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111.   O eu.

Porém
ainda há mais. Locke, depois de Descartes, e seguido por Berkeley, não duvidou
um instante da existência da substância eu. Mas examinemos que quer dizer o eu.
Descartes, ao dizer que o eu é uma intuição que eu tenho de mim mesmo, comete
um erro psicológico garrafal. Eu tenho a intuição de verde, de azul; tenho
intuição do _mêdo que sinto; tenho intuição da vivência que estou tendo, da
vivência de azul, da vivência de coragem, da vivência do esforço que estou
fazendo para falar ou escrever. Porém onde está a vivência que não seja
vivência de algo, mas vivência do eu? Olho-me a mim mesmo por dentro e encontro
uma série de vivências, mas nenhuma delas é o eu; muitas vivências, que se
sucedem repetidamente umas às outras, mas nenhuma delas é o eu. Cada uma delas
faz referência ao eu; digo: é "minha" vivência; porém vou ver nessa
vivência o que a vivência tem de mim e não encontro nada. Encontro verde, azul,
esforço; porém não me encontro a mim mesmo dentro dessa vivência, por muito que
analise e decomponha. Então tenho que concluir que à idéia "eu" não
corresponde nenhuma impressão; não procede de nenhuma impressão, é outra idéia
fictícia; é outra idéia feita por nós. Nós tomamos nossas vivências, fazemos
delas um feixe, e dizemos: isto é o eu; porém se olharmos o que há nesse feixe,
veremos que há muitas vivências, mas nenhuma dessas vivências é o eu, antes o
eu o acrescentamos nós caprichosamente. A substância pensante de Descartes, o
eu de Descartes, que fora respeitado ainda por Locke e por Berkeley, se
desvanece. Não há mais eu; não existe mais o eu.

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