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CAPITULO 15

A ESTRANHA SERRA FORMOSA

ACORDEI, FORTEMENTE SACUDIDO, E OUVI A VOZ DE Sálvio, alterada, nervosa:

—   Levante-se, Jeremias! Eles!…

—   Eles? Quem?

—   Eles… estiveram aqui.

Lembrei-me
dos nossos misteriosos perseguidores e notei que estávamos às escuras. Apenas a
claridade pálida da lua minguante iluminava as águas cantantes do ribeirão.

—   E as fogueiras?

—   Eles apagaram. Jogaram água em cima.

Nesse momento, um vulto escuro apareceu, vindo do grupo de árvores mais
próximas e a voz de Quincas soou:

—   Ninguém! Sumiram-se e levaram tudo! Só deixaram as
boleadeiras…

—   Cachorrada! — exclamei, indignado. — Covardes!
Onde estão esses imundos diabos? Por que não aparecem logo?

—   Calma! — aconselhou Sálvio. — Não adianta a gente se
exaltar. Por enquanto ainda estamos vivos!

— Uns bandidos, é o que são!
Ninguém os viu?
Quincas respondeu lentamente:

— Eu estava sonhando com eles… Sonhava que nós três corríamos por
uma planície e que de repente vieram descendo do céu inúmeros guerreiros nus e
sem face. Eram tantos que cobriam a luz do sol e ficou tudo muito escuro..
.

—   Decerto você sonhou com isso quando apagaram as
fogueiras.

—   Talvez. Deixe continuar. Eles chegaram ao chão, alcançaram-nos
e nos envolveram. Um me agarrou e, com forca descomunal, ia me arrancando o
braço. Acordei nesse momento. Estava tudo escuro e o meu braço esquerdo, sob o
corpo, adormentado.


Bem, sonhos são tolices, Quincas. O que devemos fazer é acender outras
fogueiras.

Juntamos
galhos secos e acendemos outras fogueiras. Mas quem diz que pudemos adormecer?
Não houve meio. Passamos o resto da noite acordados, impressionados com aqueles
estranhos perseguidores invisíveis que não nos davam tréguas e cujas intenções
não podíamos compreender.

Os
primeiros clarões do novo dia vieram encontrar-nos sentados, conversando,
procurando resolver o problema. Arranjamos três bons cacetes e rompemos a
marcha, sem nada comer, esperando que a sorte nos ajudasse em .seguida.

O
ribeirão, a cuja margem pousáramos, estava meio sêco, e, como corria para
oeste, resolvemos segui-lo. Era caminho fácil e dava esperanças quanto a caça.

Tínhamos
andado cerca de duas horas, quando Sálvio, que ia à frente, parou diante de uma
rocha muito semelhante a um marco plantado à beira do regato. De longe percebi
que era algo importante porque Sálvio estava boquiaberto.

— Vejam!
— exclamou quando nos aproximávamos. —
Uma inscrição!

Olhei o desenho fundamental
gravado na rocha.

—  
Lembra-se, Jeremias?

—   Sim. É reprodução daquela placa de barro que o coronel
Marcondes nos deu.

—  
Exatamente.

Infelizmente
a placa se perdera com todas as outras coisas que trazíamos. Restava, apenas, o
"muirakita" em forma de runa, que Sálvio trazia ao pescoço. Nesse
momento, ele tomou entre os dedos a formosa pedra verde, acaríciou-a e
murmurou:

— Estamos no caminho! Estamos no caminho certo!
Por aqui se vai ao Templo do Sol! Vamos! Para diante!

E Sálvio pôs-se a andar a largos passos, como se se dirigisse a um
ponto muito seu conhecido e que ficasse mais adiante. Quincas chamou-o:

— Olá! Mais devagar! Isto não é corrida!

Ele olhou para trás, acenou com o
braço e gritou:

— Vamos! Estamos no caminho!

E desapareceu atrás de um maciço
de árvores.

Corremos
para alcançá-lo, porque era perigoso andarmos desgarrados com aquele inimigo
invisível que vinha nos nossos calcanhares e que não conseguíamos localizar.
Quando o alcançamos fizemos-lhe essa observação, mas ele respondeu:

— Precisamos andar depressa. Quanto mais próximos estivermos do ponto
final, tanto menor perigo correremos.

Não
sei onde foi desencavar essa teoria, mas Quincas perguntou, como se aquilo
fosse naturalíssimo:

— Muito bem, Sálvio. Mas em que direção devemos se
guir agora?

Sálvio tirou o amarfanhado mapa do bolso, desdobrou-o e, apontando o
traço azul feito a lápis, disse, com toda a segurança:

—   Veja. Temos que alcançar o rio Curuá, que fica
entre o Xingu e o Tapajoz. Primeiro, atravessaremos o Iriri, do qual não
podemos estar muito longe. Depois, chegaremos ao Curuá.. . Esse é o ponto.

—   Mas estará certo esse mapa? — perguntei. —
Tenho visto alguns mapas desta região e não encontrei dois que coincidam…
Todos eles diferem na localização dos rios…

—   Sem dúvida. Este sertão nunca foi devidamente
explorado. Mas sabendo-se que há montanhas, sabe-se também que há vales, e,
nestas paragens, onde há vales é quase certo haver rios. Daí, ser possível o
traçado de mapas aproximados, sem exame "in loco".

—   Quer dizer — continuei — que não nos podemos guiar
cegamente pelo mapa…

—   Que é que quer? O mapa é o único meio que temos para
caminhar com algumas indicações. — Sálvio tornou a dobrar o papel e meteu-o no
bolso. Continuamos a caminhada.

Saímos,
afinal, da mata para uma campina. A primeira coisa que vimos foi um bando de
veados que pastavam calmamente, mais abaixo, à margem do arroio.

— Chegou
a hora de usarmos as boleadeiras — disse
Quincas. — Vamos combinar o ataque. Este campo tem a forma de uma ferradura
envolvida pela mata. As duas pontas avançam pela campina, tendo o regato ao
centro.Os veados estão entre as duas pontas da ferradura. Vocês seguirão, um
pela esquerda, e outro pela direita. Eu esperarei aqui. Quando chegarem às
pontas da mata, corram para o centro, espantem os veados e, se puderem, lancem as
boleadeiras. Algum há de correr para o meu lado…Vamos.

Assim fizemos. Eu segui pela ponta da esquerda e Sálvio pela da
direita. Quincas ficou ali. Chegamos ambos ao mesmo tempo às pontas da mata.
Saímos correndo em direção ao bando de veados, gritando e agitando as
boleadeiras. Por um momento, eles ficaram imóveis, como que pregados ao solo.
De repente deram um salto conjunto e lançaram-se em doida carreira.. . mas
nenhum para o lado de Quincas — ao contrário, todos em direção ao campo aberto.
Mas Sálvio e eu estávamos alerta. Rodamos as boleadeiras por cima da cabeça e
largomo-las: elas foram cair entre os animais. Um deles deu logo tremendo
trambolhão e ficou no chão, esperneando, enredado. Outro, recebendo a
boleadeira nos chifres, deu fantástico salto para a frente e pôs-se a correr
tão loucamente que passou adiante de todos e sumiu à distância.

Quincas vinha correndo, e os três nos atiramos sobre o veado preso, ao
mesmo tempo em que o resto do bando desaparecia ao longe. Com sua faca, Quincas
sangrou-o ali mesmo, enquanto dizia:

— Fui tapeado, mas não faz mal. Teremos comida para alguns dias…

—    E perdemos uma boleadeira — disse eu — o veado
levou-a.

—    Acionaremos o veado por apropriação indébita e
abuso de confiança — disse Sálvio. — Mas, por enquanto, condenaremos este a
pagar o crime do irmão…

Tivemos
excelente almoço, que nos permitiu retomar o caminho com muito mais vigor.

Nesse
dia fez um calor dos diabos e, antes de bivacar, tomamos revigorante banho no
ribeirão.

Depois
acendemos as fogueiras, preparamos o jantar e ficamos conversando até cerca de
dez horas, quando resolvemos dormir.

Confesso
que, por mais estúpido que isto pareça, nos tínhamos esquecido completamente
dos nossos invisíveis perseguidores. Na manhã seguinte, recordamo-nos deles à
força. As fogueiras tinham sido novamente apagadas com água. As duas
boleadeiras haviam desaparecido bem como toda a carne de veado que sobrara.

—    Isto é demais! — exclamou Quincas, ao
descobrir a maroteira. — Precisamos tomar uma providência!

—    Que providência? — perguntou Sálvio.

— Não sei… Procurá-los! Acabar
com eles!
Estávamos inquietos, estado do qual a passagem para o

pânico é apenas um passo. Houve alguns
momentos de silêncio. Depois, Sálvio falou:

—    Não entendo… isto parece que não tem nexo…
mas também, às vezes, fico pensando que os nossos perseguidores têm um fim em vista… Eles devem estar procurando conseguir um efeito qualquer…

—    Mas que efeito? — perguntei.

—    Não sei. Mas eles estão seguindo um método…

—    Ora…

—    Sim… Repare… Não nos aparecem… não nos
assustam… mas procuram privar-nos do alimento e dos meios de obter.

—    Sei. Querem nos matar. Não é isso?

—- Não creio,
Jeremias. Se o quisessem, já tiveram muitas oportunidades para o fazer. E não
as aproveitaram. Não, não. O fim que tem em vista é outro, que não
compreendemos ainda.

— Nem
o compreenderemos jamais. Quando chegar o
momento de compreender, estaremos mortos, comidos e
talvez digeridos no estômago desses imundos selvagens.. .

Nesse dia, mais
uma vez, iniciamos a caminhada com o estômago vazio, o que não é muito
agradável. Mas, pelo caminho, quando atravessávamos bosques, Quincas sempre
conseguia arranjar frutos e raízes, que mastigávamos andando. Sálvio achou que
isso era uma verdadeira maravilha, porque assim "não perdíamos tempo para
comer"… Não lhe respondemos coisa alguma. Simplesmente caminhávamos,
seguindo-o, porque ele se colocara na dianteira e sua careca brilhava lá
adiante, aos raios ardentes do sol.

Continuávamos
a descer pela margem do ribeirão e o terreno começava a mostrar-se mais
difícil. A mata ema-ranhava-se; os nossos facões tinham que trabalhar sem
descanso.

Durante
vários dias caminhamos assim, alimentando-nos de frutos, raízes e pequenos
animais que Quincas conseguia apanhar de vez em quando. Chegamos ao rio onde o ribeirão desembocava. Era um curso dágua mais ou menos forte,
com uns 100 metros de largura. Para além, não muito longe, erguia-se uma serra,
atravessada em nosso caminho.

— A
Serra Formosa! — exclamou Sálvio. — É na outra
vertente que corre o rio Iriri! Estamos cada vez mais
perto!

Atravessamos
o rio a nado, como fizéramos já outras vezes, puxando atrás de nós uma jangada
de galhos sobre a qual vinha a nossa roupa.

Quando
começamos a subir a serra, começamos também, simultaneamente, a sentir vaga
angústia, uma esquisita impressão de isolamento.

A
Serra Formosa recortava contra o céu perfis pitorescos. Poderíamos ter batizado
alguns dos aspectos mais

curiosos com nomes
extravagantes, como "o caracol", "a mamadeira", "a
cabeça de cavalo", "o urubu", "a mesa redonda",
"a bigorna", e tantos outros. Era espetáculo fascinante, talhado em
proporções monstruosas. Cenário próprio para a representação da peça "A
Construção do Mundo".

Talvez fosse isso o que nos esmagava: a excessiva grandeza da paisagem.
Cascatas despenhavam-se pelas encostas de granito com estrondos ensurdecedores;
vegetações fantásticas se levantaram das ravinas úmidas, fetos arbo-rescentes
surgiam dos grotões umbrosos. Que árvores eram aquelas? Que gigantescos
vegetais eram esses que tanta estranheza nos causavam? A nossa impressão era de
estarmos diante dos monstruosos exemplares de uma flora há muito desaparecida.
Por que razão essas árvores nos chamavam tão poderosamente a atenção, se
havíamos passado por milhões e milhões de outras sem sentir nada de particular?

Nessa
noite não nos limitamos a acender fogueiras. Estabelecemos "quartos de
vigilância". Foi penoso, mas, em compensação, permitiu-nos passar a noite
sossegadamente e acordar descansados, sem que nada de anormal nos tivesse
acontecido.

Nossa
primeira refeição se constituiu de frutas que encontramos com dificuldade,
porque Quincas não reconhecia nas árvores em redor as suas velhas fornecedoras
de frutos comestíveis. Em todo caso, mastigamos alguns, extraordinariamente
suculentos, e, seja como fôr, alimentamo-nos.

Subimos durante todo o dia, e pernoitamos em plena montanha, numa
caverna escavada pela erosão. Dentro dela cresciam grandes touceiras de
avencas, samambaias e fetos de estranhas formas. Num tronco, que se inclinava
para fora, crescendo à procura do sol — enorme tronco rugoso e mole — crescia
formidável exemplar de orquídea, de espécie certamente não classificada ainda.
A forma geral lembrava o Dendrobium, mas a inflorescência não saía dos gomos
dos pseudobulbos, e sim, do ápice dos mesmos, como nas cattleyas. As
flores tinham aproximadamente o formato das labiatas, com labeluns que eram
mais semelhantes aos dos oncidiuns Rogersii. A coloração era estranha: pétalas
rôxo-negro e labelum azul. Por esse tempo, a minha paixão pelas orquídeas já
havia passado; mesmo assim, senti profunda emoção ao contemplar aquele exemplar
verdadeiramente extraordinário e que, decerto, deixaria louco qualquer
orquidicultor consciente.

Enquanto eu admirava as orquídeas, Sálvio pesquisava o interior da
gruta, à procura de vestígios humanos, e Quincas preparava uma refeição com
raízes que, segundo ele, deviam ser muito boas. . .

Escureceu e a fogueira punha fantásticos reflexos nas paredes do
interior da gruta. Custou-nos adormecer, com a impressão de isolamento que nos
perseguia, mas não creio que possa transmitir perfeitamente o que era. Não se
devia, naturalmente, ao fato de nos encontrarmos sós, sem outros companheiros,
porque havia muitos dias que assim viajávamos. Vínhamos sós os três desde que
deixáramos o cemitério subterrâneo — e tínhamos atravessado morros, florestas e
pântanos sem sentir isolamento. Sentíamo-nos, por assim dizer, "em nossa
terra", como se estivéssemos garantidos e protegdios por leis. e costumes
comuns às terras civilizadas. Mas, agora, desde que subia- , mos a Serra
Formosa, era como se tivéssemos entrado j numa região de outro planeta — e toda
a impressão de segurança desaparecera. Sabíamo-nos isolados, desprotegidos, à
mercê de forças incontroláveis. E era uma pavorosa impressão, essa; uma
impressão intransferível.

Acordamos pela madrugada com essa mesma impressão e, com ela ainda,
recomeçamos a subida. Os nossos perseguidores teriam estado no nosso lado nessa
noite? Não o soubemos. Nada tínhamos que nos pudesse ser tirado, e a fogueira
ficara acesa toda a noite.

Quando subíamos, encontramos, em certos trechos, algo surpreendente:
alguém ajeitara as rochas em forma de degraus nos pedaços mais perigosos da
subida. Alguém? Ou seriam naturais aqueles degraus? Jamais o conseguimos saber,
apesar de procurarmos cuidadosamente vestígios dos trabalhadores que poderiam
ter feito aquela escada.

Bem, nada
adianta estarmos descrevendo a subida da serra. Basta dizer que levamos cinco
dias para chegar ao alto. Atravessamos trechos fáceis, trechos difíceis e
trechos perigosos. A penosa sensação de isolamento não nos abandonou um
instante, até chegarmos ao topo. A paisagem, apesar de deslumbrante, não
conseguiu, nunca, amenizar aquela impressão. Ao anoitecer do quinto dia
chegávamos, afinal, ao cume da grande serra, uma espécie de platô que mal percebíamos
na obscuridade. Em frente, abaixo de nós, era tudo negro. Nada se podia ver.
Não encontramos, também, nenhuma espécie de abrigo. Depois de mastigar alguns
daqueles frutos que nos cansavam já o paladar, estendemo-nos na pedra nua.

 

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