{"id":117,"date":"2005-05-15T14:26:19","date_gmt":"2005-05-15T16:26:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=117"},"modified":"2009-12-20T19:11:47","modified_gmt":"2009-12-20T21:11:47","slug":"joaquim-nabuco-e-a-imigracao-chinesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/joaquim-nabuco-e-a-imigracao-chinesa","title":{"rendered":"Joaquim Nabuco e a Imigra\u00e7\u00e3o Chinesa"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/fotos\/nab1.jpg\" alt=\"\" align=\"left\" \/><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O discurso do deputado Joaquim Nabuco &#8211; um representante de Pernambuco, filho de fazendeiros e na \u00e9poca ocupando pela primeira vez uma vaga no Congresso &#8211; faz parte de um tema fundamental no Brasil da segunda metade do s\u00e9culo 19, a transi\u00e7\u00e3o do trabalho escravo para o trabalho livre, e est\u00e1 nas ra\u00edzes de uma quest\u00e3o ainda em aberto no final do s\u00e9culo 20, a ocupa\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n<p>Nesta an\u00e1lise do texto proposto, destaco vetores que remetem a contextos complementares entre si, ou seja:<\/p>\n<p>&#8211; as opini\u00f5es de Joaquim Nabuco indicando o perfil intelectual das elites numa \u00e9poca em que a ci\u00eancia ficou a servi\u00e7o do racismo (ver item 2);<\/p>\n<p>&#8211; a imigra\u00e7\u00e3o chinesa encarnando a pr\u00f3pria transi\u00e7\u00e3o em debate e servindo para que os abolicionistas evidenciassem a tese do branqueamento da ra\u00e7a(ver item 3);<\/p>\n<p>&#8211; o debate sobre a aboli\u00e7\u00e3o e a imigra\u00e7\u00e3o gerando diretrizes para a forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade (ver item 4);<\/p>\n<p>&#8211; a atualidade da pol\u00eamica num imagin\u00e1rio ainda atrelado a problemas mal resolvidos (ver item 5).<\/p>\n<p>2. UMA POSTURA DISSOCIADA.<\/p>\n<p>Abolicionistas como Nabuco atribu\u00edam-se um grande papel na hist\u00f3ria, fruto de suas qualidades morais. &#8220;Vim defender uma causa grande, a causa da liberdade do trabalho, do futuro da nossa ra\u00e7a, do progresso e prosperidade da na\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ele logo no in\u00edcio do discurso. E quase no final: &#8220;Quis p\u00f4r-me sempre ao lado da liberdade, da justi\u00e7a, do progresso, da humanidade, que s\u00e3o para mim os maiores interesses do pa\u00eds, de maneira que qualquer homem verdadeiramente liberal e de sentimentos generosos, me pudesse sempre dar um aperto de m\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Nabuco ao mesmo tempo atacava e pertencia a uma elite que fez uma verdadeira m\u00e1gica, na vis\u00e3o de Roberto Schwarz: &#8220;\u00c9 sabido que a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil, embora integrasse a transi\u00e7\u00e3o para a nova ordem do capital, teve car\u00e1ter conservador. As conquistas liberais da independ\u00eancia alteravam o processo pol\u00edtico de c\u00fapula e redefiniam as rela\u00e7\u00f5es estrangeiras, mas n\u00e3o chegavam ao complexo s\u00f3cio-econ\u00f4mico gerado pela explora\u00e7\u00e3o colonial, que ficava intacto, como que devendo uma revolu\u00e7\u00e3o. Noutras palavras, o senhor e escravo, o latif\u00fandio e dependentes, o tr\u00e1fico negreiro e a monocultura de exporta\u00e7\u00e3o permaneciam iguais, em contexto local e mundial transformado. No tocante \u00e0s id\u00e9ias ca\u00edam em descr\u00e9dito as justifica\u00e7\u00f5es que a coloniza\u00e7\u00e3o e o Absolutismo haviam criado, substitu\u00eddas agora pelas perspectivas oitocentistas do estado nacional, do trabalho livre, da liberdade de express\u00e3o, da igualdade perante a lei etc., incompat\u00edveis com as outras, em particular com a domina\u00e7\u00e3o pessoal direta&#8221;. Ao mesmo tempo, segundo ele, &#8220;O Brasil se abria ao com\u00e9rcio das na\u00e7\u00f5es e virtualmente \u00e0 totalidade da cultura contempor\u00e2nea moderna mediante a expans\u00e3o de modalidades sociais que se estavam tornando a execra\u00e7\u00e3o do mundo civilizado&#8221;. Nabuco, que pertencia ao advento de um esp\u00edrito reformador que varreu o pa\u00eds especialmente a partir da guerra do Paraguai, segundo Thomas Skidmore, estava vinculado ao ide\u00e1rio liberal do capitalismo e \u00e0s suas implica\u00e7\u00f5es, especialmente a substitui\u00e7\u00e3o do trabalho escravo pelo trabalho livre.<\/p>\n<p>Neste discurso parlamentar de 1879, ele provoca rea\u00e7\u00e3o (&#8220;oh!oh!&#8221;) ao dizer que &#8220;o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o h\u00e1 de ser quando n\u00e3o houver no pa\u00eds mais escravos e ficar ele reduzido a seus bra\u00e7os livres&#8221;. \u00c9 sutil como as palavras que usa traem sua verdadeira inten\u00e7\u00e3o, a de abolir (esconder, esquecer, eliminar) o escravo negro junto com a escravid\u00e3o &#8211; pois outro n\u00e3o seria o sentido da express\u00e3o &#8220;reduzido a seus bra\u00e7os livres&#8221;. Sem os escravos, a na\u00e7\u00e3o ficaria &#8220;apenas&#8221; com os trabalhadores livres &#8211; e isso n\u00e3o incluiria os ex-escravos (ver item 3). Deve-se tamb\u00e9m fazer a ressalva, amparada em Maria L\u00facia Lamounier, de duas posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas de Nabuco. Nessa \u00e9poca de 1879 ele acreditava que &#8220;o Brasil precisava urgentemente da aboli\u00e7\u00e3o a fim de constituir uma nacionalidade apropriada com base no imigrante europeu com seu &#8216;sangue cauc\u00e1sico, vivaz, en\u00e9rgico e sadio.'&#8221; Mas em 1884, de volta de um est\u00e1gio de tr\u00eas anos na Inglaterra, &#8220;embora continuasse a apoiar a imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, Nabuco s\u00f3 a admitia desde que fosse espont\u00e2nea, isto \u00e9, n\u00e3o subsidiado pelo Estado, pois somente assim pensava ser poss\u00edvel priorizar a incorpora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nacional no mercado de trabalho livre.&#8221;<\/p>\n<p>Nabuco carregava dentro de si o mesmo esp\u00edrito contradit\u00f3rio dos seus advers\u00e1rios, vale dizer, da elite mais conservadora. Como nota Thomas Skidmore: &#8220;O pensamento abolicionista, como toda doutrina reformadora no Brasil, nasceu do liberalismo europeu do s\u00e9culo 19 que seguira de perto a revolu\u00e7\u00e3o industrial, a urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada e o crescimento econ\u00f4mico. Todas essas mudan\u00e7as tinham sido poss\u00edveis, por sua vez, gra\u00e7as \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia. A f\u00e9 europ\u00e9ia no liberalismo parecida justificada pela prosperidade econ\u00f4mica do continente. No Brasil, todavia, a o liberalismo surgiu como resultado de tend\u00eancias intelectuais mais do que por qualquer mudan\u00e7a econ\u00f4mica profunda. Embora as cidades crescessem rapidamente depois de 1850, n\u00e3o houve salto compr\u00e1vel no desenvolvimento econ\u00f4mico do Brasil. Os brasileiros estavam, ent\u00e3o, a aplicar as novas id\u00e9ias liberais num contexto social que n\u00e3o diferia, de maneira significativa, do mundo dos seus av\u00f3s.&#8221; A prop\u00f3sito da coloniza\u00e7\u00e3o moderna, Marx observa que as realidades da col\u00f4nia tem muito o que ensinar sobre a natureza relativa do trabalho livre na metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Ou seja, apesar da contradi\u00e7\u00e3o entre valores coloniais e id\u00e9ias liberais, o conservadorismo da elite brasileira servia aos interesses do liberalismo internacional, mesmo que a contradi\u00e7\u00e3o tenha se manifestado de maneira aguda na proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico dos escravos. Eis a\u00ed, segundo Schwarz, a raiz da desfa\u00e7atez e a volubilidade do personagem Br\u00e1s Cubas, de Machado de Assis, s\u00edntese dessa elite dos oitocentos no Brasil.<\/p>\n<p>Schwarz explica que Machado destaca a contradi\u00e7\u00e3o entre o escravocrata e a modernidade que ele finge encarnar &#8211; modernidade a\u00ed no sentido das id\u00e9ias liberais burguesas, baseada no trabalho livre e remunerada e contra a escravid\u00e3o. No perfil amb\u00edguo que Br\u00e1s Cubas faz do cunhado Cotrim, segundo Schwarz, &#8220;contrabando de africanos e castigo f\u00edsico se encaixam a seco no contexto das id\u00e9ias liberais, territ\u00f3rio inimigo o\u00adnde causam repulsa por princ\u00edpio. &#8221; Pois &#8220;o indiv\u00edduo evolu\u00eddo n\u00e3o tem escravos, n\u00e3o bate neles e n\u00e3o contrabandeia no ramo; a filantropia n\u00e3o serve para humilhar o vizinho ou alcan\u00e7ar a honra de um retrato pintado a \u00f3leo, as boas a\u00e7\u00f5es que pratica n\u00e3o s\u00e3o divulgadas nas folhas.&#8221;<\/p>\n<p>Em\u00edlia Viotti da Costa em &#8220;Da Monarquia \u00e0 Rep\u00fablica &#8211; Momentos Decisivos&#8221;, diz o seguinte sobre esse tema, falando dos grandes propriet\u00e1rios da elite brasileira: &#8220;Purgando o liberalismo dos seus aspectos radicais, adotaram um liberalismo conservador que admitia a escravid\u00e3o da mesma forma que seus av\u00f3s haviam conciliado a escravid\u00e3o com o cristianismo.&#8221;<\/p>\n<p>Deve-se levar em conta tamb\u00e9m, no debate sobre a transi\u00e7\u00e3o do trabalho escravo para o trabalho livre, que a solu\u00e7\u00e3o adotada por Nabuco era o parlamentar, ou seja, atrav\u00e9s das leis, e n\u00e3o da for\u00e7a. Isso significava fazer concess\u00f5es aos advers\u00e1rios escravocratas. O objetivo era n\u00e3o assust\u00e1-los com as leis abolicionistas. Ao mesmo tempo, era preciso apaziguar a opini\u00e3o dos pa\u00edses estrangeiros, que tinham receio em enviar sua popula\u00e7\u00e3o para um pa\u00eds o\u00adnde o \u00f3dio racial colocaria a vida em risco.<\/p>\n<p>Os abolicionistas como Nabuco propuseram ent\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o para o trabalho livre de maneira pac\u00edfica, sem riscos revolucion\u00e1rios &#8211; j\u00e1 que os acontecimentos da revolu\u00e7\u00e3o haitiana assustavam os escravocratas. Como escreve Lamounier: &#8220;A miscigena\u00e7\u00e3o como premissa explicava, portanto, a aus\u00eancia de problemas raciais e acenava decididamente para a possibilidade de instaura\u00e7\u00e3o de um para\u00edso racial ao abolir-se a escravid\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Vemos a\u00ed a raiz do mito do para\u00edso racial e das dificuldades de instaurar uma mudan\u00e7a que beneficiasse o pa\u00eds &#8211; caminho que s\u00f3 poderia se percorrido se os interesses dos escravocratas fossem radicalmente contrariados, o que n\u00e3o acontecia. Neste item, notamos que as contradi\u00e7\u00f5es no imagin\u00e1rio das elites, expressas no discurso de Nabuco, serviram para encaminhar de maneira truncada a quest\u00e3o do abolicionismo e a instaura\u00e7\u00e3o do trabalho livre no Brasil.<\/p>\n<p>3. A TRANSI\u00c7\u00c3O TEM OLHOS PUXADOS.<\/p>\n<p>A maneira contundente com que Nabuco, no seu discurso, condena a imigra\u00e7\u00e3o chinesa revela a hegemonia, na \u00e9poca, das teorias racistas encaradas como ci\u00eancia e importada dos pa\u00edses desenvolvidos. O debate sobre a imigra\u00e7\u00e3o chinesa, segundo Skidmore, levara &#8220;muitos brasileiros a revelar suas opini\u00f5es raciais. E o que emergiu foi a vigorosa ades\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia de um Brasil paulatinamente mais branco. A ra\u00e7a branca \u00e9 considerada por Nabuco de audaz, superior, mais inteligente, mais brilhante, com qualidades intelectuais, com car\u00e1ter e cora\u00e7\u00e3o, arte e relances de g\u00eanio (palavras tiradas do seu discurso). Os chineses, em contrapartida, s\u00e3o amarelos, inferiores, mong\u00f3licos. Eles poderiam &#8220;degradar&#8221; as ra\u00e7as existentes no pa\u00eds, introduzindo uma &#8220;lepra de v\u00edcios&#8221;.<\/p>\n<p>Diz Skidmore: &#8220;Nabuco n\u00e3o deixava d\u00favidas de que seu alvo era um Brasil mais branco. Era suficientemente honesto para dizer que, se tivesse vivido no s\u00e9culo 16, ter-se-ia oposto \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de escravos africanos, da mesma maneira como se opunha agora ao plano da escravatura asi\u00e1tica &#8211; a proposta de importar trabalhadores chineses para substituir os escravos. Na sua opini\u00e3o era uma l\u00e1stima que os holandeses n\u00e3o tivessem permanecido no Brasil pelas alturas do s\u00e9culo 17. Embora explicasse, cuidadosamente, que as grandes contribui\u00e7\u00f5es holandesas tinham sido &#8216;a liberdade do com\u00e9rcio e a liberdade de consci\u00eancia&#8217;, as implica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas pareciam inconfund\u00edveis: &#8216;a nossa evolu\u00e7\u00e3o social foi demorada pela pronta termina\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio holand\u00eas'&#8221;.<\/p>\n<p>O perigo amarelo, contra o qual Nabuco se insurge, \u00e9 motivado por uma &#8220;lei&#8221; determinista hist\u00f3rica, a de que no embate entre ra\u00e7as &#8220;superiores e inferiores&#8221;, nem sempre a &#8220;superior&#8221; leva a melhor. Nabuco coloca na resist\u00eancia e na capacidade de sobreviv\u00eancia os fatores determinantes da vit\u00f3ria de uma ra\u00e7a sobre outra. E lembra que a civiliza\u00e7\u00e3o grega e a romana sucumbiram ante a press\u00e3o dos b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>Skidmore cita alguns nomes importantes que influenciaram o pensamento racista dos abolicionistas, como Henry Thomas Buckle e Arthur de Gobineau. A influ\u00eancia era t\u00e3o gritante que at\u00e9 mesmo descendentes de mulatos, como Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio (como vimos num semin\u00e1rio em aula sobre sua obra liter\u00e1ria) e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, mulatos, tinham preconceitos raciais contra os negros.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica sobre a imigra\u00e7\u00e3o chinesa n\u00e3o era nova. Houve um debate no fim da d\u00e9cada de 70 sobre a sua conveni\u00eancia e as discuss\u00f5es do Senado em meados de 1877 sobre a lei dos contratos de trabalho lembravam do tema. \u00c9 preciso lembrar que em dezembro de 1878 foi aprovada uma nova lei de loca\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os &#8211; a anterior era de d\u00e9cada de 30. Em mar\u00e7o, foi sancionado o decreto n\u00ba 2827, dispondo sobre o modo como deviam ser feitos os contratos de loca\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Segundo Lamounier, em setembro do mesmo ano &#8211; data do discurso de Nabuco &#8211; a C\u00e2mara aprovava, numa ardente controv\u00e9rsia, um cr\u00e9dito para uma miss\u00e3o especial \u00e0 China. O objetivo, diz a historiadora, era estabelecer rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com a China e promover a imigra\u00e7\u00e3o de chineses para o Brasil. Mas, mesmo o cr\u00e9dito tendo sido aprovado, a imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se verificou, entre outros motivos, por forte oposi\u00e7\u00e3o internacional, segundo Lamounier..<\/p>\n<p>Deve-se ressaltar a caracter\u00edstica principal do enfoque sobre essa imigra\u00e7\u00e3o: a de que n\u00e3o se tratava de um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o, mas de utiliza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra como m\u00e1quina do trabalho. A id\u00e9ia era trazer o trabalhador sem a fam\u00edlia, us\u00e1-lo como instrumento para a lavoura por um determinado per\u00edodo, at\u00e9 que fosse providenciada a coloniza\u00e7\u00e3o com trabalhadores europeus.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que existe o aparte do Sr. Zama no discurso: &#8220;A introdu\u00e7\u00e3o de chins n\u00e3o \u00e9 coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 instrumento de trabalho.&#8221; Um outro deputado: &#8220;Eles n\u00e3o ficam no Brasil, voltam para o seu pa\u00eds.&#8221; Nabuco prova que os chineses n\u00e3o v\u00e3o se comportar dessa maneira, que ir\u00e3o vir para ficar, deitar ra\u00edzes, n\u00e3o ir para lavoura e ficar nas cidades disputando vagas com os oper\u00e1rios brasileiros. &#8220;O chim n\u00e3o \u00e9 um elemento de transi\u00e7\u00e3o&#8221; diz Nabuco. Como nos referimos acima, para ele, a transi\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia acontecer se a aboli\u00e7\u00e3o fosse decretada. Lamounier chama a aten\u00e7\u00e3o para os interesses existentes nesse debate. Os partid\u00e1rios da imigra\u00e7\u00e3o chinesa, como os ministros Cansans\u00e3o de Sinimbu e Moreira Barros (este, presente no discurso de Nabuco) eram os cafeicultores de S\u00e3o Paulo, que necessitava de chineses sobretudo como jornaleiros, pois os colonos estabelecidos com contratos somente para limpar e colher o caf\u00e9 n\u00e3o eram suficientes para os outros manejos da fazenda.<\/p>\n<p>4. CRISE DE IDENTIDADE.<\/p>\n<p>O aparte de Ant\u00f4nio Siqueira ao discurso de Nabuco revela um assunto delicado no Brasil: &#8220;A vit\u00f3ria dos portugueses foi uma fatalidade para o Imp\u00e9rio&#8221;, diz o deputado, apartado por apoiados e n\u00e3o apoiados. O problema da origem atormenta a forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade. Um pa\u00eds com problemas de origem cria problemas de identifica\u00e7\u00e3o. A origem pobre era normalmente identificada com a a vadiagem e a criminalidade, e n\u00e3o com o trabalho honesto.<\/p>\n<p>Diz Boris Fausto em &#8220;Crime e criminalidade&#8221;: &#8220;A estigmatiza\u00e7\u00e3o das camadas sociais destitu\u00eddas com o r\u00f3tulo de vadios \u00e9 um dado que percorre a hist\u00f3ria brasileira desde o per\u00edodo colonial. Brevemente, lembro como a reduzida diversifica\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas e a utiliza\u00e7\u00e3o em larga escala da m\u00e3o-de-obra escrava na agricultura de exporta\u00e7\u00e3o deixou poucas possibilidades de emprego est\u00e1vel para os homens livres sem recursos. &#8221; Por que se consolidou entre n\u00f3s esse antagonismo ao trabalho? Em Ra\u00edzes do Brasil, S\u00e9rgio Buarque de Hollanda defende a seguinte posi\u00e7\u00e3o: &#8220;Enquanto povos protestantes preconizam e exaltam o esfor\u00e7o manual, as na\u00e7\u00f5es ib\u00e9ricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da antiguidade cl\u00e1ssica. O que entre elas predomina \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o antiga de que o \u00f3cio importa mais que o neg\u00f3cio e de que a atividade produtora \u00e9, em si, menos valiosa que a contempla\u00e7\u00e3o e o amor.&#8221;<\/p>\n<p>Schwarz observa a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o dos brasileiros pobres, que se situavam no meio da escala social, entre os escravos e os senhores, e que sofriam discrimina\u00e7\u00e3o por pertencerem a uma nacionalidade problem\u00e1tica: &#8220;N\u00e3o sendo propriet\u00e1rios nem escravos, estas personagens n\u00e3o formam entre os elementos b\u00e1sicos da sociedade, que lhes prepara uma situa\u00e7\u00e3o desconcertante. O seu acesso aos bens da civiliza\u00e7\u00e3o, dada \u00e0 dimens\u00e3o marginal do trabalho livre, se efetiva somente atrav\u00e9s da benevol\u00eancia eventual e discricion\u00e1ria de indiv\u00edduos da classe abonado&#8221;.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia do trabalhador livre depende, portanto, do benepl\u00e1cito da classe dominante, conforme observa\u00e7\u00e3o de Schwarz. &#8220;A vida honesta e independente n\u00e3o est\u00e1 ao alcance do pobre, que aos olhos dos abastados \u00e9 presun\u00e7oso quando a procura e desprez\u00edvel quando desiste, uma f\u00f3rmula ali\u00e1s, do abjeto humor de classe praticado por Br\u00e1s Cubas e exposto por Machado de Assis. Do \u00e2ngulo das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, a gama vai da mendic\u00e2ncia ao trabalho remunerado, passando por diferentes esp\u00e9cies de depend\u00eancia pessoal.&#8221;<\/p>\n<p>Diz Heloisa de Faria Cruz em &#8220;Trabalhadores em servi\u00e7o: domina\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia&#8221;: &#8220;O mesmo processo e l\u00f3gica que constituem as no\u00e7\u00f5es definidoras do vadio e as pol\u00edticas de repress\u00e3o \u00e0 vadiagem engendram a discuss\u00e3o e as propostas destinadas a assistir, amparar, regenerar ou educar os pobres das cidades.&#8221;<\/p>\n<p>Diz Sandra Jutahy Pesavento em &#8220;Trabalho Livre e ordem Burguesa&#8221;: &#8220;A elite legislou, interveio, normatizou, vigiou e pautou as condutas, os pap\u00e9is e os espa\u00e7os a serem desempenhados e ocupados por este novo trabalhador que surgia. &#8221; Vemos assim que o problema de classe social interpenetra no conceito de ra\u00e7a e de forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade. S\u00e3o vetores que est\u00e3o ou expl\u00edcitos ou subentendidos no discurso de Nabuco.<\/p>\n<p>5. A ATUALIDADE DOS EQU\u00cdVOCOS.<\/p>\n<p>Uma simples consulta a uma edi\u00e7\u00e3o recente do jornal &#8220;Folha de S\u00e3o Paulo&#8221;, &#8211; a de domingo, 30 de junho de 1996 &#8211; , serve para nos convencer da atualidade dos temas detectados no discurso parlamentar de Joaquim Nabuco. Primeiro, a quest\u00e3o da origem. Na p\u00e1gina 3-11 (anexa), com o t\u00edtulo de &#8220;Tese tenta derrubar o mito da coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;, uma pesquisa do arquiteto Nireu Cavalcanti prova que a maioria dos portugueses vindos para o Brasil &#8220;tinha de saber ler e fazer opera\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de aritm\u00e9tica&#8221;. Pesquisando arquivos de Portugal, ele constatou a presen\u00e7a de militares, sacerdotes, servidores p\u00fablicos e profissionais diversos, como alfaiates, armeiros, carpinteiros, sapateiros, pintores e ourives. Assim ele tenta derrubar o mito de que Portugal s\u00f3 mandou gente de baixa qualifica\u00e7\u00e3o para colonizar o Brasil, como desocupados e criminosos. Na mesma edi\u00e7\u00e3o, mas em outro caderno, o Mais!, o fil\u00f3sofo pol\u00edtico franc\u00eas Jacques Ranci\u00e8re mostra como os discursos ditos liberais e progressistas acabam inventando novas formas de racismo e discrimina\u00e7\u00e3o. Segundo Ranci\u00e8re, eles &#8220;n\u00e3o fazem mais do que conferir uma forma provocativa aos modos de pensamento e \u00e0s formas de cren\u00e7a que pertencem ao regime dominante de opini\u00e3o&#8221;. Isso nos remete, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as de \u00e9poca, ao tema da ado\u00e7\u00e3o de teses ditas cient\u00edficas alimentando o ide\u00e1rio conservador, tal como aconteceu na \u00e9poca em que Nabuco discursava no Parlamento. J\u00e1 no primeiro caderno da edi\u00e7\u00e3o, na p\u00e1gina 1-4, temos o exemplo da sobreviv\u00eancia do pensamento conservador sobre a quest\u00e3o da terra e do trabalho livre. No artigo &#8220;Cheiro de Terra&#8221;, Roberto Campos coloca a culpa dos problemas de ocupa\u00e7\u00e3o da terra no marxismo e no trabalhismo que estava no poder antes de 1964, sem lembrar que as origens do problema \u00e9 mais antigo.<\/p>\n<p>Numa significativa edi\u00e7\u00e3o, a revista &#8220;Not\u00edcias&#8221;, da Fiesp-Ciesp, de 5 de junho de 1995, revela a sobreviv\u00eancia do medo da China e da concorr\u00eancia dos trabalhadores chineses ao nosso trabalhador. Diz a reportagem: &#8220;Uma vez que a ofensiva chinesa \u00e9 tamb\u00e9m mundial, o Brasil est\u00e1 perdendo mercado tanto interna quanto externamente, conforme vem argumentando por exemplo a ind\u00fastria de cal\u00e7ados. Segundo estimativas preliminares, a concorr\u00eancia predat\u00f3ria j\u00e1 cortou ou amea\u00e7a ceifar perto de 500 mil empregos na ind\u00fastria brasileira at\u00e9 o final deste ano. Vemos assim que imigra\u00e7\u00e3o chinesa, a forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade, o pensamento conservador sobre a posse da terra e o trabalho livre s\u00e3o quest\u00f5es com seus desafios ainda intactos. Estudar suas ra\u00edzes serve para iluminar a situa\u00e7\u00e3o do Brasil de hoje e a absorver o notici\u00e1rio de maneira mais cr\u00edtica e conseq\u00fcente.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>BIBLIOGRAFIA <\/strong><\/p>\n<ul type=\"square\">\n<li>Azevedo, C\u00e9lia Maria M. de &#8211; o\u00adnda Negra, Medo Branco. O Negro no Imagin\u00e1rio das Elites., RJ, Paz e Terra, 1987<\/li>\n<li>Marx, Karl &#8211; Forma\u00e7\u00f5es Econ\u00f4micas Pr\u00e9-Capitalistas &#8211; Paz e Terra, RJ, 1981<\/li>\n<li>Schwarz, Roberto &#8211; Um Mestre na Periferia do Capitalismo\/ Machado de Assis. Livraria Duas Cidades, SP, 1990.<\/li>\n<li>Skidmore, Thomas E. &#8211; Preto no Branco: Ra\u00e7a e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro. RJ, Paz e Terra, 1976.<\/li>\n<li>Lamounier, Maria L\u00facia &#8211; Da Escravid\u00e3o ao trabalho Livre (A Lei de Loca\u00e7\u00e3o de Servi\u00e7os de 1879) Campinas, SP, Papirus, 1988.<\/li>\n<li>Ranci\u00e8re, Jacques &#8211; \u00c0 cata de bodes expiat\u00f3rios &#8211; in Folha de S\u00e3o Paulo, 30\/6\/96.<\/li>\n<li>Campos, Roberto &#8211; Cheiro de Terra.. In Folha de S\u00e3o Paulo, 30\/6\/96.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O discurso do deputado Joaquim Nabuco &#8211; um representante de Pernambuco, filho de fazendeiros e na \u00e9poca ocupando pela primeira vez uma vaga no Congresso &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14,15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=117"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1362,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117\/revisions\/1362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}