O VERDADEIRO TU

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas        

Nei Duclós

Há uma feérica busca pelo “verdadeiro eu”. Milhões de exemplares são vendidos por autores que acenam com a solução para tão candente tormento. Pessoas mergulham em cursos de auto-ajuda e exercícios zen-aeróbicos para livrar-se da casca das convenções sociais e assumir a própria identidade, soterrada em toneladas de cascalhos de indiferença e repressão. O resultado é que existe cada vez mais cultura psicanalítica das massas, todo mundo voltado para si mesmo, trafegando em mão única nas estradas perigosas da convivência múltipla.

Sabemos que esse esforço é inútil. Buscar o verdadeiro eu é perda de tempo. A máscara sempre encontrara um jeito de sobreviver. O que somos permanece um mistério abaixo ou acima de camadas de disfarce. No máximo se consegue formatar um novo personagem, com a desvantagem de ser exatamente igual ao do vizinho. Vemos então multidões de clones em demonstrações de força, como acontece nos megashows em que todos levam a latinha de cerveja ao bico ou gritam iuhú. Eles aparentam ter encontrado o verdadeiro eles: uma espécie de criatura em conexão com espumas mal-cheirosas e baticuns surtados.

A tragédia real é que, perdidas nesse exercício insano, as pessoas acabam fazendo o oposto e vão em busca do verdadeiro tu. O que vem a ser isso? No lugar de ir à cata de algo dentro de si, inalcançável, fica bem mais cômodo pesquisar a vida alheia. Basta escolher os alvos entre os ensimesmados grupos de egos em depressão. Convencê-los de que estão no caminho errado, que devem despertar o tesouro soterrado em almas perdidas. O objetivo é cavocar nos outros o que ficou exaustivo em nós. Vemos isso nos catequistas que batem à sua porta para salvá-lo. O pessoal da cientologia, com Tom Cruise e John Travolta à frente, também são do ramo. Buscam tus de verdade por toda a parte. Assumiram um ar de pastor demente, enquanto continuam fazendo filmes em que encarnam assassinos charmosos.

É fácil entendê-los. Buscaram embaixo do próprio tapete e se decepcionaram. Quem não se decepcionaria, se a aparência física fatura uma boa nota? Melhor mesmo é cutucar o que existe lá fora: pessoas não ungidas pela celebridade, ansiosas e trouxas. É mais divertido e não dói.

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