{"id":1176,"date":"2009-12-18T18:05:03","date_gmt":"2009-12-18T20:05:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1176"},"modified":"2009-12-20T23:30:21","modified_gmt":"2009-12-21T01:30:21","slug":"o-povo-em-sua-majestade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-povo-em-sua-majestade","title":{"rendered":"O POVO EM SUA MAJESTADE"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Povo \u00e9 uma palavra-mund\u00e9u, no mesmo sentido dado por Euclides da Cunha em Os Sert\u00f5es para a cidade de Canudos: toda vez que voc\u00ea investe na armadilha, \u00e9 enredado por ela. H\u00e1 v\u00e1rias arapucas. A primeira \u00e9 erradic\u00e1-la da nossa identidade (brasileiros s\u00e3o os outros). A segunda \u00e9 us\u00e1-la em benef\u00edcio de interesses pol\u00edticos e publicit\u00e1rios (o populismo, que \u00e9 sempre de direita). A terceira \u00e9 roubar seu cr\u00e9dito quando algu\u00e9m legitimamente popular se destaca. Pel\u00e9, por exemplo, seria um ET vindo do espa\u00e7o, como j\u00e1 foi dito pela cr\u00edtica esportiva. O povo atinge a majestade quando consegue fazer de suas origens o insumo para sua transcend\u00eancia. Pel\u00e9 nunca deixou de ser povo e tornou-se Rei, ungido pelo g\u00eanio de Nelson Rodrigues (em cr\u00f4nica selecionada na antologia de Ruy Castro, \u00c0 sombra das chuteiras imortais) e a carreira inigual\u00e1vel. Mas toda pessoa longeva acumula esqueletos no arm\u00e1rio. Faz parte da sobreviv\u00eancia e da precariedade humana. N\u00e3o se costuma perdoar a longevidade, nesta terra do eterno presente. G\u00eanio bom \u00e9 g\u00eanio morto. Mas o bom da majestade leg\u00edtima \u00e9 essa escassez provocada pelo humano. Torna maior aquele risco de luz que \u00e9 sua vida terrena.<\/p>\n<p>TALENTO &#8211; Pel\u00e9 encarna o mito do Brasil soberano. Nascido e criado na Era Vargas, levou para os gramados o talento que floresceu na inf\u00e2ncia escudada em pol\u00edticas p\u00fablicas para a educa\u00e7\u00e3o e o esporte. Construiu a t\u00e9cnica definitiva no embate f\u00edsico com os advers\u00e1rios. E exibiu a grandeza do seu movimento, representado pelo corpo cinzelado pela perfei\u00e7\u00e3o. No futebol, o jogador pensa desde antes de receber a bola, disse uma vez Pel\u00e9 para os americanos, ao explicar porque n\u00e3o poderia jogar o falso futebol deles, aquele que \u00e9 um embate entre brutamontes e \u00e9 interrompido em cada segundo gra\u00e7as \u00e0 burrice da porrada. A intelig\u00eancia de Pel\u00e9 foi alimentada pelos olhos que saltavam das \u00f3rbitas, e que lhe davam total vis\u00e3o de campo; a antevis\u00e3o do lance, por conhecer as possibilidades permitidas e as condi\u00e7\u00f5es dos outros jogadores e do gramado; e objetividade diante do gol, o momento supremo em que o planejamento r\u00e1pido como a luz \u00e9 coroado depois de um insight decisivo. Pel\u00e9 alternava o levante sem bola com o toque magistral que deslocava o centro do drama. Pois n\u00e3o \u00e9 a bola que est\u00e1 em destaque, mas a inten\u00e7\u00e3o das equipes. \u00c9 o imagin\u00e1rio que comanda a a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Por isso era imprevis\u00edvel, pois assumia o risco do improviso bem plantado em sua for\u00e7a f\u00edsica e na capacidade de raciocinar. Pel\u00e9 \u00e9 o doutorado do futebol. Cada partida \u00e9 uma tese comprovada e cada drible \u00e9 um argumento sem contesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CHANCE &#8211; Pel\u00e9 \u00e9 a chance aproveitada e desenvolvida a partir de uma trag\u00e9dia: a derrota do Brasil no final da Copa de 1950. Prometi dar uma campeonato do mundo para meu pai, que chorou naquele dia, disse Pel\u00e9. O anjo vingador nasceu dessa derrota e transformou o \u00edmpeto numa vitoriosa campanha que colocou o Brasil no primeiro time da arte inventada na Inglaterra e transfigurada no Brasil. Falar de Pel\u00e9 \u00e9 chover no molhado, apesar de existirem d\u00favidas entre ele e Maradona. Este, no ranking mundial deve ocupar um lugar bem abaixo de Garrincha, Didi, Domingos da Guia, Rom\u00e1rio e Nilton Santos. N\u00e3o se trata de patriotada, mas de evid\u00eancia. Hoje, at\u00e9 mesmo Pel\u00e9 gosta de dizer que Ronaldinho Ga\u00facho \u00e9 parecido com ele, e alguns arriscam ser o craca\u00e7o do Barcelona melhor do que o \u00eddolo. N\u00e3o \u00e9. Ronaldinho \u00e9 o auge do futebol que restou depois da retirada do Rei. Talento, genialidade, sucesso, tudo isso faz parte de sua personalidade. Mas ele n\u00e3o tem a majestade, essa supera\u00e7\u00e3o que uma biografia impec\u00e1vel revela, essa sintonia com a na\u00e7\u00e3o que foi grande. Pel\u00e9 \u00e9 o Brasil que encantou o mundo, Ronaldinho \u00e9 o Brasil que mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o. Um \u00e9 semente, o outro \u00e9 fruto. A semente \u00e9 eterna e por mais que o fruto sonhe, sempre trar\u00e1 dentro de si a majestade que o gerou.<\/p>\n<p>SAL &#8211; Pel\u00e9 \u00e9 o povo que chegou \u00e0 majestade. \u00c9 uma criatura dial\u00e9tica, vinda de longe, parte de uma gera\u00e7\u00e3o que invadiu a cidadela advers\u00e1ria pela primeira vez. O reino j\u00e1 estava posto quando vieram os outros a seguir. Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. N\u00e3o h\u00e1, portanto, armadilha quando se fala de Pel\u00e9. Ele \u00e9 o povo que provou ter a capacidade de gerar o mito. Por isso, por o\u00adnde passa, as pessoas procuram toc\u00e1-lo. O Rei \u00e9 a carne que se fez Verbo, numa invers\u00e3o do ato divino da cria\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o \u00e9 um deus, \u00e9 a pessoa que, para sempre, estar\u00e1 de p\u00e9, suado, olhando para o\u00adnde ningu\u00e9m v\u00ea. L\u00e1 est\u00e1 a sorte que persegue, o dom de sua predestina\u00e7\u00e3o. Pel\u00e9, mais de uma vez, fez a justa rever\u00eancia a seus mestres, como Zizinho. Quando consegue uma bicicleta mortal, \u00e9 o diamante lapidado pelo Brasil na luta que ainda n\u00e3o terminou: a de sermos novamente a na\u00e7\u00e3o que um dia constru\u00edmos. Ainda melhor, carregando o sal de tantas d\u00e9cadas de dor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pel\u00e9 \u00e9 o povo que chegou \u00e0 majestade. \u00c9 uma criatura dial\u00e9tica, vinda de longe, parte de uma gera\u00e7\u00e3o que invadiu a cidadela advers\u00e1ria pela primeira vez. O reino j\u00e1 estava posto quando vieram os outros a seguir. Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. N\u00e3o h\u00e1, portanto, armadilha quando se fala de Pel\u00e9. Ele \u00e9 o povo que provou ter a capacidade de gerar o mito. Por isso, por onde passa, as pessoas procuram toc\u00e1-lo. O Rei \u00e9 a carne que se fez Verbo, numa invers\u00e3o do ato divino da cria\u00e7\u00e3o. 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