Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

O PESCADOR DE TARRAFA



 

O PESCADOR DE TARRAFA

Carlos Pedrosa

O USO da tarrafa de pesca é generalizado em todas as regiões brasileiras. Diferenciando-se do instrumento usado na costa marítima da Península Ibérica, conhecido por idêntico nome que, segundo a "Enciclopédia Universal Ilustrada" Epasa (vol. 59, p. 687), possui dimensões muito maiores e formato outro e é aplicado em conjugação com barcos de pesca, no alto-mar, a tarrafa brasileira, ao contrário, é uma rede, de forma afunilada, tendo na base superior uma longa corda pendente, que fica presa à mão do pescador, quando este a lança aberta, na água. Na base inferior, dispostos em círculo se enfileiram pequenos pedaços de chumbo, em distâncias iguais. Medindo cerca de seis metros de altura, por 10 a 40 de circunferência, pesa a tarrafa em média, de 6 a 8 quilos. Confeccionada com fios de algodão ou de tucum, as suas malhas são distanciadas de 3 centímetros de nó a nó.

Por ser curiosa a descrição da tarrafa, feita por frei Domingos Vieira, em seu "Grande Dicionário Português" (5o. vol., Porto, 1874), passamos aqui a transcrevê-la: "Rede com que pesca um homem só; é redonda, com pesos à borda, lança-se de pancada, e cai aberta; tem no centro uma corda por onde se tira e sai fechada com o peixe dentro".

Manejada por "um só homem", lançada do alto dos barrancos ou das margens dos rios e dos braços das marés ou ainda de cima de pequenos barcos (jangadas e canoas), tão conhecido instrumento de pesca é usado por milhares de modestos que labutam nas marés da nossa imensa costa marítima e ao longo dos cursos dos rios cuja fauna subsiste à devastação, como por exemplo, o São Francisco.

Variando de condições econômicas, segundo a região onde trabalham, os pescadores brasileiros, de modo geral, possuem nível de vida mais baixo, pois as relações econômicas que mantêm com arrendatários dos terrenos de marinha e os donos de embarcações e utensílios de pesca, são as mais precárias e extorsivos, só comparáveis às mantidas pelos trabalhadores do campo com os proprietários da terra. A única diferença que existe é que grande parte dos nossos pescadores já conta com a assistência das suas respectivas colônias, instituições oficiais dirigidas por verdadeiros e desinteressados defensores de tão numerosa e necessitada classe. Onde não chega, porém, a assistência da fica o pescador local sujeito a toda sorte de exploração.

Na região nordestina ( e Alagoas especialmente) vive o pescador, em geral, à mercê dos "pombeiros" e dos arrendatários dos terrenos de marinha. Dá-se a designação de "pombeiros" aos grandes negociantes de peixe que servem de intermediário entre os pescadores e os peixeiros (retalhistas). Há "pombeiros" que, possuindo instrumentos de pesca, como sejam jangadas, canoas, redes, tarrafas, covos etc, alugam tais instrumentos aos pescadores, mediante a paga da "meação" da pescaria ou seja, a entrega da metade dos peixes pescados. Existem também "pombeiros", este em maior número, que arrecadam, por compra, a preço inferior, os peixes pescados pelos pequenos pescadores vendendo após o produto a preço exorbitantes nos grandes centros de população.

Os arrendatarios de terrenos alagados de marinha e de praia são outros, cujas relações econômicas que mantêm com os pescadores são abusivas e desumanas. O comandante Alberto Vasconcelos, cuja atuação saliente em benefício do pescador pernambucano é meritoria, calculando o lucro do mesmo, diz que do seu rendimento mensal de CrS 33,00 (cálculo de 1935), ainda têm que ser reduzidos 60%. O pescador paga 50% do que pesca ao proprietário da embarcação ou da rede e 10% ao comissário para vender o peixe que lhe cabe. "Um ou outro "pombeiro", informa o mesmo técnico, simulando benemerência, mas, na realidade, para atrair "freguesia", fornece aos pescadores, jangadas e pequenas redes (mangotes) e covos, independentemente de pagamento, porém com a condição de vender a êle, exclusivamente, o que pescar".

No extremo norte (Pará), a atuação dos "pombeiros", é substituída pela dos "geleiros", designação conferida aos proprietários de embarcações tipo "vigilenga", conhecidas por "geleiras", que fazem o transporte do pescado adquirido nos centros produtores para a capital daquele estado, munindo-se para isso de farta provisão de gelo.

Ainda em contribuição recente publicada pelo Sr. Lejeune de Oliveira C‘Memórias do Instituto Osvaldo Cruz", tomo 46, fase. 4 — 1948), é dada a conhecer a precária situação econômica dos pescadores fixados em torno da lagoa Piratininga (estado do Rio de Janeiro), os quais mantendo suas famílias com padrão de vida miserável, vivem maltrapilhos, subnutridos e atacados de malária. Analfabetos todos, moram em barracões de pau trançado rebocados a barro e cobertos com folhas de junco. Contou aquele técnico trinta e oito habitações entre casebres e barracões. Informa ainda o Sr. Lejeune que, rareando a pesca, as mulheres se atiram à faina de trançar tábua e junco e de confeccionar esteiras que destinam à venda em Niterói, enquanto os respectivos maridos procuram alugar seus serviços aos proprietários de barcos de pesca que fazem pescaria nos pontos mais afastados da costa. Os depoimentos antes referidos demonstram a precária situação em que vive o pescador brasileiro de modo geral. E o tarrafeiro é bem um membro dessa numerosa camada social.

Muitos desses pescadores procuram sua liberdade econômica vindo residir perto dos centros de população mais densa, onde possam pescar por sua própria conta. Não dispondo de utensílios maiores nem de embarcações, dedicam-se à pesca com utensílios mais simples e que dispensam o trabalho de parceria.

A tarrafa, como o "puçá", o "jereré" etc., confere-lhes, desse modo, um meio de vida relativamente independente.

Ao longo dos cursos dos rios, muito especialmente nos seus estuários, são vistos amiúde pescadores dessa espécie que o artista Percy Lau nos apresenta na ilustração. Uns esparramando a tarrafa nas beiras dos cursos d’água, outros dirigindo seus "lanços" de cima de pequenas jangadas ou canoas.

O Sr. Otto Schubart, biologista da Estação de Caça e Pesca de Pira-çununga e autor do folheto "A Pesca nos Estados de Pernambuco e Alagoas" (Rio de Janeiro, 1944), onde colhemos valiosos dados e informações sobre o uso da tarrafa, registrou o resultado de uma pescaria levada a efeito, em dias diferentes, nas vizinhanças dos arrecifes do Pina (parte do sul de Recife), por um pescador que fazia os seus "lanços" de cima de uma pequena jangada sem vela. O produto dessa pescaria foi: dia 22 de junho,

15 tainhas e duas carapebas; dia 2 de julho, 17 tainhas; dia 13 de setembro, 13 tainhas; dia 20 de outubro, 12 tainhas, dia 26 de outubro, 18 tainhas.

Acentuando que a tarrafa é usada ali raramente na zona de praia ou seja no mar, isso mesmo para a colheita de pequenos peixes destinados a isca, aquele autor relaciona em seu útil trabalho os lugares de Pernambuco e Alagoas, onde tal instrumento é largamente empregado, salientando as zonas dos estuários dos rios que desaguam no litoral de Pernambuco e Alagoas, bem como na região das lagoas desse último estado, onde, também, são vistos, com freqüência pescadores tarrafeando peixes.

Depondo sobre a pesca no interior daqueles estados do Nordeste, o mesmo autor citado acentua que, periodicamente, a partir da distância de 50 a 100 quilômetros da costa, todos os rios, riachos e ribeirões secam de todo ou resistem só em trechos d’água parada de pequenas dimensões, concorrendo dessa forma para que não haja pescaria contínua e organizada. Aí a rede usada e mais própria é a tarrafa, que é empregada, igualmente, durante todo o ano em vários pontos do rio São Francisco.

No sul do país é a tarrafa muito utilizada na pesca da tainha. No tempo da tainha — esclarece o comandante Frederico Vilar em seu livro "Manual do Patrão de Pesca" — quando ela penetra nos rios e lagoas procurando nas margens a vegetação própria à sua nutrição, os pescadores, do alto do barranco ou embarcados em canoas, vão lançando as tarrafas sobre os cardumes, enchendo cestos em poucos lances. Até mesmo nas praias do mar quando a afluência desses peixes é grande, adianta o comandante Vilar, a tarrafa é igualmente o instrumento de pesca utilizado.

Em livro ainda inédito da lavra do Eng.° Moacir M. F. Silva, cujos originais tivemos em mãos, encontramos curiosa observação acerca da pesca de tainhas por meio de tarrafa, na região de Laguna, a qual, na forma por que é descrita, mostra que o seu autor, conhecido e abalizado técnico, sabe, também tratar com fino gosto literário motivos e aspectos estranhos à sua especialização. Eis a observação do Eng.° Moacir Silva:

"— Uma curiosidade local de Laguna é a pesca da tainha, com o auxílio dos botos. Certas ocasiões, o boto, grande, róseo, semelhante ao golfinho, volteando à tona d’água, vem, em bandos, perseguindo as tainhas à beira da praia. Desta, os pescadores atiram as tarrafas. As tainhas que fogem dos botos são apanhadas pelas tarrafas. As que escapam às tarrafas são alcançadas pelos botos. Os botos, por marcas especiais são identificados pelos pescadores, que chegam a lhes dar nomes. Mas, a par desses, que colaboram, há também, por vezes, uns botos inábeis, que atrapalham a pesca, afugentando as tainhas, tainhotas e tainhotins".

Reproduzido de Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966. MUTIRÃO *

pescador de tarrafa

(P. Lau / IBGE)

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