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	<title>Comentários sobre: QUEM TEM OUVIDOS</title>
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	<description>Filosofia e Ciências Humanas</description>
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		<title>Por: João Batista Mezzomo</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-8428</link>
		<dc:creator>João Batista Mezzomo</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 19:55:34 +0000</pubDate>
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		<description>Melissa,
Estive de férias no México e o programa estava muito absorvente, de modo que somente hoje vi teu comentário. Se quiseres posso te passar o livro por e-mail. De qualquer forma ele será lançado este ano pela Editora Besouro Box, aqui de Porto Alegre. Meu e-mail é &quot;jmezzomo@hotmail.com&quot;.
João</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Melissa,<br />
Estive de férias no México e o programa estava muito absorvente, de modo que somente hoje vi teu comentário. Se quiseres posso te passar o livro por e-mail. De qualquer forma ele será lançado este ano pela Editora Besouro Box, aqui de Porto Alegre. Meu e-mail é &#8220;jmezzomo@hotmail.com&#8221;.<br />
João</p>
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		<title>Por: Melissa</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-8376</link>
		<dc:creator>Melissa</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jan 2010 20:57:27 +0000</pubDate>
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		<description>Perdão, ficou faltando o final: &quot;a irracionalidade - enquanto o oposto da racionalidade - apenas enxerga estrabicamente aquilo para o qual a racionalidade é cega&quot;.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Perdão, ficou faltando o final: &#8220;a irracionalidade &#8211; enquanto o oposto da racionalidade &#8211; apenas enxerga estrabicamente aquilo para o qual a racionalidade é cega&#8221;.</p>
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		<title>Por: Melissa</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-8375</link>
		<dc:creator>Melissa</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jan 2010 20:54:37 +0000</pubDate>
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		<description>Não consigo achar palavras para enaltecer sua análise filosófica sem acabar, de alguma maneira, parafraseando os demais comentadores. Mas tem algo que não posso deixar de repetir: gostaria muito de poder ler o seu livro assim que lançado - ou quem sabe mesmo antes. O abstrato, como chama, é algo que também me atrai por residir no mistério. Reconheço a minha dificuldade para admiti-lo e tentar alcançá-lo, e por isso mesmo seu texto se torna ainda mais instigante. Em &quot;Ser e Tempo&quot; Heidegger falou mais ou menos assim: &quot;a irracionalidade - enquanto o oposto da racionalidade - apenas enxerga estrabicamente aquilo para o qual a racionalidade&quot;. Resta o enigma.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Não consigo achar palavras para enaltecer sua análise filosófica sem acabar, de alguma maneira, parafraseando os demais comentadores. Mas tem algo que não posso deixar de repetir: gostaria muito de poder ler o seu livro assim que lançado &#8211; ou quem sabe mesmo antes. O abstrato, como chama, é algo que também me atrai por residir no mistério. Reconheço a minha dificuldade para admiti-lo e tentar alcançá-lo, e por isso mesmo seu texto se torna ainda mais instigante. Em &#8220;Ser e Tempo&#8221; Heidegger falou mais ou menos assim: &#8220;a irracionalidade &#8211; enquanto o oposto da racionalidade &#8211; apenas enxerga estrabicamente aquilo para o qual a racionalidade&#8221;. Resta o enigma.</p>
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		<title>Por: João Batista Mezzomo</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-8063</link>
		<dc:creator>João Batista Mezzomo</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 22:24:12 +0000</pubDate>
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		<description>Caro Celeste,

Em primeiro lugar, agradeço os elogios ao resumo de meu livro.

Quero dizer que concebi o livro, que ainda não foi lançado, ao longo de aproximadamente 25 anos, os quais passei me defrontando com este espanto diante dos mistérios, que na verdade é o combustível da filosofia, pois ela é o velho amor ao conhecimento, e nasce justamente da perplexidade diante da constatação de que nada sabemos.

Me considero um filósofo com idéias originais, mas isso somente o tempo poderá mostrar se sim ou se não. Sendo eu brasileiro, e um ilustre desconhecido, será isso pretensão desmesurada? Neste caso, pergunto, será possível fazer filosofia sem essa pretensão? Penso que não. Mais que isso, penso que é pretensão desmesurada, isso sim, querer fazer filosofia somente com os pensares alheios. A filosofia só pode se constituir como algo pertinente se ela levar em conta o que já se fez, mas ao mesmo tempo nascer da autenticidade e da ousadia de pensarmos nossos próprios pensamentos, é o que penso. Infelizmente, vivemos um tempo em que a mera busca da autenticidade causa estranheza, e onde é aconselhável sempre nos fazermos de modestos, e ocultar dos outros o que pensamos de nós mesmos. No entanto, se quisermos viver um novo tempo, de descobertas, é presumível supor que tenhamos de sair dessa hipocrisia e dessa mediocridade do “razoável”, para poder acessar com naturalidade e equilíbrio certa coisa que reside em nós, que “quer grandeza” (em Mensagem, Fernando Pessoa). 

No momento estou procurando editora, mas já sei que este “pedaço” do caminho talvez seja o mais difícil, pois para ao autor, como para um pai, seu “filho” é sempre o mais virtuoso e é difícil aceitar que nem todos o compreendam. Digo isso para dizer que, toda a vez que alguém, como você fez, elogia mesmo que seja o resumo, é para mim um grande e precioso alento. Pois nós - filósofos ou não - às vezes nos pomos a ponderar se o que pensamos é pertinente, ou se apenas fruto de nossa imaginação. Neste caso, somente os outros podem nos resgatar dessa dúvida.

Respondendo à sua questão, digo inicialmente que este acesso àquilo que está oculto não poderá nunca ser feito, em nossa concepção, pela mera reflexão. Como já disse Kant, que você cita, a razão especulativa tem limites, de modo que ela somente nos dá acesso aos fenômenos, e nunca ao “noumenos”, ou seja, ao que Kant denomina “em si”. Em nossa concepção, tal “em si” é justamente a essência de toda a realidade, que está velada para nossos olhos. Entrar nessa essência é precisamente descobrir o oculto, ou o “encoberto”, para usar um termo de Fernando Pessoa, que o colheu ele mesmo da cultura portuguesa. Só poderemos fazer isso quando aliarmos a reflexão a uma práxis, que terá ela mesma que ser descoberta, ou redescoberta. 

Denominar esta práxis é complicado, pois qualquer termo que usarmos para designá-la fatalmente a reduzirá em sua verdadeira magnitude. Mesmo assim, para que não fiquemos numa conversa demasiadamente metafórica, cito um dos nomes desta práxis: ela é aquilo que conhecemos como feitiçaria. A mesma feitiçaria que foi duramente reprimida pela sociedade ocidental, justamente por que ela, sociedade ocidental, tinha de trilhar este caminho do ser, deixando de lado o não-ser, por motivos que explicamos no livro. Assim, reprimindo o não-ser, a sociedade ocidental recalcou mais para o fundo certa dimensão mágica, que já esteve presente em nosso passado, quer individual, quer coletivo. Em nossa tese, no passado coletivo da humanidade nós já vivemos uma dimensão mágica, assim como em nosso passado individual, em nossa primeira infância. Em ambos os casos, saímos da dimensão mágica pelo advento da racionalidade, que nos trouxe a palavra e uma construção racional de mundo, e nos afastou do mágico, interpondo em seu caminho um obstáculo, de tal forma que nem conseguimos mais nos lembrar daquele estado primordial. 

Por essas e por outras, o ser humano atual padece de um “esquecimento do não-ser”. Uso esta construção frasal, parafraseando o “esquecimento do ser” de Heidegger, pois em meu livro eu uso Heidegger justamente como símbolo de onde chegou o caminho dos gregos: num ponto de cegueira, onde somente podemos tatear. E é neste tatear de cegos que se constitui a fenomenologia, pelo seu bem e pelo seu mal. Ela tateia pelo mundo em busca “das coisas mesmas” - como preconizou seu idealizador, o grande Edmund Husserl - mas como está cega só consegue perceber a realidade de modo indireto e invertido. Como não mais consegue conceber o não-ser, ela somente o percebe projetado no ser. Desta forma, é claro que ela não consegue inaugurar uma práxis que contemple o não-ser, ou seja, aquilo que está oculto à consideração da razão especulativa. Se conseguisse isso, tal práxis seria efetivamente um desafio ao mundo, que o poderia efetivamente desconstruir, algo que a fenomenologia só consegue vislumbrar de modo meramente especulativo.
	
Pois bem, e como faremos afinal para romper esta interdição e adentrar novamente no mágico? 

Em primeiro lugar, diante da afirmação da possibilidade de “adentrar no mágico”, podemos assumir diversas posturas. A primeira é a que tradicionalmente adota a filosofia e as ciências: uma postura de desconsideração, de ironia e mesmo de silêncio, que é a pior resposta possível, pois com o silêncio não podemos dialogar. Mas esta postura vem justamente daquela interdição do mágico que falamos. Como ele ultrapassa a razão e a construção racional, rompendo o próprio mundo como o constituímos, a razão reage com suas armas, e desmerece, com a desconsideração, o silêncio ou - se manifestarmos mais vivamente nosso propósito e exigirmos uma resposta - com uma interdição: “mal-dito”. Não obstante, se o ser humano anseia por descobrir, é presumível supor que um dia teremos de sair desta posição de desconsideração do mágico, ou seja, daquilo que ultrapassa a razão.

A segunda postura possível é a que vê o mágico como um caminho natural e isento de dificuldades. Como se, voltando para um caminho antigo e abandonado, encontrássemos uma via que resolveria todos os problemas num “passe de mágica”. Essa postura infantil não resiste a uma consideração mais consistente, pois o caminho novo nunca é o antigo, apesar de com ele se assemelhar em alguma medida, e nunca está isento de desafios e dificuldades. Ademais, este adentrar no mágico é na verdade um desafio ao mundo como o constituímos. Quando fazemos esse desafio de modo meramente especulativo, não rompemos de fato com o mundo, de modo que o que consideramos “mundo real” continua a ser este mesmo mundo que consideramos real. E esse talvez seja um dos motivos por que você, Celeste, não sente medo de procurar o oculto. É porque você o está procurando apenas pela via reflexiva, onde o mundo que consideramos real se mantém ileso. Porém, se fizermos este desafio como uma “práxis”, poderemos de fato romper com o mundo, e descobrir que ele, mundo, não é como supomos. Neste caso, nos tornaremos acessíveis ao nosso primeiro inimigo, um inimigo que está no caminho daquele que busca com radicalidade o conhecimento: o medo. Ele não é o único inimigo no caminho do homem, mas certamente ele é o primeiro.

De modo que essa possibilidade de que falamos, de descobrir um mundo que está encoberto, reveste-se na verdade de extremos perigos, principalmente quando implementada no nível individual, ou num grupo restrito de pessoas. Esse foi o motivo, eu penso, de algumas utopias - como o dito “socialismo real”, mas não apenas ele - terem resultado ao final em frustração: elas contemplavam apenas alguns “escolhidos”. Seu desejo era ir de fato para um território que está “além do bem e do mal”, ou seja, além do ser humano como o conhecemos nos dias atuais. No entanto, não puderam fazer isso, pois não contemplaram de fato a totalidade das coisas. Na prática, elas tiveram que eleger um certo e um errado, um céu e um inferno particulares, de modo que não foram de verdade para além do bem e do mal. 

Esse caminho que preconizamos, por motivos que explicamos de modo mais ou menos exaustivo no livro, somente pode ser de fato trilhado quando houver uma “concórdia universal”. Isso pode parecer uma “fórmula mágica”, ou uma espécie de cristianismo disfarçado, mas não é. Ao contrário, acreditamos ter demonstrado no livro que esta necessidade de concórdia é uma necessidade “energética”. Ou seja, somente quando ficar em paz com o mundo, tirando dele a atenção, o ser humano poderá afinal colocar sua atenção em outra esfera. O que acontece aqui é que a noção ingênua de magia, assim como o próprio cristianismo e outras correntes que preconizam certa concórdia, é que elas se apercebem intuitivamente de uma lei que na verdade pode ser aferida, se de fato o ser humano admitir que exista um caminho dessa natureza. A descoberta dessa lei demonstrará, ao meu juízo, que a possibilidade mágica somente se abrirá novamente para o ser humano quando houver essa concórdia, que é em certo sentido uma volta ao princípio, quando tudo estava unido.

De qualquer modo, a humanidade somente tomará um caminho de “esvaziamento” do mundo se ela compreender tal caminho, e se avaliar que vale a pena tal “esvaziamento”, pelo fato de ele, o caminho, a conduzir a algo que deseja mais do que ao mundo. Penso ter mostrado no livro que especificamente no caminho que a magia descortina se encontra a possibilidade de realizarmos nossos anseios mais caros, que não são meramente os anseios de um indivíduo, um grupo, uma etnia, uma nação, uma época, ou mesmo o de uma espécie (a espécie humana).  Antes disso, eles são os anseios de todo o ser que vive: ele quer continuar vivendo, e uma vida feliz e abundante. Esse desejo que nos foi inculcado pela natureza mesma, seja o que for que o termo natureza aqui possa significar, somente é impossível à luz da racionalidade presente. Porém, já vimos, ela é limitada, de modo que numa outra abordagem do real é possível que descubramos que o que parece impossível sob sua luz talvez seja possível sob uma outra iluminação do mundo.

A sua pergunta é mais restrita ao que pode o indivíduo fazer para descobrir este caminho oculto, ou mesmo o que poderia fazer um grupo, por exemplo. Como já disse, acho temerária qualquer tentativa nesse sentido. Prova disso é o destino mais ou menos trágico dos que tentaram ir nele como “pássaros solitários”.  Da mesma forma, os grupos – como o de Castaneda, que é assumidamente um dos pilares de meu livro – acabaram todos beirando a loucura e o esfacelamento.   

Falar sobre esses modos de acessar o oculto é sempre muito complicado, pois a razão tem a tendência de depreciá-los, e vistos assim isoladamente podem não se mostrar como alternativas válidas. No livro trato desse assunto de modo mais extenso, mas no resumo também me refiro a eles de várias maneiras.  Uma referência fiz quando disse que “o “sonhar” pode se abrir como um território de penetração no próprio abstrato”. No livro esse “sonhar”, que vem da obra de Castaneda, é descrito com mais detalhes, mas consiste em ver o sonho noturno como uma porta de acesso a uma outra realidade. Neste caso, é como se esbarrássemos todas as noites nessa possibilidade, mas não nos déssemos conta, por estarmos até agora “dormindo” para ela. 

Eu mesmo tentei algo neste sentido quando li o interessante livro “Sonhos Criativos”, de Patrícia Garfield, onde ela expõe técnicas de como acordar dentro do sonho, e com isso trabalhar naquele nível problemas que tradicionalmente trabalhamos no estado desperto (como em terapias, por exemplo). Só posso dizer que quando consegui, uma única vez, acordar no sonho, tive uma das sensações mais espetaculares de que me lembro.  Uma sensação de poder e prazer, de desvendamento dos olhos, como se estivesse afinal tomando posse de todas as minhas possibilidades. E fiquei tão eufórico, no sonho, que o estado durou muito pouco. Acordei e não consegui mais repetir a experiência.  Percebi que a tinha tido como resultado de estar em paz com o mundo, naquele momento. E o mero fato de relatá-la a pessoas conhecidas me tirou o equilíbrio que seria necessário para conseguir de novo. Além do mais, a experiência me trouxe certo temor, e uma dificuldade de ser compartilhada com outros. Mas foi suficiente para que eu percebesse que esse caminho existe, que seu acesso depende de estarmos em paz com o mundo, e que ele desafia o mundo como o concebemos, que vê os sonhos como meros devaneios e o concreto como a única realidade. E principalmente, que esse caminho só pode se tornar real se for trilhado coletivamente, pois “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha juntos é realidade” (Raul Seixas).

Este modo de operar que nos abriria a porta do oculto seria uma espécie de “práxis da fenomenologia”. Ao nosso ver ela deverá ser em parte inventada, como em parte foi inventada a arte de cruzar o mar. No livro eu dou algumas idéias dela, como o já citado sonhar, ou a esquizofrenia tomada como uma possibilidade de ouvir uma mensagem que vem do abstrato, ou mesmo toda e qualquer postura que desafie o mundo constituído, como os embustes e simulações em geral, que chamamos “loucura controlada”, um nome que trouxemos da obra de Castaneda. Por mais que possa parecer estranho, o simples fato de esvaziar de importância o mundo e nossa própria personalidade, que são ambos construções culturais, já nos remete a outra possibilidade. Se é uma lei da natureza que a realidade deve primeiro ser anunciada como um ensaio, sempre que fazemos isso desencadeamos aquilo que a simulação “chamou”. No entanto, poucos tem a coragem de enfrentar assim o mundo, e correr o risco de ser desconsiderado ou ridicularizado pelos seus semelhantes. A maioria de nós está presa demais ao seu grupo e ao mundo que tal grupo corrobora, para que possamos trilhar esse caminho. Então, nos refugiamos, no mais das vezes, para dentro do esperado pelos outros.

De modo que mais uma vez voltamos a perceber que tal caminho é um caminho coletivo. Se imaginarmos que este “descobrimento do abstrato” tem um paralelo com o descobrimento da América, poderíamos dizer que essas tentativas individuais, que já foram feitas (pela ousadia e espírito de aventura de alguns), se assemelham a tentar cruzar o Atlântico em um bote, e servem mais para nos mostrar que existe essa possibilidade, mas não pode tal postura ser esperada do coletivo, que anda com passos seguros. Como depende desse coletivo a emergência do mágico como possibilidade real, o que tenciono é antes convencer as pessoas de que existe esse caminho, e ele está no nosso destino. E também, que existe como construir uma nave para fazer essa travessia de modo mais ou menos seguro.

No livro eu desenvolvo minha tese de que o mundo foi “arranjado” de tal modo pela natureza que é impossível que este poder oculto seja concedido antes que aja a tal “concórdia universal”. E esta deve ser uma conclusão lógica, se pensarmos um pouco. Em primeiro lugar, buscamos a felicidade. Desejaríamos viver uma vida eterna e plena de felicidade. Se é isso que desejamos, é óbvio que é isso que deseja a natureza. Ela pôs em nós uma conotação positiva para o que ela quer, para que o busquemos. Pois bem, sabemos sem necessidade de muitos argumentos que a felicidade é tanto maior quanto mais ela puder envolver os outros. Ou seja, como disse o compositor brasileiro “é impossível ser feliz sozinho”. Levada esta constatação ao seu limite, a felicidade plena só é possível se agregar a todos e a tudo, no tempo e no espaço. Será isso impossível? Certamente, isso é impossível à luz da razão, mas não à luz de uma outra possibilidade, que lhe ultrapasse.

Outro aspecto tratado no livro que talvez não tenha ficado claro no resumo, e aproveito o seu comentário para elucidar, é o papel que tem a nação luso-brasileira neste possível novo descobrimento, o descobrimento do abstrato. A partir de uma visão planetária global, do poema Mensagem de Fernando Pessoa, e da constatação da filosofia de que a língua é um modo de constituir o  mundo, desenvolvo a “hipótese fantástica” de que a Europa é um ser que, como uma árvore, se enraíza no oriente e cresce em direção ao ocidente, e nesse desenvolver ele vai mudando a língua e o mundo. Quando chega em Portugal, conhece o seu fim. Neste caso, a cultura portuguesa é aquela que nasce no fim da Europa, para ir além desse fim, para uma outra possibilidade.

Mas porque, poderíamos perguntar então, que Portugal não fez definitivamente essa travessia? Por que, segundo o citado poema de Pessoa, “falta cumprir-se Portugal”? Para responder esta pergunta nós nos aprofundamos, no capítulo 2 do livro, no movimento evolutivo. E neste aprofundamento conseguimos demonstrar que ele ocorre dessa forma: a realidade sempre se anuncia como uma espécie de simulação. Assim, a macromolécula imita a célula viva, o primata simula o raciocínio, que ocorrerá de fato no ser humano. Assim também aqui, a descoberta da América foi mera simulação de um descobrimento que ainda não aconteceu, em toda a sua possibilidade. Fernando Pessoa, pela sua excepcional sensibilidade artística, captou no próprio povo português este anseio por completar a obra iniciada. Este é o sentido oculto de seu poema Mensagem.

Veja Celeste que este assunto é muito instigante, como você percebeu, pois se olhamos todas as coisas misturadas começamos a perceber sentidos ocultos, que não se mostram quando olhadas separadamente. Poderia citar inúmeros exemplos, mas me atenho a apenas um, que diz respeito a Castaneda e sua obra, por si só um assunto que mereceria dezenas de páginas. Pois aqui vemos que a sociedade ocidental está a fazer aquilo que o bruxo Juan Matus diz que os feiticeiros fazem, em determinado momento de sua evolução no aprendizado: eles tiram sua atenção do concreto e a põe no abstrato. Então, esta “fase concreta” que vivemos atualmente é antes uma necessidade, como antecedente de uma outra futura fase, em que nossa atenção coletiva provavelmente se deslocará para o abstrato. Por isso também é necessário a simulação, para “dar um tempo” até que a criatura acumule o necessário para implementar o salto evolutivo.

Evidentemente, este descobrimento do abstrato (ou encoberto), que é o tal retorno da magia, é um anseio não apenas do luso, mas sim do luso que reside no peito de toda a criatura, que quer ela mesma “transcender”, seja o que for que signifique essa palavra aqui. Exatamente como será isso, não podemos precisar de todo, mas vejo que a língua portuguesa nos permite uma construção de mundo que mistura natural com sobrenatural, no que ela se aproxima das línguas antigas, como o latim e o grego antigo. E nos faz também, a nós que a temos como língua mãe, destemidos navegantes de mares inexplorados (e eis aqui um possível segundo motivo para sua falta de temor). 

Se isso é verdade, então uma filosofia genuinamente luso-brasileira é a que deverá estar situada no “fim da filosofia” de origem grega e européia, sendo que a palavra fim aqui deve ser tomada no duplo sentido: cessação e finalidade. Do mesmo modo que a Escola de Sagres tomou o conhecimento de seu tempo e, assumindo o espírito luso, simplificou tal conhecimento no intuito de fazer uma travessia, e neste modo pragmático jogou no lixo parte da especulação sobre o modelo de mundo medieval e seu fim, aqui também deveríamos tomar o já pensado mas, a partir dele, pensar nossos próprios pensamentos, ao invés de fazê-lo unicamente por matrizes estrangeiras. Quando tivermos essa ousadia, que será fruto de nosso próprio amadurecimento, poderemos então demolir os edifícios de especulação da filosofia feita até aqui, e usar dela apenas aquilo que nos permita uma nova travessia, um novo descobrimento. Quando fizermos isso, caro Celeste, certamente a nação luso-brasileira conhecerá um novo apogeu, e novamente liderará o mundo numa descoberta, quem sabe a derradeira. 

Espero que tenha me feito entender, pois este assunto é por demais vasto, e é impossível resumi-lo sem cair em metáforas. Por fim deixo a ti e aos possíveis leitores um poema de Pessoa, “este poeta cuja mensagem cabe ainda à nação portuguesa enfrentar” (como nos disse Heidegger em relação a Hölderlin e à nação alemã). Um poema que compõe a obra Mensagem, e sintetiza o assunto que estamos a tratar, com o brilho e a concisão que somente um poeta genial pode nos proporcionar:

PRECE 

Senhor, a noite veio e a alma vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem -- ou desgraça ou ânsia -- 
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância --
Do mar ou outra, mas que seja nossa!</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Celeste,</p>
<p>Em primeiro lugar, agradeço os elogios ao resumo de meu livro.</p>
<p>Quero dizer que concebi o livro, que ainda não foi lançado, ao longo de aproximadamente 25 anos, os quais passei me defrontando com este espanto diante dos mistérios, que na verdade é o combustível da filosofia, pois ela é o velho amor ao conhecimento, e nasce justamente da perplexidade diante da constatação de que nada sabemos.</p>
<p>Me considero um filósofo com idéias originais, mas isso somente o tempo poderá mostrar se sim ou se não. Sendo eu brasileiro, e um ilustre desconhecido, será isso pretensão desmesurada? Neste caso, pergunto, será possível fazer filosofia sem essa pretensão? Penso que não. Mais que isso, penso que é pretensão desmesurada, isso sim, querer fazer filosofia somente com os pensares alheios. A filosofia só pode se constituir como algo pertinente se ela levar em conta o que já se fez, mas ao mesmo tempo nascer da autenticidade e da ousadia de pensarmos nossos próprios pensamentos, é o que penso. Infelizmente, vivemos um tempo em que a mera busca da autenticidade causa estranheza, e onde é aconselhável sempre nos fazermos de modestos, e ocultar dos outros o que pensamos de nós mesmos. No entanto, se quisermos viver um novo tempo, de descobertas, é presumível supor que tenhamos de sair dessa hipocrisia e dessa mediocridade do “razoável”, para poder acessar com naturalidade e equilíbrio certa coisa que reside em nós, que “quer grandeza” (em Mensagem, Fernando Pessoa). </p>
<p>No momento estou procurando editora, mas já sei que este “pedaço” do caminho talvez seja o mais difícil, pois para ao autor, como para um pai, seu “filho” é sempre o mais virtuoso e é difícil aceitar que nem todos o compreendam. Digo isso para dizer que, toda a vez que alguém, como você fez, elogia mesmo que seja o resumo, é para mim um grande e precioso alento. Pois nós &#8211; filósofos ou não &#8211; às vezes nos pomos a ponderar se o que pensamos é pertinente, ou se apenas fruto de nossa imaginação. Neste caso, somente os outros podem nos resgatar dessa dúvida.</p>
<p>Respondendo à sua questão, digo inicialmente que este acesso àquilo que está oculto não poderá nunca ser feito, em nossa concepção, pela mera reflexão. Como já disse Kant, que você cita, a razão especulativa tem limites, de modo que ela somente nos dá acesso aos fenômenos, e nunca ao “noumenos”, ou seja, ao que Kant denomina “em si”. Em nossa concepção, tal “em si” é justamente a essência de toda a realidade, que está velada para nossos olhos. Entrar nessa essência é precisamente descobrir o oculto, ou o “encoberto”, para usar um termo de Fernando Pessoa, que o colheu ele mesmo da cultura portuguesa. Só poderemos fazer isso quando aliarmos a reflexão a uma práxis, que terá ela mesma que ser descoberta, ou redescoberta. </p>
<p>Denominar esta práxis é complicado, pois qualquer termo que usarmos para designá-la fatalmente a reduzirá em sua verdadeira magnitude. Mesmo assim, para que não fiquemos numa conversa demasiadamente metafórica, cito um dos nomes desta práxis: ela é aquilo que conhecemos como feitiçaria. A mesma feitiçaria que foi duramente reprimida pela sociedade ocidental, justamente por que ela, sociedade ocidental, tinha de trilhar este caminho do ser, deixando de lado o não-ser, por motivos que explicamos no livro. Assim, reprimindo o não-ser, a sociedade ocidental recalcou mais para o fundo certa dimensão mágica, que já esteve presente em nosso passado, quer individual, quer coletivo. Em nossa tese, no passado coletivo da humanidade nós já vivemos uma dimensão mágica, assim como em nosso passado individual, em nossa primeira infância. Em ambos os casos, saímos da dimensão mágica pelo advento da racionalidade, que nos trouxe a palavra e uma construção racional de mundo, e nos afastou do mágico, interpondo em seu caminho um obstáculo, de tal forma que nem conseguimos mais nos lembrar daquele estado primordial. </p>
<p>Por essas e por outras, o ser humano atual padece de um “esquecimento do não-ser”. Uso esta construção frasal, parafraseando o “esquecimento do ser” de Heidegger, pois em meu livro eu uso Heidegger justamente como símbolo de onde chegou o caminho dos gregos: num ponto de cegueira, onde somente podemos tatear. E é neste tatear de cegos que se constitui a fenomenologia, pelo seu bem e pelo seu mal. Ela tateia pelo mundo em busca “das coisas mesmas” &#8211; como preconizou seu idealizador, o grande Edmund Husserl &#8211; mas como está cega só consegue perceber a realidade de modo indireto e invertido. Como não mais consegue conceber o não-ser, ela somente o percebe projetado no ser. Desta forma, é claro que ela não consegue inaugurar uma práxis que contemple o não-ser, ou seja, aquilo que está oculto à consideração da razão especulativa. Se conseguisse isso, tal práxis seria efetivamente um desafio ao mundo, que o poderia efetivamente desconstruir, algo que a fenomenologia só consegue vislumbrar de modo meramente especulativo.</p>
<p>Pois bem, e como faremos afinal para romper esta interdição e adentrar novamente no mágico? </p>
<p>Em primeiro lugar, diante da afirmação da possibilidade de “adentrar no mágico”, podemos assumir diversas posturas. A primeira é a que tradicionalmente adota a filosofia e as ciências: uma postura de desconsideração, de ironia e mesmo de silêncio, que é a pior resposta possível, pois com o silêncio não podemos dialogar. Mas esta postura vem justamente daquela interdição do mágico que falamos. Como ele ultrapassa a razão e a construção racional, rompendo o próprio mundo como o constituímos, a razão reage com suas armas, e desmerece, com a desconsideração, o silêncio ou &#8211; se manifestarmos mais vivamente nosso propósito e exigirmos uma resposta &#8211; com uma interdição: “mal-dito”. Não obstante, se o ser humano anseia por descobrir, é presumível supor que um dia teremos de sair desta posição de desconsideração do mágico, ou seja, daquilo que ultrapassa a razão.</p>
<p>A segunda postura possível é a que vê o mágico como um caminho natural e isento de dificuldades. Como se, voltando para um caminho antigo e abandonado, encontrássemos uma via que resolveria todos os problemas num “passe de mágica”. Essa postura infantil não resiste a uma consideração mais consistente, pois o caminho novo nunca é o antigo, apesar de com ele se assemelhar em alguma medida, e nunca está isento de desafios e dificuldades. Ademais, este adentrar no mágico é na verdade um desafio ao mundo como o constituímos. Quando fazemos esse desafio de modo meramente especulativo, não rompemos de fato com o mundo, de modo que o que consideramos “mundo real” continua a ser este mesmo mundo que consideramos real. E esse talvez seja um dos motivos por que você, Celeste, não sente medo de procurar o oculto. É porque você o está procurando apenas pela via reflexiva, onde o mundo que consideramos real se mantém ileso. Porém, se fizermos este desafio como uma “práxis”, poderemos de fato romper com o mundo, e descobrir que ele, mundo, não é como supomos. Neste caso, nos tornaremos acessíveis ao nosso primeiro inimigo, um inimigo que está no caminho daquele que busca com radicalidade o conhecimento: o medo. Ele não é o único inimigo no caminho do homem, mas certamente ele é o primeiro.</p>
<p>De modo que essa possibilidade de que falamos, de descobrir um mundo que está encoberto, reveste-se na verdade de extremos perigos, principalmente quando implementada no nível individual, ou num grupo restrito de pessoas. Esse foi o motivo, eu penso, de algumas utopias &#8211; como o dito “socialismo real”, mas não apenas ele &#8211; terem resultado ao final em frustração: elas contemplavam apenas alguns “escolhidos”. Seu desejo era ir de fato para um território que está “além do bem e do mal”, ou seja, além do ser humano como o conhecemos nos dias atuais. No entanto, não puderam fazer isso, pois não contemplaram de fato a totalidade das coisas. Na prática, elas tiveram que eleger um certo e um errado, um céu e um inferno particulares, de modo que não foram de verdade para além do bem e do mal. </p>
<p>Esse caminho que preconizamos, por motivos que explicamos de modo mais ou menos exaustivo no livro, somente pode ser de fato trilhado quando houver uma “concórdia universal”. Isso pode parecer uma “fórmula mágica”, ou uma espécie de cristianismo disfarçado, mas não é. Ao contrário, acreditamos ter demonstrado no livro que esta necessidade de concórdia é uma necessidade “energética”. Ou seja, somente quando ficar em paz com o mundo, tirando dele a atenção, o ser humano poderá afinal colocar sua atenção em outra esfera. O que acontece aqui é que a noção ingênua de magia, assim como o próprio cristianismo e outras correntes que preconizam certa concórdia, é que elas se apercebem intuitivamente de uma lei que na verdade pode ser aferida, se de fato o ser humano admitir que exista um caminho dessa natureza. A descoberta dessa lei demonstrará, ao meu juízo, que a possibilidade mágica somente se abrirá novamente para o ser humano quando houver essa concórdia, que é em certo sentido uma volta ao princípio, quando tudo estava unido.</p>
<p>De qualquer modo, a humanidade somente tomará um caminho de “esvaziamento” do mundo se ela compreender tal caminho, e se avaliar que vale a pena tal “esvaziamento”, pelo fato de ele, o caminho, a conduzir a algo que deseja mais do que ao mundo. Penso ter mostrado no livro que especificamente no caminho que a magia descortina se encontra a possibilidade de realizarmos nossos anseios mais caros, que não são meramente os anseios de um indivíduo, um grupo, uma etnia, uma nação, uma época, ou mesmo o de uma espécie (a espécie humana).  Antes disso, eles são os anseios de todo o ser que vive: ele quer continuar vivendo, e uma vida feliz e abundante. Esse desejo que nos foi inculcado pela natureza mesma, seja o que for que o termo natureza aqui possa significar, somente é impossível à luz da racionalidade presente. Porém, já vimos, ela é limitada, de modo que numa outra abordagem do real é possível que descubramos que o que parece impossível sob sua luz talvez seja possível sob uma outra iluminação do mundo.</p>
<p>A sua pergunta é mais restrita ao que pode o indivíduo fazer para descobrir este caminho oculto, ou mesmo o que poderia fazer um grupo, por exemplo. Como já disse, acho temerária qualquer tentativa nesse sentido. Prova disso é o destino mais ou menos trágico dos que tentaram ir nele como “pássaros solitários”.  Da mesma forma, os grupos – como o de Castaneda, que é assumidamente um dos pilares de meu livro – acabaram todos beirando a loucura e o esfacelamento.   </p>
<p>Falar sobre esses modos de acessar o oculto é sempre muito complicado, pois a razão tem a tendência de depreciá-los, e vistos assim isoladamente podem não se mostrar como alternativas válidas. No livro trato desse assunto de modo mais extenso, mas no resumo também me refiro a eles de várias maneiras.  Uma referência fiz quando disse que “o “sonhar” pode se abrir como um território de penetração no próprio abstrato”. No livro esse “sonhar”, que vem da obra de Castaneda, é descrito com mais detalhes, mas consiste em ver o sonho noturno como uma porta de acesso a uma outra realidade. Neste caso, é como se esbarrássemos todas as noites nessa possibilidade, mas não nos déssemos conta, por estarmos até agora “dormindo” para ela. </p>
<p>Eu mesmo tentei algo neste sentido quando li o interessante livro “Sonhos Criativos”, de Patrícia Garfield, onde ela expõe técnicas de como acordar dentro do sonho, e com isso trabalhar naquele nível problemas que tradicionalmente trabalhamos no estado desperto (como em terapias, por exemplo). Só posso dizer que quando consegui, uma única vez, acordar no sonho, tive uma das sensações mais espetaculares de que me lembro.  Uma sensação de poder e prazer, de desvendamento dos olhos, como se estivesse afinal tomando posse de todas as minhas possibilidades. E fiquei tão eufórico, no sonho, que o estado durou muito pouco. Acordei e não consegui mais repetir a experiência.  Percebi que a tinha tido como resultado de estar em paz com o mundo, naquele momento. E o mero fato de relatá-la a pessoas conhecidas me tirou o equilíbrio que seria necessário para conseguir de novo. Além do mais, a experiência me trouxe certo temor, e uma dificuldade de ser compartilhada com outros. Mas foi suficiente para que eu percebesse que esse caminho existe, que seu acesso depende de estarmos em paz com o mundo, e que ele desafia o mundo como o concebemos, que vê os sonhos como meros devaneios e o concreto como a única realidade. E principalmente, que esse caminho só pode se tornar real se for trilhado coletivamente, pois “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha juntos é realidade” (Raul Seixas).</p>
<p>Este modo de operar que nos abriria a porta do oculto seria uma espécie de “práxis da fenomenologia”. Ao nosso ver ela deverá ser em parte inventada, como em parte foi inventada a arte de cruzar o mar. No livro eu dou algumas idéias dela, como o já citado sonhar, ou a esquizofrenia tomada como uma possibilidade de ouvir uma mensagem que vem do abstrato, ou mesmo toda e qualquer postura que desafie o mundo constituído, como os embustes e simulações em geral, que chamamos “loucura controlada”, um nome que trouxemos da obra de Castaneda. Por mais que possa parecer estranho, o simples fato de esvaziar de importância o mundo e nossa própria personalidade, que são ambos construções culturais, já nos remete a outra possibilidade. Se é uma lei da natureza que a realidade deve primeiro ser anunciada como um ensaio, sempre que fazemos isso desencadeamos aquilo que a simulação “chamou”. No entanto, poucos tem a coragem de enfrentar assim o mundo, e correr o risco de ser desconsiderado ou ridicularizado pelos seus semelhantes. A maioria de nós está presa demais ao seu grupo e ao mundo que tal grupo corrobora, para que possamos trilhar esse caminho. Então, nos refugiamos, no mais das vezes, para dentro do esperado pelos outros.</p>
<p>De modo que mais uma vez voltamos a perceber que tal caminho é um caminho coletivo. Se imaginarmos que este “descobrimento do abstrato” tem um paralelo com o descobrimento da América, poderíamos dizer que essas tentativas individuais, que já foram feitas (pela ousadia e espírito de aventura de alguns), se assemelham a tentar cruzar o Atlântico em um bote, e servem mais para nos mostrar que existe essa possibilidade, mas não pode tal postura ser esperada do coletivo, que anda com passos seguros. Como depende desse coletivo a emergência do mágico como possibilidade real, o que tenciono é antes convencer as pessoas de que existe esse caminho, e ele está no nosso destino. E também, que existe como construir uma nave para fazer essa travessia de modo mais ou menos seguro.</p>
<p>No livro eu desenvolvo minha tese de que o mundo foi “arranjado” de tal modo pela natureza que é impossível que este poder oculto seja concedido antes que aja a tal “concórdia universal”. E esta deve ser uma conclusão lógica, se pensarmos um pouco. Em primeiro lugar, buscamos a felicidade. Desejaríamos viver uma vida eterna e plena de felicidade. Se é isso que desejamos, é óbvio que é isso que deseja a natureza. Ela pôs em nós uma conotação positiva para o que ela quer, para que o busquemos. Pois bem, sabemos sem necessidade de muitos argumentos que a felicidade é tanto maior quanto mais ela puder envolver os outros. Ou seja, como disse o compositor brasileiro “é impossível ser feliz sozinho”. Levada esta constatação ao seu limite, a felicidade plena só é possível se agregar a todos e a tudo, no tempo e no espaço. Será isso impossível? Certamente, isso é impossível à luz da razão, mas não à luz de uma outra possibilidade, que lhe ultrapasse.</p>
<p>Outro aspecto tratado no livro que talvez não tenha ficado claro no resumo, e aproveito o seu comentário para elucidar, é o papel que tem a nação luso-brasileira neste possível novo descobrimento, o descobrimento do abstrato. A partir de uma visão planetária global, do poema Mensagem de Fernando Pessoa, e da constatação da filosofia de que a língua é um modo de constituir o  mundo, desenvolvo a “hipótese fantástica” de que a Europa é um ser que, como uma árvore, se enraíza no oriente e cresce em direção ao ocidente, e nesse desenvolver ele vai mudando a língua e o mundo. Quando chega em Portugal, conhece o seu fim. Neste caso, a cultura portuguesa é aquela que nasce no fim da Europa, para ir além desse fim, para uma outra possibilidade.</p>
<p>Mas porque, poderíamos perguntar então, que Portugal não fez definitivamente essa travessia? Por que, segundo o citado poema de Pessoa, “falta cumprir-se Portugal”? Para responder esta pergunta nós nos aprofundamos, no capítulo 2 do livro, no movimento evolutivo. E neste aprofundamento conseguimos demonstrar que ele ocorre dessa forma: a realidade sempre se anuncia como uma espécie de simulação. Assim, a macromolécula imita a célula viva, o primata simula o raciocínio, que ocorrerá de fato no ser humano. Assim também aqui, a descoberta da América foi mera simulação de um descobrimento que ainda não aconteceu, em toda a sua possibilidade. Fernando Pessoa, pela sua excepcional sensibilidade artística, captou no próprio povo português este anseio por completar a obra iniciada. Este é o sentido oculto de seu poema Mensagem.</p>
<p>Veja Celeste que este assunto é muito instigante, como você percebeu, pois se olhamos todas as coisas misturadas começamos a perceber sentidos ocultos, que não se mostram quando olhadas separadamente. Poderia citar inúmeros exemplos, mas me atenho a apenas um, que diz respeito a Castaneda e sua obra, por si só um assunto que mereceria dezenas de páginas. Pois aqui vemos que a sociedade ocidental está a fazer aquilo que o bruxo Juan Matus diz que os feiticeiros fazem, em determinado momento de sua evolução no aprendizado: eles tiram sua atenção do concreto e a põe no abstrato. Então, esta “fase concreta” que vivemos atualmente é antes uma necessidade, como antecedente de uma outra futura fase, em que nossa atenção coletiva provavelmente se deslocará para o abstrato. Por isso também é necessário a simulação, para “dar um tempo” até que a criatura acumule o necessário para implementar o salto evolutivo.</p>
<p>Evidentemente, este descobrimento do abstrato (ou encoberto), que é o tal retorno da magia, é um anseio não apenas do luso, mas sim do luso que reside no peito de toda a criatura, que quer ela mesma “transcender”, seja o que for que signifique essa palavra aqui. Exatamente como será isso, não podemos precisar de todo, mas vejo que a língua portuguesa nos permite uma construção de mundo que mistura natural com sobrenatural, no que ela se aproxima das línguas antigas, como o latim e o grego antigo. E nos faz também, a nós que a temos como língua mãe, destemidos navegantes de mares inexplorados (e eis aqui um possível segundo motivo para sua falta de temor). </p>
<p>Se isso é verdade, então uma filosofia genuinamente luso-brasileira é a que deverá estar situada no “fim da filosofia” de origem grega e européia, sendo que a palavra fim aqui deve ser tomada no duplo sentido: cessação e finalidade. Do mesmo modo que a Escola de Sagres tomou o conhecimento de seu tempo e, assumindo o espírito luso, simplificou tal conhecimento no intuito de fazer uma travessia, e neste modo pragmático jogou no lixo parte da especulação sobre o modelo de mundo medieval e seu fim, aqui também deveríamos tomar o já pensado mas, a partir dele, pensar nossos próprios pensamentos, ao invés de fazê-lo unicamente por matrizes estrangeiras. Quando tivermos essa ousadia, que será fruto de nosso próprio amadurecimento, poderemos então demolir os edifícios de especulação da filosofia feita até aqui, e usar dela apenas aquilo que nos permita uma nova travessia, um novo descobrimento. Quando fizermos isso, caro Celeste, certamente a nação luso-brasileira conhecerá um novo apogeu, e novamente liderará o mundo numa descoberta, quem sabe a derradeira. </p>
<p>Espero que tenha me feito entender, pois este assunto é por demais vasto, e é impossível resumi-lo sem cair em metáforas. Por fim deixo a ti e aos possíveis leitores um poema de Pessoa, “este poeta cuja mensagem cabe ainda à nação portuguesa enfrentar” (como nos disse Heidegger em relação a Hölderlin e à nação alemã). Um poema que compõe a obra Mensagem, e sintetiza o assunto que estamos a tratar, com o brilho e a concisão que somente um poeta genial pode nos proporcionar:</p>
<p>PRECE </p>
<p>Senhor, a noite veio e a alma vil.<br />
Tanta foi a tormenta e a vontade!<br />
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,<br />
O mar universal e a saudade.</p>
<p>Mas a chama, que a vida em nós criou,<br />
Se ainda há vida ainda não é finda.<br />
O frio morto em cinzas a ocultou:<br />
A mão do vento pode erguê-la ainda.</p>
<p>Dá o sopro, a aragem &#8212; ou desgraça ou ânsia &#8212;<br />
Com que a chama do esforço se remoça,<br />
E outra vez conquistaremos a Distância &#8211;<br />
Do mar ou outra, mas que seja nossa!</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: celeste raposo</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-8027</link>
		<dc:creator>celeste raposo</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Nov 2009 01:38:56 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos#comment-8027</guid>
		<description>Há muito tempo que recebo as noticias da Consciência e até hoje nunca tinha lido nada de tão bem escrito e tão interessante. E os comentários são-no igualmente de tal modo que tudo junto daria para muitos dias de reflexão e não apenas - maldita pressa esta que tomou conta de nós - para  uma ou duas horas. 
Pode ser que seja esta minha tendência para o oculto para aquilo que sei que existe mas não percebo como e, como diz o meu filho super racionalista, nem a sociologia nem a filosofia parecem conseguir arrancar de mim. Acabo de ler Kant e a forma como terminar com a superstição e estava bastante contente, pois na verdade eu quero é certezas e não devaneios, abro o email e lá volto eu a mergulhar neste pressentimento de que continuamos todos a ver sombras, sem nos darmos conta. 
Pena que o seu texto não dê uma pista de como é que vamos à procura,  porque eu não tenho medo e tenho tentado sériamente, mas quanto mais estudo mais dúvidas tenho e mais sei que não sei.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Há muito tempo que recebo as noticias da Consciência e até hoje nunca tinha lido nada de tão bem escrito e tão interessante. E os comentários são-no igualmente de tal modo que tudo junto daria para muitos dias de reflexão e não apenas &#8211; maldita pressa esta que tomou conta de nós &#8211; para  uma ou duas horas.<br />
Pode ser que seja esta minha tendência para o oculto para aquilo que sei que existe mas não percebo como e, como diz o meu filho super racionalista, nem a sociologia nem a filosofia parecem conseguir arrancar de mim. Acabo de ler Kant e a forma como terminar com a superstição e estava bastante contente, pois na verdade eu quero é certezas e não devaneios, abro o email e lá volto eu a mergulhar neste pressentimento de que continuamos todos a ver sombras, sem nos darmos conta.<br />
Pena que o seu texto não dê uma pista de como é que vamos à procura,  porque eu não tenho medo e tenho tentado sériamente, mas quanto mais estudo mais dúvidas tenho e mais sei que não sei.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: João Batista Mezzomo</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-7247</link>
		<dc:creator>João Batista Mezzomo</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2009 01:51:03 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos#comment-7247</guid>
		<description>Caro Miguel,

Este assunto é por demais vasto para que possamos tratá-lo em poucas palavras. Como teria nos dito Hegel, quando nos aproximamos da “verdade” nos faltam as palavras. O que demonstra mais uma vez que o discurso racional é limitado. Não obstante, somente temos a ele, por hora, de modo que devemos prosseguir.

Concordo com quase tudo que disseste, de modo que vou me ater ao que tenho a acrescentar ao exposto por ti.

1 – Em primeiro lugar, já há algum tempo firmei convicção de que Castaneda inventou Don Juan e todos os personagens de seus livros. Me baseio em muitas pesquisas que fiz na internet, mas cito inicialmente o livro “Aprendiz de Feiticeiro” de Amy Wallace (filha de Irving Wallace) que foi uma das inúmeras namoradas de Castaneda.  Aconselho o livro a todos, pois é um dos melhores que li em minha vida.  Lá Castaneda aparece como a pessoa que foi. À luz da “moral e dos bons costumes” ele foi um mentiroso, crápula, embusteiro, completamente sem compaixão por ninguém. Seu princípio era o de que a vida é uma mentira coletiva, e qualquer coisa que inventássemos, se fosse sustentada, poderia se tornar real. De fato ele parece ter nascido no Peru, em Cajamarca, e foi aos EEUU onde se naturalizou e cursou antropologia na UCLA. Ao que tudo indica, inventou Don Juan a partir de ensaios de Aldous Huxley e do conhecimento que tinha de alguns xamãs que conheceu em reduções indígenas nos EEUU, principalmente Salvador Lopez (veja o site http://jol28.vilabol.uol.com.br/cronolog.htm), o qual veio a morrer no ano que Castaneda disse que Don Juan havia “saído” deste mundo.

Veja também o site http://www.sustainedaction.org/ e tire tuas próprias conclusões.

Castaneda aparentemente inventava seus personagens a partir de pessoas que conhecia, algumas das quais agregava ao seu grupo. 

Só para citar um exemplo, mas existem inúmeros, o “batedor azul” que ele relata na Arte do Sonhar como uma menina que teria resgatado dos seres inorgânicos era na verdade Patrícia Partin, uma menina que abandonou a família para se juntar ao grupo de Castaneda, do qual veio a e tornar amante (veja http://sustainedaction.org/Spanish_pages/cronologia_del_explorador_azul_parteI.htm

Depois da morte de Castaneda seus restos mortais (da Patrícia) vieram e ser encontrados em um parque (Vale da Morte?) nos EEUU, segundo um site de noticias que agora não encontrei.

O que ocorre é que a sua mentira foi acolhida por uma sociedade ansiosa por adentrar no mágico. E muitos, como nós, nos tornamos espécies de discípulos seus. Então, tudo o que ele falava virava verdade, não exercitávamos a dúvida. O próprio caso da Time é um exemplo. Presumivelmente, a revista somente relatou o que descobriu, pois seria mais vantajoso dizer que se tratava de algo inexplicável, ou então levantar sua verdadeira origem. Castaneda não podia jogar aberto pois era mentira. Então disse apenas que a revista precisava de uma história, e nós acreditamos.

Mas isso é de menor importância pois o que defendo no livro não se altera muito pelo fato de ser ou não uma invenção. O que percebi é que existe uma analogia imensa entre os relatos e a história ocidental. Isso eu não explicitei no resumo pois entendi que era demasiado longo, e não dá pra resumir muito sob pena de parecer “viagem”. Mesmo assim me arrisco a fazer isso aqui. É o seguinte:

A raiz grega, ou especulativa, é a que busca o conhecimento teórico e ela tem de enfrentar o medo, a clareza, o poder e a velhice (vide início da Erva do Diabo). A sociedade Ocidental já enfrentou o medo (na Idade Média) e está enfrentando a clareza (a razão). Uma vez que a vença conquistará o poder ( a magia) e depois, antes que a velhice a leve ao fim, tem uma chance. 

A raiz da práxis praticou a espreita (relacionar-se com o outro sem destruí-lo e nem perder sua própria essência) em Alexander Magno e no Império Romano. Neste sentido, a “Pax Romana” foi o ápice da espreita coletiva. Uma vez atingido este ápice iniciou a arte do intento coletivo, que corroeu o Império Romano por dentro. Tal intento coletivo foi concretizado pela Igreja Católica e sua busca por um mundo que ainda não existe, mas ela é só uma das bases de um modo ocidental-europeu de viver. Encerrada esta fase, a humanidade vai entrar no sonhar, para ter acesso à possibilidade mágica. Mas nós sabemos “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só.........”.

Veja, enquanto a Europa agia no descoberto, a América estava no encoberto, no próprio cerne desta ação. A Europa ficou no ser e a América no não-ser. A separá-las, o mar. Com a conquista, os cernes das ações da Europa ficaram salvos em outra esfera, pois não são ser, mas não-ser, e ainda estão lá. Castaneda apenas conectou estes cernes com sua mentira. E tanto faz que tenha sido um bruxo de carne e osso que lhe passou este conhecimento, ou “o abstrato”. 

Esta “hipótese fantástica”, como a denominamos no livro, descortina o planeta como palco de uma ação que ainda desconhecemos na totalidade. A Ásia, como sede do mundo antigo, é onde esta planta que é o moderno se fixa e enraíza, e está fechada para a ação letal do Ocidente, pois nela ser e não-ser estão unidos. Por isso ela preservou sua essência. Já a América estava inclusive esperando a vinda da Europa, e a acolheu. Nesta perspectiva, quando Montezuma sonhou que era a serpente emplumada que estava voltando, e era Cortez, de fato ele estava certo em alguma medida. Pois quando aquela serpente voou para oriente prometendo voltar, era simbolicamente o ser que estava se despedindo, e agora estava voltando, naquelas naus de seres em conflito.

Mas isso é apenas uma hipótese que está delineada com certa profundidade no livro, e fundamentada em bases da tradição de conhecimento ocidental. 

Porém, voltando a Castaneda, é de fundamental importância que possamos ver como a mentira é o antecedente da realidade. Ver isso é ir “além do bem e do mal”. Na perspectiva que se descortina, tudo é mentira, e somente é verdadeiro o abstrato. Pois tudo o que fazemos funda-se em atos iguais ao de Castaneda, ainda que os dele eram mentira assumida, por isso mesmo atingiram um outro nível de acesso ao abstrato (e por isso nem Garcia Marquez o pode igualar). Perceber isso equivale a inverter completamente o mundo e colocar a importância naquilo que é real. E ao mesmo tempo esvaziar completamente “este mundo”, que não passa de treino, farsa ou simulação para o verdadeiro jogo, que nem começou.

Ao mesmo tempo - e isso é igualmente importantíssimo - devemos ver que apesar de farsa “o treino” é tão importante quanto o jogo real, pois sem o primeiro nem poderia existir o último. Essa visão dá um sentido fundamental a todas as utopias, mas também à vivencia do mundo concreto, pois sem ele vamos para o aniquilamento do “nada”. 

2 – Concordo quando dizes que Castaneda poderia viver uma vida de milionário, só com o resultado seu primeiro livro. Ele optou por continuar até o fim sustentando a veracidade do que escreveu. Acontece que ele era o tipo de pessoa que acreditava piamente em sua mentira, e isso era inseparável dele. Por isso o coloco como exemplo de loucura controlada. De fato, ele ficou preso naquilo que foi estudar, tornou-se refém de sua própria mentira. E com isso trouxe uma obra de valor inestimável, mas ainda não conseguimos trazê-la para a luz, justamente por não termos feito esta inversão, para poder tomar o mundo pelo que ele é: uma simples brincadeira.

O próprio Castaneda nos diz isso à sua maneira no Lado Ativo do Infinito, quando nos fala de seu professor. Lá ele diz que devemos colocar nossos ídolos contra a parede. Ele estava de fato pedindo para que fizéssemos isso com ele. E veja bem Miguel, é fácil ver se suas histórias são verdade. Se nasceu em Juqueri, ou se estudou na Argentina, ou se era parente de Osvaldo Aranha, com aparece no verbete “Carlos Castaneda” da Wikipédia. Penso que não é verdade, e encarar esta mentira, para nós que o lemos tanto tempo e acreditamos piamente na sua veracidade, é muito revolucionário e nos permitirá desvendar Castaneda, a nós mesmos, à sociedade Ocidental e ao próprio mundo como o construímos e percebemos. 

3 – Também comungo contigo certa prevenção em relação á filosofia analítica e certa corrente filosófica que somente crê naquilo que percebe empiricamente, e assim reduz imensamente o mundo e todas as nossas possibilidades. O que falaste sobre isso resume de modo brilhante aquilo que penso neste particular. Se tiveres a oportunidade de ler meu livro verás que abordo o tema da linguagem e a coloco como uma das aberturas para o mágico, trazendo mesmo a possibilidade da ocorrência das tais “palavras mágicas” (mas isso aqui é uma simplificação).  

No entanto Miguel, o que se descortina é que tudo deve ser “compreendido” em uma nova totalidade, que foi antecipada por Hegel reflexivamente, mas deve ser levada para a prática. No âmbito das correntes da filosofia também, se até agora os caminhos estão separados, agora eles devem se unir. Sempre é mais fácil tomar um lado e jogar o outro no ponto do “errado”, mas se temos de ir para além do bem e do mal temos de poder agregar tudo. E as tradições “empiristas”, digamos assim, tem a valiosa capacidade de nos manter com os pés no chão, imprescindível quando se quer encarar a tarefa, própria da filosofia, de desafiar o mundo. Misturar tudo pode causar algum desconforto e mesmo pode conduzir a perigos, pois a totalidade beira a loucura. Teremos de enfrentar esta loucura, com os pés bem plantados no chão. E se ela é perigosa para o indivíduo, não o é para a humanidade como um todo. 

Alguém poderia objetar que é pretensão desmesurada querer convencer a humanidade toda a trilhar determinado caminho. Dizer isso atesta que nós na verdade nos tornamos - como disse Castaneda - verdadeiros “gatos castrados” pelo conforto e previsibilidade de nosso mundo. Ademais, se conseguirmos fazer ver que nesta possibilidade se esconde o desvendamento de tudo e a própria possibilidade de liberdade e imortalidade, tenho certeza que temos um motivo relevante para nos pormos todos de acordo. E não nos esqueçamos, segundo Don Juan e Castaneda, para abrir a possibilidade mágica do sonhar, o indivíduo deve primeiro se acertar consigo mesmo. No caso da humanidade, então, ela terá primeiro que “arrumar a casa” para poder entrar neste território mágico.

4 - Quanto ao Habermas, eu o conheço apenas superficialmente. Mas entendo que um dos sentidos da realização dos anseios do iluminismo (que alguns chamam “utopia possível”) seja mais o de simular uma realidade, que somente com a magia poderá ser de fato efetivada. O que revolta no Ocidente é que ele promete, e encanta, um dos motivos pelos quais magnetizou o mundo, mas ele “não entrega o produto”, como se diz. Como mercador que é, ele oferece a mercadoria mesmo sem possuí-la. Mas isto é justamente por que é praticante da “arte do intento”, ou seja, ele lança um objetivo que somente com simulação e ensaio se tornará real. Usando uma frase de Don Juan, a mera utopia possível é um “insulto ao espírito”, pois queremos muito mais. 

5 – quanto ao Brasil e um possível quinto império, penso que a contribuição será uma espécie de “abrasileiramento” do mundo, pois as características do Brasil são fundamentais para que se abra esta possibilidade. E isto já mostra que, ao contrário do padrão atual, o novo terá de agregar tudo, não se constituindo numa hegemonia mas sim numa igualdade, que propiciará que cada coisa venha a dar a sua contribuição. Isso, evidentemente, é uma espécie de antecedente do mágico e não o próprio mágico. Apenas não concordo que os paises hegemônicos mantenham a gente por baixo, ou ao menos não é isso que interessa ver. Como dizia Don Juan, quando Castaneda criticava os padres, “eles nos mantém na ignorância, esses ignorantes” ou algo assim. Ou seja, somos todos vítimas do mesmo estado de desconhecimento do que interessa. E para sair dele temos de nos convencer primeiro, coletivamente, que existe um imenso território a desvendar. 

Bem, espero ter auxiliado e não ter dado “um nó nas idéias” dos possíveis leitores. 

Fico muito feliz com a possibilidade que estas me dando de “colocar para fora” uma filosofia que desenvolvo nos últimos 30 anos (quem me conhece sabe disso). Castaneda entrou no meio de uma idéia que já tinha e me tomou completamente. Somente agora consegui concluir meu livro, que espero poder oferecer aos leitores em breve. Evidentemente, tudo isso eu desenvolvi muito mais profundamente no livro, além de outros aspectos que não conseguiria aqui explanar em poucos palavras. 

Também peço desculpas se não consegui responder a todos os teus questionamentos, mas já disse, e repito, que concordo em linhas gerais com tudo o que escreveste, e sou um admirador de teu site e da forma como praticas esta “curiosidade” que é a filosofia, em sua essência.

Abraços.

João</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Miguel,</p>
<p>Este assunto é por demais vasto para que possamos tratá-lo em poucas palavras. Como teria nos dito Hegel, quando nos aproximamos da “verdade” nos faltam as palavras. O que demonstra mais uma vez que o discurso racional é limitado. Não obstante, somente temos a ele, por hora, de modo que devemos prosseguir.</p>
<p>Concordo com quase tudo que disseste, de modo que vou me ater ao que tenho a acrescentar ao exposto por ti.</p>
<p>1 – Em primeiro lugar, já há algum tempo firmei convicção de que Castaneda inventou Don Juan e todos os personagens de seus livros. Me baseio em muitas pesquisas que fiz na internet, mas cito inicialmente o livro “Aprendiz de Feiticeiro” de Amy Wallace (filha de Irving Wallace) que foi uma das inúmeras namoradas de Castaneda.  Aconselho o livro a todos, pois é um dos melhores que li em minha vida.  Lá Castaneda aparece como a pessoa que foi. À luz da “moral e dos bons costumes” ele foi um mentiroso, crápula, embusteiro, completamente sem compaixão por ninguém. Seu princípio era o de que a vida é uma mentira coletiva, e qualquer coisa que inventássemos, se fosse sustentada, poderia se tornar real. De fato ele parece ter nascido no Peru, em Cajamarca, e foi aos EEUU onde se naturalizou e cursou antropologia na UCLA. Ao que tudo indica, inventou Don Juan a partir de ensaios de Aldous Huxley e do conhecimento que tinha de alguns xamãs que conheceu em reduções indígenas nos EEUU, principalmente Salvador Lopez (veja o site <a href="http://jol28.vilabol.uol.com.br/cronolog.htm)" rel="nofollow">http://jol28.vilabol.uol.com.br/cronolog.htm)</a>, o qual veio a morrer no ano que Castaneda disse que Don Juan havia “saído” deste mundo.</p>
<p>Veja também o site <a href="http://www.sustainedaction.org/" rel="nofollow">http://www.sustainedaction.org/</a> e tire tuas próprias conclusões.</p>
<p>Castaneda aparentemente inventava seus personagens a partir de pessoas que conhecia, algumas das quais agregava ao seu grupo. </p>
<p>Só para citar um exemplo, mas existem inúmeros, o “batedor azul” que ele relata na Arte do Sonhar como uma menina que teria resgatado dos seres inorgânicos era na verdade Patrícia Partin, uma menina que abandonou a família para se juntar ao grupo de Castaneda, do qual veio a e tornar amante (veja <a href="http://sustainedaction.org/Spanish_pages/cronologia_del_explorador_azul_parteI.htm" rel="nofollow">http://sustainedaction.org/Spanish_pages/cronologia_del_explorador_azul_parteI.htm</a></p>
<p>Depois da morte de Castaneda seus restos mortais (da Patrícia) vieram e ser encontrados em um parque (Vale da Morte?) nos EEUU, segundo um site de noticias que agora não encontrei.</p>
<p>O que ocorre é que a sua mentira foi acolhida por uma sociedade ansiosa por adentrar no mágico. E muitos, como nós, nos tornamos espécies de discípulos seus. Então, tudo o que ele falava virava verdade, não exercitávamos a dúvida. O próprio caso da Time é um exemplo. Presumivelmente, a revista somente relatou o que descobriu, pois seria mais vantajoso dizer que se tratava de algo inexplicável, ou então levantar sua verdadeira origem. Castaneda não podia jogar aberto pois era mentira. Então disse apenas que a revista precisava de uma história, e nós acreditamos.</p>
<p>Mas isso é de menor importância pois o que defendo no livro não se altera muito pelo fato de ser ou não uma invenção. O que percebi é que existe uma analogia imensa entre os relatos e a história ocidental. Isso eu não explicitei no resumo pois entendi que era demasiado longo, e não dá pra resumir muito sob pena de parecer “viagem”. Mesmo assim me arrisco a fazer isso aqui. É o seguinte:</p>
<p>A raiz grega, ou especulativa, é a que busca o conhecimento teórico e ela tem de enfrentar o medo, a clareza, o poder e a velhice (vide início da Erva do Diabo). A sociedade Ocidental já enfrentou o medo (na Idade Média) e está enfrentando a clareza (a razão). Uma vez que a vença conquistará o poder ( a magia) e depois, antes que a velhice a leve ao fim, tem uma chance. </p>
<p>A raiz da práxis praticou a espreita (relacionar-se com o outro sem destruí-lo e nem perder sua própria essência) em Alexander Magno e no Império Romano. Neste sentido, a “Pax Romana” foi o ápice da espreita coletiva. Uma vez atingido este ápice iniciou a arte do intento coletivo, que corroeu o Império Romano por dentro. Tal intento coletivo foi concretizado pela Igreja Católica e sua busca por um mundo que ainda não existe, mas ela é só uma das bases de um modo ocidental-europeu de viver. Encerrada esta fase, a humanidade vai entrar no sonhar, para ter acesso à possibilidade mágica. Mas nós sabemos “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só&#8230;&#8230;&#8230;”.</p>
<p>Veja, enquanto a Europa agia no descoberto, a América estava no encoberto, no próprio cerne desta ação. A Europa ficou no ser e a América no não-ser. A separá-las, o mar. Com a conquista, os cernes das ações da Europa ficaram salvos em outra esfera, pois não são ser, mas não-ser, e ainda estão lá. Castaneda apenas conectou estes cernes com sua mentira. E tanto faz que tenha sido um bruxo de carne e osso que lhe passou este conhecimento, ou “o abstrato”. </p>
<p>Esta “hipótese fantástica”, como a denominamos no livro, descortina o planeta como palco de uma ação que ainda desconhecemos na totalidade. A Ásia, como sede do mundo antigo, é onde esta planta que é o moderno se fixa e enraíza, e está fechada para a ação letal do Ocidente, pois nela ser e não-ser estão unidos. Por isso ela preservou sua essência. Já a América estava inclusive esperando a vinda da Europa, e a acolheu. Nesta perspectiva, quando Montezuma sonhou que era a serpente emplumada que estava voltando, e era Cortez, de fato ele estava certo em alguma medida. Pois quando aquela serpente voou para oriente prometendo voltar, era simbolicamente o ser que estava se despedindo, e agora estava voltando, naquelas naus de seres em conflito.</p>
<p>Mas isso é apenas uma hipótese que está delineada com certa profundidade no livro, e fundamentada em bases da tradição de conhecimento ocidental. </p>
<p>Porém, voltando a Castaneda, é de fundamental importância que possamos ver como a mentira é o antecedente da realidade. Ver isso é ir “além do bem e do mal”. Na perspectiva que se descortina, tudo é mentira, e somente é verdadeiro o abstrato. Pois tudo o que fazemos funda-se em atos iguais ao de Castaneda, ainda que os dele eram mentira assumida, por isso mesmo atingiram um outro nível de acesso ao abstrato (e por isso nem Garcia Marquez o pode igualar). Perceber isso equivale a inverter completamente o mundo e colocar a importância naquilo que é real. E ao mesmo tempo esvaziar completamente “este mundo”, que não passa de treino, farsa ou simulação para o verdadeiro jogo, que nem começou.</p>
<p>Ao mesmo tempo &#8211; e isso é igualmente importantíssimo &#8211; devemos ver que apesar de farsa “o treino” é tão importante quanto o jogo real, pois sem o primeiro nem poderia existir o último. Essa visão dá um sentido fundamental a todas as utopias, mas também à vivencia do mundo concreto, pois sem ele vamos para o aniquilamento do “nada”. </p>
<p>2 – Concordo quando dizes que Castaneda poderia viver uma vida de milionário, só com o resultado seu primeiro livro. Ele optou por continuar até o fim sustentando a veracidade do que escreveu. Acontece que ele era o tipo de pessoa que acreditava piamente em sua mentira, e isso era inseparável dele. Por isso o coloco como exemplo de loucura controlada. De fato, ele ficou preso naquilo que foi estudar, tornou-se refém de sua própria mentira. E com isso trouxe uma obra de valor inestimável, mas ainda não conseguimos trazê-la para a luz, justamente por não termos feito esta inversão, para poder tomar o mundo pelo que ele é: uma simples brincadeira.</p>
<p>O próprio Castaneda nos diz isso à sua maneira no Lado Ativo do Infinito, quando nos fala de seu professor. Lá ele diz que devemos colocar nossos ídolos contra a parede. Ele estava de fato pedindo para que fizéssemos isso com ele. E veja bem Miguel, é fácil ver se suas histórias são verdade. Se nasceu em Juqueri, ou se estudou na Argentina, ou se era parente de Osvaldo Aranha, com aparece no verbete “Carlos Castaneda” da Wikipédia. Penso que não é verdade, e encarar esta mentira, para nós que o lemos tanto tempo e acreditamos piamente na sua veracidade, é muito revolucionário e nos permitirá desvendar Castaneda, a nós mesmos, à sociedade Ocidental e ao próprio mundo como o construímos e percebemos. </p>
<p>3 – Também comungo contigo certa prevenção em relação á filosofia analítica e certa corrente filosófica que somente crê naquilo que percebe empiricamente, e assim reduz imensamente o mundo e todas as nossas possibilidades. O que falaste sobre isso resume de modo brilhante aquilo que penso neste particular. Se tiveres a oportunidade de ler meu livro verás que abordo o tema da linguagem e a coloco como uma das aberturas para o mágico, trazendo mesmo a possibilidade da ocorrência das tais “palavras mágicas” (mas isso aqui é uma simplificação).  </p>
<p>No entanto Miguel, o que se descortina é que tudo deve ser “compreendido” em uma nova totalidade, que foi antecipada por Hegel reflexivamente, mas deve ser levada para a prática. No âmbito das correntes da filosofia também, se até agora os caminhos estão separados, agora eles devem se unir. Sempre é mais fácil tomar um lado e jogar o outro no ponto do “errado”, mas se temos de ir para além do bem e do mal temos de poder agregar tudo. E as tradições “empiristas”, digamos assim, tem a valiosa capacidade de nos manter com os pés no chão, imprescindível quando se quer encarar a tarefa, própria da filosofia, de desafiar o mundo. Misturar tudo pode causar algum desconforto e mesmo pode conduzir a perigos, pois a totalidade beira a loucura. Teremos de enfrentar esta loucura, com os pés bem plantados no chão. E se ela é perigosa para o indivíduo, não o é para a humanidade como um todo. </p>
<p>Alguém poderia objetar que é pretensão desmesurada querer convencer a humanidade toda a trilhar determinado caminho. Dizer isso atesta que nós na verdade nos tornamos &#8211; como disse Castaneda &#8211; verdadeiros “gatos castrados” pelo conforto e previsibilidade de nosso mundo. Ademais, se conseguirmos fazer ver que nesta possibilidade se esconde o desvendamento de tudo e a própria possibilidade de liberdade e imortalidade, tenho certeza que temos um motivo relevante para nos pormos todos de acordo. E não nos esqueçamos, segundo Don Juan e Castaneda, para abrir a possibilidade mágica do sonhar, o indivíduo deve primeiro se acertar consigo mesmo. No caso da humanidade, então, ela terá primeiro que “arrumar a casa” para poder entrar neste território mágico.</p>
<p>4 &#8211; Quanto ao Habermas, eu o conheço apenas superficialmente. Mas entendo que um dos sentidos da realização dos anseios do iluminismo (que alguns chamam “utopia possível”) seja mais o de simular uma realidade, que somente com a magia poderá ser de fato efetivada. O que revolta no Ocidente é que ele promete, e encanta, um dos motivos pelos quais magnetizou o mundo, mas ele “não entrega o produto”, como se diz. Como mercador que é, ele oferece a mercadoria mesmo sem possuí-la. Mas isto é justamente por que é praticante da “arte do intento”, ou seja, ele lança um objetivo que somente com simulação e ensaio se tornará real. Usando uma frase de Don Juan, a mera utopia possível é um “insulto ao espírito”, pois queremos muito mais. </p>
<p>5 – quanto ao Brasil e um possível quinto império, penso que a contribuição será uma espécie de “abrasileiramento” do mundo, pois as características do Brasil são fundamentais para que se abra esta possibilidade. E isto já mostra que, ao contrário do padrão atual, o novo terá de agregar tudo, não se constituindo numa hegemonia mas sim numa igualdade, que propiciará que cada coisa venha a dar a sua contribuição. Isso, evidentemente, é uma espécie de antecedente do mágico e não o próprio mágico. Apenas não concordo que os paises hegemônicos mantenham a gente por baixo, ou ao menos não é isso que interessa ver. Como dizia Don Juan, quando Castaneda criticava os padres, “eles nos mantém na ignorância, esses ignorantes” ou algo assim. Ou seja, somos todos vítimas do mesmo estado de desconhecimento do que interessa. E para sair dele temos de nos convencer primeiro, coletivamente, que existe um imenso território a desvendar. </p>
<p>Bem, espero ter auxiliado e não ter dado “um nó nas idéias” dos possíveis leitores. </p>
<p>Fico muito feliz com a possibilidade que estas me dando de “colocar para fora” uma filosofia que desenvolvo nos últimos 30 anos (quem me conhece sabe disso). Castaneda entrou no meio de uma idéia que já tinha e me tomou completamente. Somente agora consegui concluir meu livro, que espero poder oferecer aos leitores em breve. Evidentemente, tudo isso eu desenvolvi muito mais profundamente no livro, além de outros aspectos que não conseguiria aqui explanar em poucos palavras. </p>
<p>Também peço desculpas se não consegui responder a todos os teus questionamentos, mas já disse, e repito, que concordo em linhas gerais com tudo o que escreveste, e sou um admirador de teu site e da forma como praticas esta “curiosidade” que é a filosofia, em sua essência.</p>
<p>Abraços.</p>
<p>João</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>Por: Miguel (admin)</title>
		<link>http://www.consciencia.org/quem-tem-ouvidos/comment-page-1#comment-7237</link>
		<dc:creator>Miguel (admin)</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2009 06:20:29 +0000</pubDate>
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		<description>Caro Mezzomo
Texto importantíssimo, bem escrito, bem informado e sintonizado com as grandes questões que são realmente importantes. Questões que surgiram e que foram e merecem continuar sendo tratadas pelo filosofia, literatura e áreas afins. A escolha dos autores e passagens é extremamente acertada. Por exemplo, lembro-me de que Bermann fez um dos ensaios do seu excelente livro &quot;Tudo que é sólido desmancha no ar, a Aventura da Modernidade&quot;, sobre o mito de Fausto do Goethe.

Eu diria que através da Revolução psicodélica e a contra-cultura a mente ocidental chegou efetivamente, de forma massiva, àquela grande fonte oculta de poder, que sempre esteve presente e ausente, sendo preconizada por vanguardistas e visionários em todas as épocas. O triste é que parece ter havido um retrocesso, pela mídia, que o autor aponta, mas também pela economia e industria cultural, que transforma tudo em categorias consumíveis, e portanto descartáveis. Na filosofia a verdadeira revolução da linguagem, pensada pelos autores &quot;continentais&quot; vêm perdendo espaço para a abordagem tautológica, e portanto estéril da linguagem - a filosofia analítica e da mente se dobram às ciências que obtiveram sucesso, passando uma grande navalha e abordando o fenômeno linguístico de forma superficial, no afã de buscar o certo e o seguro.

O Habermas é um grande filósofo que protagoniza este debate. Para ele, o projeto da modernidade (racional e iluminista) não deve ser abandonado, mas antes, continuado, já que possibilitou ganhos emancipatórios reais, como por exemplo, o próprio fim da tortura nos hospícios, que eram presídios... Para Habermas tudo poder incluído pela razão dialogante, e as tentativas de superação da razão caíram na contradição performativa... usou-se a razão para criticar a si mesma. Mas... é claro que o Outro da razão não é só um êxtase etéreo, algo a se viver, experimentar, para em seguida continuar com os velhos valores, para se enquadrar novamente no &quot;mundo real&quot;. A análise do que é o não-ser e o mágico é esplêndida nesse sentido.

O Castaneda é introduzido ao leitor já de cara como um embusteiro, um farsante, como que se a precaver de possíveis ataques pela sua referência. Senti falta de mais considerandos antes de se chegar a essa conclusão. O que levou a aceitar a ficcionalidade de Castaneda? É preciso que esse percurso seja explicitado. Eu também vejo algumas contradições e falhas inconciliáveis no discurso oficial, e acho que Don Juan existiu, porém Castaneda manipulou as histórias ao seu bel-prazer, inicialmente usando o &quot;método fenomenólogico&quot; de que fala no segundo livro, e depois usando don Juan para criar novas histórias afim de ilustrar os conceitos do nagualismo.

Mas é bem lembrado que o interessante é que a própria obra de Castaneda já se precavê contra essa acusação, se é uma crítica a todo o sistema racional ocidental, que validade teria uma crítica feita a partir da perspectiva tradicional, com suas categorias fixas de validade e veracidade?

Esta análise das implicações das revelações de Castaneda, no entanto, deve ser feita a partir do interior do método e do saber acadêmico, do qual o próprio autor é oriundo, já que &quot;Erva do Diabo&quot; e &quot;Viagem a Ixtlan&quot; são teses apresentadas à UCLA. À parte disso, existe muita má fé nesse ceticismo todo, e por isso é preciso saber separar a verdadeira investigação daquela recusa fundamentalista, seja religiosa ou ateísta. A questão ao meu ver é de etnocentrismo, Castaneda começa como antropólogo, mas é obrigado pelo seu objeto de estudo a admitir que o sistema de crenças que se propôs a estudar é tão ou mais complexo do que o seu próprio entorno cultural. (Isso está no Presente da Águia). Como admitir que um índio diga a um Ocidental &quot;Eu sou um caçador e um guerreiro e você é um fresco&quot; (como notou o jornalista Ibral Vitti), pervertendo toda uma imagem secular de dominação e ingenuidade indígenas?
Castaneda diz que começou estudando um mito, mas este mito o envolveu e o tornou nagual, nesse ponto, não precisava mais dar satisfações à Academia, às pessoas, sobre sua biografia e fotos etc.

Uma farsa faz quem está representando para alguém, um embuste literário precisa desse ingrediente explosivo: a aparição do farsante em vistas de propósitos de ganhos pessoais. Não é o caso de Castaneda, não se declarou o &quot;mago&quot; para em seguida viver o vidão milionários dos iates e mansões. Não aparecia em público, e outros farsantes se passando por ele tiraram proveito disso, sem que interferisse. O embuste de , sua &quot;molecagem&quot; Castaneda então teria algum propósito indefinido, já que isso não ocorreu. Ele mesmo declarou numa entrevista (tem aqui no site) que a idéia de que pudesse forjar todos aqueles personagens, sem tirá-los da própria experiência, é demasiado vaga... Nem mesmo um Garcia Marquez conseguiria imaginar um monte complexo a partir do nada, ou de outras tradições já existentes. Outro ponto a favor da não-ficionalidade é de que, segundo relatos espontâneos, centenas, milhares de &quot;auto discípulos&quot; que, afetados pela obra, passaram a buscar por si próprios as vivências descritas nos livros, encontraram paralelos e realidade ao que é contado, dentro de sua própria experiência.

As contribuições de Castaneda para a antropologia no entanto são reais. Existem conceitos muito originais, que, se não o são totalmente, são tratados de maneira distinta, não somente o da &quot;loucura controlada&quot; ou o dos &quot;Seres Inorgânicos&quot;. A distinção entre tonal e nagual é lapidar. Pode haver paralelismo para várias das práticas e experiências descritas no oriente e ocidente, no entanto algumas coisas parecem realmente novas.. qual seria o equivalente por exemplo da explicação através do &quot;ponto de aglutinação&quot;? As informações de Castaneda permitem ver as mitologias dos dominados povos indígenas de uma forma muito mais profunda e fecunda, pois até então é sempre visto como algo infantil, tatibitati e nonsense de povos atrasados da idade da pedra, sem desenvolvimento, mesmo que espiritual.

O interessante, retornando ao texto, é que essas acusações de fraude castanedística tem um precedente, que é a matéria jornalística da revista TIME, que tinha uma intenção nitidamente difamatória: no momento de repassá-lo ao grande público através do reconhecimento pela reportagem, também o desmentia, acusando-o de várias coisas, como jogador viciado e mentiroso. Mas a acusação principal que o desmereceu não é relativa ao universo de Don Juan, e sim seu local de nascença... o autor sempre afirmou ser brasileiro, a reportagem teria levantado documentos obscuros de imigração provando ser ele peruano e ter nascido dez anos antes. O papel do Brasil é mencionado aqui através do livro Mensagem do Pessoa, com o mito do Quinto Império e as visões de Vieira, o que é muito pertinente e bem lembrado, e existe também em outras teorias, como a da Utopia Morena. Vemos que os irmãos do norte porém sempre dão um jeito de manter o Brasil afastado do seu inescapável destino, de uma forma ou de outra brecando o desenvolvimento do país em grandes questões. No caso do Castaneda, terem tirado sua brasilidade é um detalhe significante, ainda mais se considerarmos o que diz o presente da Águia, que.. quando os videntes do grupo do velho nagual descobriram não ser ele um nagual tradicional e sim um nagual de três pontas, ficou claro seu destino que era impossível de cumprir por ser demasiado grande. Depois, falou-se das implicações do nagual de três pontas, que não pode desenvolver um grupo próprio mas causa grandes agitações sociais, passando um conhecimento para toda a humanidade e impregando com sua consciência qualquer um que entre em contato com suas palavras. A missão de Castaneda, segundo isso, seria a de indicar uma nova posição no ponto de aglutinação da Terra e preparar a humanidade para que o próprio intento tomasse as redéas e a encaminhasse para o próximo &quot;passo evolutivo&quot;, de uma forma ou de outra.

Noto também que o próprio Castaneda trata das questões desse texto em várias passagens, desde o desenvolvimento da razão pelos europeus até essa leitura do mito de Gênesis. No meu blog escrevi algo sobre isso, por exemplo no post 
http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/14/gnesis/

Como disse, essa costura, esse resgate que o texto faz com a grande tradição da filosofia ocidental na interpretação de Castaneda é essencial. Acreditando ou não ser uma obra de ficção, não impede a relevância  da obra, até pelo seu poderoso impacto (analisam em teses de doutorado até novelas da globo. Por que não esse autor?), no entanto Castaneda é sempre usado às escuras, ou ignorado, não é levado a sério, é sempre na boca míuda. Mas continuam usando: filósofos, escritores, autores em geral, e muito, mas muito mesmo o cinema... Isso sem dar o devido crédito. Fica algo indigesto, postergado e mal-resolvido.
Se os estudos sérios, cultos e responsáveis não fizerem isso, mesmo que para contestar (mas sem preconceitos) vai restar sempre essa eterna estigmatização e apropriação ou apenas as palavras dos &quot;doidões&quot;, que dificilmente seriam levados a sério pelos saberes oficiais. Por isso espero sinceramente que seu livro seja publicado!
Abs</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Mezzomo<br />
Texto importantíssimo, bem escrito, bem informado e sintonizado com as grandes questões que são realmente importantes. Questões que surgiram e que foram e merecem continuar sendo tratadas pelo filosofia, literatura e áreas afins. A escolha dos autores e passagens é extremamente acertada. Por exemplo, lembro-me de que Bermann fez um dos ensaios do seu excelente livro &#8220;Tudo que é sólido desmancha no ar, a Aventura da Modernidade&#8221;, sobre o mito de Fausto do Goethe.</p>
<p>Eu diria que através da Revolução psicodélica e a contra-cultura a mente ocidental chegou efetivamente, de forma massiva, àquela grande fonte oculta de poder, que sempre esteve presente e ausente, sendo preconizada por vanguardistas e visionários em todas as épocas. O triste é que parece ter havido um retrocesso, pela mídia, que o autor aponta, mas também pela economia e industria cultural, que transforma tudo em categorias consumíveis, e portanto descartáveis. Na filosofia a verdadeira revolução da linguagem, pensada pelos autores &#8220;continentais&#8221; vêm perdendo espaço para a abordagem tautológica, e portanto estéril da linguagem &#8211; a filosofia analítica e da mente se dobram às ciências que obtiveram sucesso, passando uma grande navalha e abordando o fenômeno linguístico de forma superficial, no afã de buscar o certo e o seguro.</p>
<p>O Habermas é um grande filósofo que protagoniza este debate. Para ele, o projeto da modernidade (racional e iluminista) não deve ser abandonado, mas antes, continuado, já que possibilitou ganhos emancipatórios reais, como por exemplo, o próprio fim da tortura nos hospícios, que eram presídios&#8230; Para Habermas tudo poder incluído pela razão dialogante, e as tentativas de superação da razão caíram na contradição performativa&#8230; usou-se a razão para criticar a si mesma. Mas&#8230; é claro que o Outro da razão não é só um êxtase etéreo, algo a se viver, experimentar, para em seguida continuar com os velhos valores, para se enquadrar novamente no &#8220;mundo real&#8221;. A análise do que é o não-ser e o mágico é esplêndida nesse sentido.</p>
<p>O Castaneda é introduzido ao leitor já de cara como um embusteiro, um farsante, como que se a precaver de possíveis ataques pela sua referência. Senti falta de mais considerandos antes de se chegar a essa conclusão. O que levou a aceitar a ficcionalidade de Castaneda? É preciso que esse percurso seja explicitado. Eu também vejo algumas contradições e falhas inconciliáveis no discurso oficial, e acho que Don Juan existiu, porém Castaneda manipulou as histórias ao seu bel-prazer, inicialmente usando o &#8220;método fenomenólogico&#8221; de que fala no segundo livro, e depois usando don Juan para criar novas histórias afim de ilustrar os conceitos do nagualismo.</p>
<p>Mas é bem lembrado que o interessante é que a própria obra de Castaneda já se precavê contra essa acusação, se é uma crítica a todo o sistema racional ocidental, que validade teria uma crítica feita a partir da perspectiva tradicional, com suas categorias fixas de validade e veracidade?</p>
<p>Esta análise das implicações das revelações de Castaneda, no entanto, deve ser feita a partir do interior do método e do saber acadêmico, do qual o próprio autor é oriundo, já que &#8220;Erva do Diabo&#8221; e &#8220;Viagem a Ixtlan&#8221; são teses apresentadas à UCLA. À parte disso, existe muita má fé nesse ceticismo todo, e por isso é preciso saber separar a verdadeira investigação daquela recusa fundamentalista, seja religiosa ou ateísta. A questão ao meu ver é de etnocentrismo, Castaneda começa como antropólogo, mas é obrigado pelo seu objeto de estudo a admitir que o sistema de crenças que se propôs a estudar é tão ou mais complexo do que o seu próprio entorno cultural. (Isso está no Presente da Águia). Como admitir que um índio diga a um Ocidental &#8220;Eu sou um caçador e um guerreiro e você é um fresco&#8221; (como notou o jornalista Ibral Vitti), pervertendo toda uma imagem secular de dominação e ingenuidade indígenas?<br />
Castaneda diz que começou estudando um mito, mas este mito o envolveu e o tornou nagual, nesse ponto, não precisava mais dar satisfações à Academia, às pessoas, sobre sua biografia e fotos etc.</p>
<p>Uma farsa faz quem está representando para alguém, um embuste literário precisa desse ingrediente explosivo: a aparição do farsante em vistas de propósitos de ganhos pessoais. Não é o caso de Castaneda, não se declarou o &#8220;mago&#8221; para em seguida viver o vidão milionários dos iates e mansões. Não aparecia em público, e outros farsantes se passando por ele tiraram proveito disso, sem que interferisse. O embuste de , sua &#8220;molecagem&#8221; Castaneda então teria algum propósito indefinido, já que isso não ocorreu. Ele mesmo declarou numa entrevista (tem aqui no site) que a idéia de que pudesse forjar todos aqueles personagens, sem tirá-los da própria experiência, é demasiado vaga&#8230; Nem mesmo um Garcia Marquez conseguiria imaginar um monte complexo a partir do nada, ou de outras tradições já existentes. Outro ponto a favor da não-ficionalidade é de que, segundo relatos espontâneos, centenas, milhares de &#8220;auto discípulos&#8221; que, afetados pela obra, passaram a buscar por si próprios as vivências descritas nos livros, encontraram paralelos e realidade ao que é contado, dentro de sua própria experiência.</p>
<p>As contribuições de Castaneda para a antropologia no entanto são reais. Existem conceitos muito originais, que, se não o são totalmente, são tratados de maneira distinta, não somente o da &#8220;loucura controlada&#8221; ou o dos &#8220;Seres Inorgânicos&#8221;. A distinção entre tonal e nagual é lapidar. Pode haver paralelismo para várias das práticas e experiências descritas no oriente e ocidente, no entanto algumas coisas parecem realmente novas.. qual seria o equivalente por exemplo da explicação através do &#8220;ponto de aglutinação&#8221;? As informações de Castaneda permitem ver as mitologias dos dominados povos indígenas de uma forma muito mais profunda e fecunda, pois até então é sempre visto como algo infantil, tatibitati e nonsense de povos atrasados da idade da pedra, sem desenvolvimento, mesmo que espiritual.</p>
<p>O interessante, retornando ao texto, é que essas acusações de fraude castanedística tem um precedente, que é a matéria jornalística da revista TIME, que tinha uma intenção nitidamente difamatória: no momento de repassá-lo ao grande público através do reconhecimento pela reportagem, também o desmentia, acusando-o de várias coisas, como jogador viciado e mentiroso. Mas a acusação principal que o desmereceu não é relativa ao universo de Don Juan, e sim seu local de nascença&#8230; o autor sempre afirmou ser brasileiro, a reportagem teria levantado documentos obscuros de imigração provando ser ele peruano e ter nascido dez anos antes. O papel do Brasil é mencionado aqui através do livro Mensagem do Pessoa, com o mito do Quinto Império e as visões de Vieira, o que é muito pertinente e bem lembrado, e existe também em outras teorias, como a da Utopia Morena. Vemos que os irmãos do norte porém sempre dão um jeito de manter o Brasil afastado do seu inescapável destino, de uma forma ou de outra brecando o desenvolvimento do país em grandes questões. No caso do Castaneda, terem tirado sua brasilidade é um detalhe significante, ainda mais se considerarmos o que diz o presente da Águia, que.. quando os videntes do grupo do velho nagual descobriram não ser ele um nagual tradicional e sim um nagual de três pontas, ficou claro seu destino que era impossível de cumprir por ser demasiado grande. Depois, falou-se das implicações do nagual de três pontas, que não pode desenvolver um grupo próprio mas causa grandes agitações sociais, passando um conhecimento para toda a humanidade e impregando com sua consciência qualquer um que entre em contato com suas palavras. A missão de Castaneda, segundo isso, seria a de indicar uma nova posição no ponto de aglutinação da Terra e preparar a humanidade para que o próprio intento tomasse as redéas e a encaminhasse para o próximo &#8220;passo evolutivo&#8221;, de uma forma ou de outra.</p>
<p>Noto também que o próprio Castaneda trata das questões desse texto em várias passagens, desde o desenvolvimento da razão pelos europeus até essa leitura do mito de Gênesis. No meu blog escrevi algo sobre isso, por exemplo no post<br />
<a href="http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/14/gnesis/" rel="nofollow">http://blog.cybershark.net/miguel/2004/11/14/gnesis/</a></p>
<p>Como disse, essa costura, esse resgate que o texto faz com a grande tradição da filosofia ocidental na interpretação de Castaneda é essencial. Acreditando ou não ser uma obra de ficção, não impede a relevância  da obra, até pelo seu poderoso impacto (analisam em teses de doutorado até novelas da globo. Por que não esse autor?), no entanto Castaneda é sempre usado às escuras, ou ignorado, não é levado a sério, é sempre na boca míuda. Mas continuam usando: filósofos, escritores, autores em geral, e muito, mas muito mesmo o cinema&#8230; Isso sem dar o devido crédito. Fica algo indigesto, postergado e mal-resolvido.<br />
Se os estudos sérios, cultos e responsáveis não fizerem isso, mesmo que para contestar (mas sem preconceitos) vai restar sempre essa eterna estigmatização e apropriação ou apenas as palavras dos &#8220;doidões&#8221;, que dificilmente seriam levados a sério pelos saberes oficiais. Por isso espero sinceramente que seu livro seja publicado!<br />
Abs</p>
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