{"id":1313,"date":"2009-12-18T22:05:14","date_gmt":"2009-12-19T00:05:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?page_id=1313"},"modified":"2010-09-01T02:47:44","modified_gmt":"2010-09-01T05:47:44","slug":"no-meio-da-rua","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/livros-publicados\/no-meio-da-rua","title":{"rendered":"No meio da rua"},"content":{"rendered":"<style type=\"text\/css\">\n<p> body { font:10.00pt \"Courier New\", serif; }<\/p>\n<\/style>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/raposomontagem3.jpg\"  alt=\"foto de Ida Ducl\u00f3s\" \/><br \/>\n  <b>N<\/b>o Meio da Rua \u00e9 a luta diante do desamparo, a poesia do migrante vindo do interior que enfrenta a barreira das grandes cidades. Dedicado a tr\u00eas amigos mortos &#8211; Gilberto Gick, Luis Holderbaum e Dorival Pacheco &#8211; e aos meus pais, foi lan\u00e7ado na \u00e9poca da anistia (1980), quando era preciso apagar o passado para sobreviver. Os poemas do livro comp\u00f5em o terreno de um balan\u00e7o e de uma arrancada, fundada na espreita, na tocaia e na esperan\u00e7a. Por especial intermedia\u00e7\u00e3o de Juarez Fonseca, o amigo generoso que inventa livros e autores, o poeta Mario Quintana se disp\u00f4s a escrever o pref\u00e1cio, confirmando assim sua boa impress\u00e3o que meu livro anterior, &quot;Outubro&quot;, tinha nele despertado (e que provocou &quot;o maior elogio&quot; da minha vida, segundo avalia\u00e7\u00e3o de Caio Fernando Abreu, ou seja , a inclus\u00e3o, feita por M\u00e1rio, do meu nome entre os quatro melhores poetas do Rio Grande do Sul &#8211; junto com Carlos Nejar, Armindo Trevisan e Walmir Ayala &#8211; elogio publicado no Correio do Povo, de Porto Alegre). <\/p>\n<h2><b>Pref\u00e1cio de M\u00e1rio Quintana<\/b>:<\/h2>\n<p><img src=\"http:\/\/unisinos.br\/blog\/biblioteca\/files\/2008\/12\/mario-quintana.jpg\" alt=\"mario quintana\" align=\"left\" \/><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Muitos pensam que quem faz um pref\u00e1cio est\u00e1 se dando ares. Pois eu estou \u00e9 tomando ares no meio   da rua de  Nei Ducl\u00f3s, que \u00e9 esta mesma rua de todos, t\u00e3o polu\u00edda mas t\u00e3o salutarmente viva de   gentes e de cartazes reivindicat\u00f3rios.    \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0O primeiro poema que li, de Nei, assim come\u00e7ava: &quot;Olhem o animal da palavra&quot;. Era eu. No tempo em que ele o  publicou n\u00e3o pude agradecer-lhe. Pois foi quando se dera na Europa e nas Am\u00e9ricas aquele hist\u00f3rico e s\u00fabito  movimento de maturidade e independ\u00eancia dos jovens &#8211; os quais se apresentavam de longas barbas, n\u00e3o para  imitarem seus venerandos av\u00f3s, mas sim, creio eu, numa esp\u00e9cie de reencarna\u00e7\u00e3o do homem das cavernas -, visto  que era preciso recome\u00e7ar tudo. Ora, como eu ia dizendo, n\u00e3o pude agradecer pessoalmente ao poeta, pois jamais   conseguia diferen\u00e7ar um barbudinho de outro. Sei que agora ele est\u00e1 barbilampinho. Mas noutra cidade, onde diz  coisas assim: <\/p>\n<div align=\"center\">&quot;N\u00e3o posso deixar de trair  \t\t\t\t\t   o meu sossego&quot;. <\/div>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Eu j\u00e1 ia citando outros versos, mas pergunto-me por qu\u00ea ou para qu\u00ea. Ningu\u00e9m gosta que o   levem pelo bra\u00e7o,  apontando-lhe o que h\u00e1 para ver. Esses encontros, especialmente os consigo mesmo, devem ficar por conta do leitor.      E depois, quem \u00e9 que l\u00ea pref\u00e1cios?<\/p>\n<h2>Apresenta\u00e7\u00e3o de Juarez Fonseca.<\/h2>\n<p>O mais expressivo e consistente poeta da nova (!?) gera\u00e7\u00e3o ga\u00facha, Nei Ducl\u00f3s (Uruguaiana,1948), representa   muito bem o esp\u00edrito contradit\u00f3rio, a consci\u00eancia n\u00f4made, a fisionomia, primeiro esperan\u00e7osa e mais tarde amarga,   dos jovens que presenciaram o passar dos \u00faltimos dez (ou quinze) anos no Brasil e no mundo. Que presenciaram,   isto \u00e9 importante, sabendo do que se tratava, do que se estava falando: divirtam-se e calem-se. N\u00e3o se pode negar  que Nei tamb\u00e9m divertiu-se. Mas foi um dos que n\u00e3o aceitou a determina\u00e7\u00e3o de calar-se. Jornalista por profiss\u00e3o e   poeta por natureza, ele poderia responder, aos que acham que poesia-n\u00e3o-adianta, com um poema e um s\u00f4co no  est\u00f4mago. Poesia adianta, sim. Porque o poeta relata um tempo. Em Outubro, 75, um tempo. Neste No Meio da Rua,  outro tempo. Mas ambos o nosso tempo, o tempo dos que souberam do que realmente se tratava. Dos que  vacilaram mas odiaram sua hesita\u00e7\u00e3o diante da pergunta &quot;Voc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?&quot;. E d\u00e1 pra citar tanto   Chico, &quot;chame o ladr\u00e3o!&quot;, quanto Dylan, &quot;est\u00e1 tudo bem, m\u00e3e, estou apenas sangrando&quot;  Poesia, meu velho, n\u00e3o \u00e9  pra qualquer um, mas \u00e9 pra todos. E o poeta \u00e9 um bicho comum mas exc\u00eantrico&quot;, sim, porque, imaginem: um tipo que   n\u00e3o pode n\u00e3o fazer poesia!&#8230;O poeta de verdade faz poesia mais por impuls\u00e3o e inevitabilidade, do que por um mero   &quot;prazer liter\u00e1rio&quot;. Nei Ducl\u00f3s \u00e9 um poeta de verdade. (1980) <\/p>\n<h2>Poemas Selecionados de No Meio da Rua de Nei Ducl\u00f3s, L&amp;PM editores<\/h2>\n<p><img src=\"http:\/\/photos1.blogger.com\/img\/283\/2285\/320\/capanomeiodarua.jpg\" style=\"float:left;\" \/> &nbsp;<\/p>\n<h2><b><a  name=\"poema1\" id=\"poema1\">Portal<\/a><\/b><\/h2>\n<p>A porta abriu, aconteceu o milagre<br \/>\num p\u00e9 no portal, um passo grave<br \/>\nolho no temporal, corpo e viagem\n<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fotospassageiro4.jpg\" border=\"0\" style=\"float:right;\"><BR\/><\/p>\n<h2><a name=\"poema2\" id=\"poema2\"><b>Cais<\/b><\/a> <\/h2>\n<p>  O passageiro n\u00e3o perde a vez de partir <br \/>\n  e parte <br \/>\n  pois \u00e9 tarde <br \/>\n  Este cais apodreceu as cordas <br \/>\n  que soltam a sua carne <\/p>\n<p>  Os bares silenciam <br \/>\n  a mem\u00f3ria \u00e9 uma cadeira que ringe <br \/>\n  como um cofre de vime<br \/>\n  (o que passou n\u00e3o \u00e9 sonho <br \/>\n  \u00e9 desafio) <\/p>\n<p>  De p\u00e9, a m\u00e3o na vista <br \/>\n  ele toca o horizonte com a saliva <br \/>\n  Sua boca guarda um aviso <br \/>\n  (o tempo \u00e9 um susto, uma v\u00edbora) <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fotospassageiro5.jpg\" border=\"0\" style=\"float:right;\" alt=\"foto de Ida Ducl\u00f3s\"\/ ><\/p>\n<h2><a name=\"poema3\" id=\"poema3\"><b>Os esquemas do passageiro<\/b><\/a> <br \/>\n<\/h2>\n<p>\n  Os esquemas do passageiro <br \/>\n  s\u00e3o espirais <br \/>\n  ele entra na roda <br \/>\n  mas sempre sai <\/p>\n<p>  O passageiro n\u00e3o perde a no\u00e7\u00e3o do cais <\/p>\n<p>  Nem perde a volta <br \/>\n  que faz <br \/>\n  nem pousa <br \/>\n  pra descansar <\/p>\n<p>  <img alt=\"foto de Ida Ducl\u00f3s\" \nsrc=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fotospassageiro2.jpg\" \nborder=\"0\" style=\"float:right;\"><br \/>\n  O passageiro n\u00e3o perde a no\u00e7\u00e3o do mar <\/p>\n<h2><a name=\"poema4\" id=\"poema4\"><b>An\u00f4nimo<\/b><\/a><\/h2>\n<p>  O passageiro \u00e9 an\u00f4nimo an\u00f4nimo, an\u00f4nimo <br \/>\n  passa pelos homens <br \/>\n  passa pelos \u00f4nibus <\/p>\n<p>  mas n\u00e3o passa pelos lobos <br \/>\n  pelo fogo das barreiras<br \/>\n  quando procuram seu nome<br \/>\n  no fundo da bolsa <\/p>\n<p>  Com as m\u00e3os no pesco\u00e7o <br \/>\n  o passageiro se encontra <\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fotospassageiro6.jpg\" border=\"0\" style=\"float:right;\" alt=\"foto de Ida Ducl\u00f3s\" >&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"nomeiodarua\" id=\"nomeiodarua\"><b>No meio da rua<\/b><\/a> <br \/>\n<\/h2>\n<p>\n  A casa do passageiro <br \/>\n  \u00e9 o meio da rua <br \/>\n  por isso esse ar de loucura <\/p>\n<p>  por isso esse andar <br \/>\n  de banda. essa voz <br \/>\n  que inflama. esse olhar <br \/>\n  de lua <\/p>\n<p>  por isso essa dor que <br \/>\n  n\u00e3o recua <\/p>\n<p>  A cama do passageiro <br \/>\n  \u00e9 o amor de campanha: <br \/>\n  armar o dia <br \/>\n  manter o fogo <br \/>\n  cobrir a fuga <\/p>\n<p>  por isso esse chamado <br \/>\n  quando passa adiante <br \/>\n  essa vontade <br \/>\n  que algu\u00e9m lhe acompanhe <\/p>\n<p>  O medo do passageiro <br \/>\n  \u00e9 sentir-se um estranho <br \/>\n  por isso sorri <br \/>\n  enquanto morre de fome <\/p>\n<p>  (ele nasceu, teve um sonho <br \/>\n  mas o caminho, longo demais <br \/>\n  lhe rouba o sangue) <\/p>\n<p>  No meio da rua<br \/>\n  o cora\u00e7\u00e3o do passageiro <br \/>\n  bate o o bumbo <\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/fotospassageiro3.jpg\" border=\"0\" alt=\"foto de Ida Ducl\u00f3s\" \/><\/p>\n<h2>\n  <a name=\"poema5\" id=\"poema5\"><b>Abismo<\/b><\/a> <\/h2>\n<p>  Nada prende o passageiro <br \/>\n  e seu abismo de espelhos <br \/>\n  onde reflete o destino <br \/>\n  do tempo <\/p>\n<p>  Nada esconde o passageiro <br \/>\n  e sua cabe\u00e7a de estrelas <br \/>\n  onde guarda bagagens <br \/>\n  e vento <\/p>\n<p>  Nada espera o passageiro <br \/>\n  no seu caminho de espanto <br \/>\n  onde encontra a perdi\u00e7\u00e3o <br \/>\n  e o pranto <\/p>\n<p>  Nada perde o passageiro <br \/>\n  com sua coragem sem bolso <br \/>\n  onde enfrenta paredes <br \/>\n  e fogo <\/p>\n<p>  Nada parte o passageiro <br \/>\n  com sua arte de encontros <br \/>\n  onde inaugura cidades <br \/>\n  e sonho<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"poema6\" id=\"poema6\"><b>Cedo demais<\/b><\/a> <\/h2>\n<p>\ncedo demais o caminho se dissolve <br \/>\ne uma cidade doida te consome <\/p>\n<p>cedo demais o passageiro tomba <br \/>\ne as promessas feitas em seu nome? <\/p>\n<p>cedo demais cessam os tambores <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"poema7\" id=\"poema7\"><b>Fome<\/b><\/a><\/h2>\n<p>nesta cidade sacana <br \/>\nminha fome procura uma porta <br \/>\nminha voz \u00e9 uma fonte com sede <br \/>\nmeu sonho \u00e9 um pastor que se mata <\/p>\n<p>estou sobrando. <br \/>\nem volta, o sil\u00eancio <br \/>\nmontando guarda <\/p>\n<p>nesta cidade medonha <br \/>\nest\u00e3o preparando <br \/>\nmeu tombo na pr\u00f3xima quadra <br \/>\ne a minha vergonha <br \/>\n\u00e9 ainda n\u00e3o ter uma arma <b\/><\/p>\n<h2><a name=\"poema8\" id=\"poema8\"><b>Cinza \u00e9 o nome da cidade<\/b><\/a> <br \/>\n<\/h2>\n<p>\n  Cinza \u00e9 o nome da cidade <br \/>\n  apesar do claro <br \/>\n  que me abriu na alma <\/p>\n<p>  Pedra \u00e9 a cor da cidade <br \/>\n  onde apreendi <br \/>\n  a ser leve <\/p>\n<p>  Dor \u00e9 a vida na cidade <br \/>\n  porque chegar ao sol <br \/>\n  \u00e9 atravessar espadas <\/p>\n<p>  Frio \u00e9 o corpo da cidade <br \/>\n  mas ele guarda <br \/>\n  um abra\u00e7o <\/p>\n<p>  Morte \u00e9 a lei na cidade <br \/>\n  que me fez marginal <br \/>\n  e renovado <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Meio da Rua \u00e9 a luta diante do desamparo, a poesia do migrante vindo do interior que enfrenta a barreira das grandes cidades. Dedicado a tr\u00eas amigos mortos &#8211; Gilberto Gick, Luis Holderbaum e Dorival Pacheco &#8211; e aos meus pais, foi lan\u00e7ado na \u00e9poca da anistia (1980), quando era preciso apagar o passado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":1327,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1313"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1313"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2265,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1313\/revisions\/2265"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}