A VOLTA DA FÁBULA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

Quando éramos crianças, queríamos viver no mundo maravilhoso em que os animais falavam. Fomos atendidos. Não da forma certa: escutando narrativas alegóricas que encerravam alguma lição no final. Mas da forma errada: convivendo com todo tipo de sons guturais emitidos pela falta de produção de pensamento. Essa comparação chega a ser uma injustiça aos animais, já que a ciência começa a notar o que todo mundo sabe: que os bichos pensam e sonham. E que suas linguagem são bem mais complexas do que imaginávamos.

Enquanto nos distraímos com a proliferação de equipamentos de uso veloz, a exclusão de Plutão do Olimpo planetário, e a falta de vacina para a malária, há um derrapar nas velhas fórmulas em plena era do conhecimento. Essa situação mantém atual a tese de Thomas Kuhn, o pensador alemão que escreveu livro clássico sobre as revoluções científicas: a de que a ciência se comporta de maneira obscurantista e só vai adiante quando a geração que defende o velho paradigma morre ou se aposenta. Ele cita Newton, que só foi aceito cem anos depois que suas revelações vieram à tona. Kuhn não é bem visto pelos seus pares, por motivos óbvios, mas sempre que vejo um documentário sobre animais dou-lhe razão.

Sob a capa científica, os documentários costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos já conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles estão apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, é para perpetuar a espécie. Toda manifestação de inteligência é forçosamente colocada no território lúgubre do instinto. O uso de ferramentas por parte dos chimpanzés, o gato que abre porta pulando sobre o trinco, ou o pássaro que acha o alimento driblando armadilhas, são acontecimentos que ainda não romperam definitivamente a casca do preconceito humano.

Mas isso está mudando, e graças à fábula. A Marcha dos Pingüins, por exemplo, nos diz o quanto podemos aprender sobre o comportamento dessas resistentes criaturas do deserto ártico, sem recorrer às certezas ditas científicas. Nesse premiado documentário de Luc Jacquet, os animais falam e expressam seus sentimentos enquanto as imagens reportam a tarefa praticamente impossível de procriar em ambiente tão hostil. A linguagem poética redime a aridez da trajetória de sacrifícios e coloca identidade em cada protagonista da história, enquanto destaca a importância fundamental do trabalho em grupo.

São várias as lições desta fábula premiada. Primeiro, a responsabilidade que implica o prazer do acasalamento. Segundo, a necessidade de compartilhar tarefas na difícil obra de gerar um descendente. Terceiro, a transcendência da passagem sobre a terra, que tem a ver com mistérios soberbos de um universo pautado pela grandeza. A admiração confessa do diretor pelo que os pingüins fazem repassa para o espectador, que assim fica mais confortado diante das dificuldades diárias.

Luc Jacquet assumiu que um documentário é apenas uma versão. Apostou no potencial de fábula que havia nas diversas marchas em direção à vida e à morte. E não nos engana com uma linguagem considerada científica. Ele optou pela poesia, não por ignorar as pesquisas (ele é biólogo), mas para poder enxergar melhor o que nos parece tão familiar.

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