{"id":119,"date":"2005-05-15T14:29:44","date_gmt":"2005-05-15T16:29:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=119"},"modified":"2009-12-20T21:01:29","modified_gmt":"2009-12-20T23:01:29","slug":"o-baile-de-3-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-baile-de-3-de-outubro","title":{"rendered":"O baile de 3 de outubro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 3 de outubro de 1930, o tenente-coronel Pedro Aur\u00e9lio de Gois Monteiro foi passear em trajes civis na rua da Praia e ficou chocado: todo mundo citava seu nome como chefe militar da revolu\u00e7\u00e3o que iria rebentar em poucas horas. Abatido com a indiscri\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos, que faziam os coment\u00e1rios abertamente nos caf\u00e9s e rodinhas na cal\u00e7ada, foi sentar-se, desolado, num dos bancos da pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega.<\/p>\n<p>Aproximou-se ent\u00e3o um amigo, oficial do Estado-Maior da Regi\u00e3o e ofereceu-se para participar do movimento. O paraibano Gois Monteiro, que confessava n\u00e3o ter voca\u00e7\u00e3o militar, disfar\u00e7ou: &#8220;Minha presen\u00e7a aqui na pra\u00e7a j\u00e1 \u00e9 um desmentido. Mas se isso que est\u00e3o falando realmente acontecer, o senhor deve ficar ao lado do seu general&#8221;.<\/p>\n<p>A tensa volta para casa aumentou seu nervosismo: j\u00e1 estavam assaltando as lojas de armas, os col\u00e9gios encerravam as aulas e o com\u00e9rcio fechava as portas. Almo\u00e7ou com a fam\u00edlia e despediu-se da mulher e dos filhos: n\u00e3o sabia se tornaria a v\u00ea-los. Quando chegou na resid\u00eancia da irm\u00e3 de Oswaldo Aranha para os \u00faltimos preparativos, fez um desabafo contra a &#8220;indiscri\u00e7\u00e3o da gente ga\u00facha&#8221;. Mas n\u00e3o tinha jeito: o &#8220;baile&#8221; tinha hora marcada e ele dirigiu-se ao Pal\u00e1cio do Governo para a cartada final.<\/p>\n<p>Oswaldo Aranha tamb\u00e9m deu eu passeio na rua da Praia naquele dia, junto com o mineiro Virg\u00edlio de Mello Franco, um dos principais articuladores da revolu\u00e7\u00e3o, que conta como foi: &#8220;Nosso prop\u00f3sito era despistar, pela nossa aparente despreocupa\u00e7\u00e3o, o espi\u00f5es do comandante da Regi\u00e3o Militar, que andavam em grande atividade&#8221;.<\/p>\n<p>Aranha estava preocupado: j\u00e1 passava do meio dia e o general Gil de Almeida, que tinha sa\u00eddo muito cedo, ainda n\u00e3o estava no Quartel General. Algu\u00e9m o teria avisado e a pessoa mais importante do inimigo j\u00e1 estaria recolhido a algum outro quartel, esperando os acontecimentos? De repente, um &#8220;secreta&#8221; a servi\u00e7o da causa passou por perto e sussurrou: &#8220;O home j\u00e1 est\u00e1 em casa&#8221;.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o gostou daquela movimenta\u00e7\u00e3o foi a filha do presidente do Estado, Alzira Vargas. Quando voltou do col\u00e9gio, \u00e0s quatro da tarde, a m\u00e3e, Darcy, avisou que n\u00e3o dormiriam no pal\u00e1cio pois a revolu\u00e7\u00e3o iria rebentar depois das cinco horas. &#8220;Voc\u00ea precisa ir para tomar conta dos irm\u00e3os&#8221;, disse para a filho, que tentou reclamar, oferecendo-se para lutar. O irm\u00e3o, Lutero, estava furioso: &#8220;Uns caras entraram no meu quarto e est\u00e3o trocando de roupa sem pedir licen\u00e7a&#8221;. Era Gois e seu Estado Maior, que colocava a farda para assumir a luta. &#8220;Desde 25 de setembro a revolu\u00e7\u00e3o ficara marcada para 3 de outubro&#8221;, conta Barbosa Lima Sobrinho. &#8220;A necessidade de comunicar a hora certa para um n\u00famero enorme de pessoas, em todos os cantos do pa\u00eds, fez com que se divulgasse a combina\u00e7\u00e3o. Mas quem e atreveria a comunicar a informa\u00e7\u00e3o ao Sr. Washington Luiz, no receio de pilh\u00e9rias desdenhosas que acolheriam a not\u00edcia inacreditada? Assim, ningu\u00e9m se preveniu para a Revolu\u00e7\u00e3o, que foi uma surpresa para o governo, muito embora andasse h\u00e1 muito entre os segredos de Polichinelo&#8221;.<\/p>\n<p>Uma das pessoas que ignoravam tudo era Jo\u00e3o Simpl\u00edcio, Secret\u00e1rio da Fazenda do presidente do Estado, Get\u00falio Vargas. Os dois despachavam calmamente no Pal\u00e1cio, quanto \u00e0s 17h30min ouviu-se o primeiro silvo vindo dos lados do Quartel General, seguido de mais um. Segundos depois, era um tiroteio cerrado, que em pouco tem se estendeu \u00e0 cidade inteira.<\/p>\n<p>Diante do susto do seu auxiliar, Get\u00falio foi muito objetivo: &#8220;Calma, Jo\u00e3o Simpl\u00edcio. \u00c9 a revolu\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma coisa brutal&#8221;, lembrou Flores da Cunha num depoimento sobre o assalto ao Quartel General. &#8220;Aquilo foi um ato que n\u00e3o se reproduz muitas vezes no mundo. Eu e o Oswaldo Aranha no comando de trinta guardas-civis, que sa\u00edram, numa marcha de rotina de policiamento. Quando fronteamos aquele \u00e2ngulo morto do quartel, um dos guardas gritou: \u00c0 carga! Eles se atiraram dentro do quartel e arrancaram as armas dos soldados, praticamente com as m\u00e3os limpas. Que coisa, que gesto! Morreram tr\u00eas ali mesmo. O que gritou \u00e0 carga levou um tiro na cara.&#8221;<\/p>\n<p>O QG estava situado, naquela \u00e9poca, numa esquina da rua dos Andradas, o quartel do II Ex\u00e9rcito ficava quase defronte e o da Brigada Militar na mesma rua. Vinte dias antes, Oswaldo Aranha selecionou duzentos homens e determinou que diariamente, entre cinco e seis da tarde, marchassem em volta do quarteir\u00e3o, passando sempre mais pr\u00f3ximo das cal\u00e7adas dos quart\u00e9is, recomendando que n\u00e3o aceitassem provoca\u00e7\u00f5es de ningu\u00e9m,, por mais pesadas que fossem. V\u00e1rias vezes os soldados do Ex\u00e9rcito provocaram os brigadianos, chamando-os de soldados de brinquedo, bonecos, etc. Assim, no dia 3, o desfile j\u00e1 tinha se transformado em rotina e isso foi fatal.<\/p>\n<p>A filha do General Gil, que morava num dos apartamento que existia no QG, veio direto a Flores da Cunha e advertiu: &#8220;N\u00e3o deixe ningu\u00e9m entrar no quarto do meu pai, que ele vai se matar&#8221;. Flores tranq\u00fcilizou: &#8220;Ningu\u00e9m vai entrar l\u00e1. Tira o revolver da m\u00e3o dele, que ningu\u00e9m vai invadir&#8221;. A oficialidade da Brigada Militar, segundo Flores, ficou s\u00f3 olhando o tiroteio, da cal\u00e7ada em frente. &#8220;Tive que saltar por cima dos miolos de um guarda morto e cheguei a gritar para os oficiais da Brigada: Tragam uma padiola para levar este homem e eles me responderam: n\u00e3o existe nenhuma padiola aqui!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Exatamente na porta de entrada do Quartel jazia morto, com a cabe\u00e7a estourada por uma granada de m\u00e3o, de bra\u00e7os abertos em cruz, um pobre guarda civil&#8221;, conta Virg\u00edlio de Melo Franco. No meio da rua, no sagu\u00e3o e nas escadas, outros mortos. Seis tinham morrido imediatamente e cinco morreram mais tarde. Ao todo, entre mortos e feridos, 25 tinham sido postos fora de combate. \u00c0s onze da noite, j\u00e1 estavam dominados o QG, o Arsenal de Guerra, o 8\u00bae 9\u00baBatalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, o Esquadr\u00e3o da Regi\u00e3o, o Curso de Prepara\u00e7\u00e3o Militar, o Contingente de Carta Geral e mais a Companhia de Estabelecimentos, situado no Parque da Reden\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o 7\u00baB.C. resistia.<\/p>\n<p>&#8220;A obstinada resist\u00eancia durava j\u00e1 mais de quatro horas&#8221;, conta Gois, &#8220;sem qualquer sinal de esmorecimento, sem atender a nenhuma intimida\u00e7\u00e3o para capitular. N\u00e3o tive outro recurso naquela emerg\u00eancia: mandei bombardear o quartel com lan\u00e7a-chamas&#8221;. Logo aos primeiros disparos, foi incendiado um pavilh\u00e3o que alojava uma companhia do Batalh\u00e3o. A pedido de Flores, Gois fez uma tr\u00e9gua de uma hora para negociar a rendi\u00e7\u00e3o. Enquanto conversava com o emiss\u00e1rio, restabeleceu-se o tiroteio, j\u00e1 que o prazo da tr\u00e9gua tinha esgotado. Foi uma longa negocia\u00e7\u00e3o, que terminou na rendi\u00e7\u00e3o do 7\u00baB.C e a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o em Porto Alegre.<\/p>\n<p>O ga\u00facho Cordeiro de Farias, que estava em Minas naquela \u00e9poca, fez pouco da fuzilaria do sul: &#8220;O papel do Rio Grande do Sul n\u00e3o foi preponderante nem na fase conspirat\u00f3ria nem no levante revolucion\u00e1rio. Examinando com cuidado o aspecto militar do movimento, veremos que os ga\u00fachos tiveram uma participa\u00e7\u00e3o pequena. Para eles foi um dolce far niente. Em Minas foi diferente. As unidades estacionadas no interior n\u00e3o ofereceram grande resist\u00eancias, mas o fato \u00e9 quer em Belo Horizonte a luta foi dram\u00e1tica e prolongada&#8221;.<\/p>\n<p>Minas, como se sabe, \u00e9 sempre outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"10\" align=\"center\" bgcolor=\"#feefcb\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#feefcb\">\n<p align=\"left\"><strong>FONTES:<br \/>\n<\/strong><strong>O general G\u00f3is dep\u00f5e&#8230; &#8211; Lourival Coutinho. Livraria Editora Coelho Branco, RJ, 1955<br \/>\nA verdade sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro &#8211; Barbosa Lima Sobrinho. Edi\u00e7\u00f5es Unitas, SP, 1933.<br \/>\n<strong>Outubro, 1930<\/strong> &#8211; Virg\u00edlio A. de Melo Franco. Schimidt, Editor, RJ, 1933.<br \/>\n<strong>Get\u00falio Vargas, meu pai<\/strong> &#8211; Alzira Vargas do Amaral Peixoto. Editora Globo, Porto Alegre, 1976.<br \/>\n<strong>Meio s\u00e9culo de combate<\/strong> &#8211; Di\u00e1logo com Cordeiro de Farias &#8211; Asp\u00e1sia Camargo e Walder de Goes &#8211; Nova Fronteira, RJ, 1981.<br \/>\n<strong>Depoimento a Nilo Ruschel<\/strong> &#8211; Flores da Cunha, fita do acervo de Carlos Alberto Martins Bastos. <\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na manh\u00e3 de 3 de outubro de 1930, o tenente-coronel Pedro Aur\u00e9lio de Gois Monteiro foi passear em trajes civis na rua da Praia e ficou chocado: todo mundo citava seu nome como chefe militar da revolu\u00e7\u00e3o que iria rebentar em poucas horas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=119"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1410,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119\/revisions\/1410"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}