{"id":1052,"date":"2009-12-17T16:06:19","date_gmt":"2009-12-17T18:06:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/a-infancia-e-uma-catedral"},"modified":"2009-12-21T11:09:28","modified_gmt":"2009-12-21T13:09:28","slug":"a-infancia-e-uma-catedral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-infancia-e-uma-catedral","title":{"rendered":"A INF\u00c2NCIA \u00c9 UMA CATEDRAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Entrei na catedral de Florian\u00f3polis e ela estava vazia, sem bancos nem sua principal imagem, o da Fuga do Egito, que est\u00e1 sendo salva da destrui\u00e7\u00e3o dos cupins. Existem grades para impedir as passagem dos fi\u00e9is, que ficam assim confinados na entrada enquanto olham a grande nave sem nada. No ambiente de reforma, h\u00e1 apenas a esmola dos vitrais. Lembro a vez que revi as imagens da catedral de Santana, de Uruguaiana, em fotos feitas e enviadas, a meu pedido, por Anderson Petroceli. Me demorei sobre aquelas imagens que constru\u00edram minha inf\u00e2ncia. Especialmente o da Nossa Senhora menina, ladeada por Joaquim e Ana. Depois, na visita que fiz \u00e0 minha cidade, entrei naquele lugar com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. Ali assist\u00edamos a missa das seis, nos invernos escuros, nas manh\u00e3s de domingo, participantes que \u00e9ramos de uma promessa feita pela minha m\u00e3e e sobre a qual ela guardava segredo. Havia tamb\u00e9m a missa das oito, para as crian\u00e7as. Sa\u00edamos depois de uma hora cantando com minha m\u00e3e estarei, uma das in\u00fameras can\u00e7\u00f5es religiosas que se perderam. Hoje, \u00e9poca da hegemonia da igreja carism\u00e1tica, s\u00f3 existem cantos com os quais n\u00e3o me identifico. Onde est\u00e1 o prometi no meu santo batismo, queremos Deus e outras preciosidades? O pior \u00e9 que cantam o pai nosso com as palmas abertas e separadas, o que para mim \u00e9 um sacril\u00e9gio, pois a ora\u00e7\u00e3o deve ser dita com as m\u00e3os postas.<\/p>\n<p>LATIF\u00daNDIOS &#8211; Leio palestra de not\u00f3rio acad\u00eamico e ele diz que a inform\u00e1tica \u00e9 capital acumulado, ou seja, \u00e9 suspeita, pois gera subemprego. Grandes pensadores, no Brasil, \u00e0s vezes tocam nos limites da idiotia. Isso porque s\u00e3o hegem\u00f4nicos, como os coron\u00e9is. Li v\u00e1rias vezes em trabalhos universit\u00e1rios importantes que as coisas que estavam sendo estudadas e descritas s\u00f3 poderiam ser daquela forma e de nenhuma outra. Nos latif\u00fandios do saber, n\u00e3o sobra espa\u00e7o para a democracia da raz\u00e3o. A racionalidade, assim como a espiritualidade, faz parte do humano, ou seja, est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o e da d\u00favida. O que gera subemprego s\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o a inform\u00e1tica. O que gera desemprego \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o dos grandes, n\u00e3o a inform\u00e1tica, que estaria na m\u00e3o de alguns supercomputadores nos Estados Unidos e n\u00e3o sei mais onde. Inform\u00e1tica \u00e9 como livro, tem autoria, dissemina-se em rede, est\u00e1 a servi\u00e7o das pessoas e n\u00e3o de sistemas fechados do pensamento. Lembro a igreja que nos formou: era s\u00f3lida, um referencial, mas profundamente democr\u00e1tica (rigorosa, mas tolerante). Os irm\u00e3os maristas tinham postura ser\u00edssima, mas n\u00e3o abriam m\u00e3o do bom humor. Havia prega\u00e7\u00e3o religosa pesada em aula e nas missas, mas no recreio relativiz\u00e1vamos tudo. Por que? Porque viv\u00edamos em v\u00e1rios ambientes de forma\u00e7\u00e3o: igreja, col\u00e9gio, fam\u00edlia, recreio, rua, quadras de esporte, bailes, clubes.<\/p>\n<p>VOCA\u00c7\u00c3O &#8211; Nascemos na democracia e essa \u00e9 a nossa voca\u00e7\u00e3o. A ditadura \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o tardia e por isso n\u00e3o nos conformamos at\u00e9 hoje. Os padres, como cham\u00e1vamos os irm\u00e3os maristas, raspavam suas longas batinas na hora do \u00c2ngelus, na laje trabalhada do Col\u00e9gio Santana (sempre ela, a m\u00e3e de Maria) em frente \u00e0 minha casa. Havia respeito. &#8220;Ofendeste o professor?&#8221; perguntou meu pai um dia na hora do almo\u00e7o. &#8220;Pois atravesse a rua e v\u00e1 pedir desculpas&#8221;. Na minha casa havia ter\u00e7o, medalhinhas, imagens de santos, cruz. Meu pai, ateu, fazia olho branco. Era democrata, fazia parte do acordo de casamento. As mulheres colocavam seus v\u00e9us de renda, coloridos, brancos ou pretos e assistiam a missa. Os serm\u00f5es eram ditos no p\u00falpito, de madeira, que era acessado por uma escada em espiral. Na minha visita \u00e0 cidade, Anderson me levou para o outro lado do rio e l\u00e1 em Libres conheci a catedral do lado argentino. O p\u00falpito de madeira estava l\u00e1.<\/p>\n<p>SACR\u00c1RIO &#8211; Antes de morrer, minha m\u00e3e colocou seu v\u00e9u, na cama do hospital, confessou e comungou. Depois abra\u00e7ou e olhou longamente cada um dos filhos, despedindo-se. Deitada, ficou com a cabe\u00e7a virada para a cabeceira e sua respira\u00e7\u00e3o foi se indo aos poucos. &#8220;Sua m\u00e3e s\u00f3 fez o bem&#8221;, nos disse a freira que a assistia. Em mem\u00f3ria dos pais, da igreja que nos formou, da na\u00e7\u00e3o soberana que nos deu tudo, temos a obriga\u00e7\u00e3o, pelo menos, do testemunho. Meninos, eu vi. As duas catedrais, a de Florian\u00f3polis e a de Uruguaiana, est\u00e3o precisando de reforma. O peso dos anos, dos sinos, das ora\u00e7\u00f5es nos rondam, com suas pedras e vitrais. Gl\u00f3ria ao Papa que se foi, que manteve viva a Igreja que precisa ser como ele, mais atuante, mais aberta, mais democr\u00e1tica, mesmo sendo fiel a seus dogmas e princ\u00edpios. O esp\u00edrito humano \u00e9 dial\u00e9tico e aspira \u00e0 grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a id\u00e9ia fixa, s\u00e3o o Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um cora\u00e7\u00e3o de ouro. De m\u00e3os postas, com uma fita enorme no bra\u00e7o, toda com apliques dourados, carregando uma imensa vela, p\u00e9 ante p\u00e9 chegamos ao sacr\u00e1rio. \u00c9 quando tocamos a veste dos anjos.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\nCOMENT\u00c1RIO &#8211;\u00a0Um leitor que se identifica como Gefferson escreveu o seguinte sobre o texto acima (publicado no Di\u00e1rio da Fonte, em 4 de abril de 2005): <em><span style=\"font-size: x-small;\">Muito v\u00e1lido e oportuno. Me deliciei ao ler seu artigo, suas lembran\u00e7as<\/span> e opini\u00f5es pr\u00f3prias, at\u00e9 certo ponto, batem com as minhas. Gostaria de te dizer que nem tudo est\u00e1 perdido, por exemplo, onde moro atualmente, existem duas par\u00f3quias, os padres n\u00e3o usam o p\u00falpito, pois ele n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, mas s\u00e3o de uma orat\u00f3ria invej\u00e1vel, e os cantos antigos que voc\u00ea citou cantamos seguidos, digo cantamos porque fa\u00e7o parte do grupo do coral de uma das par\u00f3quias. Al\u00e9m dos cantos que voc\u00ea citou, resgatamos outros como &#8220;H\u00f3stia Branca&#8221;, &#8220;Cantai a Cristo Rei&#8221;, e seguidamente cantamos em latim preciosidades que pelo que vejo, ainda n\u00e3o foram esquecidas.<\/em><br \/>\n<em>Suas frases s\u00e3o de um profundo sentido e significado. Parab\u00e9ns.<\/em><br \/>\nGefferson | 11.23.06 &#8211; 7:33 am | #<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O esp\u00edrito humano \u00e9 dial\u00e9tico e aspira \u00e0 grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a id\u00e9ia fixa, s\u00e3o o Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um cora\u00e7\u00e3o de ouro. De m\u00e3os postas, com uma fita enorme no bra\u00e7o, toda com apliques dourados, carregando uma imensa vela, p\u00e9 ante p\u00e9 chegamos ao sacr\u00e1rio. \u00c9 quando tocamos a veste dos anjos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1052"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1052"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1052\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1568,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1052\/revisions\/1568"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}