{"id":1001,"date":"2009-12-14T02:22:05","date_gmt":"2009-12-14T04:22:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1001"},"modified":"2009-12-21T00:46:11","modified_gmt":"2009-12-21T02:46:11","slug":"duas-vezes-lina-bo-bardi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/duas-vezes-lina-bo-bardi","title":{"rendered":"DUAS VEZES LINA BO BARDI"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada \u00e0s palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma s\u00f3 que era g\u00eanio. O nome dela \u00e9 Lina Bo Bardi. Foram dois momentos. Um, quando inaugurou o Sesc Pomp\u00e9ia, o espa\u00e7o deslumbrante de espet\u00e1culo que a grande arquiteta implantou em S\u00e3o Paulo e que impacta a cultura do pa\u00eds por ser m\u00faltiplo, grandioso, fin\u00edssimo, original e popular. Foi quando vi a exposi\u00e7\u00e3o Tradi\u00e7\u00e3o e Ruptura, que tinha Lina como curadora. E a outra na sua casa do Morumbi, cercado de mata Atl\u00e2ntica, em que me contou hist\u00f3rias maravilhosas enquanto bebia um min\u00fasculo c\u00e1lice de licor. Lina \u00e9 a pessoa que mais me impressionou porque via mais longe do que todos e sabia te ouvir como ningu\u00e9m, e dizer o que ningu\u00e9m jamais saberia dizer.<\/p>\n<p>O ARRIVISTA GLAUBER &#8211; Lina foi quem criou aquela presen\u00e7a imponente e mais do que moderna, eterna, que abriga o Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, escola da percep\u00e7\u00e3o e da cultura, gl\u00f3ria deste pa\u00eds. Ela me contou como conseguiu convencer homens poderosos, inclusive seu marido, Pietro Maria Bardi, al\u00e9m do governador Adhemar de Barros, de que era ela a pessoa indicada para arquitetar o pr\u00e9dio do Masp. Fui fazer uma reportagem sobre a Avenida Paulista (pautada por Fernando Poyares, ent\u00e3o editor da revista Santista) e ela me atendeu, pois me conhecia da \u00e9poca da revista Senhor, quando Mino Carta tinha me convocado para entrevist\u00e1-la por ocasi\u00e3o do in\u00edcio glorioso do Sesc Pomp\u00e9ia. Tradi\u00e7\u00e3o e Ruptura foi um balan\u00e7o de 500 anos de cria\u00e7\u00e3o brasileira nas formas, no design, na arte, e destacava o cruzamento cultural do pa\u00eds que nasceu diverso, e ao mesmo \u00fanico na sua grandeza de na\u00e7\u00e3o soberana. Falou-me, nessa primeira ocasi\u00e3o, de Glauber Rocha, o qual conheceu menino, na Bahia. Lina fizera parte de um grupo de intelectuais europeus que foram para Salvador e l\u00e1 permitiram que toda uma gera\u00e7\u00e3o de talentos baianos se tornassem os novos \u00eddolos da cultura brasileira. Foi por meio de Lina que surgiram Glauber, Caetano, Gil, Tomz\u00e9, Capinam e tantos outros. Foi o Renascimento na (e n\u00e3o apenas da) Bahia, que exerce sua influ\u00eancia at\u00e9 hoje. Glauber era um arrivista, me disse ela. F\u00e3 de Glauber, fiquei chocado. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 um arrivista? me perguntou, sabendo, pela minha rea\u00e7\u00e3o, o que me passava pela cabe\u00e7a. \u00c9 aquele que sempre quer chegar primeiro. E ria. N\u00e3o estava condenando Glauber, estava tra\u00e7ando o perfil de um esp\u00edrito inquieto, que cedo demonstrou sua vontade de abrir caminho, ser vanguarda, chegar antes.<\/p>\n<p>LINDO SONHO DE MULHER &#8211; Depois dessa primeira vez, fiquei sempre com vontade de repetir a dose. Muitos anos depois, consegui. Ela me recebeu sentada na cadeira de balan\u00e7o, de aspecto cansado. Falou do seu Pietro, pessoa com quem lidei muitos anos, pois a coluna de PM Bardi era lida em primeira m\u00e3o por mim na revista Senhor, e cuidava de detalhes  naquele texto em portugu\u00eas escrito por um italiano. Eu j\u00e1 entrevistara tamb\u00e9m Bardi, pessoa important\u00edssima, que Assis Chateaubriand trouxe da It\u00e1lia para montar o Masp e que aqui ficou, casando depois com Lina Bo, a brilhante arquiteta daquele grupo que aportou na Bahia. Aproveitei uma viagem do Pietro, disse Lina, pois meu marido n\u00e3o acreditava que eu teria condi\u00e7\u00f5es de bolar a sede do novo museu. Coisa de homem. Pois fui falar diretamente com Adhemar de Barros e mostrei meu projeto. Quando Pietro voltou, contei-lhe o ocorrido. Sabe o que me respondeu? E a cara magn\u00edfica de Lina se iluminava, ela que estava t\u00e3o triste naquela tarde em que a vi pela \u00faltima vez. Ele me disse: lindo sonho de mulher. Pois Lina insistiu e seu lindo sonho de mulher virou realidade. Depois, ela me contou como usou um vestido completamente maluco numa festa no Trianon, um local de encontros da elite paulistana, que de l\u00e1, naqueles verdes anos do s\u00e9culo 20, se vislumbrava a cidade. Pois a Avenida Paulista foi constru\u00edda num espig\u00e3o de 800 metros de altura, que cruza a cidade do Para\u00edso at\u00e9 a Pomp\u00e9ia. De l\u00e1 se descortinava a cidade de Mario de Andrade. Hoje, nos fundos do Masp, h\u00e1 um pared\u00e3o de edif\u00edcios.<\/p>\n<p>MAIS LEVE DO QUE O AR &#8211; Lina sabia o que voc\u00ea pensava, entendia o que voc\u00ea queria dizer antes de voc\u00ea abrir a boca. Falava muito pouco, aos sussurros. Cada frase era uma inaugura\u00e7\u00e3o. Tinha o dom da conversa\u00e7\u00e3o, porque gostava de gente. Veio de longe e adotou o Brasil, pa\u00eds que transformou. Cada vez mais, o mundo descobre seu infinito talento e cresce a admira\u00e7\u00e3o por essa brasileira por ado\u00e7\u00e3o, que me ungiu com sua generosidade. Foi quando acreditei que a chama da divindade pode descer no cora\u00e7\u00e3o e na mente das pessoas. Cada vez que lembro dela, fico ainda mais agradecido pelas duas conversas, que viraram reportagens, e que deixaram em mim a alegria de ter feito algo pr\u00f3ximo \u00e0 grandeza que Lina distribuiu nesta terra inventiva. Lina, a elegante eloq\u00fc\u00eancia do g\u00eanio, que germina entre n\u00f3s. E da qual guardo a li\u00e7\u00e3o de que escutar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um dom, mas um toque adivinat\u00f3rio, que a arte n\u00e3o \u00e9 apenas talento, mas transcend\u00eancia e transgress\u00e3o, que um pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fronteiras, mas uma erup\u00e7\u00e3o, e que o concreto \u00e9 mais leve do que o ar, como prova o pr\u00e9dio do Masp, desde que voc\u00ea sopre nele a alma imortal roubada dos deuses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada \u00e0s palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma s\u00f3 que era g\u00eanio. 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