{"id":1081,"date":"2009-12-17T16:21:55","date_gmt":"2009-12-17T18:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1081"},"modified":"2009-12-17T16:21:55","modified_gmt":"2009-12-17T18:21:55","slug":"lugar-para-morar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/lugar-para-morar","title":{"rendered":"LUGAR PARA MORAR"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira \u00e0 atual fase da oferta excessiva de informa\u00e7\u00f5es, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. Trata-se de uma armadilha: not\u00edcia demais nem sempre quer dizer diversidade de fontes, variedade de protagonistas, multiplicidade de situa\u00e7\u00f5es. A ma\u00e7aroca de coisas que nos atingem, ou procuram atingir, por meio de todas as m\u00eddias, podem circular pelo Mesmo, aprisionando nossa percep\u00e7\u00e3o em alguns guetos, ruas reviradas, casas demolidas, eventos recorrentes, personalidades eternas.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma surda insurrei\u00e7\u00e3o contra essa impostura que \u00e9 o resultado da filtragem que fazem dos fatos, como se de repente estiv\u00e9ssemos com a vis\u00e3o limitada em 60 graus dispon\u00edveis nas telas ou nas p\u00e1ginas impressas. O olhar que varre a realidade se sente tra\u00eddo pelo que v\u00ea e ouve e que lhe \u00e9 oferecido como a vers\u00e3o acabada de tudo. H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre o que precisamos e queremos saber, e o que nos colocam \u00e0 frente, tudo amarrado com alguma mensagem ditada por todo tipo de interesse.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 outro paradoxo, pois tudo est\u00e1 dispon\u00edvel, inclusive o que aparentemente nos \u00e9 negado. Hoje \u00e9 poss\u00edvel escutar os cl\u00e1ssicos cantados pela Doris Day sem ter viajado a Nova York ou ido a alguma cdteca car\u00edssima; rever pela mil\u00e9sima vez o filme definitivo (que, como todos sabem, \u00e9 Os sete samurais, de Akira Kurosawa); lembrar a letra da marchinha de carnaval perdida (&#8220;dizem, em voz corrente, que em Goi\u00e1s ser\u00e1 a nova capital, leve, tudo para l\u00e1 seu presidente, mas deixe aqui o nosso carnaval&#8221;); provar que existe um filme chamado O quinto poder, de Carlos Pedregal, que \u00e9 sobre as mensagens subliminares no Rio de Janeiro dos anos 1960; tudo isso faz parte do grande acervo que a tecnologia colocou \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 pela sele\u00e7\u00e3o do que gostamos de ter por perto (Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido por M\u00e1rio Quintana), de reler (Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto Schwarz), de escutar (Morning has broken, de Cat Stevens), que formamos nosso ninho, o lugar para morar. Podemos estar em qualquer parte do mundo, coloque Frank Sinatra para cantar. Fuja para o deserto, desde que seja poss\u00edvel escutar Villa-Lobos rodopiando sobre o beijo entre Ion\u00e1 Magalh\u00e3es e Othon Bastos. Donos desse espa\u00e7o \u00fanico, podemos ent\u00e3o enfrentar a mesmice dos fatos, j\u00e1 que temos o alimento necess\u00e1rio para cruzar o Inverno.<\/p>\n<p>Basta deixar de lado a moda, esse condom\u00ednio impessoal que a todos nivela. Acabamos incorporando outro tipo de perfil, muito parecido com muitos de nossos pares. Somos capazes de ver O filho da noiva, de Juan Jos\u00e9 Campanella, a com\u00e9dia dram\u00e1tica encantadora que os argentinos souberam produzir em 2001, sem sentir vergonha de estar falando de algo t\u00e3o distante (cinco anos hoje \u00e9 mais ou menos um s\u00e9culo). Moramos nesse lugar encantado em que a cultura n\u00e3o \u00e9 a medalha que brilha na festa, mas o p\u00e3o que aguarda, perto do fogo, o momento de nos aquecer na noite intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>O resto \u00e9 tornado, enchente, contratempo. Talvez, no miolo do furac\u00e3o, algo nos deslumbre e fique fazendo parte das rel\u00edquias que juntamos ao longo dos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira \u00e0 atual fase da oferta excessiva de informa\u00e7\u00f5es, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. (Cr\u00f4nica publicada dia 5 de setembro de 2006 no caderno Variedades do Di\u00e1rio Catarinense).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1081"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1081"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1081\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1082,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1081\/revisions\/1082"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}