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REGIÃO CENTRAL DE MINAS GERAIS – SERRA DO CURRAL-D’eL-REI


SERRA DO CURRAL-D'eL-REI

REGIÃO CENTRAL DE MINAS GERAIS

SERRA DO CURRAL-D’eL-REI

José Veríssimo da

SEM PRETENDER, em absoluto, cair em demasiado rigor, é possível dizer-se que somente a partir do segundo quartel do século atual, vêm os métodos da análise morfológica sendo aplicados com maior ou menor inteligência, e com real proveito, no estudo científico do relevo do Brasil.

As relações desse relevo com a estrutura e, também, as características próprias do nosso modelado tropical constituem, pois, ainda hoje, problemas não inteira e definitivamente resolvidos.

Numa época em que se acentua, cada dia, a tendência de se ordenar e interpretar os conhecimentos geográficos sob prisma utilitário, prático, econômico e racional, estudos — como esses de natureza geomorfoiógica — longe de aparecerem sob a forma de puras especulações acadêmicas, constituem, antes, seguros meios de que se pode valer a investigação científica, para opor inteligente e metódica reação contra os efeitos de uma terminologia antiga, muitas vezes, de aplicação errônea, sentido abusivo e fundo quase exclusivamente popular.

Filha, em geral, de circunstâncias históricas ocasionais e do empirismo, tal nomenclatura de fato chegou, como tem chegado ao exagero de designar como "serras", por exemplo, inúmeros e enormes trechos de nosso território, onde, em verdade, o relevo não se apresenta nem com sensíveis desnivelamentos, nem tampouco, com as características inerentes à definição do termo, pelo menos segundo seu sentido mais conhecido, de elevações de terreno com duas encostas bastante caracterizadas.

Se, em inúmeras vezes, é bem verdade, "serras" significam, no Brasil, simples bordas de planaltos e chapadas, em outras, já o mesmo não acontece. A realidade vem mostrando aliás, que o termo expressa, em algumas ocasiões, e de modo exato, a forma de terreno subentendida pela sua definição universal.

As contínuas pesquisas realizadas recentemente no setor da geomor-fologia, têm trazido, com efeito, contribuições valiosas para a elucidação de importantes aspectos de nossa fisiografia. Infelizmente, não alcançaram ainda o necessário desenvolvimento, de sorte que se torna prematuro, nos dias atuais, pretender uma defir.itiva interpretação geográfica do relevo do Brasil.

A divulgação de resultados científicos a que já se tem chegado em matéria de tão importante transcendência torna-se da maior oportunidade e, nesta circunstância, é de se louvar o esforço de quantos se têm empregado, e continuam a se empregar, no sentido de resolver o nosso magno problema de geografia física.

Buscando em meio, cu ao cabo de suas investigações, discernir ou, pelo menos, lobrigar as leis sob que se processou e se processa a evolução do modelado — numa grande extensão debaixo da poderosa influência de um clima tropical úmido — aos obreiros da geomorfologia e da tectônica incumbe realizar, inquestionavelmente, uma grande tarefa no Brasil.

Tal missão consiste não apenas em fixar os diferentes tipos de relevo — passo a passo reconhecidos — mas, em interpretá-los, outrossim, sob o ponto de vista do conjunto. Somente dessa maneira se poderá, num futuro talvez próximo, lançar uma classificação global, simples e prática, das nossas formas e tipos de relevo com a vantagem de ser apoiada, além do mais, em bases cientificamente corretas.

REGIÃO CENTRAL DE MINAS GERAIS

(Percy Lau)

No estado atual dos conhecimentos geomorfológicos e tectónicos, levando-se em conta, sobretudo, o que de real se sabe quanto ao aspecto, situação, estrutura geológica e origem do território brasileiro, torna-se indubitável, de início, que na categoria de serras, somente devam figurar as elevações do Brasil de Leste cujas rochas, arqueanas e algonquianas, depois de enrugadas se erodiram, e, em seguida, se fraturaram transformando-se sucessivamente, muito mais tarde, num tipo diferenciado de relevo, no qual já foi possível verificar certo número de falhas antigas e mesmo dobras de fundo, com particularidade na região algonquiana do centro de , onde as primeiras influem, sem sombra de dúvida, na variabilidade com que costumam se apresentar os afloramentos. Aos desníveis anteriores seguiu-se um característico "rejuvenescimento" do relevo graças, principalmente, ao reinício da erosão, desta feita, sob a forma de forte de desgaste realizado segundo a linha de menor resistência das respectivas rochas. Neste seu reaparecimento, a erosão, ora cavando vales, ora esculpindo cristas, de qualquer maneira, contribuiu, diferencialmente, para compor na fachada oriental do Brasil, sobretudo na maior área do afloramento correspondente às séries de Minas e Itacolomi, um modelado que, em seu conjunto, ou em suas particularidades, constitui por assim dizer, uma réplica sul-americana do relevo de tipo apalachiano ou uma modalidade, nos trópicos, da inconfundível topografia jurássica.

Como no embasamento cristalino as rochas do algonquiano aflorem apenas em cerca de 4% da área territorial, de preferência numa grande extensão do Brasil de Leste; como, nesse interior, as rochas consistam, em sua maioria, em micaxistos, xistos sericíticos, quartzitos, bem como nas variedades brasileiras dos itacolumitos e itabiritos, que são das mais resistentes; pelo fato também de ser menor, no referido interior, o metamorfismo das rochas que no Arqueano, torna-se então explicável a freqüente desigualdade de resistência das mesmas e, portanto, compreensível a oportunidade adequada para o maior trabalho da erosão diferencial; outrossim, para uma decomposição das rochas, também maior, sob clima propício. Aliás, a própria apresentação do relevo, principalmente, na região central de Minas Gerais, ou seja, a parte meridional do trecho mineiro-baiano situado entre Ouro Preto e Juazeiro, nem sempre segue a orientação de sul para norte, característica do Espinhaço. Conserva, pelo contrário, distribuição confusa, extraordinariamente complexa, que além de revelar uma história muito perturbada, chega a dificultar, sobremaneira, a distinção necessária entre os relevos de origem tectônica e os que podem ser subentendidos como uma adaptação à estrutura.

Assim a análise interpretativa do contraste entre o aspecto montanhoso da fachada oriental e a configuração monótona do relevo interior, tanto maior quanto mais se considere a sua porção ocidental, constitui, pelo motivos já apontados, a preocupação máxima atual dos que mais de perto lidam com os delicados problemas de nossa geografia física.

À própria geografia humana, como à geografia econômica e política, não são estranhos, por outro lado, os consideráveis efeitos da história do solo e do relevo do Brasil sobre a forma, o modo da ocupação humana e os diversos aspectos da atividade econômica.

No coração de Minas Gerais, por exemplo, onde se encontram as nossas principais jazidas minerais relacionadas com o Algonquiano e a tectônica da região, certas feições da paisagem cultural se acham com efeito, em íntima correlação com a estrutura geológica e a composição mineralógica dos terrenos, refletindo, ainda, um dado momento da evolução histórica do país. O fato, conforme o caso, tanto se verifica onde os estrangulamentos marcam a presença em massa dos quartzitos e suas variedades célebres, quanto naqueles onde os terraços passam a se acumular nos vales mais ou menos amplos.

O traçado das estradas e o sítio das aglomerações industriais, bem assim a localização dos centros de comércio aparecem, então, quase semore, como expressões do recíproco acordo entre o homem e a natureza, acordo realizado nesse decantado bloco dos mais variados minérios, que são as montanhas da região de Minas Gerais.

Focos de geral atração, sobretudo do colono europeóide que em consideráveis massas, emigrou para o Brasil nos séculos XVII, XVIII e XIX, tal região rica de ferro, ouro e , teve, outrora, devido à explotação intensiva das minas auríferas e diamantíferas, realizada pelos bandeirantes e exploradores, decisiva atuação nos destinos da civilização brasileira.

Influiu não apenas no deslocamento do eixo econômico do Brasil — da Bahia para o Rio de Janeiro — como na extensão também, da cultura intelectual sob quase todas as suas modalidades.

A explotação das minas chegou mesmo a desenvolver no interior de Minas Gerais, uma civilização de caracteres sensivelmente urbanos. Presenteou, assim, o Brasil, com um rosário de cidades ricas, hoje tradicionais umas, fossilizadas outras, em rejuvenescimento algumas, mas alojadas todas ao pé das minas como Diamantina e Itabira (Presidente Vargas) ou situadas próximo delas todas em terraços fluviais, como Sabará; ou, então, colocadas numa posição, como Ouro Preto, que, no estilo pitoresco de De Martonne, "pendura suas ruas estreitas e seu formigueiro de igrejas, numa vertente abrupta cortada de ravinas".

A própria e elevada aristocracia mental de juristas, prosadores, críticos, historiadores e poetas, montada com todas as peças no centro das Gerais, em pleno ciclo do ouro de nossa história econômica, bem como a penetração das grandes idéias revolucionárias do , e, por fim, o deslocamento da cultura lusa para o âmago da referida região, não só explicam, naqueles tempos, a origem e a existência da chamada Escola Mineira em nossa história da literatura, como justificam, segundo a argumentação de Afonso Arinos de Melo Franco, a presença no Brasil, dos maiores e poetas, durante o citado período de nossa vida colonial.

Esclarecem, também, a riqueza da respectiva religiosa e a importância dos palácios que na época se levantaram.

E sob a ambiência favorável dessa riqueza de forças culturais, a arte brasileira produziu então, em 1730, sua mais poderosa figura, Antônio Francisco Lisboa, o "".

Se nas serras litorâneas — serra do Mar e da Mantiqueira — a direção geral de sudoeste para nordeste, tanto do relevo quanto da rede hidrográfica — corresponde à orientação de De Martonne, — "ao jogo de blocos deslocados por falhas ou flexuras que desposaram as direções das antigas dobras e estão voltadas mais freqüentemente para o oceano"; de modo diverso, mais para o interior, no domínio da série metamórfica de São Roque, em São Paulo, a nota característica promana das cristas de rochas duras descontínuas, que se estendem em orientação, aliás, bastante variável. "No conjunto poder-se-ia reconhecer como sintetizou o geógrafo francês — feixes menos rígidos de dobras formando uma virgação caracterizada entre o bordo ocidental do maciço antigo e a aresta principal da Mantiqueira".

Todavia, na região central de Minas Gerais, com particularidade entre Conselheiro Lafaiete e Belo Horizonte, bem assim no Espinhaço propriamente dito, ou seja a extensa lombada ou serra que se estende das cercanias de Ouro Preto, ao sul, até a Bahia Meridional pela parte norte, o relevo já se apresenta de outra maneira revelando diferente evolução.

De início, não mais aparecem as elevações do tipo serra do Mar, constituídas pelas rochas profundamente metamorfizadas do Complexo Cristalino Brasileiro. Não se repete, tampouco, aí, a freqüente variabilidade, em orientação e altitude, das cristas paulistas da série de São Roque.

Quanto à zona do alto rio Doce e à do rio das Velhas, por exemplo, o que se observa, é, pelo contrário, uma disposição contínua de cristas quart-zíticas. Nesta zona, já foi possível enxergar dobras de fundo, mais ou menos recentes, orientadas, em geral, de sul para norte, e explicando por si mesmas, as depressões alternadas que se verificam por toda a superfície. Aliás, no trecho onde se dividem as águas dos rios Doce e Velhas, o relevo se apresenta particularmente enérgico, ostentando generalizada dissimetria.

Na região central de Minas, ou seja a extremidade sul da enorme e extensa faixa algonquiana estendida de Juazeiro a Ouro Preto, papel importante foi, sem dúvida o das falhas antigas fazendo variar os afloramentos. Mas o conjunto da região teria sido modelado segundo superfícies de erosão, e num dado momento de sua atormentada evolução histórica.

As orientações tectónicas — muito mais variadas que as do Espinhaço — podem sugerir, no entanto, interpretações diferentes, ao lado de superfícies escalonadas. Na do professor Francis Ruelan, por exemplo, ao se verificar o reinício da erosão, esta teria arrastado certas camadas de quartzitos menos resistentes, deixando em saliência as rochas cristalinas mais rijas.

A constituição geológica desempenhou, assim, importante tarefa na elaboração de um relevo bastante movimentado, para o que a dureza do itabirito, em particular, e, em geral, a resistência das enormes massas de quartzito contribuíram de maneira decisiva.

Disso decorreu, então, o caráter típico da zona central mineira que apresenta grandes cristas e dilatadas depressões cavadas pelos rios. Se as primeiras correspondem a faixas de quartzito, encontram-se as segundas, intimamente correlacionadas com os xistos argilosos, sericíticos e mesmo com o Arqueano.

Aliás, De Martonne e seu discípulo, professor Ruellan, salientaram, há pouco, o fato de tais cristas se desenvolverem espessa e pesadamente, por muitas dezenas de quilômetros seguindo um sinuoso traçado.

Constituindo, algumas vezes, verdadeiras séries de cristas monoclinais, tais elevações são particularmente sensíveis ao sul de Belo Horizonte, assim como ao sul e a leste de Ouro Preto, ou mesmo ao norte da cidade de Conselheiro Lafaiete. Em trechos bem localizados chegam a esboçar traços fundamentais de uma topografia jurássica em combes e crêts, aliás bem definidos.

As linhas essenciais da paisagem são finalmente assinaladas pelas direções dos antigos dobramentos rejuvenescidos e, outro tanto, pelas diferenças de altitude já verificadas entre superfícies de erosão.

É o que sucede, por exemplo, — nesta vasta série de cristas monoclinais — com a afamada serra do Curral d’el Rei, cujo belo e bem definido perfil, o desenho de Percy Lau fixa, apresentando-o num trecho que, geomorfolò-gicamente, é dos mais sugestivos e característicos. Situado ao longo do caminho que liga Belo Horizonte à cidade de Nova Lima, corresponde o referido trecho ao nível de erosão que imediatamente precede a imponente crista denteada, de onde bem se observa o pico de Belo Horizonte dominando as elevações com os seus 1 390 metros de altitude. Nessa altura, a serra do Curral d’El Rei se apresenta, pela parte norte, como se vê no desenho, fortemente trabalhada pela erosão, observando-se sobretudo, in ioco ativa desagregação de suas rochas componentes, bem como a conseqüente formação do óxido rubro que imprime, na superfície atacada, maior vistosidade ao conjunto, já movimentando, de resto, pelo aparecimento de combes, e crêfs típicos e facilmente reconhecíveis na gravura.

Cingindo pela parte sul, a capital de Minas Gerais é, com efeito, a serra do Curral d’El Rei, uma série das impressionantes cristas monoclinais cujos alinhamentos se estendem no sentido geral de nordeste para sudoeste, desde

0 vale do rio das Velhas até o vale do Paraopeba.

Em sua estrutura de reconhecida simplicidade, encerra feixes de rochas mais resistentes, que, com seu pendor sempre de 68°, explicam a existência de hog-backs, fortemente inclinados para constituírem, por vezes, escar-pamento indo até o encontro da própria base arqueana. Daí, então, o aspecto curioso de paredão escarpado que a serra do Curral ostenta ao cingir, por exemplo, Belo Horizonte pela parte sul, à maneira de muralha protetora contra a invasão dos ventos frios de suleste.

Esses grupos da serra do Curral alternam com horizontes amplos que correspondem a afloramentos geralmente de gnaisses.

As ondulações suaves de tais afloramentos prosseguem no rumo norte até o encontro dos calcários da série de Bambuí, em Lagoa Santa.

Para o sul verifica-se o contrário pois que as serras e as depressões se sucedem continuamente com as características já antes assinaladas.

De modo geral, entre Belo Horizonte e Nova Lima, segundo observações realizadas localmente por alunos do curso de doutorado da Faculdade Nacional de Filosofia e pelos técnicos do Conselho Nacional de Geografia, sob a direção conjunta do professor Francis Ruellan, a serra do Curral d’El Rei abrange três níveis de erosão, correspondendo o primeiro — entre 900 e

1 000 metros — a um certo número de esporões que, segundo o geógrafo Miguel Alves de Lima, constituem elementos da superfície de erosão reconhecida em toda a região da cidade de Belo Horizonte.

O segundo se estende paralelamente à crista principal da serra, sobre-vindo-lhe uma depressão subseqüente que resulta de um trabalho de desgaste, do qual são vestígios alguns vales torrenciais obseqüentes. Esse segundo alinhamento — explicou o referido geógrafo — é atravessado por uma série de gargantas esculpidas pelos córregos obseqüentes do tipo córrego da Serra, como esse, tributário do Arrudas. O trabalho dos agentes de erosão tem sido efetivamente muito intenso expondo a estrutura onde haja rochas duras; nos trechos em que esse trabalho foi de modo a vencer o revestimento superior do itabirito, chega a rochas mais tenras onde começam a esboçar pequenas combes, como nos foi possível observar entre a primeira e a segunda linha de elevações.

O terceiro nível da serra do Curral é, então, constituído pela importante crista denteada a que já se aludiu. A depressão que aparece na gravura, representa a passagem do segundo nível para o terceiro nível de erosão.

Do pico de Belo Horizonte é possível avistar-se os mais próximos hcg-backs da serra do Curral d’El Rei, bem como os que prolongam essa crista monoclinal sob várias denominações locais, como Piedade, Mutuca, Rola-Moça etc.

E como se fora um magnífico posto observatório adrede preparado pela Natureza para as mais variadas e complexas análises da paisagem, ou então um marco singular limitando variados e sugestivos panoramas, o pico de Belo Horizonte se ergue, altaneiro, num ponto em que é possível distinguir, do alto, ao longe, o casario da velha Sabará, no rumo de nordeste, enquanto para suleste se avista Nova Lima.

Em baixo. Belo Horizonte aparece, finalmente na direção norte, localizada no fundo do vale do Arrudas, no anfiteatro formado pelas serras que a envolvem tanto pelo sul quanto pelo oeste ou pelo norte.

 

Reproduzido de Tipos e aspectos do Brasil – coletânea da Revista Brasileira de Geografia Fonte: IBGE – Conselho Nacional de Geogragia. 8ª edição. Rio de Janeiro, 1966.

 

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