{"id":111,"date":"2005-05-13T21:49:50","date_gmt":"2005-05-13T23:49:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=111"},"modified":"2009-12-20T19:19:40","modified_gmt":"2009-12-20T21:19:40","slug":"uma-coreografia-iluminista-da-hidra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/uma-coreografia-iluminista-da-hidra","title":{"rendered":"Uma Coreografia Iluminista da Hidra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Sobre o livro &#8220;O Espectador Noturno &#8211; A revolu\u00e7\u00e3o francesa atrav\u00e9s de R\u00e9tif de La Bretonne&#8221; (Rouanet, S.P.,1988) <\/em><\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"0\" width=\"100%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td background=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/bgs\/bghidra.jpg\">\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\" width=\"85%\" align=\"center\" bgcolor=\"white\" background=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/bgs\/cinza2.gif\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"0\" width=\"75%\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<div><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra4.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" \/><\/div>\n<div><span style=\"font-family: ARIAL; color: #404040; font-size: xx-small;\"><strong>UMA COREOGRAFIA ILUMINISTA DA HIDRA<\/strong>*<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: ARIAL; color: #808080;\">&#8211; O que os chineses acham da revolu\u00e7\u00e3o francesa? perguntou Henry Kissinger.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: ARIAL; color: #808080;\">&#8211; Ainda estamos observando, respondeu Lin Piao.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: CoURIER NEW,Courier;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/span><\/div>\n<p><span style=\"font-family: Courier New,Courier;\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra3.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" \/> <img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/a2.gif\" alt=\"\" \/> Revolu\u00e7\u00e3o Francesa revisitada por meio da obra de R\u00e9tif de la Bretonne &#8211; escritor libertino, memorialista, historiador, rep\u00f3rter e cronista do s\u00e9culo XVIII &#8211; revela-se, neste livro, desprovida da aura m\u00edstica original e &#8220;contaminada&#8221; pela multiplicidade de enfoques. O autor da an\u00e1lise, um diplomata de carreira que foi ministro da Cultura, produz um ensaio que se prop\u00f5e a estabelecer um fluxo de identifica\u00e7\u00f5es entre as contradi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca e as da obra analisada. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">Para isso ele assume uma atitude prudente ao cercar seu objeto de estudo. Sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ati\u00e7ar a desconfian\u00e7a natural de seus eventuais e selecionados leitores &#8211; ele dirige-se a um p\u00fablico restrito, j\u00e1 que jamais traduz cita\u00e7\u00f5es em latim e franc\u00eas, inacess\u00edveis para quem est\u00e1 fora dos muros da universidade. \u00e9 evidente que esse caminhar de gato escaldado sobre brasas serve para evitar ser confundido com um admirador de R\u00e9tif, ou com o que esse escritor considerado menor representa &#8211; a princ\u00edpio (antes que o leitor chegue \u00e0 \u00faltima linha) a subliteratura e o oportunismo. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra2.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" align=\"right\" \/> Esse distanciamento \u00e9 denunciado pelo uso sistem\u00e1tico de adjetivos na hora de classificar as obras do seu personagem. Estranho vai para &#8220;Drame de la vie&#8221; e &#8220;As P\u00f3stumas&#8221;; inclassific\u00e1vel para &#8220;As noites de Paris&#8221;; espantoso para &#8220;Noite revolucion\u00e1rias&#8221;; curioso para um trecho de &#8220;Paysan Perverti&#8221;; descabelada para uma determinada narrativa sobre a persegui\u00e7\u00e3o a uma fam\u00edlia republicana. Sobre a personalidade de R\u00e9tif, o adjetivo mais utilizado \u00e9 exc\u00eantrico. Parece, com isso, que o personagem nunca merece confian\u00e7a.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">O olhar obl\u00edquo sobre o texto de R\u00e9tif transforma-o assim numa hidra enjaulada, que exige aten\u00e7\u00e3o em cada cabe\u00e7a amea\u00e7adora rediviva. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">A provid\u00eancia seguinte \u00e9 identificar essas cabe\u00e7as &#8211; ou seja, as contradi\u00e7\u00f5es de um muralista de produ\u00e7\u00e3o fluvial &#8211; para poder manej\u00e1-las como instrumentos de an\u00e1lise do per\u00edodo revolucion\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<div><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra5.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" \/><\/div>\n<p><span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">As contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o de natureza pol\u00edtica e social, revelando um devasso que \u00e9 ao mesmo tempo moralista, um aristocrata que orgulha-se das ra\u00edzes camponesas, um monarquista que acaba convertido \u00e0 causa da Rep\u00fablica e um ser m\u00faltiplo que aspira permanentemente \u00e0 unidade. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">Rouanet prop\u00f5e-se a provar que as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias, sem deixar de desmontar os elementos justapostos de cada uma delas e apresentar a chave para entend\u00ea-las. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">Vamos selecionar um exemplo da metodologia de Rouanet. Ele analisa a posi\u00e7\u00e3o do escritor franc\u00eas, em alguns textos, contra a propriedade privada, e em outros, a favor dela. Uma racionaliza\u00e7\u00e3o vagamente marxista, segundo Rouanet, para solucionar esse impasse, seria a de que R\u00e9tif via o socialismo como objetivo \u00faltimo e n\u00e3o como possibilidade imediata. Mas isso \u00e9 insuficiente. A chave da quest\u00e3o estaria na posi\u00e7\u00e3o assumida por R\u00e9tif de que \u00e9 preciso manter a propriedade privada antes que a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica seja completada por uma revolu\u00e7\u00e3o social. Como esse tipo de explica\u00e7\u00e3o encobre a quest\u00e3o central, Rouanet muda de perspectiva: o importante \u00e9 saber de onde vem a contradi\u00e7\u00e3o e o que ela nos ensina sobre o autor analisado e a Revolu\u00e7\u00e3o. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra6.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" \/> A demonstra\u00e7\u00e3o evolui a favor de R\u00e9tif que, mesmo sendo uma figura marginal da sua \u00e9poca, acaba ocupando nela um papel central. Isso serve para eliminar as resist\u00eancias do leitor quanto ao objeto de estudo e abre caminho para alguns elogios, como a compet\u00eancia prof\u00e9tica de R\u00e9tif em muitas quest\u00f5es e \u00e0s avan\u00e7adas posi\u00e7\u00f5es que assume, apesar de oscilar, muitas vezes, entre a bajula\u00e7\u00e3o e o del\u00edrio. Selecionar o trigo maduro da erva daninha \u00e9 um trabalho que Rouanet estabelece sem esmagar e queimar as cabe\u00e7as da hidra, mas fazendo com que elas obede\u00e7am a uma mesma coreografia. Trata-se de uma dan\u00e7a racionalizada por Rouanet, herdeiro do Iluminismo que, ao mexer com as v\u00edsceras do s\u00e9culo XVIII, empreende ao mesmo tempo uma assepsia. <\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">Separando 1789 &#8211; a revolta popular &#8211; de 1793 &#8211; o Terror -, Rouanet confessa ser imposs\u00edvel assumir em bloco a Revolu\u00e7\u00e3o ou desmembr\u00e1-la abstratamente, mas coloca R\u00e9tif como um elemento esclarecedor para o dilema. Descobrir que a m\u00edtica Revolu\u00e7\u00e3o das liberdades \u00e9 tamb\u00e9m a fonte dos totalitarismos \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o dura demais para quem navega nas \u00e1guas iluministas. A hidra coreografada &#8211; a obra de R\u00e9tif na vers\u00e3o de Rouanet &#8211; serve como ant\u00eddoto para a perplexidade gerada pela evolu\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias hist\u00f3ricas.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra1.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" \/> Faltou refor\u00e7ar um aspecto que \u00e9 marginal em Rouanet em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho de Robert Darnton, que em livros como &#8220;Boemia Liter\u00e1ria e Revolu\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;O Iluminismo como neg\u00f3cio&#8221; destacou a natureza profissional do trabalho dos escritores panflet\u00e1rios, fonte maior das suas contradi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que escreviam para vender e acompanhavam as oscila\u00e7\u00f5es do poder. Entre o sucesso de p\u00fablico e a censura, R\u00e9tif equilibrava-se sobre uma navalha &#8211; mais um ponto a favor para identificar sua obra com a revolu\u00e7\u00e3o.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: Courier New,Courier;\">O importante \u00e9 que o per\u00edodo analisado permanece em aberto. O trabalho de Rouanet abre espa\u00e7o inclusive para aprofundarmos a quest\u00e3o da proximidade entre o intelectual e o poder, um assunto que naturalmente toca o ex-ministro de maneira especial. <\/span><\/p>\n<div><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/hidra.jpg\" border=\"0\" alt=\"Livro\" \/><\/div>\n<div>\n<img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/frufru.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" \/><br \/>\n<span style=\"font-family: ARIAL;\"><strong><span style=\"color: #333333;\">BIBLIOGRAFIA<\/span><\/strong><\/span><\/div>\n<div>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"10\" width=\"100%\" bgcolor=\"#333333\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><span style=\"font-family: ARIAL; color: #ffffcc;\">ROUANET, S\u00e9RGIO PAULO- <em>&#8220;O Espectador Noturno &#8211; a Revilu\u00e7\u00e3o Francesa atrav\u00e9s de R\u00e9tif de la Bretonne&#8221;,<\/em>-Companhia das Letras, SP, 1987 <\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><span style=\"font-family: ARIAL;\"><span style=\"font-family: Courier New,Courier,mono;\">\u00a9 Nei Ducl\u00f3s &#8211; todos os direitos reservados<\/span><\/span><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Sobre o livro &#8220;O Espectador Noturno &#8211; A revolu\u00e7\u00e3o francesa atrav\u00e9s de R\u00e9tif de La Bretonne&#8221; (Rouanet, S.P.,1988) Revolu\u00e7\u00e3o Francesa revisitada por meio da obra de R\u00e9tif de la Bretonne &#8211; escritor libertino, memorialista, historiador, rep\u00f3rter e cronista do s\u00e9culo XVIII &#8211; revela-se, neste livro, desprovida da aura m\u00edstica original e &#8220;contaminada&#8221; pela multiplicidade de enfoques. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=111"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1376,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/111\/revisions\/1376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}