OTHON BASTOS, A GANA QUE ATIRA

maio 29th, 2005 | Por | Categoria: Cinema        

Nei Duclós

A elite gera seus clones para manter-se, e encontra farta matéria-prima do seu endêmico autoritarismo no povo brasileiro. Em Othon Bastos, o Brasil pobre e mestiço que assume o exercício da repressão e da intolerância costuma ser punido. O pé rapado que consegue, por meio da agiotagem e da crueldade, tornar-se proprietário de terras em São Bernardo, de Leon Hirzmann, fica só no meio do nada. O pai que interna o filho no manicômio público em O Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodansky, acaba o filme chorando ao lado do filho catatônico, destruído pelas internações e os falsos médicos. O cangaceiro Corisco, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que quer matar o povo para privá-lo da fome, é dilacerado pela loucura da miséria e da dupla identidade.

Othon Bastos é, em A Hora Marcada, de Marcelo Taranto, o milionário que presta contas de suas falcatruas ao visitar o inferno. Othon Bastos é o Mal – o Brasil repressor e rico, em oposição ao Bem – o Brasil oprimido e pobre.

Ao contrário de Lima Duarte, que pune a ingenuidade popular por meio da caricatura – onde encarna o desprezo intelectual pelo que o povo deixa de fazer (Sassá Mutema, Zé Bigorna) -, Othon Bastos assume a natureza da opressão que garroteia o povo dentro do povo.

Othon Bastos é a alma dilacerada pela culpa por ter assumido o instrumento que faz doer, o martelo que fecha o caixão, a pá de cal. Seu desespero é a visão do Irremediável e sua atuação expõe o Mal por meio da consciência do espectador.

Lima Duarte é a consagração do que a elite precisa fazer, é a constatação do que o povo é, uma essência provisória tornada definitiva pela determinação do ator. Lima Duarte tem certeza que o povo nunca deixa de ser o que é, e que sua performance lança luz sobre essa maldição. É uma atuação sem esperança. O que faz é chumbar em praça pública o Zé das Couves que jamais deixa de lado o que determinaram para ele.

Já Othon Bastos, por escolher outro caminho da denúncia, arranca de si a transfiguração dos papéis, portanto sua superação. Seu Corisco enfrenta o espectador no que ele tem de falso, convoca o público (persona do povo que recria na tela) para uma guerra sem fim, em direção à maturidade da nação. Seu Senador Feitosa em Mauá, o Imperador e o Rei, de Sérgio Rezende, é o gesto amarrado vociferando contra a ação, é a âncora reacionária, é o fuzilamento do progresso. Seu pai repressor de O Bicho de Sete Cabeças é a tragédia das certezas.

Por isso Othon Bastos é o ator maior do Brasil (posição que divide com Miguel Ramos, veterano que de tempos em tempos reestréia no cinema, no teatro ou na TV, e aos poucos ocupa o lugar que lhe é de direito) . Othon aponta para um futuro cravado de guerras intermináveis, mas necessárias, e por seu inconformismo diante da herança fechada de uma elite pequena, mas poderosa. Ele tornou-se  insuperável e sua gana é a metralhadora que gira na nossa cabeça durante e depois de cada filme. Seu trabalho parece ser apenas talento, mas no fundo é missão e destino.

Deixar comentário