ALICE ADULTA TROCA WONDERLAND PELO IMPÉRIO

abr 6th, 2010 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

Tim Burton projetou Alice in wonderland, seu mega sucesso deste início de ano, para a solução de um impasse: a menina que cresceu precisa revisitar suas fantasias para se jogar numa aventura maior, real e que esteja acima das representações da infância. É assim que ele mergulha no buraco de seu inconsciente para lembrar (fazer o balanço) do seu imaginário gerado pela orfandade, quando, ao perder o pai, o mundo virou pelo avesso e o absurdo tomou conta das cenas cotidianas.

Essa sessão psicanalítica nasce de uma fuga da mulher adulta que é pedida em casamento por alguém que ela detesta, um noivo que é a promessa de uma vida tranqüila e rica. Ela prefere navegar na lama do jardim atrás de um personagem animado, um coelho que fala e que a atrai novamente para o núcleo do conflito deixado para trás, sem resolução.

Esse conflito é uma luta do Bem, a rainha Branca, exilada pelo Mal, a rainha vermelha, a famosa que manda cortar cabeças. Trata-se de uma divisão entre a virtude e o pecado e a necessidade de reentronizar a virtude, derrubada por esse universo partido, inaugurado pela morte do pai. Sua participação no conflito é a mistura de História Sem Fim (1984), o clássico infantil alemão de Wolfgang Peterson (as viagens em cachorros gigantes voadores são idênticas) e filmes antigos de capa e espada, onde Alice vira um Errol Flyn misturado com Rainha Cristina, a Greta Garbo de vestes masculinas e de rosto impassível.

Ela conta com a ajuda de um pretendente, o Chapeleiro Louco, que á a transgressão usada para derrubar a rainha má, o mágico que a carrega para centro da arena. Feito o serviço, ela se livra desse outro noivo imaginário para colocar ordem no mundo real. Habitada por sua experiência, em que erradicou o pecado e o caos (não por acaso vermelho), colocando no seu lugar um reino harmônico e belo (não por acaso branco), ela parte para a definição dos papéis, dela mesma e de quem a rodeia.

É assim que se livra do pretendente rico e propõe uma investida colonial em terras distantes, assumindo a função abortada pela morte do pai, o da expansão do império colonial. Mas Alice vai extrapolar os planos antigos do pai morto, já que faz parte de uma novas geração, espichando as fronteiras da dominação britânica para os confins da China. Ela é o elemento que irá realizar essa ação pioneira, já que está livre das cartas marcadas do relacionamento previsível, o que seria um perigo para o Império, pois estagnaria. Ela parte para uma aventura de verdade, encarnando os princípios da dominação de sua civilização sobre o resto do mundo, por meio da navegação, do comércio e eventualmente da guerra.

Alice Kingsley já teve seu batismo de sangue ao derrotar o monstro em Wonderland. Foi ela quem cortou a cabeça do grande pesadelo que tinha se formado em sua vida. E se alimentou do seu sangue para voltar a si, ao buraco do jardim de onde tinha se enfiado. Tim Burton compõe essa metáfora da dominação, solucionando o pesadelo de Wonderland pela perspectiva da conquista de um mundo exótico, distante e lucrativo. Trata-se de uma artista a serviço da civilização que o gerou. Faz isso de forma consciente, usando um clássico da literatura, criado pela pedofilia platônica de um gênio da linguagem, Lewis Carrol, que inventou a história para as garotas que estavam aos seus cuidados.

Johnny Deep faz um Chapeleiro circense pós-moderno, que dança funk e tem um humor minimalista e cerebral. Mia Wasikowska faz uma Alice angelical, que fica nua ao crescer ou diminuir demais, colocando assim em risco suas virtudes ao experimentar drogas que a espicham ou a encolhem. Helena Bonham Carter, mulher de Tim Burton, onipresente em seus filmes, faz uma rainha má impressionável e, portanto, vulnerável. Sua queda do trono fica previsível, pois o espetáculo arma tudo para que o Mal perca a batalha.

Todos ficam felizes e vão para casa com os olhos cheios de efeitos visuais. Mas na essência, no núcleo vazio do espetáculo, que é a especialidade de Tim Burton, fica essa fidelidade ao poder dominador do império que é o seu berço. Ali, os estilhaços da linguagem são as ruínas da fantasia infantil que virou pesadelo e as frases contundentes no final são a nova cartilha que vai orientar as pessoas em suas novas responsabilidades.

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