{"id":1059,"date":"2009-12-17T16:11:17","date_gmt":"2009-12-17T18:11:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1059"},"modified":"2009-12-20T19:19:20","modified_gmt":"2009-12-20T21:19:20","slug":"o-papel-da-policia-politica-no-processo-de-implantacao-da-unidade-das-forcas-armadas-1930-1945","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-papel-da-policia-politica-no-processo-de-implantacao-da-unidade-das-forcas-armadas-1930-1945","title":{"rendered":"O PAPEL DA POL\u00cdCIA POL\u00cdTICA NO PROCESSO DE IMPLANTA\u00c7\u00c3O DA UNIDADE DAS FOR\u00c7AS ARMADAS (1930-1945)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um mergulho nos arquivos do Deops paulista, apresentado como trabalho de gradua\u00e7\u00e3o na faculdade de Hist\u00f3ria da USP. Uma sugest\u00e3o de projeto de pesquisa.<\/p>\n<p>I -Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A divis\u00e3o das For\u00e7as Armadas foi a heran\u00e7a mais preocupante da Rep\u00fablica Velha e o maior desafio para o novo Governo Provis\u00f3rio encabe\u00e7ado por Get\u00falio Vargas. A busca de coes\u00e3o interna dentro dos quart\u00e9is foi um processo que se arrastou pela d\u00e9cada de 30 e s\u00f3 se consolidou com a implanta\u00e7\u00e3o do Estado Novo &#8211; que no fundo \u00e9 o produto dessa vit\u00f3ria. Ao mesmo tempo, ele se desenvolveu concomitantemente \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o de uma nova nacionalidade, de cunho autorit\u00e1rio, baseada nos princ\u00edpios da disciplina, obedi\u00eancia, organiza\u00e7\u00e3o, respeito \u00e0 ordem e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO Ex\u00e9rcito liderou esse trabalho, partindo da extrema fragmenta\u00e7\u00e3o interna para a unifica\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito corporativo. Era preciso dar o exemplo \u00e0 Na\u00e7\u00e3o, que deveria despertar para grandes responsabilidades. Como disse o general G\u00f3es Monteiro em seu depoimento para Lourival Coutinho: \u201cNos primeiros meses do novo governo havia, praticamente, como que uma esp\u00e9cie de Ex\u00e9rcito duplo: o que obedecia diretamente \u00e0s ordens GQG revolucion\u00e1rio e o que obedecia ao Minist\u00e9rio da Guerra\u201d. Assumir o comando no Minist\u00e9rio da Guerra e neutralizar a a\u00e7\u00e3o dos oficiais e soldados revolucion\u00e1rios foi um \u00e1rduo exerc\u00edcio de poder, que precisou de todos os recursos para se consolidar.<br \/>\nUm deles, naturalmente, foi o papel desempenhado pela pol\u00edcia pol\u00edtica na a\u00e7\u00e3o repressiva \u00e0 multiplicidade ideol\u00f3gica dentro dos quart\u00e9is, onde legalismo, comunismo, integralismo e tenentismo mediam for\u00e7as para controlar a tropa. O Arquivo do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social do Estado de S\u00e3o Paulo nos fornece um valioso acervo para detectarmos esse aspecto importante do processo de implanta\u00e7\u00e3o da unidade das For\u00e7as Armadas. Nos poucos prontu\u00e1rios consultados para a elabora\u00e7\u00e3o deste anteprojeto, um vasto universo oculto revelou-se intensamente, apontando vetores fundamentais para entendermos essa fase riqu\u00edssima da hist\u00f3ria brasileira.<br \/>\nA divis\u00e3o interna nos quart\u00e9is tornou-se tema tabu, especialmente depois do regime militar de 64, de cuja esfera de influ\u00eancia ainda n\u00e3o nos libertamos. Levantar esse assunto, detectando as variadas nuances que ele assumiu com a ajuda da minuciosa documenta\u00e7\u00e3o do Deops paulista &#8211; e de outros acervos, como o Arquivo do General G\u00f3es Monteiro, a vasta memorial\u00edstica militar, al\u00e9m da extensa bibliografia sobre o per\u00edodo &#8211; nos ajudaria a entender uma institui\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o esgotou totalmente seu potencial intervencionista (como demonstram os projetos da Calha Norte, os enfrentamentos com os sem-terra, a resist\u00eancia em abolir o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, al\u00e9m do fasc\u00ednio que a farda exerce no imagin\u00e1rio popular).<br \/>\nO que me levou a escolher esse tema s\u00e3o perguntas antigas, relacionadas com a defasagem entre o pouco que se sabe sobre as For\u00e7as Armadas e o enorme espa\u00e7o que elas ocupam na Hist\u00f3ria do Brasil. Essas perguntam vem de longe, do Brasil profundo ao qual perten\u00e7o. Nasci nos anos 40 no extremo oeste do Rio Grande do Sul e fui criado escutando hist\u00f3rias de dois ex-combatentes da Brigada Militar ga\u00facha: meu pai, que lutou em 1930 e 1932, e meu tio, que participou da guerra &#8211; essa era a palavra usada &#8211; desde 1924 at\u00e9 1932.<br \/>\nQuando comecei a ler os primeiros livros sobre o tema, em 1980, meu tio j\u00e1 estava velho e doente. Eu n\u00e3o sabia, na \u00e9poca, fazer as perguntas certas. Como sempre, limitava-me a ouvir. Pouco antes de morrer, revelando a imagem que tinha de si mesmo na longa luta de sua vida, ele costumava murmurar:<br \/>\n&#8211; Caiu a montanha.<br \/>\nA montanha era ele. Para conhecer melhor essa parcela da humanidade que nos legou a vida e entender este pa\u00eds que \u201cn\u00e3o \u00e9 para amadores\u201d &#8211; como dizia Tom Jobim &#8211; \u00e9 que comecei a estudar os militares. Este projeto ser\u00e1 um passo importante nesta caminhada.<\/p>\n<p>II -Objetivos: revela\u00e7\u00f5es da guerra surda.<\/p>\n<p>Neste trabalho, pretendo provar que a repress\u00e3o pol\u00edtica dentro dos quart\u00e9is foi fundamental para consolidar a implanta\u00e7\u00e3o da unidade das For\u00e7as Armadas. Ou seja, n\u00e3o desempenhou um papel marginal nesse processo, mas ocupou uma import\u00e2ncia decisiva para erradicar os dissidentes da tropa, torn\u00e1-la imune \u00e0s influ\u00eancias externas, compor um esp\u00edrito corporativo com unidade gran\u00edtica e preparar os militares para grandes tarefas nacionais &#8211; o que se revelou em 1937, com o Estado Novo; durante a II Guerra, com a campanha da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira; em 1945, com o golpe que dep\u00f4s Get\u00falio; com o governo Dutra; e com as tentativas, desde os anos 50 (1955, 1961 e, finalmente, 1964) de tomar o poder dos civis.<br \/>\nA divis\u00e3o das For\u00e7as Armadas tinha sido um fator decisivo para a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de 30. Se elas estivessem coesas, o movimento revoltoso nem sequer teria sido desencadeado. Haviam tr\u00eas focos principais dessa divis\u00e3o no momento em que Get\u00falio Vargas assumiu o governo provis\u00f3rio. O primeiro \u00e9 representado pelos tenentes que na d\u00e9cada de 20 levantaram-se em armas contra o governo federal e por isso foram presos, expulsos da corpora\u00e7\u00e3o, exilados. As figuras principais dessa vertente s\u00e3o Juarez T\u00e1vora &#8211; que assumiu o poder no Norte e Nordeste &#8211; Jo\u00e3o Alberto Lins e Barros, que assumiu o governo de S\u00e3o Paulo; e Lu\u00eds Carlos Prestes, que antes de outubro de 1930 tinha sido posto de lado como comandante das for\u00e7as revolucion\u00e1rias.<br \/>\nA figura m\u00edtica, depois de Prestes, era Siqueira Campos &#8211; que morreu meses antes da revolu\u00e7\u00e3o, num acidente a\u00e9reo sobre o Mar del Plata.<br \/>\nO outro foco \u00e9 o dos chamados \u201cjovens turcos\u201d, elite militar cevada pelas reformas de Hermes da Fonseca e que, numa viagem \u00e0 Europa, tinham se deslumbrado com a organiza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito alem\u00e3o. Bertoldo Klinger e G\u00f3es Monteiro fazem parte dessa vertente, pois mantinham-se fi\u00e9is ao governo, mas assumiam uma postura cr\u00edtica, expressa no jornal Letras em Marcha. Esse foco foi que assumiu o comando das For\u00e7as Armadas pegando carona no carisma dos tenentes revolucion\u00e1rios da d\u00e9cada de 20 e acabou consolidando a unidade militar. E o terceiro foco era dos militares legalistas que acabaram dando o golpe de 24 de outubro que dep\u00f4s Washington Lu\u00eds. Um dos seus representantes era o general Andrade Neves, que assumiu a Casa Militar do governo Provis\u00f3rio.<br \/>\nOs anos 30 foram o embate entre as fac\u00e7\u00f5es resultantes dessa divis\u00e3o. Os militares dissidentes custaram a entender que a situa\u00e7\u00e3o era diferente em rela\u00e7\u00e3o aos anos 20, quando os dois 5 de julho e a Coluna Prestes formataram uma imagem carism\u00e1tica de her\u00f3is militares jovens, idealistas e determinados. Para eliminar a ruptura nas For\u00e7as Armadas, G\u00f3es Monteiro teve que enfrentar a agita\u00e7\u00e3o tenentista, comunista e integralista, e, especialmente, a revolu\u00e7\u00e3o constitucionalista, a Intentona e o putsch de Pl\u00ednio Salgado.<br \/>\nA Intentona foi um marco desse processo, pois definiu a import\u00e2ncia de um Ex\u00e9rcito coeso, forte, unificado, sem as dissid\u00eancias que o atormentavam e amea\u00e7avam o governo. O golpe militar de 1937 definiu a vit\u00f3ria para a fac\u00e7\u00e3o de G\u00f3es Monteiro. As For\u00e7as Armadas unidas dariam mais tarde o golpe de 29 de outubro de 1945 e o de 31 de mar\u00e7o de 1964. Dois epis\u00f3dios que lembravam a velha ruptura &#8211; 1955, com o Marechal Lott e 1961, com o General Machado, no Rio Grande do Sul &#8211; foram acidentes de percurso. A unidade estava consolidada e s\u00f3 a insatisfa\u00e7\u00e3o da caserna p\u00f3s 1985 &#8211; aprofundada nos anos 90 &#8211; poder\u00e1 lembrar vagamente o clima latente antes da irrup\u00e7\u00e3o do primeiro 5 de julho, em 1922.<br \/>\nO fracasso da Intentona revela que a repress\u00e3o pol\u00edtica na primeira metade dos anos 30 foi eficiente, j\u00e1 que o movimento comunista esvaziou&#8211;se e n\u00e3o levantou os quart\u00e9is, como esperava Prestes. As perguntas que devemos fazer para desenvolver esta tese devem ser as seguintes:<br \/>\n&#8211; como era tratada, nos arquivos do Deops, a infiltra\u00e7\u00e3o comunista nos quart\u00e9is?<br \/>\n&#8211; quem eram e o que faziam as pessoas que foram detidas ou presas fazendo agita\u00e7\u00e3o a favor da dissid\u00eancia das For\u00e7as Armadas?<br \/>\n&#8211; quais eram as tend\u00eancias da a\u00e7\u00e3o desestabilizadora? Onde elas se manifestavam? Quais organiza\u00e7\u00f5es estavam por tr\u00e1s delas?<br \/>\n&#8211; Que import\u00e2ncia dava o governo para essa agita\u00e7\u00e3o?<br \/>\nNesse levantamento, vamos detectar o perfil do militar dissidente, a literatura da agita\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, a lista completa dos prontu\u00e1rios que se referem ao tema e servem para desvend\u00e1-lo, os motivos aparentes e reais para a repress\u00e3o, o grau de envolvimento dos militares nas dissid\u00eancias propostas pela agita\u00e7\u00e3o. Vamos levantar os elementos de liga\u00e7\u00e3o entre For\u00e7as Armadas e a pol\u00edcia pol\u00edtica, verificando o grau de subordina\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica e os problemas resultantes. Pelos prontu\u00e1rios consultados, podemos dizer com seguran\u00e7a que podemos levantar a prega\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileira nas For\u00e7as Armadas, os motivos do fracasso dos dissidentes e do sucesso do governo.<br \/>\nA partir desse levantamento, poderemos escrever sobre as repercuss\u00f5es pol\u00edticas desse processo &#8211; como a militariza\u00e7\u00e3o progressiva da pol\u00edcia, por exemplo, o que aconteceu integralmente com o regime de 64, as rela\u00e7\u00f5es da repress\u00e3o pol\u00edtica e o tenentismo e o ambiente macropol\u00edtico que originou esse processo &#8211; tratado, naturalmente, com a especificidade necess\u00e1ria para atingir nossos objetivos de levantar o v\u00e9u dos por\u00f5es da repress\u00e3o pol\u00edtica dos militares. Precisamos escutar os estampidos dessa guerra surda, pouco conhecida e que ainda ecoam no inconsciente e na vida da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>III. Balizamento: da fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade<\/p>\n<p>O per\u00edodo escolhido \u00e9 1930-1945. Da fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade, as For\u00e7as Armadas cruzaram um per\u00edodo extremamente agitado, onde fac\u00e7\u00f5es em conflito brigavam pelo poder dentro e fora dos quart\u00e9is. Essa refrega interna foi decisiva para a implanta\u00e7\u00e3o definitiva do estado autorit\u00e1rio, a partir de 1937. Mas precisamos detectar as ra\u00edzes desse conflito e, para efeitos da nossa pesquisa, elas se situam no salvacionismo militar, que \u00e9 uma id\u00e9ia expl\u00edcita no imagin\u00e1rio nacional e se manifestou decisivamente em v\u00e1rias oportunidades como em 1922 ( os 18 do Forte), 1924 ( revolu\u00e7\u00e3o de Isidoro Dias Lopes em S\u00e3o Paulo e a subleva\u00e7\u00e3o dos quart\u00e9is no Sul), e a Coluna Miguel Costa-Lu\u00eds Carlos Prestes.<br \/>\nO salvacionismo est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 id\u00e9ia de identidade nacional, \u00e0 fragilidade do Pa\u00eds diante da amea\u00e7a estrangeira, a necessidade de uni\u00e3o em torno da For\u00e7a e do Ideal para enfrentar os inimigos internos e externos. No s\u00e9culo passado, os militares escolheram o positivismo como ant\u00eddoto ao bacharelismo, \u00e0 ret\u00f3rica, \u00e0 heran\u00e7a ib\u00e9rica do \u00f3cio e da contempla\u00e7\u00e3o (conforme detectado por S\u00e9rgio Buarque de Holanda em Ra\u00edzes do Brasil). Decidiram-se pelo hero\u00edsmo suicida &#8211; 1922 &#8211; depois que esse mesmo bacharelismo &#8220;usurpou&#8221; o poder t\u00e3o arduamente consolidado por Floriano Peixoto na grande guerra civil entre 1893-1895.<br \/>\nO grande desafio do tenentismo foi criar uma mitologia pr\u00f3pria, t\u00e3o forte quanto a mitologia dos militares legalistas, fundada no mito de Caxias, na Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e na a\u00e7\u00e3o do Marechal de Ferro. A mitologia tenentista explodiu no imagin\u00e1rio do Pa\u00eds em 1922, quando a bandeira brasileira foi repartida como p\u00e3o entre os her\u00f3is que sa\u00edram de peito aberto para enfrentar as for\u00e7as legalistas. Esse rito de passagem desabrochou numa mitologia completa a partir da Revolu\u00e7\u00e3o de 1924 e a conseq\u00fcente Coluna Miguel Costa-Prestes. O segundo 5 de julho \u00e9 uma data fundamental do tenentismo, pois nessa data houve uma estrat\u00e9gia mais bem elaborada em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro 5 de julho e teve desdobramentos muito mais amplos.<br \/>\n\u00c9 a partir desse mitologia que um advogado e pol\u00edtico &#8211; Get\u00falio Vargas &#8211; toma o poder em 1930 vestindo farda. Get\u00falio n\u00e3o podia fazer uma revolu\u00e7\u00e3o vestindo a roupa dos bachar\u00e9is, mas encarnando a mitologia tenentista. Incapaz de tomar o poder pelo voto &#8211; a lei da Velha Rep\u00fablica &#8211; ele tomou o poder \u00e0 for\u00e7a, vestindo a roupa deixada sob encomenda por Prestes &#8211; que, como escrevemos acima, foi afastado do comando militar da revolu\u00e7\u00e3o &#8211; e Siqueira Campos &#8211; que tinha morrido um pouco antes. Vargas assume o poder com duas armas &#8211; a roupagem militar dissidente e a eloq\u00fc\u00eancia do discurso em pra\u00e7a p\u00fablica substituindo a ret\u00f3rica de gabinete. O del\u00edrio popular que as imagens sobre 1930 revelam a for\u00e7a do salvacionismo tenentista e o jogo pol\u00edtico de Vargas, que transforma-se no demiurgo dessa mitologia.<br \/>\nO tenentismo \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o radical da id\u00e9ia de salva\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria, pois implica agredir o pa\u00eds para defend\u00ea-lo. Isso faz com que o hero\u00edsmo, mesmo ostentando a pureza moral das inten\u00e7\u00f5es, adquira na pr\u00e1tica uma sobrecarga de vilania. Essa contradi\u00e7\u00e3o alimenta a repress\u00e3o e devolve a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria aos seus pr\u00f3prios autores, levando-os ao fracasso, atrav\u00e9s da alian\u00e7a entre impulsividade e despreparo t\u00e9cnico. O resultado \u00e9 o suic\u00eddio (1922), a fuga (1924), a ren\u00fancia (1930) ou a ilus\u00e3o (1935).<br \/>\nO salvacionismo militar gira em torno do tenentismo, mas n\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s dele que se consolida. Ao contr\u00e1rio, o salvacionismo utiliza o tenentismo, nutre-se da for\u00e7a poderosa do mito, para neg\u00e1-lo e assumir o poder em seu lugar. \u00c9 exatamente a\u00ed que reside o n\u00facleo da nossa pesquisa. Nos prontu\u00e1rios consultados, verificamos que os agitadores nos quart\u00e9is baseavam-se na preced\u00eancia tenentista para tentar convencer a tropa. Mas cometeram um erro b\u00e1sico. Enquanto o tenentismo agia essencialmente sobre os oficiais &#8211; isso, de quebra, influenciava a tropa &#8211; a agita\u00e7\u00e3o do PCB dos quart\u00e9is nos anos 30 tentava fazer uma par\u00f3dia da Agitprop leninista especialmente com o soldados &#8211; que vinham das classes trabalhadoras e portanto, \u201crevolucion\u00e1rias\u201d.<br \/>\nEssa t\u00e1tica mostrou-se inoperante, j\u00e1 que as For\u00e7as Armadas fundam-se na hierarquia, na camaradagem e na confian\u00e7a m\u00fatua. O agitador dos quart\u00e9is n\u00e3o pode tentar convencer pessoas isoladamente, mas grupos coesos que existem dentro da fragmenta\u00e7\u00e3o interna. O problema \u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 deu vez a um tipo de oficial que se fortaleceu \u00e0 sombra do tenentismo. Como nota Jo\u00e3o Quartim de Moraes em \u201cA Esquerda Militar no Brasil\u201d: \u201c\u00c0 \u00e9poca em que os tenentes despendiam suas energias em rocambolescas rebeli\u00f5es sem futuro e numa longa caminhada pelo interior do pa\u00eds, um novo tipo de oficial se formava nas escolas da Miss\u00e3o Francesa. Tratava-se de um tipo de militar que n\u00e3o ganhou as manchetes dos jornais nem inspirou a cria\u00e7\u00e3o de mitos.\u201d<br \/>\nEsse militar assumiu o comando de um Ex\u00e9rcito fragmentado, apanhou durante anos at\u00e9 conseguir consolidar a coes\u00e3o interna e nesse processo descobriu que para manter as For\u00e7as Armadas unidas era preciso compor um Estado Nacional adequado, igualmente forte e indissol\u00favel.<\/p>\n<p>IV &#8211; Fontes: na pista do anti-mil.<\/p>\n<p>Os prontu\u00e1rios do Deops s\u00e3o excelente material de pesquisa. Vamos pegar alguns exemplos. O de n\u00famero 270, por exemplo, que faz o fichamento das atividades do ex-aluno-oficial da For\u00e7a P\u00fablica Aur\u00e9lio Gomes, baiano nascido em 1912, indiciado em 1937 e preso em 1938. A partir dessa pasta, chegamos a uma outra, bem mais rica, a de Waldemar Schulz, de n\u00famero 4635, um elemento dissidente chave, pois trabalhava a soldo do PCB, tinha servido no Ex\u00e9rcito e na For\u00e7a P\u00fablica &#8211; como m\u00fasico! &#8211; e estava encarregadode formar uma c\u00e9lula dentro de um quartel da For\u00e7a P\u00fablica em S\u00e3o Paulo e tom\u00e1-lo \u00e0 for\u00e7a no dia do golpe planejado.<br \/>\nCom esses dois prontu\u00e1rios, fica clara a atividade do Anti-Mil, a Se\u00e7\u00e3o de Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda das Classes Armadas do PCB encarregada de desestabilizar as For\u00e7as Armadas \u201cburguesas\u201d, conforme a literatura apreendida pela pol\u00edcia. O personagem central do Anti-Mil \u00e9 Jo\u00e3o Raimondi, civil do PCB e que contratou Aur\u00e9lio Gomes e Waldemar Schulz para a agita\u00e7\u00e3o. Segundo a pol\u00edcia, Raimondi fazia agita\u00e7\u00e3o nos quart\u00e9is desde 1932, tinha fundado o jornal \u201cA Sentinela Vermelha\u201d e era encarregado do trabalho militar do partido, dentro e fora do Ex\u00e9rcito.<br \/>\nNos boletins apreendidos na casa onde morava, a inten\u00e7\u00e3o do PCB era clara: a\u00e7\u00e3o de desorganiza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito relacionada com a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica di\u00e1ria, com lan\u00e7amentos de palavras de ordem. \u201cO Soldado\u201d, diz um dos boletins, \u201cdeve conhecer a palavra de ordem e os objetivos do PCB e adot\u00e1-los.\u201c A id\u00e9ia era combinar trabalhos secretos dentro do Ex\u00e9rcito com a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de massa, pela conquista do pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito. O objetivo era a decomposi\u00e7\u00e3o absoluta do ex\u00e9rcito \u201cimperialista\u201d e a passagem de soldados para o lado do proletariado.<br \/>\nAo mesmo tempo, era preciso \u201cdesmascarar os m\u00e9todos empregados pela militariza\u00e7\u00e3o imperialista em benef\u00edcio da burguesia\u201d. A palavra de ordem era o armamento do proletariado. Era preciso fortalecer o soldado de origem prolet\u00e1ria ou camponesa. Uma observa\u00e7\u00e3o manuscrita de Jo\u00e3o Raimondi, apreendida pela pol\u00edcia, notava que o movimento militar de novembro de 1935 s\u00f3 funcionou nas unidades que tinham o plano de levante elaborados, estudados e descritos minuciosamente. O trabalho n\u00e3o se limitava ao Ex\u00e9rcito, mas tamb\u00e9m \u00e0 Marinha, \u00e0 Guarda Civil, \u00e0 For\u00e7a P\u00fablica e \u00e0s associa\u00e7\u00f5es militares.<br \/>\nO objetivo do PCB era formar quadros para a futura Guarda Vermelha. Raimondi chegou a fazer, segundo a pol\u00edcia, levantamento nos quart\u00e9is e seu movimento. O elemento de liga\u00e7\u00e3o entre Raimondi e a For\u00e7a P\u00fablica era Waldemar Schulz. Muitos nomes foram levantados nestes prontu\u00e1rios, como por exemplo Davino Francisco dos Santos, Ant\u00f4nio Mendon\u00e7a, Jos\u00e9 Aparecido da Fonseca, Fraterno Borba de Ara\u00fajo, Herm\u00f3genes de Oliveira, Jos\u00e9 de Castro Corr\u00eaa, Carlos Rocha, Carlos do Nascimento Rosa, Osvaldo Ribeiro da Silva, Waldemar da Silva Braga, todos condenados em 1938 junto com Aur\u00e9lio Gomes e Jo\u00e3o Raimondi e portanto ligados \u00e0 agita\u00e7\u00e3o dentro dos quart\u00e9is.<br \/>\nOs civis eram: Raimondi, Starsys Macilevicius, Jos\u00e9 Constatino Costa, Gumercindo Ferreira Martins. Os militares eram: cabos Maur\u00edcio Manoel Mendes, Ant\u00f4nio Donoso Vidal, Fraterno Borba de Ara\u00fajo; tenentes Waldemar da Silva Braga, Davino, Matheus Feliz de Moura; alunos oficiais Jos\u00e9 Aparecido da Fonseca, Paulo Sannevend; sargentos Antonio Mendon\u00e7a, Gregorio Norberto de Oliveira, Armando Ferreira de Paula, Jos\u00e9 de Castro Corr\u00eaa, Carlos Rocha, J\u00falio Geraldo de Mendon\u00e7a; soldados Celso Nascimento, Ant\u00f4nio Ferreira e Orildo Ribeiro da Silva.<br \/>\nOs militares que deram apoio ao movimento estavam encarregados da divulga\u00e7\u00e3o e preparo dos boletins e panfletos, al\u00e9m da propaganda verbal nas reuni\u00f5es. Cada unidade militar possu\u00eda c\u00e9lulas organizados que aguardavam a palavra de ordem. Diz a pol\u00edcia: \u201cT\u00e3o bem organizada estava a c\u00e9lula comunista da For\u00e7a P\u00fablica e t\u00e3o intensa era a propaganda desenvolvida nessa mil\u00edcia que, se n\u00e3o fora a eficiente e oportuna a\u00e7\u00e3o policial, dentre em breve ter\u00edamos que presenciar novo levante armado, semelhantes aqueles que felizmente foram prontamente sufocados em 1935 na capital e no nordeste do Pa\u00eds.\u201d A pesquisa precisa detectar se o movimento abortou pela a\u00e7\u00e3o policial ou pela inefici\u00eancia interna. O discurso da pol\u00edcia, naturalmente, se auto-elogia.<br \/>\nO processo dos indiciados, segundo descri\u00e7\u00e3o contida no prontu\u00e1rio 270, possui provas documentais e autos de busca e apreens\u00e3o, termos de declara\u00e7\u00f5es das qualifica\u00e7\u00f5es, provas testemunhal e pericial dactilosc\u00f3pica.<br \/>\nPara apoiar o levantamento nos prontu\u00e1rios do Deops, vamos utilizar tamb\u00e9m a memorial\u00edstica militar, que \u00e9 uma fonte prim\u00e1ria riqu\u00edssima em elementos hist\u00f3ricos que ainda guarda um excelente potencial de an\u00e1lise. Esses dois elementos, a evid\u00eancia da id\u00e9ia salvacionista e a obscuridade a que ainda est\u00e3o relegados os importantes livros de mem\u00f3rias dos militares, justificaria, no nosso entender, a utiliza\u00e7\u00e3o dos militares autores de livros nesta pesquisa. A sintonia entre os dois elementos &#8211; salvacionismo e memorial\u00edstica &#8211; est\u00e1 fundada na id\u00e9ia da perman\u00eancia. O her\u00f3i entra na luta para dar seu sangue pela p\u00e1tria &#8211; e um her\u00f3i nunca morre. Ao mesmo tempo, escreve um livro de mem\u00f3rias para ser lembrado, ou seja, sobreviver.<br \/>\nOutro motivo \u00e9 que nas mem\u00f3rias est\u00e3o os argumentos psicol\u00f3gicos mais profundos de um personagem hist\u00f3rico &#8211; at\u00e9 mesmo as eventuais mentiras sobre os fatos narrados s\u00e3o relevantes. Nesse tipo de texto, poderemos detectar tranq\u00fcilamente as id\u00e9ias que motivaram o autor a entrar numa luta de vida ou morte. Mais um motivo seria a sobreviv\u00eancia do salvacionismo militar. Hoje os quart\u00e9is est\u00e3o silenciosos, mas a id\u00e9ia de que eles um dia poder\u00e3o se manifestar para colocar ordem na bagun\u00e7a da democracia civil, ainda permanece. A simpatia com que \u00e9 vista a poss\u00edvel fujimoriza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds comprova esse dado.<br \/>\nPara fazer a pesquisa, \u00e9 preciso primeiro definir as fontes: livros de mem\u00f3rias publicados ou in\u00e9ditos; depoimentos escritos, gravados, televisionados; reportagens, artigos e textos que contenham depoimentos pessoais de militares que participaram das revoltas . Serve tamb\u00e9m os depoimentos dados por terceiros sobre os personagens dessa hist\u00f3ria: parentes, amigos, colegas de farda, subalternos, superiores hier\u00e1rquicos, inimigos, etc. Os documentos restritos, sigilosos ou n\u00e3o, da \u00e1rea militar, podem tamb\u00e9m servir como subs\u00eddios.<\/p>\n<p>V &#8211; O que diz a historiografia?<\/p>\n<p>No longo per\u00edodo de leitura a que me dediquei em uma d\u00e9cada e meia sobre os militares brasileiros revoltosos, e na pesquisa que fiz no sistema Dedalus da USP, n\u00e3o detectei nenhuma obra exclusivamente voltada para esse tema, o do papel da pol\u00edcia pol\u00edtica no processo de coes\u00e3o interna das For\u00e7as Armadas. O principal t\u00edtulo referente ao assunto pol\u00edcia pol\u00edtica no per\u00edodo proposto, pelo que vi, \u00e9 o de Elizabeth Cancelli &#8211; \u201cO mundo da viol\u00eancia &#8211; a Pol\u00edcia da Era Vargas. Mas, mesmo esse livro nada diz sobre o assassinato de dois militares presos no pres\u00eddio pol\u00edtico paulista durante uma tentativa de fuga e que consta no prontu\u00e1rio de Waldemar Schulz. Ou seja, existe um acervo valioso escondido nos arquivos do Deops que guarda muitas surpresas.<br \/>\nEm geral, a historiografia especifica sobre os militares ainda est\u00e1 muito presa \u00e0s paix\u00f5es que a interven\u00e7\u00e3o militar nos destinos do pa\u00eds suscita, ou seja, muito voltada a temas como o esp\u00edrito anti-popular dos tenentes, muito presa a distor\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas como a quest\u00e3o da luta de classes e seu relacionamento com o movimento militar, entre outras dificuldades. Na minha opini\u00e3o, deve-se mergulhar no esp\u00edrito corporativo das For\u00e7as Armadas, \u00e9 l\u00e1 que reside seus segredos.<br \/>\nO n\u00facleo de pesquisas estrat\u00e9gicas sobre as For\u00e7as Armadas, da Unicamp, \u00e9 que desenvolve o trabalho mais interessante sobre o assunto. Os livros de Alain Rouqui\u00e9 e Jo\u00e3o Quartim de Moraes, apesar de suas limita\u00e7\u00f5es, s\u00e3o muito importantes para esta pesquisa. Mas acho que o assunto militares brasileiros ainda encerra os principais desafios para a historiografia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A divis\u00e3o das For\u00e7as Armadas foi a heran\u00e7a mais preocupante da Rep\u00fablica Velha e o maior desafio para o novo Governo Provis\u00f3rio encabe\u00e7ado por Get\u00falio Vargas. A busca de coes\u00e3o interna dentro dos quart\u00e9is foi um processo que se arrastou pela d\u00e9cada de 30 e s\u00f3 se consolidou com a implanta\u00e7\u00e3o do Estado Novo &#8211; que no fundo \u00e9 o produto dessa vit\u00f3ria. Ao mesmo tempo, ele se desenvolveu concomitantemente \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o de uma nova nacionalidade, de cunho autorit\u00e1rio, baseada nos princ\u00edpios da disciplina, obedi\u00eancia, organiza\u00e7\u00e3o, respeito \u00e0 ordem e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. (Um mergulho nos arquivos do Deops paulista).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1059"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1059"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1059\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1375,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1059\/revisions\/1375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}