{"id":1315,"date":"2009-12-18T22:05:49","date_gmt":"2009-12-19T00:05:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?page_id=1315"},"modified":"2009-12-18T22:05:49","modified_gmt":"2009-12-19T00:05:49","slug":"novos-poemas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/novos-poemas","title":{"rendered":"Novos Poemas"},"content":{"rendered":"<div style=\"background-color: rgb(253, 250, 223);\">\n<p>Depois de terminar No Mar, Veremos, dediquei-me a poemas que procuram fugir do eu que<br \/>\n    gerou meus livros anteriores de poesia. Utilizando recursos da dramaturgia, enveredei pela cria\u00e7\u00e3o incorporando outros personagens, n\u00e3o mais o viajante que faz o caminho ao andar. Estranhamente, nasceram poemas escuros, talvez refletindo o Pa\u00eds em guerra de exterm\u00ednio contra a esperan\u00e7a. Mas, ao mesmo tempo, ao usar a m\u00e1scara pesada do fim dos tempos, a linguagem carregada(com poder) \u00e9, em si, sinal de purga\u00e7\u00e3o e busca de sa\u00eddas. Mergulhar na penumbra da fria caverna o\u00adnde a cria\u00e7\u00e3o se meteu nos \u00faltimos anos, acredito, \u00e9 um modo de reconhecer novos terrenos, de revirar caminhos, de resgatar a luz que nos escapa. S\u00e3o esbo\u00e7os de mais um livro, por enquanto confinado na gaveta. Algumas dessas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\n    coloco agora na roda, em busca de novos\/antigos leitores. *<\/p>\n<p>POEMAS DE NEI DUCL\u00d3S<br \/>\n    (IN\u00c9DITOS)<\/p>\n<p><strong>VERANICO<\/strong><\/p>\n<p>maio se despede com o tempo em brasa<br \/>\n    \u00faltimo aceno do ver\u00e3o, tardia praia<\/p>\n<p>    pren\u00fancio do frio temido pela alma<br \/>\n    (ex\u00edlio juvenil de sombrias mem\u00f3rias)<\/p>\n<p>    nuvens rondam gargalhando sombras<br \/>\n    o sol \u00e9 morma\u00e7o feito de p\u00f3<\/p>\n<p>    maio amortece as marcas do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n    p\u00e1lida tr\u00e9gua de uma perdida guerra<\/p>\n<p>  <strong><\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/>\n    MARTE<\/strong><\/p>\n<p>Levantou<br \/>\n    porque n\u00e3o havia mais espa\u00e7o<br \/>\n    Suspirou<br \/>\n    porque a manh\u00e3 n\u00e3o abre<\/p>\n<p>    Caminhou<br \/>\n    em dire\u00e7\u00e3o a Marte<\/p>\n<p>    Porque no quarto<br \/>\n    a vida j\u00e1 secou<\/p>\n<p><strong><br \/>\n    TR\u00c9GUA<\/strong><\/p>\n<p>Quem fala em amor numa noite dessas<br \/>\n    quando o tempo morre no horizonte<\/p>\n<p>    Quem fala em amor que te apedreje<br \/>\n    porque a pedra afagou antes da m\u00e1goa<\/p>\n<p>    Qualquer amor serve de alimento<br \/>\n    qualquer frase de amor, qualquer fermento<br \/>\n    faz crescer o p\u00e3o inaugurando a tr\u00e9gua<\/p>\n<p>\n    <strong>AVESSO<\/strong><\/p>\n<p>Agora que a face do sol sem<br \/>\n    brilho acorda a face oculta<br \/>\n    de deus virado pelo avesso <\/p>\n<p>    um soneto faz o inverso do<br \/>\n    insepulto <br \/>\n    caminho, dando troco em moeda<br \/>\n    morta em cora\u00e7\u00e3o de vime<\/p>\n<p>\n    <strong>P\u00c1SSARO<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 breve o p\u00e1ssaro<br \/>\n    que ofusca a treva<\/p>\n<p>    Obscura flor<br \/>\n    da ante-manh\u00e3<\/p>\n<p>    que resiste ao sol<br \/>\n    cobrindo negra n\u00e9voa<\/p>\n<p>Por um instante o v\u00f4o<br \/>\n    pousa o turvo manto<\/p>\n<p>    um rel\u00e2mpago faz <br \/>\n    o corpo estremecer<\/p>\n<p>    mas vence o v\u00e9u da vi\u00fava <br \/>\n    e tudo tarda <\/p>\n<p>Por isso o p\u00e1ssaro<br \/>\n    esconde o canto<\/p>\n<p>    assustado com a<br \/>\n    mudez do sono<\/p>\n<p>\n    <strong>VALSA<\/strong><\/p>\n<p>Nenhum ru\u00eddo denuncia o pr\u00f3ximo arco-\u00edris<br \/>\n    que voc\u00ea constr\u00f3i como catedral de cartas<\/p>\n<p>    Ainda n\u00e3o surgiu o sol com sua carga<br \/>\n    para indispor teu rosto com o espelho<\/p>\n<p>Limpas o p\u00f3 da arma exposta em pe\u00e7as<br \/>\n    arsenal de uma guerra ainda em curso<\/p>\n<p>Algu\u00e9m bate na janela. \u00c9 a loucura<br \/>\n    Vampira de sonho, sopra uma valsa<\/p>\n<p>Voc\u00ea nem levantou e j\u00e1 est\u00e1 alto<br \/>\n    o som imagin\u00e1rio de uma aldrava<\/p>\n<p>Um soneto te espia. Des\u00e7a da cama.<br \/>\n    Venha ver a manh\u00e3 tossindo a alma<\/p>\n<p>\n    <strong>FUZIL<\/strong><\/p>\n<p>Semeias passos como s\u00f3rdidos cereais<br \/>\n    pela casa desde sempre abandonada<\/p>\n<p>Em volta do quintal ronda o impasse<br \/>\n    que o tempo tece entre brilho e breu<\/p>\n<p>Tocas teu rosto e o gesto escasso<br \/>\n    rompe teu despertar da morbidez<\/p>\n<p>Talvez haja ainda fogo&#8230;mas o horror<br \/>\n    te abate em surdo baque de fuzil<\/p>\n<p>Est\u00e1s na retaguarda. Quem engatilhou<br \/>\n    a l\u00e1grima antes do soldado?<\/p>\n<p>\n    <strong>CAF\u00c9<\/strong><\/p>\n<p>A pressa do caf\u00e9 mancha o sapato<br \/>\n    o trigo tardio quebra no m\u00e1rmore<\/p>\n<p>Voc\u00ea quer ser o banho e <br \/>\n    esvair o sangue descorado<\/p>\n<p>Mas osso faz barulho, e carne<br \/>\n    \u00e9 solo firme para o tr\u00e1gico<\/p>\n<p>\u00c9 cedo ainda. O p\u00ealo da pantera<br \/>\n    espera a dor sacar a espada <\/p>\n<p>\n    <strong>LETRA<\/strong><\/p>\n<p>Talvez<br \/>\n    escrevendo<br \/>\n    alguma coisa amanhe\u00e7a<\/p>\n<p>Talvez<br \/>\n    o poema<br \/>\n    desperte o p\u00e1ssaro<\/p>\n<p>Talvez<br \/>\n    a palavra<br \/>\n    te incendeie<\/p>\n<p>Talvez<br \/>\n    a s\u00edlaba<br \/>\n    grite<\/p>\n<p>Talvez<br \/>\n    a letra<br \/>\n    crua<\/p>\n<p>Talvez<br \/>\n    soletrando<br \/>\n    amor a noite se despe\u00e7a<\/p>\n<p><strong><br \/>\n    LEMBRAN\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p>Eu lembro de tudo: tijolo velho formando muro<br \/>\n    livros empilhando altura no escrit\u00f3rio<br \/>\n    praia de rio turvo com pai de \u00e1gua no peito<\/p>\n<p>Eu lembro de tudo: poesia provocando riso<br \/>\n    (Lembran\u00e7a de um amor faz ru\u00eddo de saia)<\/p>\n<p>\n    <strong>PIANO EM QUEDA<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea acorda com Deus<br \/>\n    dormindo \u00e0 sua porta<\/p>\n<p>Voc\u00ea amarga a p\u00e1lida<br \/>\n    cor do corpo em brasa<\/p>\n<p>Voc\u00ea afaga o rugir<br \/>\n    do rum em sua boca<\/p>\n<p>Voc\u00ea amassa a seda<br \/>\n    p\u00farpura em sua perna<\/p>\n<p>Quem \u00e9 voc\u00ea? solid\u00e3o<br \/>\n    na voz esfarelada<\/p>\n<p>piano em queda sobre<br \/>\n    a sombra de algu\u00e9m<\/p>\n<p>dormindo, indiferente<br \/>\n    no portal da casa<\/p>\n<p>\n    <strong>\u00c9 BOM O MAR<\/strong> <br \/>\n  \u00c9 bom o mar<br \/>\n  n\u00e3o ter dono<br \/>\n  N\u00e3o ser potro<br \/>\n  nem mordomo<br \/>\n  Poder engolir<br \/>\n  Netuno<br \/>\n  Espumar sal<br \/>\n  das esferas<br \/>\n  Ningu\u00e9m pasta<br \/>\n  no seu dorso<br \/>\n  Nenhum n\u00f3<br \/>\n  ata sua vela<br \/>\n  G\u00e1vea que traz<br \/>\n  no bojo<br \/>\n  B\u00f3ia que a flor<br \/>\n  navega<br \/>\n  Como repasto<br \/>\n  de pedra<br \/>\n  Como fermento<br \/>\n  de estrela<br \/>\n  S\u00e3o peixes<br \/>\n  fora do espelho<br \/>\n  S\u00e3o aves<br \/>\n  em assembl\u00e9ia<br \/>\n  O bom do mar<br \/>\n  \u00e9 que dan\u00e7am<br \/>\n  numa vol\u00fapia<br \/>\n  serena<br \/>\n  os versos feitos<br \/>\n  por anjos<br \/>\n  que estudam<br \/>\n  com muito esmero<br \/>\n  o mar, esse Deus<br \/>\n  travesso<br \/>\n  que se bobear<br \/>\n  pega praia<\/p>\n<p>\n    <strong>SOLDADO, LAVRADOR, POETA<\/strong> <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m gosta de partir sem deixar marca <br \/>\n    Coloquei ferro no gado e azeitei armas <br \/>\n    Parti menino com um canh\u00e3o no ombro <br \/>\n    Vi generais fugirem a cavalo pelo barro <br \/>\n    E soldados trocarem de farda em plena luta <br \/>\n    Vi bandeiras demais e a gritaria me cansou <br \/>\n    Voltei para ver minha m\u00e3e que l\u00e1 estava <br \/>\n    Cuidando das crian\u00e7as e da terra <br \/>\n    Apareci com barba ainda rala, mas antigo <br \/>\n    E decidi ficar para consertar a cerca <\/p>\n<p>Ningu\u00e9m gosta de ficar sem uma bala <br \/>\n    \u00c0 noite eu perdi o sono ouvindo passos <br \/>\n    Eram javalis de palha, roendo aldravas <br \/>\n    As palavras me escapavam como a \u00e1gua <br \/>\n    Percebi que havia um morro derrubado <br \/>\n    E fui tirar satisfa\u00e7\u00f5es no povoado <br \/>\n    Fui ent\u00e3o atirado numa vala, porque bebi <br \/>\n    E n\u00e3o sabia distinguir mais nada <\/p>\n<p>Voltei a p\u00e9, contando os passos <br \/>\n    Recebeu-me Luiza, aquela que n\u00e3o fala <br \/>\n    Levou-me ao catre e interrompeu a faina <br \/>\n    S\u00f3 para me colocar o corpo enxuto e claro <br \/>\n    Casei por um motivo nobre, o amor veio depois <br \/>\n    Quando ela me deu filhos e pude ent\u00e3o ver Deus <\/p>\n<p>S\u00f3 fiquei intrigado um dia quando uma tropa <br \/>\n    que eu vi morrer voltou cruzando o t\u00fanel <br \/>\n    Os fuzileiros vieram morder meus calcanhares <br \/>\n    Mas eu n\u00e3o dei a ordem que os levou para a tumba <br \/>\n    Um c\u00e3o me farejava, quis rasgar minha alma <br \/>\n    Fui para dentro de casa e pela primeira vez rezei <br \/>\n    Na manh\u00e3 seguinte a chuva inundou a colheita <br \/>\n    E vi-me pobre novamente <\/p>\n<p>Agora vou de novo para a guerra <br \/>\n    Nenhum general vai fugir, n\u00e3o vou deixar <br \/>\n    Voltarei com esp\u00f3lio, voltarei com prata <br \/>\n    Quero semear o trigo o\u00adnde hoje h\u00e1 pedra <br \/>\n    Venham me dizer que n\u00e3o devo partir <br \/>\n    Ningu\u00e9m gosta de viver sem cravar a lan\u00e7a <br \/>\n    E fazer um sulco na prov\u00edncia morta <\/p>\n<p>Sou soldado, lavrador, poeta <br \/>\n    Tentem me tirar o sono, estarei alerta <br \/>\n    Ainda parto em dois essa quimera <br \/>\n    que fustiga a janela feito musa <br \/>\n    Sou o duro amor que peita o inverno <br \/>\n    N\u00e3o fa\u00e7o flor nem fruto, fa\u00e7o trigo <br \/>\n    Vendo no mercado o que liberta <\/p>\n<p>\n    <strong>AMOR AOS POUCOS<\/strong> <\/p>\n<p>Poucas pessoas conhe\u00e7o <br \/>\n    com amor no endere\u00e7o <\/p>\n<p>Poucas pessoas se lembram <br \/>\n    do amor dobrado no len\u00e7o <\/p>\n<p>Poucas pessoas confessam <br \/>\n    o amor que j\u00e1 fez estrago <\/p>\n<p>Poucas pessoas receitam <br \/>\n    aquele amor sem rem\u00e9dio <\/p>\n<p>Poucas pessoas ag\u00fcentam <br \/>\n    quando o amor estremece <\/p>\n<p>Poucas pessoas enxergam <br \/>\n    o amor de quebra no espelho <\/p>\n<p>Poucas pessoas conservam <br \/>\n    O beijo do amor ardente <\/p>\n<p>Poucas pessoas entendem <br \/>\n    a carta que o amor deixa <\/p>\n<p>Poucas pessoas conseguem <br \/>\n    Nenhuma delas esque\u00e7o<\/p>\n<p>* Os poemas Can\u00e7\u00e3o dos<br \/>\n    Anjos Exaustos, Letra, e Valsa sa\u00edram publicados na Antologia do Sul &#8211; Poetas Contempor\u00e2neos do Rio Grande do Sul, Dilan Camargo (org).Porto Alegre, 2002<\/p>\n<p>\u00a9 Nei Ducl\u00f3s &#8211; todos<br \/>\n    os direitos reservados<\/p>\n<p>\n  <\/p>\n<p>\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>\n  <\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de terminar No Mar, Veremos, dediquei-me a poemas que procuram fugir do eu que gerou meus livros anteriores de poesia. 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