LONGEVIDADE

fev 9th, 2011 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

Há fome de conhecimento, mas faltam mestres, pelo menos nos lugares certos. O cidadão se forma cheio de lacunas. Fica à mercê das manipulações. Saber liberta e costura um monte de coisas jogadas para o alto ou esquecidas. Releio um livro importante sobre o século 19 (“Exército na Política”, de John Schulz) e descubro, por exemplo, que a separação entre Igreja e Estado foi proposta pelos grandes fazendeiros de café, que precisavam importar mão-de-obra de países protestantes.

Também fiquei sabendo que o abolicionismo foi bandeira dos militares, que precisavam de forças armadas compostas por homens livres, não escravos. E também que os escravos foram abandonados pelos abolicionistas, que assumiram o poder um ano depois da Lei Áurea. Detalhes me enchem os olhos. Quando houve o golpe de Deodoro, o genro do Imperador, Conde D´Eu, e alguns militares fiéis queriam organizar a resistência, mas Dom Pedro II preferiu ficar lendo a suas revistas científicas.

Recém saído de uma longa enfermidade, que o tinha obrigado a ficar uma temporada na Europa, a majestade veterana deveria estar cansada de guerra e louco para se aposentar. Não poderia deixar o trono para a filha e o genro, pois teria de intervir a toda hora. Talvez tenha preferido se recolher, cruzar o oceano definitivamente e viver perto de seus parentes de sangue azul. Ou então se ressentiu da falta de gratidão de um país para o qual dedicou a vida inventando-o e que se voltava contra ele, depois de tantos benefícios.

A longevidade é a oportunidade de abrir mão do que sempre pautou nossas vidas. Selecionamos o que está mais próximo de nós. Deixamos de lado tudo o que exigiu um esforço além da conta. Para que insistir? Uma das paixões da terceira idade é exatamente revisitar o passado e descobrir o que sempre ignoramos, embora houvesse a ilusão de que sabemos o suficiente sobre determinados eventos e períodos.

A verdade é que desconhecemos tudo. E se nascemos acompanhados, pela mãe e o pessoal da maternidade, por uma questão de justiça morremos sós (jamais comparecemos ao nosso próprio funeral, pois entramos em outra). Fartos dos contemporâneos, sonhamos com um paraíso onde possamos folhear nossas revistas científicas, enquanto um novo regime se instala para aborrecer o país.

Crônica publicada no dia 18 de janeiro de 2011, no caderno Variedades, do Diário catarinense.

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