{"id":115,"date":"2005-05-14T21:55:17","date_gmt":"2005-05-14T23:55:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=115"},"modified":"2009-12-20T20:58:06","modified_gmt":"2009-12-20T22:58:06","slug":"a-luz-que-a-treva-revela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-luz-que-a-treva-revela","title":{"rendered":"A luz que a treva revela"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/blackrole.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>A f\u00e9 e a d\u00favida sobem o rio Quebec encarnadas em dois grupos humanos: um formado por dois franceses, um padre e um carpinteiro, e o outro por uma cl\u00e3 de \u00edndios. No in\u00edcio da viagem, rumo a uma long\u00edngua miss\u00e3o, a f\u00e9 prevalece: o padre est\u00e1 convencido de que poder\u00e1 catequisar os nativos e para isso conta com absoluta confian\u00e7a nos des\u00edgnios de Deus &#8211; e tamb\u00e9m nenhum temor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, considerada certa diante dos perigos esperados (\u00edndios inimigos, inverno, ingleses).<\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/blackrole4.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/> Mas aos poucos a d\u00favida assoma na paisagem humana e reflete a dura geografia de uma realidade pag\u00e3. Ela cristaliza a diferen\u00e7a entre os dois mundos: um fixo, do signo da terra, formado por h\u00e1bitos negros, rel\u00f3gios e ferramentas; outro m\u00f3vel, do signo da \u00e1gua, composto por guerreiros, mulheres e canoas. A divis\u00e3o cava fundo no cora\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, cresce com a apari\u00e7\u00e3o de um feiticeiro e torna-se irrefre\u00e1vel com a alegria debochada das jovens nativas.<\/p>\n<p>A d\u00favida tamb\u00e9m finca bandeira em terreno sagrado: o padre, voyeur involunt\u00e1rio do sexo alheio, come\u00e7a a provar a tenta\u00e7\u00e3o; sua castidade sofre diante da promiscuidade alheia, enquanto seu \u00fanico aliado, o carpinteiro &#8211; que sonhava em seguir a carreira eclesi\u00e1stica -, aos poucos escorrega para o feiti\u00e7o de uma cultura mais integrada ao ambiente. Esse clima acaba fazendo o patriarca ind\u00edgena quebrar sua promessa de levar os franceses at\u00e9 o destino, a desviar o caminho em dire\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio de ca\u00e7a, deixando para tr\u00e1s o padre desprotegido.<\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/blackrole2.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/> A ruptura gera a fraqueza dos viajantes. Arrependido, o patriarca volta com seu grupo para apanhar o padre, mas todos s\u00e3o emboscados pelos \u00edndios inimigos. A pris\u00e3o, a tortura, a fuga e a morte coroam a narrativa, que versa sobre a humaniza\u00e7\u00e3o viabilizada pelo fracasso. Quem buscava a gl\u00f3ria, encontra a decep\u00e7\u00e3o, quem pregava a f\u00e9, encontra a supersti\u00e7\u00e3o, quem propunha Deus, enxerga o Homem. O velho padre moribundo da miss\u00e3o distante, desesperan\u00e7ado diante do abismo entre culturas, \u00e9 o retrato expl\u00edcito dessa queda cat\u00f3lica no meio da neve.<\/p>\n<p>Como toda narrativa que usa a Hist\u00f3ria como mat\u00e9ria-prima, o filme peca pelo anacronismo. O padre \u00e9 encaminhado para o fracasso pelo roteiro, que o pinta fr\u00e1gil na sua f\u00e9, esquecendo a determina\u00e7\u00e3o gran\u00edtica dos mission\u00e1rios cat\u00f3licos no Novo Mundo. Por sofrer de m\u00e1-vontade cr\u00f4nica diante da Igreja Cat\u00f3lica, o cinema do Primeiro Mundo, como os \u00edndios, \u00e9 incapaz de entender os padres e sua civiliza\u00e7\u00e3o inspirada na cruz e fundada na pedra.<\/p>\n<p><img src=\"..\/..\/..\/neiduclos\/imagens\/fotos\/blackrole3.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/>Sem querer, o cineasta comete o pecado que condena ao compor o universo ind\u00edgena com os lugares comuns da id\u00e9ia que faz da barb\u00e1rie : o coito por tr\u00e1s (em oposi\u00e7\u00e3o ao sexo frontal entre o carpinteiro e a \u00edndia); o feiticeiro an\u00e3o, da mesma estatura da vis\u00e3o que o filme dedica \u00e0 espiritualidade dos \u00edndios; a viol\u00eancia gratuita &#8211; e pseudo-ritual\u00edstica dos \u00edndios inimigos.<\/p>\n<p>Assim, a f\u00e9 que o espectador dedica ao filme no seu in\u00edcio abre espa\u00e7o para a d\u00favida forjada por estes equ\u00edvocos. E fortalece a certeza de que, se n\u00e3o nos \u00e9 poss\u00edvel fugir ao anacronismo, nos resta detect\u00e1-lo. Talvez pesquisar e refletir sobre essa defasagem entre o passado e os des\u00edgnios de cada narrador seja o \u00fanico objetivo poss\u00edvel da Hist\u00f3ria. O que n\u00e3o nos cabe \u00e9 deixar-nos levar por essa luz difusa e colorida das certezas datadas. Com todos os seus problemas, o filme nos adverte sobre o H\u00e1bito Negro, nome do intruso que, ao pregar a luz, encarnou a treva.<\/p>\n<p>*A resenha sobre o filme &#8220;H\u00e1bito Negro&#8221;, de Bruce Beresford, foi apresentado para a professora Laura de Mello e Souza, da USP.<br \/>\n\u00a9 Nei Ducl\u00f3s &#8211; todos os direitos reservados<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e9 e a d\u00favida sobem o rio Quebec encarnadas em dois grupos humanos: um formado por dois franceses, um padre e um carpinteiro, e o outro por uma cl\u00e3 de \u00edndios. 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