{"id":1178,"date":"2009-12-18T18:10:55","date_gmt":"2009-12-18T20:10:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1178"},"modified":"2009-12-20T21:03:22","modified_gmt":"2009-12-20T23:03:22","slug":"quando-falta-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quando-falta-luz","title":{"rendered":"QUANDO FALTA LUZ"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A cidade fica toda escura e a casa \u00e9 invadida por m\u00e3os cegas em busca de f\u00f3sforos. onde coloquei a vela? \u00e9 a pergunta mais comum. Custa um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a escurid\u00e3o completa que chega at\u00e9 o horizonte. Longe, atr\u00e1s do monte, um clar\u00e3o se vislumbra; mas para l\u00e1 n\u00e3o fica o mar, o pampa? De onde vem a luminosidade? Ser\u00e1 a esperan\u00e7a que se recolhe numa dist\u00e2ncia prudente, esperando que n\u00f3s, os eternos pessimistas, possamos recuperar o que perdemos subitamente? Depois de xingarmos todas as esta\u00e7\u00f5es de energia, todas as empresas que deveriam providenciar o que nos falta, depois de nos acostumar ao fato de que deveremos cruzar a madrugada sem poder ler um livro, ver o jogo, nos reunimos em sil\u00eancio na varanda para acumular nosso desconforto.<\/p>\n<p>SURPRESA &#8211; As nuvens est\u00e3o pesadas, prenunciando uma noite sem estrelas e uma lua oculta. N\u00e3o perderemos muito, pois a fase \u00e9 um passo al\u00e9m da minguante, quando a lua torta parece um peda\u00e7o de algo que foi arrancada com os dentes e jogada no cosmo sem d\u00f3. No abafo da nossa preocupa\u00e7\u00e3o, eis que um risco de luz nos surpreende. Um vagalume! exclama algu\u00e9m que estava de frente para a eternidade da noite. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o vejo um? Eles est\u00e3o sempre a\u00ed, n\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o vemos devido \u00e0s luz el\u00e9trica, observa outro. Vamos chegar perto do terreno baldio em frente, eles devem estar l\u00e1.<\/p>\n<p>CORPO &#8211; \u00c9 verdade. Coalhados como pequenos diamantes lapidados no fundo de uma cesta gigante, os vagalumes fazem sua assembl\u00e9ia perto do ninho dos quero-quero, os p\u00e1ssaros que expulsaram as corujas depois que a prefeitura multou o propriet\u00e1rio por n\u00e3o ter limpado o terreno. Raparam tudo e o resultado foi a ave sentinela se instalar, pois quero-quero \u00e9 como o ga\u00facho: gosta de ver \u00e0 dist\u00e2ncia, em territ\u00f3rio limpo, e anunciar quando chega algu\u00e9m. Tu por aqui? Quando chegaste? E quando vais? N\u00e3o te prenderam ainda? Mas engordaste, hem. O corpo humano \u00e9 um acontecimento a ser punido nessa abertura sem fim permitida pelo descampado. Ningu\u00e9m escapa do olho cl\u00ednico num lugar feito para enxergar o inimigo. \u00c9 por isso que a noite s\u00fabita, adensada pela falta de luz, ajuda a criar aquele ninho oculto, necess\u00e1rio para sobreviver. O que deslumbra \u00e9 o rebanho de vagalumes voando em espiral diante de nosso rosto que fica im\u00f3vel para n\u00e3o assustar essas lanterninhas qu\u00edmicas, misteriosas por gerarem o que mais nos falta.<\/p>\n<p>DESPERTAR &#8211; Levam um toco de vela para a varanda e a crian\u00e7a quer tocar na chama. Ela est\u00e1 feliz, sacudindo seu chocalho para fazer o ritmo necess\u00e1rio \u00e0s can\u00e7\u00f5es que come\u00e7am a brotar das gargantas. Cercada pelo escuro, seu rosto assustado aos poucos relaxa e j\u00e1 est\u00e1 sorrindo novamente, alimentando a algazarra. Mas a chama \u00e9 um evento poderoso demais para ser deixado de lado. Ela p\u00e1ra de tocar seu instrumento e levanta um bra\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o ao fogo. Isso queima, n\u00e3o pode, avisam os adultos. Mas quem convence uma crian\u00e7a? Ela desperta o choro e s\u00f3 acalma quando fica bem em frente \u00e0 vela acesa. As l\u00e1grimas ainda correm banhando seu novo sorriso diante de mais um acontecimento. Ela comenta tudo, com sua v\u00e9spera de linguagem. N\u00e3o tentem esconder a luz de quem desperta para a vida.<\/p>\n<p>SOM &#8211; N\u00e3o importa o black-out, h\u00e1 vagalumes. N\u00e3o importa o horizonte incendiado, a chama est\u00e1 bem diante dos olhos. N\u00e3o importa se a luz n\u00e3o voltar\u00e1 jamais. Temos nosso ritmo, que se manifesta junto com as can\u00e7\u00f5es eternas. A m\u00fasica est\u00e1 dentro de n\u00f3s e em nenhum outro lugar. Basta puxar pela mem\u00f3ria e tudo vem, aos jorros. Como podemos viver sem isso todos os dias? Como perdemos a pista da nossa sonoridade? A resposta vem quando a luz volta. Queremos ver quanto est\u00e1 o jogo. Perdemos o primeiro tempo, \u00e9 o intervalo publicit\u00e1rio. Toca algo sofr\u00edvel. Morre-se pelo ouvido. Tiramos o som da TV, ligamos o r\u00e1dio. \u00c9 pior.<\/p>\n<p>SONHO &#8211; Sentimos ent\u00e3o saudade da varanda escura, quando pudemos ver os vagalumes. A falta de energia \u00e9 a nossa volta ao planeta Terra. Visita tempor\u00e1ria, que acaba quando os carros novamente ousam ressuscitar, espantando os vagalumes reunidos em assembl\u00e9ia. O que h\u00e1 com os quero-quero? Por que n\u00e3o se insurgem contra essa trai\u00e7\u00e3o? As aves do pampa est\u00e3o recolhidas, atentas aos gavi\u00f5es que espreitam em cima dos morros. Quando houver lua cheia novamente, ser\u00e1 a guerra. \u00c9 hora de fechar todas as janelas. E reinventar a penumbra, para que nossa alma aflore outra vez, ao som daquela can\u00e7\u00e3o que fala: a quietude \u00e9 quase um sonho&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cidade fica toda escura e a casa \u00e9 invadida por m\u00e3os cegas em busca de f\u00f3sforos. onde coloquei a vela? \u00e9 a pergunta mais comum. Custa um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a escurid\u00e3o completa que chega at\u00e9 o horizonte. Longe, atr\u00e1s do monte, um clar\u00e3o se vislumbra; mas para l\u00e1 n\u00e3o fica o mar, o pampa? De onde vem a luminosidade? 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