade portuguesa. — Historiadores portugueses procuram apontar compatriotas seus como precursores de Cabral, revelando documentação e defendendo teses que merecem ser estudadas cuidadosamente. São apontados como precursores: João Ramalho, Duarte Pacheco. Pereira.

A segunda missa no Brasil.

(Quadro do pintor brasileiro Vítor Meireles.)

Intencionalidade do descobrimento. — A corrente de crítica histórica favorável à intencionalidade e não à casualidade do descobrimento do Brasil pelos portugueses, é a que oferece argumentos mais sólidos. Fundamenta-se em primeiro lugar na documentação coeva; na sua carta o físico-mor faz menção de uma carta geográfica existente de Pêro Vaz Bizagudo, na qual já figura o Brasil (Joaquim Norberto). Jaime Cortesão defende a hipótese do segredo, isto é, D. Manuel já possuía destas terras conhecimento que não revelou por motivos políticos e de concorrência até que dela se apossasse. Outro argumento é aquele que se refere à serenidade com que Caminha relata o achado, sem nenhuma surpresa, antes com tranquilidade de quem apenas confirma um roteiro já fixado.

Os partidários da casualidade lembram a falta de padrões de conquista, a questão das correntezas tecnicamente já estudadas.

Capistrano prefere explicar a descoberta como consequência natural do roteiro de Vasco da Gama que, teria passado ao largo do litoral brasileiro e encontrado vestígios de terra (rabo de asnos boiando, fura-buchos voando) que por circunstâncias fortuitas não chegou a avistar.

A questão do local. — A questão do local consistia na controvérsia surgida: se o atual Porto Segur era o Porto Seguro onde se abrigou a frota de Cabral. A opinião mais aceita, contrariando a opinião do grande Varnhagen, é a de Beaurepaire Rohan, apoiado aliás por cronistas quinhentistas (Gandavo, Gabriel Soares, Fernão Cardim e Anchieta). O Porto Seguro de Cabral passou a chamar-se Santa Cruz por influência da cruz ali chantada em 1.° de maio de 1500. O que hoje chamamos de Porto Seguro corresponde à antiga baía Cabrália.

A questão da data. — A comemoração oficial do descobrimento a 3 de maio, em oposição às declarações de Caminha que o fixa de modo claríssimo a 22 de abril, tem recebido várias explicações. Uns justificam o caso lembrando a modificação do calendário juliano para o gregoriano, que determina um avanço de 10 dias, de 4 para 14 de agosto. Esta afirmativa é facilmente recusada bastando-nos lembrar que, neste caso, tendo em vista os 10 dias de avanço, a data.seria dois e não três de maio. Vale a pena acrescentar ainda: por que as demais datas anteriores à modificação do calendário e contemporâneas do fato não foram igualmente modificadas?


Chantando a primeira cruz cm Porto Seguro.

(Quadro do pintor brasileiro Pedro Peres.)

Haveria maior expressão comemorativa, lembra Jônatas Serrano, no 1.° de maio, dia da tomada de posse da terra. O 3 de maio foi justificado também como sendo o dia do encontro da Santa Cruz.

O nome.— Cabral denominou a terra de Ilha de Vera Cruz, nomenclatura logo abandonada em 1501 para Ilha da Cruz e, em julho do mesmo ano, D. Manuel a ela se refere em carta aos reis de Espanha como Santa Cruz. O nome Brasil aparece em documentos oficiais desde 1511, no regimento da nau "Bretoa", por exemplo.



QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1 — Qual a documentação que possuímos do descobrimento do Brasil por Cabral em 1500?

2 — Quais os personagens mais importantes da esquadra de Cabral?

3   — Qual a finalidade desta expedição?

4   — Quais os principais sucessos do calendário da expedição de Cabral?

5   — Quais os principais sucessos da Semana de Vera Cruz?

6   — Quais os pontos controvertidos sobre o descobrimento do Brasil pelos portugueses?

7 — Em que se fundamentam os partidários da prioridade francesa?

8 — Que documentação exibem os partidários da prioridade

espanhola? 0 — Quais -os prováveis precursores de Cabral de origem lusitana?

10 — Qual a argumentação exibida por partidários da intencionalidade e casualidade da descoberta?

11      — Em que consiste a questão do local?

12  — Como se procura justificar a comemoração do descobrimento do Brasil a 3 de maio?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral;

a)    Cabral e o descobrimento do Brasil.

b)    Frei Henrique Soares de Coimbra.

c)    Casualidade ou intencionalidade.

 


4. A carta de Pêro Vaz de Caminha

A carta cora a qual Pêro Vaz de Caminha comunicou a D. Manuel a notícia da descoberta ficou esquecida nos arquivos da Torre do Tombo até 1793, quando foi examinada por Juán Batista Munoz. Em 1887, o Padre Aires do Casal reproduziu-a na sua Corografia Brasílica. Outras reproduções foram feitas em Lisboa em 1826 (Coleçõcs de notícias para a história e geografia das nações ulíramarínhas), em 1900, no Livro do Centenário e na Bahia, no mesmo ano, em reprodução fac-similar com textos em português quinhentista e em português atual. Foi reproduzida ainda no volume 11 da História da Colonização Portuguesa no, Brasil, com anotações interpretativas de D. Carolina Micaelis de Vasconcelos (pags. 86-99).

O original está guardado na Torre do Tombo, Portugal, com a indicação de catálogo: gav. VIII, 2, 8, segundo notas de Varnhagen (//. Geral do Brasil, Tomo I, 3.a edição, pg. 74).

Pêro Vaz de Caminha. — Filho de Vasco Fernandes Caminha, cavaleiro da casa do duque de Guimarães, Pêro Vaz de Caminha, mestre de balança da moeda na comarca do Porto, herdeiro do título paterno, cavaleiro da casa de D. Afonso V e D. Manuel, fora nomeado escrivão da feitoria de Calicut. Passageiro da nau capitânia da frota de Cabral, relata de modo minucioso as peripécias da expedição cabralina e descreve de igual modo a terra e os naturais de Vera Cruz. Embora não seja escrita por um técnico em arte náutica ou um erudito em Botânica, Zoologia, Cosmografia e Geologia, a viva narrativa vale por idóneo documento já chamado "certidão de batismo do Brasil", "auto solene do descobrimento" e "primeira página da História brasileira".

A carta trata dos principais acontecimentos da vida de bordo, relata as resoluções tomadas pelos capitães e pilotos cm que sempre esteve presente, exalta as excelências das novas terras, descreve minuciosamente aspectos de antropologia e de etnologia do gentio. Sugere ao Venturoso providências a serem tomadas em seu amparo e em amparo da Terra que se lhe afigurou "cm tal maneira graciosa que, querendo aproveitar, dar-se-à nela tudo; por cansa das águas que. tem".

* * *

Versão da primeira página da carta de Pêro Vaz de Caminha pela Doutora D. Carolina Micaelis de Vasconcelos, correspondendo à reprodução fac-similar da página seguinte.

Senhor,

pasto que o Capitão-mor desta Vossa frota, c assim mesmo os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a noticia do achamento desta Vossa terra, nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como cu melhor puder, ainda que. para o bem contar c folar —, o saiba peor que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que. para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi c me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza porque o não saberei fazer e os pilotos devem der este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo que a partida de Belém foi como Vossa Alteza sabe, segunda feira 9 de Março. E sábado, 14 do dito mês às S c 0 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da grande Canária. E ali andámos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das Ilhas de Cabo Verde, a saber da Ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pêro Escolar, piloto.

Na noite seguinte à segunda-feira quando amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para isso poder ser!

Fêz o Capitão suas diligências para o achar, em amas e outras partes. Mas... / não apareceu mais!

Trechos da Carta de Caminha para comentários em aula

 

E assim seguimos nossa caminho, por este mar de. longo, até que terça-feira das Oitavas da Páscoa, que foram 21 dias de Aoril, topámos alguns sinais de terra, estando distantes da dita Ilha, segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas os quais sinais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, c assim mesmo outras a que dão o nome de "rabo de asno". E quarta-feira seguinte, pela ma…

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fêz sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhes um barrete vermelho e uma carapuça^ de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas d’ave, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

„• E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E -um pouco antes do sol–pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que. lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque-de-xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que mão os magoa, nem lhes põe estorvo no faiar, nem no comer e beber..

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobrepente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da covinha, de fonte a fonte, na parte de trás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria, do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como cera (mas não era cera), de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua . mais lavagem para a levantar.

Dali se partiram os outros dois mancebos, que não os vimos mais.

Dos que ali andavam, muitos — quase a maior parte — traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

E alguns que andavam sem eles, traziam os beiços furados c nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e ainda outros quartejados d’escaques.

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra cousa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimento da nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra " o Sul vimos, até a outra ponta que contra o Norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, vimas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos — terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não podemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares, frescos e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. As águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Com tudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para, essa navegação de Calecut, isso bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber acrescentamento da nossa santa fé!

 

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1 — Qual o motivo da importância histórica de Pêro Vaz de

Caminha?

2   — Quais os principais dados biográficos de Caminha?

3   — Compare as três frases referentes à Carta:

‘Certidão de batismo do Brasil" — "Auto solene do descobrimento" "Primeira página da História. do Brasil", Qual delas exprime melhor o significado daquele documento?

4   — De que assunto trata Caminha na sua célebre Carta?

5   — Tente decifrar os caracteres quinhentistas no documento reproduzido na pág. 34.

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:

a)    A Carta de Caminha e sua importância para a História Pátria.

b)    Descobridores e decoradores do documento.

c)    A antropologia e a geografia na Carta de Caminha,

 


Contendas territoriais e os tratados de limites entre Portugal e Espanha

Diante dos resultados da viagem de Colombo, apressaram-se os reis católicos em tomar posse das terras recém–descobertas, garantidos pela autoridade do Papa, árbitro naquela época de todas as questões da cristandade.

As bulas «Eximíae devotionis» e «Inter coetera». — Data de 3 de maio de 1493 a bula "Eximiae devotionis". Por ela o Papa Alexandre VI "concede aos Reis de Castela e Leão e seus descendentes as terras ermas, ilhas remotas e incógnitas, descobertas e por descobrir para as partes ocidentais e mar oceano, com os mesmos privilégios, imunidades, graças c liberdades anteriormente concedidas aos Reis de Portugal nas partes de África, Guiné e Mina de Ouro."

Com a mesma data de 3 de maio de 1493 a primeira bula "Inter coetera" concedia aos reis católicos ‘[todas e cada uma das sobreditas terras e ilhas desconhecidas e até hoje por vossos emissários achadas e a serem achadas para o futuro". Fez no entanto uma ressalva em atenção a concessões anteriores. Por isto acrescentou: "as quais não estejam constituídas sob o atual domínio temporal de nenhuns Príncipes Cristãos".

NOTA. — As datas reproduzidas neste capítulo sSo as datas oficiais que se encontram nos textos das respectivas bulas. Convém esclarecer, no entanto, que as datas de publicação das mesmas divergem daqueles textos segundo dês cobertas realizadas por VAN DEN Lynden e JAIME Cortesão no segundo quartel do século vigente.


 

2.a bula «Inter coetera». — No dia seguinte, 4 de maio, concedeu Alexandre VI uma nova bula Inter Coetera que introduzia sensíveis modificações na anterior. O embaixador José Carlos de Macedo Soares, na sua obra clássica sobre o assunto, "Fronteiras do Brasil no regime colonial"‘, assim estuda os resultados da diplomacia lusa c a fixação da linha Alexandrina então, estabelecida:

"A Bula Inter Coetera de Alexandre VI, de 4 de maio de 1493, não dividiu o mundo em metades — uma para Espanha c outra para Portugal, — como erradamente se repete com insistência. Fèz aos Reis de Castela e de Leão concessão absoluta "sob pena de excomunhão latae sententiae para as pessoas de qualquer dignidade, mesmo Real ou Imperial", que perturbarem seus domínios, de "fadas as ilhas e terras firmes achadas ou por achar, descobertas ou por descobrir, para o ocidente e meio-dia de uma linha desde o Polo Ártico ou Sctentrião, até o Pólo Antártico ou Meio-Dia" "quer sejam terras firmes e ilhas encontradas c por encontrar cm direção à Índia ou em direção a qualquer outra parte", a "qual linha diste de qualquer das ilhas que vulgarmente são chamadas dos Açores e Cabo Verde, cem léguas para o Ocidente e Meio-Dia".

* * *

"Pela Bula Inter Coetera, Alexandre VI teria encerrado o ciclo das navegações portuguesas, pois outorgara à Espanha todas as possibilidades relativas aos descobrimentos se não fora, como veremos, a vontade firme de D. João 11 c as deficiências da própria Bula, as quais forçaram uma acomodação entre os Reis Católicos e o de Portugal. Na verdade muito vaga era a expressão usada na Bula versus occidentem et meridiem, e mais ainda esta outra: a qualibet insularum que vulgariter nunepantur de los Azores et Caboverde, em se. tratando de traçar um meridiano, e estendendo-se os dois citados grupos de ilha cm longitudes diferentes".

TRATADO DE TORDESILHAS DE 7 DE JUNHO DE 1494

O Tratado de Tordesilhas, assinado entre Fernando e Isabel e D. João II, em 7 de junho de 1494, foi um triunfo da hábil diplomacia lusitana sem qualquer interferência do poder papal, já que as reclamações do Príncipe Perfeito ao Papa Alexandre VI não haviam logrado outro resultado que a confirmação de bulas anteriores datadas de maio pela nova bula Dudum Siquidem (26 de setembro de 1493).

D. João, deixando de lado a interferência papal, diri-giu-se diretamente aos reis católicos, protestando contra as generosas concessões pontifícias aos espanhóis, as quais contrariavam, entre outros ajustes, o Tratado de Alcáçovas de 1479, assinado entre Afonso V e Fernando e Isabel. Ameaçados pela esquadra portuguesa, os reis católicos negociam o "Tratado de Tordesilhas" de 7 de junho de 1494, denominado Capitulacion de la particion dei mar Oceano, ratificado em Setúbal a 5 de setembro do mesmoano. Por ela se estabelecia a divisão do globo em dois hemisférios pelo meridiano distante 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, ficando a Espanha com a área a oeste do dito meridiano demarcador e Portugal com a área a este. O meridiano demarcador estabelecido pelo tratado de 1494 assegurava a posse portuguesa do território brasileiro compreendido entre o oceano e o meridiano que corta o nosso território numa linha que vai de Belém no Pará a Laguna em Sta. Catarina, aproximadamente.

Estudando o Tratado assim escreve Clóvis Beviláqua: "O Tratado de Tordesilhas representa um esforço da diplomacia portuguesa para atenuar o golpe vibrado pelas Bulas de Alexandre VI na expansão marítima da conquista e comércio, que, tão galhardamente, ia Portugal levando por diante".

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One Response para “O descobrimento – História do Brasil – Ary da Matta”

  1. 1
    aline:

    achei otimo mais falta algumas coisas

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