Aristóteles – A Constituição de Atenas

A Constituição de Atenas
Aristóteles
Tradução de A.S. Costa
Fonte: Editora Casa Mandarino

I

Foram submetidos a julgamento perante um tribunal formado
por pessoas pertencentes a nobres famílias, e que prestava juramento na cerimônia
dos sacrifícios. Míron ocupava o cargo de acusador. Os
réus eram acusados de sacrilégio por desenterrarem os cadáveres,
expatriando a raça para sempre. Como expiação, Epimênides
de Greta efetuou a purificação da cidade.

II

Depois deste acontecimento, houve paz durante muito tempo
entre as classes superiores e o populacho. Não era apenas o governo que
era oligárquico, mas em todos os seus aspectos, mas também, todas
as pessoas humildes, homens, mulheres e crianças eram servas dos ricos.
Denominavam-se Pelatae e Hectemori, pelo fato de cultivarem as terras dos
abastados mediante o arrendamento indicado por essas mesmas palavras. Todas as
terras se achavam nas mãos de certo número de
indivíduos, e, se os arrendatários deixavam de cumprir o
combinado, expunham-se a ser submetidos à escravidão
juntamente com seus filhos. As garantias, de todas as espécies, eram
dadas pelos devedores, por cuja conta corriam todos os ônus, costume que
vigorou até a época de Sólon, que foi o primeiro a se
apresentar como paladino do povo. Porém, a maior
humilhação e amargura que encerrava a constituição
aos olhos de todos, era o seu verdadeiro estado de servidão. Não
quer isto dizer que ficassem satisfeitos com qualquer outro aspecto de sua
sorte, visto como, em geral, não desfrutavam de
participação em coisa alguma.

III

A antiga constituição, tal como existia nos
tempos de Drácon, estava organizada da seguinte maneira: os magistrados
eram eleitos entre as pessoas de alta sociedade e de opulenta. Embora o
governo não fosse vitalício, estendia-se por períodos de
dez anos. Os primeiros magistrados eram hierarquicamente os seguintes: o Rei, o
Polemarca e o Arconte. O mais antigo desses cargos era o de Rei, que já
existia desde as épocas mais remotas. Depois se criou o de
Polemarca, em vista de alguns Reis se terem mostrado fracos nas guerras. Por
esse motivo convidou-se Íon para que aceitasse o cargo, em
ocasião que era de urgente necessidade. O ultimo dos três cargos
foi o de Arconte, o qual, afirma a maioria das autoridades, foi
instituído no tempo de Médon, embora haja quem diga ter sido na
época de Acasto, aduzindo como prova, o fato dos nove Arcontes jurarem
cumprir as obrigações que lhe eram impostas, como nos tempos
de Acasto, o que parece querer dizer que foi em tal época que os descendentes
de Codro abdicaram da realeza, em troca das prerrogativas conferidas
ao Arconte. Pouco importa a época, mas que este magistrado fora o último
a ser criado, nos demonstra o fato de que o Marchante não desempenhava
qualquer função nos sacrifícios ancestrais, enquanto que
ao Rei e ao Polemarca cumpria tal tarefa. De modo que, somente de certo tempo a
esta parte, chegou a ter grande importância, a função de
Marchante. Os Thesmotetos foram instituídos muitos anos mais tarde,
quando os cargos acima mencionados foram convertidos em anuais, com o fim
de que pudessem inscrever públicamente todas as decisões legais e
atuar como zeladores das mesmas com o objetivo de determinar as conclusões
entre os litigantes.

Esse e o precedente cronológico relativo às
ditas funções. Naquelas épocas, os nove Arcontes
não viviam

em
comum. O Rei ocupava o palácio que agora conhecemos
com o nome de Bukolio, perto do Pritaneu. O Arconte vivia no Pritaneu e o
Polemarca no Epiliceo. Os Thesmotetos ocupavam o Thesmotedeo. Não
obstante, nos tempos de Sólon, todos os magistrados se reuniam no
Thesmotedeo. Tinham o poder de decidir definitivamente os julgamentos, com
autoridade própria, e não como em nossos dias, que apenas se
reúnem em audiência preliminar. Tal era a disposição
das magistraturas. O Conselho do Areópago tinha a seu cargo a
proteção das leis, dever que lhe era imposto constitucionalmente,
mas na realidade exercia a administração da maior e mais
importante parte do governo da República, aplicando castigos corporais e
multas sumariamente a todos os cidadãos cuja conduta não fosse
perfeita. Foi por uma conseqüência natural dos fatos que os Arcontes eram eleitos entre as classes de posição elevada, enquanto
que o Areópago era composto de pessoas que já tinham
desempenhado a função de Arconte. Por tal motivo, o lugar de membro
do Areópago foi o único que continuou sendo vitalício
até os nossos dias.

IV

De um modo geral, era essa a primitiva
constituição. Porem, não transcorreu muito tempo
entre os acontecimentos que acabamos de narrar e os dias

em que Drácon
pôs em vigor suas medidas, na época

em que Aristaicmo
desempenhou o cargo de Arconte. Sua constituição apresentava as
seguintes características: concedia privilégios a todos que
pudessem, à sua custa, possuir a equipagem militar; os nove Arcontes e
os Tesoureiros eram escolhidos entre as pessoas que possuíssem propriedades
livres de ônus, não inferiores a dez minas, enquanto que os cargos
menos importantes eram dados aos que possuíssem equipagem militar, e os
generais (Estrategos), e chefes de cavalaria (Hiparcos), entre os que pudessem
declarar propriedades sujeitas a impostos não inferiores a cem minas, e
que tivessem filhos maiores de dez anos, nascidos de matrimônio legal.
Estes cargos levavam em si a retenção da finança dos
Pritanos, Estrategos e Hiparcos do ano anterior, até que suas contas
fossem verificadas, tomando-se quatro pessoas da mesma classe como garantia.
Havia também um conselho formado de quatrocentos e um membros, que eram
eleitos por sorteio entre os privilegiados. Tanto para essa, como para as
demais magistraturas, só podiam concorrer as pessoas com mais de trinta
annos, não podendo ninguém ocupar o cargo duas vezes, antes que
todos os demais o tivessem ocupado, quando então eram eleitos novamente
por sorteio. Se algum dos membros deixava de assistir as reuniões do
Conselho ou da Assembléia, era obrigado a pagar uma multa, de três
dracmas

se tratava de um Pentacosiomedimnio; de dois, se era
Cavalheiro; e um, se era Zeugita. O Conselho do Areópago estava
encarregado de guardar as leis e vigiar os magistrados, para que desempenhassem
seus cargos de conformidade com a lei. Todo aquele que se considerasse ofendido
apresentava sua reclamação perante o Conselho do Areópago,
declarando qual era a lei infringida pelo prejuízo que lhe tinha
sido causado. Porém, como já dissemos anteriormente, as
dividas eram garantidas pela vida do devedor, e a terra estava nas mãos
de uns poucos indivíduos.

V

Posto que, fosse essa a organização
constitucional e a maioria da população fosse escrava da
minoria, as massas se rebelaram contra as classes superiores. A
discórdia era enorme e, durante muito tempo, ambos os partidos
figuraram em bandos hostis, até que finalmente, e com consentimento
recíproco, Sólon foi nomeado como mediador e Arconte, sendo
posta em suas mãos a constituição. Com respeito a
reputação, Sólon figurava entre os que a possuíam
mais sólida, mas quanto a riqueza e posição, nada ele
possuía, pois pertencia à classe media, conforme era costume
seu não esconder.

De qualquer modo, é certo que sempre censurava os
ricos como promotores dos conflitos, atacando a avidez pela riqueza e
o espírito de lucro, querendo dizer que isso era o ponto principal das
questões.

VI

Tão depressa se pôs à frente das coisas públicas,
Sólon libertou o povo de uma vez, proibindo todos os negócios
com fiança da vida do devedor, fazendo ainda leis novas, mediante
as quais, ficavam anuladas todas as dividas, tanto as públicas como
as particulares. Esta medida chama-se vulgarmente Seisacteia, ou
seja, o alívio de encargos. Condenando tal medida, alguns intentam censurar
o caráter de Sólon. Aconteceu que, quando ele ia pôr em
execução a Seisacteia, comunicou sua intenção a
algumas pessoas de classe superior, diante do que, como disseram os partidários
dos populares, seus amigos quiseram surpreendê-lo, enquanto que os que
queriam atacar seu caráter, afirmavam que também ele tinha
participado da fraude. Porque essas pessoas tomavam emprestadas e adquiriam
grandes extensões de terras e, desse modo, quando passava algum tempo,
todas as dividas ficavam sem efeito e elas ficavam na opulenta, sendo esta,
segundo diziam, a origem das famílias que logo eram consideradas como
ricas, a partir dos tempos mais remotos. Contudo, o mais provável
é o que afirmava o partido popular. Homem tão moderado e
inspirado em favor do público em todos os seus demais atos, que quando
estava a seu alcance esmagar os seus concidadãos sob os pés,
proclamando-se tirano, preferiu afrontar a hostilidade de ambos os partidos
pondo sua honra e bem-estar de lado, não é provável que
consentisse em sujas suas mãos com desprezível e palpável
fraude. Que dispunha deste absoluto poder, é coisa que nos indica, em
primeiro lugar, o desesperado aspecto do país. Ademais, em seus
escritos, ele o repetia constantes vezes, sendo coisa admitida por todos. Por
isso nos vemos obrigados a considerar falsa a acusação.

VII

Sólon redigiu logo uma constituição e
pôs em vigor novas leis. As medidas adotadas por Drácon foram abolidas,
exceto as referentes ao homicídio. As leis foram estritas em
tabuletas que se afixaram no Pórtico do Rei, jurando todos
respeitá-las, prestando também os Arcontes o seu juramento,
declarando que mandariam erigir, à sua custa, uma estatua de ouro, se violassem
qualquer das novas leis. Tal é a origem do juramento que, para o mesmo
efeito, ainda é prestado em nossos dias. Sólon ratificou suas
leis para que produzissem efeito durante o período de uma
centúria, organizando a constituição do modo seguinte:
dividiu a população em quatro classes de acordo com a
propriedade, Como já tinha sido dividida anteriormente, quer dizer, em
Pentacosiomedimnios, Cavaleiros, Zeugitas e Thetos. As várias
magistraturas, a saber: os nove Arcontes, os Tesoureiros, os Encarregados
dos Contratos Públicos, ou Poletae os Onze, e os Atuarios da Fazenda, ou
Colacretes, que assinavam aos Pentacosiomedininios, Cavalheiros e Zeugitas,
confiando cargos a cada classe, proporcionalmente ao valor de suas
propriedades. Aos que figuravam entre os Thetos, apenas deu um lugar na
Assembléia e no Tribunal de Jurados. Considerava como pertencente aos
Pentacosiomedimnios, os que conseguiam de suas ferras quinhentos medimnos de
azeite ou de grão. Os considerados como Cavalheiros eram os que conseguiam
trezentas medidas, ou como dizem alguns, os que podiam manter um cavalo. Como
base desta ultima denominação aduzem o nome da classe, que
pode supôr-se derivado deste fato, bem como algumas oferendas votivas de
tempos primitivos, porque se vê na Acople uma oferenda votiva, uma
estátua de Diphilio que tem esta inscrição:

"O filho de Diphilio, Antemion, elevou-se de Theto a
Cavalheiro, E ofereceu aos deuses este cavalo esculpido, Pela sua
promoção e em ação de graças".

Vê-se ali claramente um cavalo junto ao homem, supondo
que isto é o que significava dizer que pertencia à hierarquia de
Cavalheira Ao mesmo tempo, é razoável supor que esta classe, como
a dos Pentacosiomedimnios, era assim chamada por possuir uma renda de certo
número de medidas. Os que figuravam na hierarquia dos Zeugitas colhiam
duzentas medidas de azeite ou trigo, sendo os demais, considerados Thetos,
não podendo ser eleitos para nenhum cargo.

Daí o fato de que, quando atualmente se pergunta a um
candidato a qualquer cargo, a que classe pertence, ninguém pensa em
responder que à dos Thetos

VIII

As eleições para as varias
funções instituídas por Sólon, eram realizadas por
sorteio entre os candidatos selecionados por cada uma das tribos. Cada tribo
elegia dez candidatos para os nove Arcontes, efetuando-se o sorteio entre eles.
Daí prevalecer o costume de em cada tribo se eleger dez candidatos por
sorteio. Prova de que Sólon regulamentou as eleições para
os cargos, segundo a classe de proprietários, é a lei em vigor
referente aos Tesoureiros, que estabelece que eles devem ser eleitos entre os
Pentacosiomedimnios.

Essa foi a legislação de Sólon com
respeito aos nove Arcontes, enquanto nos tempos primitivos o Conselho do Areópago
reunia pessoas capacitadas, de acordo com seu próprio juízo,
e as nomeava para aquele ano, destinando-as aos diferentes cargos. Havia quatro
tribos, como anteriormente, e quatro vice-reis. Cada tribo estava dividida

em três Trittys
ou Tercios, com doze Naucrarias cada uma; as Naucrarias tinham seus
próprios chefes, chamados naucrari, cujo dever consistia em administrar
os ingressos e gastos correntes. Daí que, entre as leis de Sólon,
hoje em desuso, se tenha escrito repetidas vezes que os naucrari tinham que
perceber e gastar ao fundo naucrario. Também designou Sólon um
Conselho de quatrocentos, cem por cada uma das tribos, mas assinou ao Conselho
do Areópago o dever de inspecionar as leis, agindo como
anteriormente, de guardião da constituição

em geral. Tinha a seu
cargo a inspeção de todos os assuntos referentes à República,
na maioria das matérias, aplicando penas aos que as violavam, tendo
amplos poderes para impor multa ou castigos corporais. O dinheiro recebido das
multas era levado à Acrópole, sem constar o motivo por que a
multa havia sido aplicada. Também julgava aos que conspiravam para
derrubar a República, pois Sólon havia posto em
execução uma lei que impedia que tais acusados fossem julgados
inculpados. Demais, como visse que o Estado era constantemente perturbado
por disputas internas, enquanto muitos cidadãos, devido a mera
indiferença, aceitavam tudo quanto ocorresse, promulgou uma lei que se
referia precisamente a tais pessoas, dizendo que todo aquele que em tempo
de dissensões civis não pegasse em armas em favor de qualquer dos
partidos, perderia seus direitos de cidadão, ficando afastado de tudo
quanto dissesse respeito à República. Essa foi a sua
legislação no que se referia às magistraturas.

IX

Ha três pontos na constituição de Sólon
que, parece, são seus aspectos mais democráticos: o primeiro, e
de maior importância, é a proibição de
empréstimos com garantia pessoal da vida do devedor; em segundo lugar, o
direito que gozava todo aquele que quisesse reclamar justiça em favor de
quem quer que fosse que tivesse seus direitos feridos; em terceiro lugar, a instituição
de poder apelar para os juízos formados por jurados. A este ultimo, segundo
se afirma, deveram as massas a sua força, mais que a qualquer outro
fator, embora quando a democracia se apodera da força dos votos,
apodera-se também da constituição. Demais, visto que
as leis não foram estatuídas em temos claros e
explícitos, senão como a referente à direção
e proteção do Estado, surgiram disputas  inevitavelmente, tendo os tribunais que|
decidir em todos os assuntos, já públicos, já
particulares. Alguns crêem que Sólon fez as leis
indeterminadas            letradamente, com o fim
de que a decisão final pudesse
estar nas mãos do povo. Mas não cremos isso provável,
sendo, sem duvida, o motivo, a impossibilidade de alcançar a
perfeição ideal quando se esboça uma lei em termos gerais,
porque deve se julgar suas intenções, não pelos
resultados reais atuais, mas pelo teor geral do resto de sua legislação.

Essas, parece, foram as características
democráticas de suas leis, porém, contudo, antes do
período de sua legislatura, levou a termo a abolição
das dividas e, depois disso, o aumento do tipo nos pesos, nas medidas e na
moeda. Durante a sua administração, as medidas de
Pheidon aumentaram relativamente; a mina que tinha anteriormente um valor de
setenta dramas, elevou-se até cem. O tipo de moeda dos tempos primitivos
era de duas dramas por peça. Também ordenou que os pesos
correspondessem à moeda, entrando sessenta e três minas em um
talento, sendo o antigo de três minas, distribuído entre os
staters e os demais valores.

XI

Uma vez completa a organização de sua constituição,
como vimos de explicar, viu-se assediado pela turba que o acusava de suas leis,
criticando-o sobre tal coisa e interrogando-o sobre tal outra, até que,
não querendo alterar o que havia decidido, nem ser objeto da malevolência
geral, vivendo em Atenas, resolveu sair em viagem pelo Egito, com o duplo
objetivo de comerciar e viajar, dando a entender que não regressaria
antes de dez anos Considerava que não devia explicações de
suas leis, mas entendia que todos deviam respeitar como tinham sido elaboradas.
Além disso, sua situação nessa época
não era nada cômoda, pois todo quanto acontecia em virtude da
abolição das dividas, lhe era atribuído, indispondo-se
ambos os partidos com elle, devido ao desencanto que sofreram ao ver o estado
de coisas a que tinham sido reduzidos. As classes populares esperavam que toda
a propriedade fosse distribuída, enquanto que as classes superiores
queriam que tudo ficasse como estava anteriormente. Não obstante, Sólon
resistiu a ambos os partidos. Podia muito bem ter se erigido em déspota,
filiando-se a qualquer dos partidos, mas preferiu, à custa de conquistar
a inimizade de ambos, adotar o papel de salvador de seu pais, e de legislador
ideal.

XII

Essas foram as razões que levaram Sólon a
deixar sua. pátria. Depois de sua partida continuou dividida; durante
cinco anos viveram em paz. porém ao chegar o quinto ano do governo de Sólon,
não foi possível eleger o Arconte em vista das dissensões
e quatro anos mais tarde, também não foi possível eleger
pelos mesmos motivos. Depois, uma vez passado igual período, foi eleito
Arconte, Damasias, governando dois anos e dois meses, até que foi
violentamente destituído de seu cargo. Depois convencionou-se, mediante
compromisso, eleger dez Arcontes, cinco entre os Eupatridios, três entre
os Agroecios e dois entre os Demiurgos, governando Damasias, durante o ano
seguinte. Isto evidencia que o Arconte era naquele tempo o magistrado que
possuía maior poder, embora se observe que os conflitos se originavam
sempre por motivos relativos a esse cargo. Apesar das eleições,
continuou-se a viver em desordem interna. Alguns achavam motivos e
justificação para seu descontentamento, na abolição
das dividas, porque com isso viram-se reduzidos à pobreza; outros
não se mostravam satisfeitos quanto à constituição
política. Naquela época havia três partidos: o da Costa,
cujo chefe era Megácles, filho de Alcmeon, considerado como
partidário, de forma moderada, da facção do governo;
os da Planície, que queriam a oligarquia e obedeciam a Licurgo; e os
Montanheses, cujo caudilho era Pisístrato, tido como democrata
extremado. Este último partido viu-se reforçado pelos que
tinham tido anuladas as dividas que deviam ter recebido e que, por isso,
tinham, ficado na pobreza, bem como por aqueles cujo ascendente não era
puro e cuja adesão era motivada pelo receio pessoal. Prova do que
dizemos é o fato de que, depois que a tirania foi derrubada,
estabeleceu-se a revisão do padrão da cidade, baseando-se tal
deliberação no fato de que muita gente gozava
privilégios sem direito algum. Os nomes por que eram conhecidos os
diferentes partidos, eram derivados dos distritos em que possuíam suas
terras.

XIII

 Pisístrato
gozava da reputação de ser democrata extremado, tendo
também se distinguindo muito na guerra com Megara. Aproveitando-se desta
situação tão especial, feriu-se propositalmente e,
fingindo que tinha sido atacado pelos seus rivais políticos, convenceu o
povo, mediante moção apresentada por Aristion, para que lhe fosse
dada uma guarda pessoal. Uma vez conseguida essa guarda composta de maceros,
como eram chamados, pôs-se à sua frente e atacou a
Acrópole, apoderando-se dela. Isso aconteceu durante o mandato do
Arconte Comeas, trinta e dois anos depois da legislação de Sólon.
Dizia-se que quando Pisístrato solicitou sua guarda, Sólon se
opôs à petição, declarando que, opondo-se,
mostrava-se mais prudente que metade do povo, com mais valor que a outra metade
e mais cauteloso que aqueles que não viam que Pisístrato
aumentava à idéia de fazer-se tirano; mostrava-se finalmente,
mais corajoso que aqueles que tinham pensado tudo isso, mas que guardavam
silencio. Observando, porem, que suas palavras de nada serviam, pegou na
sua armadura e expôs à porta de sua casa, dizendo que tinha
ajudado sua pátria, até aquele momento, em tudo quanto tinha
estado ao seu alcance (pois era já muito velho), rogando a todos os
demais que fizessem o mesmo. As exportações de Sólon foram
inúteis, assumindo, assim, Pisístrato, o poder. Sua
administração parecia-se mais com um governo constitucional que
com o de . um tirano, porém, antes que seu governo estivesse bem
solidificado, os partidários de Megácles e de Licurgo coligaram-se
e expulsaram-no. Isto aconteceu durante o mandato do Arconte Hegesias, cinco
anos depois de Pisístrato ter se apoderado do governo. Onze anos mais
tarde, Megácles encontrando dificuldades na luta partidária,
entabulou negociações com Pisístrato, propondo-lhe que
casasse com sua filha, introduzindo-o novamente em Atenas, mediante esta
condição, e aproveitando um plano tão primitivo como
simples. Ante tudo isso, espalhou-se o rumor de que Atenea lhes trazia Pisístrato
e, assim, ao encontrar uma mulher de grande estatura e beleza, chamada
Phié, que, segundo Heródoto, era da aldeia de Peania, mas que,
segundo outros, era florista da Trácia, pertencente à aldeia
de Collytos, disfarçou-a de maneira quede-la ela se parecesse com a
deusa, sendo recebida na cidade acompanhando Pisístrato. Este ia
num carro a seu lado e os habitantes de Atenas, surpreendidos e estupefatos,
receberam-no com adoração.

XIV

Deste modo Pisístrato voltou pela segunda vez.
Não teve, entretanto, o poder por muito tempo nas mãos, pois seis
anos mais tarde foi novamente expulso da cidade. Recusou a tratar a filha de Megácles
como esposa sentindo medo, em vista da combinação dos dois
partidos opostos, retirou-se de Atenas. Primeiramente foi para Raicelo, onde
formou uma colônia, transferindo-se depois para a campina situada
próximo do monte Pangaeso. Aí se ornou rico e, dez anos depois,
alistando mercenários, voltou a Etreria, tentando recuperar o governo
violentamente. Nessa empresa foi ajudado por muitos aliados, especialmente
por gente de Tebas, e Lygdamis de Naxos, isto é, os Cavalheiros que
tinham em suas mãos o supremo poder de Etreria. Depois de sua
vitória na batalha de Pallene, apoderou-se de Atenas e, uma vez tendo
desarmado o povo, pôde finalmente ver triunfante sua tirania, o que
lhe permitiu a tomada de Naxos, estabelecendo Lygdamis como governante.
Para desarmar o povo serviu-se do seguinte expediente: ordenou que se
celebrasse uma parada no Teseu, à qual todos deviam comparecer armados,
iniciando a cerimônia com um discurso dirigido às massas. Falou
durante pouco tempo, até que os presentes declararam que não o podiam
ouvir. Então pediu-lhes que se dirigissem para a entrada da
Acrópole para que melhor lhe pudessem ouvir a voz. Entretanto, enquanto
continuava sua peroracão, que foi longa, uns homens, que tinham sido
designados para isso, recolheram a/S armas, encerrando-as nas câmaras do
Teseu, voltando após o cumprimento da tarefa, e fazendo um sinal para
dizer que estava tudo pronto. Quando Pisístrato acabou de dizer o que
precisava lhes comunicar, contou-lhes o ocorrido com as armas,
acrescentando que não se surpreendessem nem alarmassem, mas que apenas
voltassem às suas casas e se ocupassem com seus trabalhos habituais,
pois que dali em diante ele seria o encarregado de dirigir a
administração pública.

XV

Essa foi a origem, essas foram as vicissitudes da tirania de
Pisístrato.

Sua administração era feita, como já
dissemos mais como governo constitucional que tirânico. Não foi
apenas humanitário sob todos os aspectos, estando sempre pronto a
perdoar os que lhe ofendiam, mas estava, também sempre à
disposição de quem precisava, emprestando dinheiro aos necessitados
para ajudai-os em seus trabalhos, de modo que pudessem viver do labor dos
campos. Com isto propôs duas coisas: que não vivessem na cidade,
mas que se espalhassem pelos campos e que, gozando certo bem-estar e ocupados com
seus trabalhos, não perdessem tempo nem tentassem se intrometer nos
assuntos políticos.

Ao mesmo tempo, aumentou as rendas ao intensificar o cultivo
do país, visto como impôs a contribuição do
décimo sobre todas as classes de produtos. Por esta mesma razão
instituiu os juízos locais, efetuando freqüentes
expedições pessoais pelo país, para inspecionar e decidir
as discussões entre particulares, com o fim de que não tivessem
necessidade, para isso, de ir à cidade e de descuidar seus trabalhos.
Em uma destas excursões, segundo a historia, teve Pisístrato sua
aventura em Hymeto, onde se dedicavam a cultivar o lugar chamado, desde
então, Granja livre de impostos. Viu um homem que estava cavando e
trabalhando uma extensão de terreno muito pedregoso e, surpreendido por
tal coisa, mandou seu ajudante para perguntar que beneficio obtinha duma tal
espécie de terra. Dores e aborrecimentos, respondeu o homem,
acrescentando: também Pisístrato deve participar do décimo
sobre elas. O homem falava assim, ignorando quem era o seu interlocutor,
mas Pisístrato achou tão de seu agrado essa maneira franca de falar
seu ânimo decidido para o trabalho, que o dispensou de todo os impostos.
Desta maneira aliviava o peso de seu povo na medida do possível, quanto
ao modo de governá-lo, cultivando sempre a paz e conservando a
tranqüilidade. Dai o fato da tirania de Pisístrato ser chamada, com
freqüência, com as palavras proverbiais, de idade de ouro, porque
quando seus filhos o sucederam no governo, este tornou-se mais duro.
O mais importante no seu sistema de governar foi sua disposição
sempre em favor do povo. Observava as leis com rigor, sem fazer uso de
privilégios excepcionais. Uma vez que o citaram perante o Areópago,
acusando-o de homicídio, compareceu perante o tribunal, em pessoa,
para defender-se; o acusador teve temor em sustentar a acusação e
retirou-a. Por todas estas razões, teve em suas mãos o governo,
durante muito tempo, recuperando facilmente sua posição,
sempre que era expulso. A maioria, tanto entre as classes superiores, como
entre o povo, estava a seu favor; tornou-se simpático aos primeiros,
pelo seu trato social para com eles, e aos ultimas principalmente, pela ajuda
particular que lhes prestava de seus próprios bolsos, fazendo-se, assim,
estimado por ambos os grupos. Demais, as leis dos tiranos que estavam em vigor
em Atenas, eram muito suaves, particularmente a que mais especialmente  se aplicava ao estabelecimento da
tirania. A lei dizia: "Atenienses; se alguém intentar estabelecer a
tirania ou unir-se a outros com o mesmo fim, perderá seus direitos de
cidadania, tanto o cabeça como todos aqueles que o acompanhem".

XVI

Assim envelheceu Pisístrato, tendo em suas
mãos o poder; morrendo de morte natural durante o mandato do Arconte
Philoneu, trinta e dois anos depois de se ter proclamado tirano pela primeira
vez, tendo exercido o poder por espaço de dezenove anos e tendo passado
o resto, no desterro, nas diversas vezes em que foi expulso. Tal coisa
evidencia que a lenda de que Pisístrato era o jovem favorito de Sólon,
que mandava na guerra contra Mégara para recuperar Salamina, não
passa de simples fantasia. Aliás, isso não estaria de acordo com
suas respectivas idades, como podem comprovar os anos que cada um viveu e as
datas em que desapareceram do cenário público. Depois da morte de
Pisístrato, seus filhos tomaram a si os negócios do governo,
empregando o mesmo sistema de seu pai. Pisístrato deixou dois filhos de
sua primeira e legitima esposa: Hípias e Hiparco, e dois de sua consorte
Argiva, Jophon e Hegesístrato, que foi chamado Thessálio. Porque Pisístrato
tomou por esposa em Argos, uma mulher chamada Timonassa, filha de um
cidadão do lugar, chamado Gorgilo, e ela fosse, anteriormente, esposa de
Archino de Ambracia, um dos descendentes de Chipselo, isso deu origem à
sua amizade com os de Argos, motivo Por que, mil dentre eles, foram
traídos por Hegesístrato e lutaram a seu lado na batalha de
Pellene. Há autoridades que afirmam que seu enlace realizou-se depois de
sua expulsão de Atenas, dizendo outros que se deu quando ainda tinha o
governo em suas mãos.

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