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107.   A realidade como vivência.

Deu-se
um passo enorme, é verdade, comparado com a atitude de Locke. Esse passo enorme
consistiu em prosseguir com o psicologismo até desfazer a noção de substância
material e ficar com a de pura vivência ou pura percepção. Porém em Berkeley
resta ainda um resíduo substancialista. Berkeley nega a existência da
substância material; mas, em troca, afirma a existência da substância
espiritual. O eu me é conhecido por uma intuição direta. O cogito cartesiano
continua atuando perfeitamente na filosofia de Berkeley: eu sou uma coisa que
pensa, uma res cogitans, um espirito que tem vivências. Às minhas vivências não
corresponde nada fora delas; mas essas vivências são "minhas"
vivências, e eu sou uma substância que as tenho. Porém, como essas vivências revelam
ademais uma regularidade na sua passagem por minha mente, como se sucedem
escalonadamente, se entrelaçam umas com as outras, se escalonam, se explicam um
pouco umas com as outras; como constituem todo um conjunto de vivências
harmônico — que é o que chamamos o mundo — deve supor e suponho (à parte outros
fundamentos que são de caráter moral e religioso e que em Berkeley pesam muito,
mas que não podem entrar aqui em nossa discussão, que é puramente de teoria do
conhecimento e da metafísica), devo supor que, à parte esses outros, há
motivos suficientes para pôr agora a existência de um espírito que seja quem
ponha em mim todas essas vivências. Essas vivências não se põem em mim elas
sozinhas; pôe-as em mim Deus, que é puro espírito, como eu. E então poderia
pensar-se com razão que a filosofia de Berkeley é aquela que realiza com
máxima plenitude a palavra de São Paulo: nós vivemos, nos movemos e estamos em
Deus.

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