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108.   Hume.

Como
se percebe, resta um resíduo de metafísica cartesiana em Berkeley, que é a
substância pensante, o espírito e Deus. Esse resíduo de metafísica cartesiana
vamos vê-lo desaparecer como por magia diante dos formidáveis embates do
terceiro grande representante do empirismo inglês que é Hume. Assim como
Berkeley ataca o conceito de substância material que ainda restava sobrevivente
do cartesianismo na filosofia de Locke, do mesmo modo Hume vai atacar agora o
conceito de substância espiritual que restava ainda sobrevivente em Berkeley. E vai atacá-lo com a mesma arma: análise psicológica., psicologismo.

109.   Impressões e idéias.

Não
creio que possa haver nem exista leitura mais entretida, mais encantadora, que
a dos livros de Hume, do ponto de vista estritamente psicológico. A mestria
com que Hume toma um conceito, uma idéia qualquer e a disseca, a analisa, a
separa em partes, vai adjudicando a cada parte uma origem psicológica diferente
e desfaz uma   a uma até reduzi-las a nada, é algo admirável. Este método de análise
psicológica aplicado à experiência, lhe dá os resultados radicais que vamos
ver. Porque toda a filosofia de Hume pode ser definida por método. O método é
singelíssimo: consiste em retificar, precisar primeiramente a terminologia
psicológica dos seus antecessores, e com essa simples precisão da terminologia
psicológica dos seus antecessores chega Hume a equacionar com a maior
naturalidade o problema de toda análise psicológica. Hume chama
"impressões" aos fenômenos psíquicos atuais, às vivências de
apresentação atuais: eu agora tenho a impressão de verde. E chama idéias —
restringindo agora um pouco o sentido dessa palavra — aos fenômenos psíquicos
reproduzidos, às representações: eu, que tinha a impressão de verde, agora não
tenho mais a impressão de verde; mas penso nela, a relembro ou a imagino, e
então tenho a idéia de verde. De modo que temos impressões; mas temos muito
mais idéias do que impressões. As impressões que num momento determinado temos
são relativamente poucas comparadas com a porção de idéias que temos, já que
de cada impressão que em nossa vida recebemos, a pegada que ficou, e que eu
reproduzo mercê da memória ou da imaginação ou da associação de idéias,
constitui um cabedal de idéias muito mais numeroso que o de impressões, visto
que a impressão tem que ser atual. Já quando é relembrada não é impressão, mas
idéia. Pois bem: daqui se deduz clarissimamente o método analítico de Hume. As
impressões são o que nos é dado; não apresentam problema psicológico, nem
problema metafísico algum. As impressões constituem aquilo que me é dado,
aquilo que está aí; a última realidade é a impressão. Porém, as idéias apresentam
um problema, que é, a saber: de quais impressões procedem? Se uma idéia é
simples; se é, por exemplo, a lembrança do verde, essa lembrança do verde tem
a origem claríssima de ter eu recebido antes a autêntica impressão de verde.
Porém se a idéia é complexa, como a idéia de existência, a idéia de substância,
a idéia de causa, a idéia do eu; se é idéia complicada, quais sã,o as impressões
de que procede? Tomar essas idéias, analisá-las à procura da impressão da qual
procedem, será o procedimento que levará a efeito Hume. Que encontra a
impressão correspondente? Então a idéia tem já /seu passaporte legítimo; é uma
idéia que pode ser usada com toda tranqüilidade porque tem realidade, já que procede
de uma impressão sensível recebida por mim, é a reprodução de uma impressão
sensível Mas suponhamos que, por muito que se procure, não se encontre a
impressão correspondente a uma idéia. Pois então é uma idéia de contrabando,
uma idéia que não tem passaporte, uma Idéia que não se justifica; é uma ficção
imaginativa, talvez necessária, fundada talvez na lei psicológica de associação
de idéias; mas seria completamente injustificado pretender que lhe
correspondesse realidade alguma. Porque, como dizíamos antes, realidade para
Hume, é impressão. Uma idéia para a qual não se encontre a impressão da qual é
oriunda, é idéia que carece por completo de realidade.

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